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sexta-feira, novembro 28, 2003

... e mais um Fado no fado

Uma voz de excepção. Canta letras excepcionalíssimas. Ao serviço de uma música excepcional. Quando sai um disco dele, faz-se ponto parágrafo sobre a moda toda do fado novo. Camané* é ainda novo. A sua voz não tem idade. Nem fronteiras, aliás - é de quem a souber ouvir! Inquestionavelmente, o paradoxo mais fascinante da música portuguesa. Regressa a 5 de Dezembro com um disco duplo, ao vivo. "Como Sempre... Como Dantes". Disco um, nas casas de fado. Disco dois, no Rivoli, CCB, estrangeiro. Alguém (que por acaso ainda sei quem foi!) já escreveu que a nova Amália é um homem reencarnado. Não sendo "contemporâneo" da grande senhora, arrisco dizer que o velho Camané nunca poderia ter sido Amália. Camané é diferente, é evolução à parte - não esquecendo os outros que com ele trabalham. Talvez um dia venha a haver parte das vossas vidas em parte daquelas canções. Para sempre... Como dantes.

* em construção.

Volvo

Olá Pedro! Antes de ler qualquer coisa no Flor de Obsessão sobre os caprichos da ilusão de óptica, venho aqui esclarecer que era eu, eu mesmo (!), quem guiava aquele bruto Volvo azul ali para os lados do Durão. O carro do director-geral, juro (!) e mais não explico. Mas pergunto-me: que livros trarias tu da Bulhosa?

Inferno Vermelho

Só conheço três formas de bater uma equipa como o Gençlerbirligi que, mesmo a jogar fora, pressiona o homem que tem a bola durante os 90 minutos, com uma vantagem de três golos e a passagem na eliminatória mais que garantida. A técnica vendemos! A velocidade não temos! E remates de fora da área não existiram.

P.S. Para os amigos da bola, a respeito dos méritos de Pedro Barbosa: quem chora por último não ri melhor...

quinta-feira, novembro 27, 2003

P*** de subjectividade

A existência de qualquer blogue justifica-se pela tentativa de disfarçar que não se tem nada para dizer.
O mais mentiroso ganha! Não é uma condição. É uma contradição.

Nós!

Hoje dizem que há greve da Carris! O trânsito mantém-se igual - outra coisa não seria de esperar: ninguém larga o automóvel para passar a andar de autocarro. Tal como com os telemóveis, cada um com o seu. E a Carris, com tudo o que representa, destina-se a maiores de 65 (anos) que ganham menos de 65 (contos) - responda afirmativamente a uma das categorias e considere-se um potencial utente. Um transporte obsoleto que deixou de ter lugar no imaginário da cidade - pelo menos naquele em que muitos se procuram rever (desculpa lá, ó João César!). Não estamos em Londres, e Lisboa sempre tinha (quase deixou de ter...) o Eléctrico.
No Metro, por sua vez, vê-se mais gente. A oportunidade de negócio floresce. Passa o rapaz do acordeão com o cãozinho no ombro (tás a ver Monteiro, também este se mudou!); passa um vendedor da Cais que torno a frustrar; passa o cego com novo acordeão cujo som quase se enrola na música do primeiro rapaz. Danças ocultas em versão subterrânea... analógica. Volto a pôr os olhos no jornal. Quando saio nas Picoas, reparo que quase não passam carros. As pessoas na rua também são poucas. Os jogos da UEFA só começam daí a seis horas. É a hora do almoço. O segundo culto que nós, portugueses, praticamos r e l i g i o s a m e n t e.

Isto Anda Tudo Ligado

Algo que já devia ter feito há MUITO mais tempo. Imaginem que isto é o princípio. Todos os agradecimentos pecam por escassos face ao que esta rapaziada nos deu. Foram a minha leitura do ano. Antes de todas as que vieram depois. Muito obrigado.

Um grande texto é um pequeno texto é um grande texto

É ler e aprender. Tão claramente bem escrito, com tal poder de concisão, que um indivíduo tende (no mínimo!) a reflectir nas palavras do João Pereira Coutinho. Hoje. De novo.

E Mafalda lá cantou Palma...

Jorge Palma só pedia para ser surpreendido. A maior surpresa, ou talvez não, terá sido a assistência. Aposto que a maior concentração de "betos" por metro quadrado desde a última visita do Sumo Pontífice ao nosso País. Mafalda Veiga cantou as músicas de Palma tal como canta o seu repertório e, como se sabe, misturar leite com álcool pode azedar... Foi quase isso. Afinal, nem totalmente conseguido (as excepções foram "Mi Fa" e "Essa Miúda") nem totalmente falhado. Foi simpático e indistinto, e o trabalho de imagem de João Carrilho pautou-se igualmente por falta de astúcia: se a filmagem do piano na própria casa de Jorge Palma, com a aparição súbita mas tranquila de um gato preto, acompanhou na perfeição o tema "Só"; já a opção noutra música por fazer acompanhar a voz em palco de Mafalda pelo piano em imagem de Palma resultou esquisito. Até parecia que o homem já tinha morrido ou qualquer coisa assim... Mas os "betos" bateram sempre palmas e a festa aconteceu como acontece sempre nesta terra. E de que outra coisa estava eu à espera?

Secrets of the Beehive

E se os dias todos começassem assim, com uma obra-prima? Remasterizada. Play it again, Sylvian...

quarta-feira, novembro 26, 2003

Looking for a thrill?

Howe Gelb para personalidade musical do ano. Tem o meu voto.

Obs. Ver também Giant Sand e Band of Blacky Ranchette.

S.O.O.

Entorses com (s) e já não com (c). Aqui não se brinca com o Serviço Ortográfico Obrigatório (conferir em "Dá-me um jeitão").

Lazer Cultural

A zona junto à caixa dos espaços comerciais que levam as suas vendas muito a sério, destina-se às compras por impulso - gilletes, pastilhas elásticas, pilhas e afins. Nas livrarias: "Equador", "I'm In Love With a Pop Star", "Lobo Antunes", "Garcia Marquez", "Periférica"... Ops, "Periférica"? A revista que pôs Vila Pouca de Aguiar no roteiro da inteligência nacional? Esse incontornável bastião do pensamento. Crítico. Literário. Independente? O contrapoder do JL, DNa e demais suplementos instituídos? ESSA MESMO. A Bulhosa de Entrecampos tem a "Periférica" na zona mais quente da loja. "Periférica" ao centro? Acho bem. O número 7 já cá canta!
Mas para que o impulso se dê, tem de existir algo com que nos impulsionarmos. Pelo pressing de amigos que sabem tudo de política, no meu caso foi "Impasses - seguido de Coisas Vistas, Coisas Ouvidas", dos filósofos Fernando Gil e Paulo Tunhas com Danièle Cohn (já em 2ª edição) para tentar fazer desse imbróglio Iraque/ EUA/ Resto do Mundo algo mais que o quase absoluto desconhecido. E ainda, para moderar o pedantismo na escrita e ver respondidas algumas perguntas sem mesmo ter de as fazer primeiro, comprei igualmente o "Manual de Escrita Jornalística", do professor Daniel Ricardo. É que em mim ainda sobrevive um jornalista frustrado. Pronto, já disse!

VAT 69

Francisco é um ex-presidiário que procura mulher para conversar. Ângela é uma arrumadora de quartos de hotel, casada com um homem que não abre a boca, e que por isso se sente muito sozinha. Estas duas almas penadas vão conhecer-se por intermédio de um posto público de Internet, e dar desse modo início a uma história de amor "à portuguesa" cheia de impasses, conversas para dentro e olhares no vazio. É assim a segunda longa-metragem de Cláudia Tomaz, que após um inicio não comprometedor vai despenhar-se num abismo de ausência de sentidos. "Nós" está sempre próximo de contar uma história, frustrando essa inevitabilidade com um conjunto de pequenos desastres: são os personagens que não têm densidade, são as cenas que também mal chegam a existir, é a crónica acelerada da "criadita" tímida que oculta todo um universo de lascívia dentro de si.
"Nós" começa de forma quase documental (à Pedro Costa!), prossegue num tom acabrunhado e introspectivo (à João Mário Grilo!), salpicando todo este cinzentismo de incursões no submundo lisboeta das performances sexuais xunga (na versão lusa dos Fura Del Baus, coreografada por Cláudia Tomaz e Mónica Calle!). Este cocktail desolador é uma espécie de VAT 69 cinematográfico - o whisky que serve para atenuar a mágoa de Francisco não conseguir, com Ângela, ir além da conversa... É mau de beber e dá uma ressaca longa e dura. E como dura...

P.S. No final da sessão de antestreia, nem os próprios elementos da equipa de "Nós" bateram palmas. À festa do Chapitô já não fui.

terça-feira, novembro 25, 2003

Case Logic

Ponto de escuta em versão telegráfica:
David Byrne - Lead us not into temptation (music from de film Young Adam) Camaleão traja kilt
Ty - Upwards É sempre a subir
Chico Pinheiro - Meia-noite meio-dia O disco brasileiro do ano que Portugal desconhece
Why - Oklandazulasylum Primeiro estranha-se, depois estranha-se e, finalmente, continua a estranhar-se
Mesa A Manuela Azevedo agora canta com os Três Tristes Tigres?
Colder - Again Joy Division volta a soar tão bem
Ursula Rucker - Silver or lead Vale o seu peso em ouro
The Band of Blacky Ranchette - Still looking good to me É isso mesmo
Oumou Sangare - Oumou A isto se chama de voz com chama
Ed Motta - Poptical De quem ouve muita e boa música
Erykah Badu - Worldwide underground Baduizm, parte 1 1/2
Cody Chesnutt - The headphone masterpiece Podem começar a imaginar-lhe os heterónimos
Rufus Wainwright - Want (one) Maior que a vida dele
Two Banks of Four - Three street worlds First world music
Emmylou Harris - Stumble into grace Única e intacta
John Cale - Hobosapiens O antigo que é novo, e vice-versa
Tim Hecker - Radio amor Outono sem fim
Vladislav Delay - Naima (live) Sala de espelhos
Maria Rita Entrada de leão

Em Dezembro há mais.

Filha da Mãe

Talvez por Caetano Veloso relativizar, em favor de Gal Costa, os dotes vocais de Elis Regina na excelente autobiografia "Verdade Tropical", nunca fui além do CD "Elis e Tom", com orquestrações do grande António brasileiro. Quando este ano se deu o fenómeno Maria Rita, também não fui acometido de uma especial emoção por não me encontrar em condições de perceber até que ponto a ligação mãe/ filha se dever não apenas aos caprichos da genética, mas a muitos outros detalhes que só o marketing discográfico pode explicar. O que aconteceu foi que ouvi a compilação "Minha História", de Elis Regina, tendo chegado à conclusão de que o fenomenal CD de estreia de Maria Rita resulta de uma receita levada às últimas consequências que na prática é recebida como se a vida artística de Elis não mais tivesse terminado, mas tivesse conhecido antes um prolongamento natural - vinte e muitos anos depois - no CD homónimo da sua filha Maria Rita. As vozes tendem a confundir-se (a de Elis era, contudo, mais magoada) mas, dos arranjos à escolha do repertório, é como se Elis ressuscitasse e com ela toda uma concepção de MPB urbana, namoradeira do jazz norte-americano e dos boleros do camarada Fidel. Não me sinto particularmente agraciado, torno a referir, com a reencarnação de Elis em Maria Rita, mas que o disco da "filha da mãe" é um caso muito sério, lá isso é verdade.

What Movie Do (I) Belong In?

"Pelos vistos, em apenas dez anos, a Escola Superior de Polícia deixou-se infiltrar por indivíduos reprimidos sexualmente e por bufos também."

Também eu devo admitir que isto soa um pouco reaccionário. Serei?

Cantar Jorge Palma

Das três cantoras com compositor, estilista e convidado, escolhi Mafalda Veiga (amanhã, CCB, 21h30) pela simples razão dela se propor cantar Jorge Palma. Nunca ouvi as canções do Palma a não ser pelo próprio, e os ecos dos espectáculos no Porto dão conta de uma Mafalda insegura que - bem ao jeito do compositor escolhido - se enganou nalgumas letras. Cantar as músicas de Jorge Palma é tudo o mais que isso: quando a intensidade de cada palavra vale o que vale, não serão uns quantos deslizes a ditar se o espectáculo é totalmente conseguido ou totalmente falhado. É de um universo de extremos que estou a falar. Acho por isso que Mafalda Veiga tem muitas outras coisas com que se preocupar.

Dá-me um jeitão

O jogo do Sporting com o Braga ficou confirmado para o próximo dia 1, 2ª feira, pelas 21h15. Que seja um 1º de Dezembro vitorioso, livre de entorses!

Little Shop of Goodies

É a loja do Público situada no mesmo edifício do jornal, na rua do Viriato. Onde existem para venda todos os títulos das colecções de livros e DVD's saídos até ao momento. Fui lá trocar o "Fargo" que me deixou pendurado aos 75 minutos. Um sadismo inoportuno mas condizente com o tom do filme dos Coen, quando estes ainda eram de confiança. As senhoras da loja mostraram-se ligeiramente surpreendidas. Não é costume, ainda bem. Procederam à troca sem mais conversa. E sem burocracias. Perfeito. Vamos ver se é desta...

segunda-feira, novembro 24, 2003

Garganta Funda

O Instituto Superior de Polícia - que prefiro identificar pela antiga denominação de Escola Superior de Polícia (por não estar certo da actual designação) - foi vampirizado no fim-de-semana pelos orgãos de comunicação social que procuram averiguar até que ponto são escandalosas as praxes que por lá se praticam. Há dez anos atrás as coisas eram bem diferentes: as supostas praxes da Escola e a atitude da comunicação social menos dada a mexericos. As notícias vêm a público ainda que muito vagas. Afinal de contas, trata-se de uma Escola mista com os diferentes graus de humilhação, sob praxe, que isso vem a implicar. Dizia há dez anos atrás, porque mais ou menos por esses tempos, e ao longo de dois anos lectivos (89/90 e 90/91), também eu fui cadete-aluno da Escola Superior de Polícia. E as práticas de praxe da altura, não sendo por isso menos estúpidas, não eram pelo menos nem quase que sexualmente implícitas. E sempre havia algum decoro em relação às cadetes femininas, que não deixavam no entanto de pôr as hormonas a saltar a muito homem que por lá fardava - na verdade só uma delas produzia tal efeito, uma vez que as restantes cadetes eram tão atraentes quanto o mais feio bicharoco.
Não tenho qualquer ressentimento em relação à Escola. No fim do estágio de adaptação, perguntavam quem queria sair. Demorei um ano a perceber que era comigo que falavam. E ainda dei mais um ano à casa (e à família) de benefício de uma dúvida que já não era a minha. As praxes prolongavam-se durante todo o primeiro ano e reflectiam-se, no que de mais incomodativo tinham, em noites sem dormir. Fisicamente eram suportáveis (um "gajo" na altura aguenta tudo!) e psicologicamente - salvo raríssimas excepções - só davam mesmo para rir. Muitas vezes me ofereci para ser praxado, motivado apenas por um desejo de integração - coisa de puto a querer ser homem... Eles julgavam que me controlavam a mim, mas era eu quem manipulava os resultados - embora não as regras do jogo. Nunca vi ninguém chorar e muito menos alguém exprimir vontade de dar com a língua nos dentes. Pelos vistos, em apenas dez anos, a Escola Superior de Polícia deixou-se infiltrar por indivíduos reprimidos sexualmente e por bufos também. A praxe virou uma cerimónia de felação calórica, e logo numa altura em que o grau de sofisticação das instalações da Escola Superior de Polícia permite fazer tantas outras coisas bem mais interessantes. Mas afinal tudo isto pode não passar de um episódio pontual e de uma delação interesseira que foi imediatamente aproveitada - eles andam por todo o lado e os noticiários transformaram o país de Norte a Sul num gigantesco Big Brother.
Nunca fui a favor da praxe, mas sou hoje mais contra do que alguma vez fui. É uma absoluta perda de tempo, e a integração dos moços poderá sempre acontecer à volta de uns "canecos" e de uns tremoços. Mas há coisas piores na vida - e o serviço público de televisão é responsável por muitas delas.

6

Hugo não joga até ao fim da época por ter rebentado sozinho com o tendão de Aquiles. Menos mediático que Beto e Polga, o defesa do Sporting estava habituado a ver depender a sua titularidade da opção de Fernando Santos por três centrais. Hugo estava a fazer uma excelente época iniciada com aquela exibição imperial frente ao Manchester United - apesar do inglório auto-golo... Mesmo no interior da massa associativa do Sporting, há quem ainda olhe para este calmeirão com alguma desconfiança. Se calhar essas mesmas pessoas esquecerão a falta que ele faz demasiado depressa. Para mim, ele é, a par de Rochemback e João Pinto, o jogador que mais se esfarrapa em campo. Quando é assim, tudo se perdoa. Tudo mesmo. Prefiro de longe uma muralha de trabalho a um arqueiro caprichoso - e por isso reservo o meu cepticismo para Pedro Barbosa. A transpiração sobre a inspiração. Sempre.

O Exemplo

Foi um fim-de-semana pontuado pelo cinema de Clint Eastwood. Sábado de manhã, bem cedo, pelas 11h10, lá estávamos nós mais 40 outros espectadores (nada mau!), no cine-teatro do Monumental, para uma das poucas sessões memoráveis do ano. No final de "Mystic River", o filme de Clint Eastwood que mais se impunha na sua proximidade (temática? estrutural?) com este filme era "Um Mundo Perfeito", pelo que resolvi revê-lo no Domingo à noite. "Um Mundo Perfeito", que é um filme perfeito num mundo que obviamente o não é, trata do que é mais importante na vida de qualquer homem: segundo o próprio filme, ser-se um bom pai de família (aquilo que os protagonistas Butch e Philip nunca terão...). Claro que esta história do "pai de família" deve ser interpretada num sentido mais amplo, porque aquilo que é decisivo em qualquer filme de Clint Eastwood são os exemplos que as suas figuras masculinas dão às gerações mais novas. Bons e maus exemplos e as respectivas consequências. Com a moral do grande Eastwood (cada vez mais tolerante e menos punitiva, mas nem por isso menos pessimista e trágica) a sobrepor-se a tudo o resto - Clint até pode disparar depois (to shoot significa igualmente filmar alguém) mas dificilmente não questionará hoje, primeiro, as razões do seu oponente. Butch, o foragido de "Um Mundo Perfeito", tal como Dave (o homem incompleto de "Mystic River") são dois indivíduos privados de assumir a tal paternidade exemplar, de se assumirem enquanto exemplos do que um homem deve ser. Butch foi criado no seio da criminalidade e encerrado muito novo numa casa de correcção para jovens. A vida de crime acabou por ser o passo natural seguinte. Dave foi também ainda muito novo raptado e violado por dois homens, ao longo de quatro dias. Nunca mais conseguirá afirmar-se, quer enquanto profissional, quer enquanto pai e marido. Dois homens amputados na sua masculinidade. Porque a masculinidade não vem da capacidade de nos afirmarmos "a murro", mas é, por outro lado, a serena afirmação do homem e do lugar que este ocupa no mundo. Pela sua cada vez maior serenidade, e pelo exemplo eastwoodiano que nunca deixei de ter em conta (mesmo quando eventualmente o não tenha seguido), afirmo que Clint Eastwood, o meu "pai", no cinema, é o maior realizador de todos os tempos.

P.S. Este post é dedicado ao meu pai, Rui Gross. Também ele um exemplo.

Sessões Contínuas

Recebi do Nuno Antunes - um dos mais assíduos participantes do Cinema2000 que passou agora a colaborar directamente com o mesmo site - um esclarecimento que me parece importante fazer chegar em parte a todos os visitantes do Babugem que tiveram a oportunidade de ler o meu post Protagonismos, e a outros interessados também. O Cinema2000 parece ter as suas sessões asseguradas. Ainda bem!

Caro Ricardo,

Tive oportunidade de visitar o seu recém-inaugurado blogue e ler os seus primeiros depoimentos. E acabei por prestar uma atenção inesperada ao que dedicou ao CINEMA2000, onde participo como (menos) regular participante, e, nos últimos tempos, dando uma ajuda na actualização do site em back-office. O seu texto serviu para fazer uma reflexão...

O Ricardo apresenta a teoria de que o site foi prejudicado pelo surgimento dos blogues. Com o todo o respeito, penso que se engana no diagnóstico. O site enfrenta efectivamente uma crise, principalmente desde Janeiro, mas que deriva principalmente não de um desinteresse, mas de uma falta de disponibilidade dos 4 promotores (a actividade do site é feita fora de horário laboral). No passado, houve momentos de maior e menor disponibilidade, mas esta foi a primeira vez em que a situação se aplica aos 4 ao mesmo tempo.

O pior período teve lugar até Abril, altura em que eu e o Tiago Pimentel, não suportando mais o actual estado das coisas, oferecemos ajuda, a qual foi aceite. Desde então, as coisas têm vindo gradualmente a melhorar; pelo menos, as fichas dos filmes em estreia entram todas as sextas-feiras. Não é uma melhoria completamente satisfatória é certo, pois também há constrangimentos informáticos, que fazem o site funcionar, como bem diz, um pouco em «piloto automático».

Desde então, em termos de visitas, o CINEMA2000 nunca esteve tão bem (Outubro foi o melhor mês de sempre), mas não tenho ilusões: haverá muitos que visitam o site apenas para, tal como indica o Ricardo, ganhar convites para as ante-estreias e DVDs (iniciativas que, em si mesmo, já demonstram uma vitalidade que não existia há muito). De qualquer modo, entre os novos visitantes que o site ganhou com essas iniciativas, felizmente apareceram alguns a deixar comentários. Por exemplo, só na ficha do «Kill Bill», logo no primeiro domingo, já existiam 20 opiniões dos visitantes. Daí que, uns filmes mais concorridos do que outros em termos de participação, e embora perdendo pessoas válidas ao longo do tempo (como o Ricardo), acho que o problema actual do CINEMA2000 parte, em primeiro lugar, de dentro, e não tanto pelo surgimento dos blogues.

Com o site temporariamente em «piloto automático» (de facto, o «copy & paste» das opiniões dos jornais para o site destina-se a tentar colmatar um pouco esse problema), os visitantes e a sua participação tornaram-se ainda mais importantes e o motivo que leva a que o CINEMA2000 ainda exista. Não partilho da sua ideia de que eles (nós) tenham sempre sido «actores secundários». Mais do que algumas notícias, crónicas ou debates, o CINEMA2000 é feito no espaço «Críticas» e pelas pessoas que deixam comentários aos filmes que vêem (independentemente do que as leva a escreverem). Pelo contrário, sempre encarei as opiniões dos críticos como um ponto de partida, uma reflexão, e que, eles sim, teriam um papel mais secundário no site.

Ainda assim, encaro com optimismo os próximos tempos, até porque está prometida uma mudança de visual e conteúdos para breve.

Espero que o site um dia fique melhor, mais entusiasmante para quem o faz e quem o visita. O primeiro sinal terá de vir de «dentro», mas espero que ele um dia possa também ser correspondido por alguns dos que o ajudaram a crescer no passado, grupo em que o Ricardo se inclui. Porque os visitantes sempre foram os actores principais (pelo menos, eu acredito nisso).

Por fim, após este enorme texto, aproveito para desejar as maiores felicidades à existência do seu novo blogue.

Com os melhores cumprimentos,

Nuno Antunes


sábado, novembro 22, 2003

Onde estava Wallach?

Quem reconheceu em "Mystic River", na figura do velho dono da loja de conveniência que tem uma caçadeira atrás do balcão, o lendário actor Eli Wallach de 88 anos (de, entre muitos outros, "O Bom, o Mau e o Vilão", de Sergio Leone; "Os Inadaptados", de John Huston; e "O Padrinho - parte III", de Francis Ford Coppola), presença não creditada no filme de Clint Eastwood?

Dave e os Seus Amigos

Dizem os mais cépticos que o cinema já contou no seu pouco mais de um século de existência todas as histórias que havia para contar. Tal constatação não me preocupa. O que me interessa no cinema que interessa são as novas formas de contar as mesmas histórias. A este nível, nem sequer considero “Mystic River” um filme particularmente original, embora o considere uma obra-prima do cinema... de qualquer época e – a par de “A Última Hora”, de Spike Lee – o melhor filme estreado este ano entre nós. O tão justamente proclamado classicismo de Clint Eastwood afirma-se em “Mystic River” pelo parentesco que este filme estabelece com as obras maiores de Elia Kazan, Luchino Visconti e Sergio Leone. É uma história cujas ressonâncias em muito ultrapassam o que nos é dado a ver com invulgar clareza de procedimentos. O filme de Eastwood não se preocupa em mostrar que é mais inteligente do que o espectador, embora não seja de espantar que o espectador se sinta mais inteligente (pela via da contenção emocional) depois de ver este filme. E essa mesma inteligência é tanto mais sensível quanto aqui se trata de narrar os eventos de uma moderna tragédia americana em que os acontecimentos mais dramáticos não são consequência lógica dos mais óbvios ressentimentos, mas de uma marca mais profunda e mais disseminada pela consciência individual e pelo inconsciente colectivo. “Mystic River” não condena e não absolve ninguém em particular – o crime de pedofilia representa o fantasma de uma condenação imposta e irreversível. Do alto da maturidade dos seus mais de setenta anos, mas também com o pragmatismo que tão bem caracteriza o seu cinema, Clint Eastwood parece dizer-nos que todos temos culpas no cartório. Recordem-se por último da frase lapidar proferida por Bill Munny no extraordinário “Imperdoável”: We all had it commin... Essa é que é essa.

sexta-feira, novembro 21, 2003

Savásana

... e agora, se me dão licença, vou fazer uma aula de Yôga. Até 2ª feira. Ooooommmmmm.

Regresso Discreto

David Byrne regressou às bandas-sonoras. A newsletter da Ananana descreve assim a música para o filme "Young Adam", que hoje estreia: "... Byrne - que, por sinal, nasceu na Escócia, em Dumbarton – rodeou-se de um conjunto de músicos recrutados de bandas como os Mogway, Reindeer Section, Delgados ou Belle & Sebastian, e compôs uma discreta suite instrumental para sexteto de cordas e secção rítmica(...)" Este é o excerto sucinto e objectivo. A subjectividade, também sucinta, fica por minha conta. Gostei, porque frequentemente também gosto de Gavin Bryars, Michael Nyman, Angelo Badalamenti, Lounge Lizards, Tindersticks e afins, tudo referências que este disco traz agarrado à pauta. Quanto ao filme de David MacKenzie, a ver vamos. Logo que possível (mas só depois de "Mystic River"!).

Fruição de Natal

Céu carregado. Música calada. Pouca babugem. Agarro no catálogo de Natal da Fnac e levo-o comigo para o WC. Os olhos percorrem páginas e páginas de livros, discos e multimédia. A cabeça está noutro lado. De tudo o que vejo, só fico interessado pela integral em DVD do João César Monteiro - custa 175 Euros, mais cêntimo, menos cêntimo. Para todo o resto estou-me a c**** (citando o defunto!). Um dia destes ganharei coragem de escancarar um palavrão aqui no blogue. Por enquanto terão de os ler nas estrelinhas. Penso de novo na possibilidade de investir no "caixão" do João César neste Natal. Se não for a bem, vai a Visa. Pego no catálogo... lixo.

MMC

Chegou o culto da personalidade para acabar com todos os outros (o meu incluído!). Até dá vontade de comprar, mas deve ser muito caro. Vou espreitá-lo só mais um bocadinho...

quinta-feira, novembro 20, 2003

Perdi a conta ao tempo que demorei a escrever e rescrever o último post. Isto está a tornar-se doentio. No more blogging today.

Inrockuptible

Hoje trouxe o novo CD da canadiana Lhasa de Sela para a agência. Descobri que de 1998 para cá mais pessoas do que eu imaginava ficaram a conhecer o seu primeiro disco: o excelente "La Llorona". A atmosfera que se desprende das canções de Lhasa não anda longe do universo "em carne viva" de Pedro Almodóvar, detendo-se também próximo da trágica decadência com caução artística (ufff...) do cinema do mexicano Arturo Ripstein. "The Living Road", assim se chama o CD, não será tão etilista* quanto o celebrado "La Llorona", mas é igualmente bastante recomendável. Mais aberto a mais músicas "do mundo", envolve um maior número de instrumentos - com clarinetes e violoncelos à mistura - que aquecem o choro de Lhasa a temperaturas mescálicas. Há também sopros que fazem lembrar os texanos Calexico e uma aproximação à esporádica depressão urbana (ufff... ufff...) dos Tindersticks, banda com a qual Lhasa colaborou no recente "Waiting for the Moon". A minha única reserva vai para o facto de Lhasa cantar em espanhol (óptimo!), mas também em francês e inglês. Para quê obviar o desejo de fazer chegar a música a um público mais heterogéneo em idade e estilo? As canções de Lhasa tinham de início já muito do que uma pessoa curiosa e não surda pode desejar ouvir.

*Etilista - diz-se do que é elitista pela bebida. Vulgo bêbedo desafectado. O mesmo que ébrio desinfectado.

Brand New Friend

Na adolescência era mais chegado aos Commotions do que aos Smiths (que repesquei já com os primeiros brancos: e daí o facto de ter então comprado o The Smiths, o Meat is Murder e o The Queen is Dead). Hoje ainda ouço o que o Lloyd Cole vai fazendo (o Music in a Foreign Language está entre os meus low profile of the year) e adoro as suas entrevistas. O Morrissey permanece um mistério para mim (embora tenha também o Viva Hate e o Vauxhall and I). Mas eis que ele me contacta tão simpaticamente, informando-me de que o seu blogue tem um link para o meu. Retribuo aqui o gesto, meu caro Morrissey. And may your light never go out.

Génio

Da última vez que alguém se mostrou tão excitado com um primeiro romance português, morreu-se-me. Mas o Zé Mário é um gajo de confiança. Não deixarei passar d'hoje.

Bater em mortos dignos

De cada vez que tirava os olhos dos lombinhos de porco preto, o Pauleta marcava um golo.

Dirty Olsen

O jogo havia entrado numa fase patética. O terceiro golo da Espanha era exemplo disso mesmo. Alguns adeptos noruegueses alinhavam pelo deboche. Dois ou três entraram em campo para jogar à rabía. O guarda-redes suplente da Noruega - que havia substituído o azarado Espen Johnsen (este é o momento em que olho para o jornal O Jogo, não vá enganar-me no nome do sujeito) - corre atrás de um deles e aplica-lhe uma placagem de pernas tão eficaz que até faz saltar o gorro que o adepto trazia enfiado na cabeça. Pierluigi Collina (espreito O Jogo mais duas vezes), que é tão careca quanto Olsen, nada diz. Pela parte que me toca, aplaudo o justiceiro.

Toda a Gente Diz Que Te Amo

Não fugi à regra.

quarta-feira, novembro 19, 2003

Ele e Ela

Li e gostei muito. Li e também gostei muito.

Sempre a considerá-lo.

A Bela e o Mestre

O Ivan não me inclui no lote dos bons rapazes que só falam da estreia de "Mystic River" porque ainda desconhece a existência do Babugem: um blogue tão nascisista que até faz links com ele próprio (não sabes o que perdes pá...). Ainda assim, permito-me comentar a sua intervenção que remete para a estreia - no mesmo dia de "Mystic River" - do último Techiné, que o Ivan representa, num golpe baixo, com o rosto da "bela impertinente": o Ivan recolhe as melhores imagens da blogosfera (aquele pézinho delicioso da Sue Lyon já me fez entrar em despesas!). Agora, meu caro Ivan, para intervalo de conversa, deixa-me dizer-te que prefiro de longe envelhecer como o Clint Eastwood a envelhecer com a Emmanuelle Béart. Mas a tua dica não deixa de evidenciar, uma vez mais, a tua brilhante capacidade de síntese, sendo igualmente um óptimo pretexto para pensar sobre o que está "muito além do esquerdo e do direito". You ppppunk!

Des nouvelles, pas bonnes

Cher Internaute,

A votre attention de la part d'Amazon.fr.

Vous avez choisi de commander "Coffret Pialat 6 DVD : Nous ne
vieillirons pas ensemble / A nos amours / Police / Sous le soleil de
Satan / Van Gogh". Cependant, suite a une note de notre fournisseur,
nous vous informons que la date officielle de parution de ce DVD a ete
repoussee au 25/11/2003. Notez que l'éditeur se réserve néanmoins le
droit de modifier cette date à tout moment(...)


É o cineasta europeu de que mais gosto. Acho que vale a espera...?

E a malta da Amazon(e) até é esforçada:

(...) Nous allons anticiper la commande de ce DVD auprès de notre
fournisseur et pensons obtenir des copies dès sa publication.

Obrigado Pedro, obrigado Carlos, obrigado Pedro. Muito obrigado.

Capuchinho Vermelho

É o papel que me cabe a mim representar, duas ou três vezes por semana, à hora do almoço. A prato hoje era Bacalhau à Brás.

Verde código VERDE

É tudo que que os títulares de lugares especiais no novo Estádio de Alvalade têm de fazer para comprarem o seu bilhete para o próximo jogo da UEFA contra o Gençlerbirligi. Assim, até já nem me importo de ser apelidado de adepto da 3ª Geração (a geração dos fãs: um conceito parvo que inventaram para fazer disparar as hormonas da malta nova). Se temos fama de clube de aristocratas, nunca serão demais as mordomias.

1.90m de M**** num Fato Armani

Sou dos que pensa que o fim das lojas Marks & Spencer em Portugal foi uma grande perda para os que preferem vestir, primeiro Bom, e só depois Bem. Sinto particularmente a falta dos seus boxers que nunca me deixaram ficar mal, e das suas meias de médio cano, de algodão, sempre azuis escuras ou pretas, também de invulgar durabilidade. Mas o supremo Marks & Spencer são mesmo os casacos St. Michael com XL's que nunca mais acabam e com bolsos que levam tudo e ainda as nossas mãos lá dentro. O melhor da roupa Marks & Spencer é de tal modo discreto que faz com que a Zara, a Springfield e a Pull & Bear se assemelhem à Bershka. No Inverno as minhas saudades são XXXXL...

Pensando melhor... talvez abra algumas excepções. Muito poucas, no entanto.

Ante-estreia do Ano

Por ter sido um dos primeiros leitores a responder correctamente à pergunta
formulada no nosso passatempo "Mystic River", terá direito a um convite
duplo para a ante-estreia que decorrerá no dia 20 de Novembro, às 21:30, na sala 7 dos Cinemas Millenium Alvaláxia. Para receber o seu convite, basta
que se dirija às bilheteiras do referido cinema, apresentando o seu bilhete
de identidade. Bom filme.


Recebi este e-mail da revista Op. Logo eu que nunca ganho nada neste tipo de passatempos (respondo correctamente e com atraso), fui um dos (in)felizes contemplados com entradas para a ante-estreia do ano. MAS NÃO POSSO IR. Sugiro portanto que alguém mais audaz se faça passar por mim (coisa simples: não sou figura pública nem no meu próprio prédio) e goze o prato - sempre são 137 minutos de eastwoodiana parece que da melhor... Bom proveito.

P.S. A cedência do meu bilhete de identidade está fora de questão.

Armadilha

Susheela Raman fala com o Blitz uma semana antes do seu concerto no festival Sons em Trânsito, em Aveiro:
Mas sente algumas diferenças entre o primeiro ("Salt Rain") e o segundo álbum ("Love Trap") ?
Sim. O segundo tem mais ritmo, mais percussões, mais groove. E é mais denso - no sentido que tem mais elementos musicais -, mais intenso, mais elaborado, com mais energia. Há pessoas que gostam muito do primeiro mas já não gostam do segundo; que preferiam que não tivesse mudado. Mas não podemos ficar a fazer o mesmo disco para sempre... O próximo álbum também vai ser diferente deste.
Concordo com a Susheela mas também preferia que ela não tivesse mudado.

A UEFA, à perna...

A Selecção Nacional de Sub-21 destruiu os balneários onde se encontrava após ter vencido a França no jogo decisivo de apuramento para o Europeu de Atenas. Porque será que eu acho que as consequências teriam sido as mesmas ainda que o resultado tivesse sido outro?

Morreu um Cinéfilo

A secção Media do Público de hoje dá notícia de um óbito: morreu o jornalista e crítico de cinema Manuel Pereira. O título do texto em causa é "Morreu editor da TV Guia", mas julgo que o Manuel Pereira teria preferido uma outra designação. Comecei por ler os seus textos de cinema numa altura em que o Sete era ainda o jornal que eu comprava religiosamente todas as quintas-feiras (ou seria às quartas?). O Sete foi a minha primeira Premiere, o meu primeiro Cahiers, o meu primeiro Inrocks. Escreviam lá dois Pereiras: o Manuel e o José Vaz. Fui mais tarde colega do Manuel na TV Filmes, embora a minha condição de colaborador não ajudasse a conhecê-lo melhor. Sei, no entanto, que ele gostava de rock progressivo (de coisas "bizarras" tipo Magma) e que o seu filme favorito era o "Apocalypse Now". Um homem que gostava de filmes de guerra tem agora toda uma eternidade de paz pela frente.

terça-feira, novembro 18, 2003

Lázaro

Vasco Pulido Valente regressou momentaneamente aos jornais para, em carta dirigida ao jornal Público, dar umas bengaladas no romance "Equador" e no narcisismo do seu autor, Miguel Sousa Tavares. O pretexto, como referido, é a tal fantasia erótica que as mulheres lêem às claras e os homens fingem não dar importância... Não li "Equador", não vou comentar as bengaladas, mas gostei de reencontrar a prosa venenosa de VPV, ainda que remetida do Hospital Amadora-Sintra. A resposta do MST também esteve à altura da provocação - deu a outra face (e não creio que receberá mais pancada por isso). Um outro dia perguntava a um amigo pelo VPV, que suspeitava estar ainda a convalescer , apesar de o imaginar em Benfica e não na Amadora... Parece que o homem havia sido operado por mais de uma vez. A minha curiosidade sobre a enfermidade do VPV ficou satisfeita. É favor espremer sem remover. Muito agradecido.

Cada Tiro, Cada Melro

"Barry Lyndon", de Stanley Kubrick: infelizmente não na Cinemateca mas em DVD. Cada Plano, cada Quadro (cortesia de John Alcott).

O Último Romântico, já era...

David Sylvian, é sabido, fez as malas, despediu-se da Virgin e estabeleceu-se por conta própria na Samadhi Sound. Já este ano lançou o seu disco menos perfumado - "Blemish", ed. autor, imp. Ananana - mas igualmente fascinante: já quase só há VOZ, um manto electrónico e alguns apontamentos lancinantes da guitarra de Derek Bailey. A tão proclamada visão romântica transformou-se numa espécie de apontamentos diarísticos dispersos, que o tímbre e colocação da referida VOZ faz ascender ao estatuto de homilia. David Sylvian é hoje um homem que vive principalmente para a família, depois para a religião (uma variante do hinduismo) e finalmente para a música, embora ele provavelmente não saiba nem tenha interesse em criar fronteiras entre as três realidades da mesma existência. Por seu lado, a Virgin aproveita a partida do seu esteta de eleição que há muito desaprendera a arte de subir ao topo das tabelas de vendas, para lhe revisitar a obra, remasterizando-a e embalando-a em apetecíveis digipacks pejados de fotografias de Sylvian, numa altura em que este ainda era um dos mais belos rostos da música pop. Discos com os Japan, discos a solo (onde se destaca a obra-prima e um dos mais belos pôr-do-sol em forma de disco compacto que é "Secrets of the Beehive"), o ambiental e menos conhecido "Alchemy An Index of Possibilities", tudo, mesmo tudo, excepto o desertor "Blemish".
Peguem em qualquer disco de David Sylvian, dêem-no a ouvir à que vocês crêem ser a mulher da vossa vida e aguardem pela reacção dela... Depois já sabem o que têm de fazer...

Protagonismos

Há semanas atrás tive uma recaída e enviei um comentário sobre "Dogville", de Lars von Trier, para o Cinema2000. Em tempos fui um fervoroso participante no espaço Críticas do mesmo sítio, até que a coisa deu em baixaria e resolvi libertar-me da estupidez que a impunidade da discussão por escrito gera em mentalidades semelhantes àquelas que um dia assobiam a Selecção Nacional para na semana seguinte dizerem já que somos os melhores do mundo... Voltando ao Cinema2000, devo confessar que ultimamente só vou espreitando de vez em quando com o intuito de ganhar uns convites para antestreias ou uns DVD's quase sempre interessantes que têm esporadicamente para oferecer, tarefa que se veio a revelar impossível - ganhar, isto é! Tenho para mim a teoria de que o Cinema2000 foi seriamente vitimado com o surgimento dos blogues, espaços com menos potencial de convergência, em discussão, mas totalmente libertos ao instinto de cada um. Para quê sermos actores secundários no Cinema2000, quando podemos ser protagonistas do nosso próprio blogue? Os próprios signatários do Cinema2000 fruto quiçá do seu desinteresse ou das múltiplas responsabilidades profissionais a que têm de dar resposta, já se limitam apenas a fazer copy & paste de um lado (jornais/ revistas) para o outro (Cinema2000) de modo a dar a ilusão de que aquilo ainda mexe. Tenho muita estima pelo Vasco e pelo Eurico, amizade pelo João e simpatia pelo Nuno, mas talvez fosse altura para resgatar o Cinema2000 de uma espécie de piloto automático que vai servindo sobretudo para consultar o Cartaz das próximas estreias e seus múltiplos links. Just a thought de um vendido a um maior protagonismo (de momento apenas ilusório).

Mais DNmais

O DNmais anuncia a sua transferência para as sextas-feiras, o mesmo dia em que sai o seu concorrente Y com o Público. O DNmais tem vindo progressivamente a fazer uma dieta de emagrecimento que vai deixando para mais tarde discos sobre os quais queremos ouvir falar hoje. O Y espalha o seu charme ao longo de 40 páginas. O DNmais desde que largou a cor amarela parece-nos mais enfermo. Na qualidade de leitor de todas as semanas, e pelo respeito que me me merece a equipa do DNmais supervisionada pelo Nuno Galopim, faço votos de um rápido restabelecimento e de uma substancial engorda musical e cinematográfica a bem de todos aqueles que não vivem sem a ilusão de uma interacção entre quem (ainda) escreve e quem (ainda) lê.

Requiem por um Sonho

Elephant, de Gus Van Sant é um grande filme abstracto que parte de um acontecimento bem concreto: o massacre do liceu de Columbine nos EUA. É cinema ambiental embora o seu registo cause por vezes uma forte impressão naturalista. É também uma espécie de documentário artístico em que o objecto de trabalho volta a ser a juventude: a tentativa de imprimir na película de cinema, como quem imprime uma fotografia, a essência do ser-se jovem. As acentuações que Van Sant produz a partir do movimento, dos gestos, dos seus inúmeros actores, produzem resultados de grande beleza, sobretudo quando ele acelera ou desacelera a imagem. Percorremos Elephant, este misterioso "filme-corredor", numa espécie de transe realista. Procuramos respostas em vão para o que sabemos ser a sua inevitável conclusão trágica. Andamos sempre muito próximo dos alunos de Columbine, mas nunca conseguimos furar a intangibilidade de cada instante que, mesmo quando observado de múltiplos ângulos, nem por isso ganha qualquer acréscimo de sentido. E o mal permanece uma espécie de categoria ontológica de quem progressivamente se auto-exclui para finalmente exercer uma vingança em que todos são inocentes e as figuras adultas encontram-se, tal como antes, ausentes. Elephant é uma obra de arte que frusta as interpretações sociológicas. É uma espécie de "requiem por um sonho": a adolescência tantas vez sonhada em suspenso por Gus Van Sant, mas nunca antes com tamanho poder de fascínio.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Faz vinte anos que ele disse que fazia vinte anos que tinha vinte anos

Foi o fadista Camané quem me falou pela primeira vez do Homem. Um ano e tal depois, tinha eu já comprado todos os 30 discos que o Homem havia até então editado, alguns dos quais na versão remasterizada baratinha, baratinha. Joan Manuel Serrat, o Homem, fará em Dezembro 60 anos. Trata-se de um escritor de (e intérprete das suas próprias) canções que entre os vivos só é comparável a Caetano Veloso, embora de resto pouco mais haja de comparável entre os dois - Serrat insere-se sobretudo na escola francófona de Brel e Brassens. Uma voz fabulosa e um cronista inteligentíssimo cheio de compaixão e ironia para com a espécie humana, que afinal é a mesma em todo o lado. Este ano, Serrat realizou o projecto antigo de gravar na companhia de uma orquestra sinfónica. Chamou-lhe simplesmente Serrat sinfónico. Revisita canções em catalão e castelhano escolhidas por Serrat sem outro critério que não o gosto do próprio autor: La bella y el metro, Pueblo blanco, Cançó de matinada, Pare, Mediterráneo, Fa vint anys que dic que fa vint anys que tinc vint anys, entre outras dez, servidas por arranjos de Joan Albert Amargós, intensos e intensamente musicais. Serrat sinfónico que a BMG distribuirá por estes dias em Portugal, faz lembrar o ainda recente Travelogue, de Joni Mitchell, outra obra-prima da música popular de autor, trajada a rigor. Só falta mesmo trazer o Homem a Portugal. Senhores programadores culturais, fechem agora os olhos e abram(-me) esses ouvidos.

Dias Felizes

Resisti enquanto deu a aderir ao formato DVD, mas a coisa tornou-se finalmente viciante. Hoje foi dia de ir aos correios levantar mais uma encomenda da Amazon inglesa (a minha preferida, com atendimento personalizado virtual que supera quase todas as lojas com gente "de verdade": The Hustler, de Robert Rossen; Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson; Lolita, de Stanley Kubrick; Deliverance, de John Boorman; Gosford Park, de Robert Altman; Planet of the Apes (o original de Franklin J. Schaffner, não o remake desinspirado e juvenil do inspirado Tim Burton); e Peeping Tom, de Michael Powell, para noites de insónia... Há dias assim: dias felizes. Há também dias assado. E tempo para ver isto tudo???????

Obstetr'amigo

Obrigado Pedro Mexia pela paciência e pelo encorajamento. Como vês, já sei linkar!

Apresentação

Em primeiro lugar, desculpem, mas vamos às apresentações. Em segundo lugar, desculpem, mas não há apresentações (obrigado Alberto Gonçalves). Um reparo apenas: o Babugem não é um blogue "Zelig", não há que temer por citações enviesadas incontinentes. Até já!

Estreia

Esteve inicialmente pensada para ocorrer na próxima 6ª feira. Mas para quê esperar até dia 21 de Novembro? Santa impaciência... A chegada do Babugem à blogosfera cumprirá o desígnio original de se tornar no segundo facto nacional mais relevante da semana: o primeiro sendo a estreia de "Mystic River", do grande Clint Eastwood.


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