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quarta-feira, dezembro 31, 2003

Alma Cool

Desejo a todos uma entrada absolutamente cool em 2004, na melhor companhia possível. E subscrevo os votos de um excelente ano novo, sugerindo que descubram também o disco de estreia dos Kindred the Family Soul, «Surrender to Love», que a revista Echoes apelida de melhor álbum soul de 2003 (tem a participação de Ursula Rucker numa das faixas!) e que, do pouco que ouvi (estou a fazer agora isso mesmo), sinto-me euforicamente tentado a concordar. É que quando os brothers & sisters acertam, é deles a melhor música do mundo. Muitas e boas rendições... e até já.

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Trio(s)

Uma das piadas das listas dos melhores do ano é ficarem desactualizadas quase diariamente. Vem isto a propósito de uma derradeira investida - vocês sabem onde! - da qual resultou a compra de dois (e mais outros dois) excelentes discos na fronteira do jazz com a electrónica. Música teimosa e hipnótica para ouvir no sofá. De preferência. Ora apontem:

Tied & Tickled Trio - Observing Systems (Morr Music, 2003);
Triosk meets Jan Jelinek - 1+3+1 (Scape, 2003).

E estejam além do jazz que é bom também.

Música Portuguesa 2003

12 Meses. 12 Nomes. 12 Cores. O concentrado de quase toda a música portuguesa que ouvi este ano - de fora ficam os discos de Filipa Pais, Cristina Branco, Mísia e Mafalda Arnauth, Old Jerusalem, Musgo e In Her Space, arrumados entre o quase esquecimento e a falta de desejo de ouvir mais (excepções a itálico). Chegaram até aqui:

1) Camané «como sempre... como dantes» COR-DE-VINHO
...
...
...
2) Sérgio Godinho «o irmão do meio» COR-DE-LARANJA
3) Carlos Bica «look what they've done to my song» AZUL
4) Blind Zero «a way to bleed your lover» VERMELHO
5) Loopless CASTANHO
6) Bernardo Sassetti & Mário Laginha BRANCO
7) Balla «le jeu» COR-DE-PELE
8) Melo D «outro universo» COR-DE-MEL
9) Mesa COR-DE-ROSA
10) Ricardo Rocha «voluptuária» PRETO
11) Rádio Macau «acordar» VERDE
12) Fausto Bordalo Dias «a ópera mágica do cantor maldito» CINZENTO

Obs. Estavam previstas listas de cinco títulos. Não estavam?!

Gato de Génio

Não deixem de ler esta brilhante sequência de três posts datados de 24 de Dezembro, da autoria do Miguel Góis.

As certezas das primeiras impressões...

O que é que o melhor disco de sempre dos High Llamas - o novo «Beet, Maize & Corn» - tem de comum, em termos puramente musicais, com os últimos registos de António Carlos Jobim e Robert Wyatt?
MUITO!!!!! E já se encontra a dar uma segunda volta...

domingo, dezembro 28, 2003

Carne Jovem para Bertolino*

Uma vez chegados ao epílogo de «O Fascínio», continuamos completamente às escuras em relação ao tema do filme: a história tem contornos góticos e uma casa, afinal, muito pouco assombrada; parece existir também a vontade de fazer qualquer espécie de comentário político que estabelecerá uma equivalência - pela impunidade dos crimes - entre os fascistas à direita de Salazar, coniventes com os regimes de Franco e Hitler, e os jovens tubarões do empresariado actual que não olham a meios para atingir os fins; e há, por último, o arremedo de tema em que a projecção de Fonseca e Costa será mais sensível, e que diz respeito - tal como num filme anterior do mesmo realizador, intitulado «Os Cornos de Cronos» - à paixão serôdia pela carne jovem (no caso "em mãos", a carne de Ana Moreira preservada até final da volúpia do nosso olhar).
Conclusão: se «O Fascínio» tivesse assinatura de António de Macedo, garanto-vos que teria ficado menos surpreendido.

* Bertolino é o primeiro nome completo de Lino Paes Rodrigues, personagem interpretado de forma pouco credível (ora assustado, ora destemido, cortando goelas "à espanhola") por Vítor Norte.

sábado, dezembro 27, 2003

A minha combustão proustiana

Já não consigo contabilizar o tempo passado sobre a última vez que fiz a autoestrada Lisboa-Cascais, sozinho, com música muito alto. Aconteceu hoje, e surpreendi-me aprisionado emocionalmente com a experiência; tão emocionado, aliás, que me detive a pensar nos motivos de tal descontrolo, servido na banda-sonora por «Principio de Incertidumbre», um invulgar disco ao vivo do espanhol Ismael Serrano que não faz concessões na sua transposição ao digital, apresentando emoções também em estado bruto que resultam de duas noites de concerto no Teatro Lope de Vega, em Madrid. Não estou sequer muito familiarizado com a música deste cantautor, mas o facto de ser espanhol e de se tratar de um excelente letrista e melodista na linha de um Serrat, de um Aute, ou de um Sabina, terá por certo tido a sua influência na minha comoção.
Voltando à estrada - a autoestrada de Lisboa-Cascais ou vice-versa -, refiro que a mesma se encontra muito ligada a noites passadas em Lisboa, que vinham invariavelmente a acabar no extremo oposto quando ainda morava com os meus pais. Noites de grandes "comezainas" (jantar, primeira ceia, segunda ceia...), muito bem bebidas, com a voz de Camané e a minha voz sobreposta à voz dele, a manterem-me suficientemente desperto ao longo de todo o trajecto - prerrogativas do fado (por mim!) berrado.
Hoje tratava-se de uma cena diurna a caminho do almoço. Total e absoluta sobriedade, portanto. Ao volante de um carro, não meu, que, por outro lado, associo a duas paixões da minha vida: a minha mulher e a história que a antecedeu, essa já de existência efémera. Tudo isto, tudo junto, sem procurar estabelecer qualquer tipo de hierarquia irrelevante, contribuiu para que eu experimentasse de novo uma espécie de combustão proustiana em que a palavra-chave acaba também coincidentemente por ser "madalena".

Brincando aos Clássicos

Takeshi Kitano resolveu surpreender com seu primeiro filme de época, e parece ter encontrado "fórmula" de o fazer cruzando os universos de Akira Kurosawa («Yojimbo», «Sanjuro» e «Os Sete Samurais») e dos Flinstones. O resultado é francamente decepcionante. O cineasta japonês vai doseando algumas graçolas ao longo de uma história sem ritmo - justamente aquilo que fazia a diferença nos seus filmes anteriores (falamos de Montagem!) - e totalmente desprovida de outro interesse além do rigoroso trabalho de imagem que reforça o estatuto de academismo pífio de «Zatoichi». Os tão referidos anacronismos não conseguem igualmente perfumar este filme escusado e bafiento. Takeshi quis fazer obra tolinha e engraçadinha e não foi além de espasmos de sangue digital. É bom que fique "sério" outra vez, e deixe logo de dar provas de uma versatilidade incontinente. Os fãs agradecem!

sexta-feira, dezembro 26, 2003

Ananana 2003

Muitos dos melhores disco do ano estão aqui. Sei do que falo, porque fui comprando dezoito das vinte escolhas. A publicidade é assumida e o gosto geral confunde-se, como se conclui, com o gosto pessoal. O bom gosto tem destas coincidências, que a razão não só conhece como antecipa. Podem preparar os dinheirinhos recebidos no Natal...

A MINHA LISTA
1. Tim Hecker - Radio Amor
2. Susumu Yokota - Laputa
3. The Cinematic Orchestra - Man With a Movie Camera
4. Matt Elliott - The Mess We Made
5. Rechenzentrum - Director's Cut

A LISTA DE TODOS NÓS
«2003 foi um ano de crise. A declaração é universal face ao decréscimo das vendas em todos os mercados livres. Mas, haverá algum paralelismo entre as vendas de um Robert Wyatt e um David Fonseca? Os reflexos comerciais não devem atingir, com o mesmo desígnio fatalista, mundos paralelos do mesmo sistema solar. Por isso, a música que gostamos por aqui encontrou sempre uma casa disposta a recebê-la. E, graças aos deuses (que são os músicos),
foi mais um ano de grata criação discográfica. Recebemos dezenas de emails
quebrando o record de participação do ano passado. Muito obrigado pelo entusiasmo. Dos vossos discos preferidos, uns foram mais unânimes que outros, e desses a história irá rezar assim:

1. robert wyatt «cuckooland» (hannibal)
2. david sylvian «blemish» (samadhi)
3. four tet «rounds» (domino)
4. john cale «hobo sapiens» (emi)
5. radiohead «hailt to the thief» (emi)
6. madlib «shades of blue» (blue note)
7. outkast «speakerboxxx/the love below» (arista)
8. matt elliott «the mess we made» (domino)
9. lou reed «the raven» (sire)
10. ursula rucker «silver or lead» (k7)
11. the cinematic orchestra «man with a movie camera» (ninja tune)
12. colder «again» (output)
13. bonnie 'prince' billy «master and everyone» (domino)
14. cat power «you are free» (matador)
15. black dice «beaches and canyons» (dfa/fat cat)
16. stephen malkmus «pig lib» (domino)
17. jaga jazzist «the stix» (ninja tune)
18. howe home «the listener» (thril jockey)
19. the matthew herbert big band «goodbye swingtime» (accidental)
20. manitoba «up in flames» (leaf)

Outros, menos bafejados pelos consensos, também não deixaram de aparecer na nossa caixa postal. E como são especiais, dentro dos especiais, partilhamos aqui também os outros discos:

agf «westernization completed» (orthlorn musork)
coil «live series» (world serpent)
frank zappa «fz:oz» (vaulternative)
lightining bolt «wonderful rainbow» (load)
old jerusalem «april» (bor land)
strong>paddy mcaloon «i trawl the megahertz» (liberty)
people like us & kenny g «nothing special» (mess media)
susumu yokota «laputa» (skintone)
terry hall & mushtaq «hour of two lights» (honest jon's)
the dining rooms «tre» (schema)
the roots «phrenology» (mca)
trans am «ta» (thrill jockey)
vert «small pieces lossely joined» (sonig)
young blood brass band «centre level roar» (definitive jux)

CONTACTOS
loja travessa água da flor 29 r/c
bairro alto
1200-010 lisboa

telefone 213474770
fax 213240059

email geral info@ananana.pt
email para encomendas encomenda@ananana.pt
web http://www.ananana.pt

tarde segunda a sábado 16h00 > 20h00
noite sexta e sábado 21h30 > 24h00»

ENJOY THE HOLIDAYS (e não deixem de consultar também os suplementos Y e DNmais de hoje).

terça-feira, dezembro 23, 2003

Blogues 2003

Agora é que vão ser elas - ou eles, mais propriamente... Porque a blogosfera é o espaço, por excelência, para escovar o pêlo à nossa subjectividade (e à dos outros TAMBÉM!), deixo-vos com cinco adulações para outros tantos blogues cuja leitura se tornou mais obrigatória do que qualquer outra. Não há sítios (!), não há espaços (!), não há diários (!), apenas blogues ainda em actividade.

1) Contra a Corrente;
2) Homem a Dias;
3) Dicionário do Diabo;
4) A Praia;
5) Flor de Obsessão;

Aos autores dos ditos, e a muitos outros blogosféricos como eu, muito obrigado pela virtualidade das vossas pilosidades. Isso bem escovadinho, sff.

O fim da hipocrisia

Hoje aconteceu-me comprar prendas de Natal para mim próprio, a serem pagas pelas pessoas que me irão oferecer as mesmas na devida altura. O Natal sobrevive também destas contingências, e quando as ofertas são boas o melhor é alinhar no espírito do desenrasque.
Escolhi então, para um plafond de 10 Euros, o último romance de Mário de Carvalho, «Fantasia para dois coronéis e uma piscina» e, para um plafond de 30 Euros, o DVD de «Apanha-me se puderes», de Steven Spielberg. Foi o que se pode chamar de o melhor de dois mundos, não vos parece?

A Treta Continua 2003

Recebi hoje da Megamúsica, uma distribuidora que aposta sobretudo nas músicas tradicionais, nalguma música antiga (tem o respeitável catálogo da Alia Vox), e que tem há uns meses o catálogo da Ocarina (fado, sobretudo), a seguinte lista com os 40 discos por eles mais vendidos em 2003.

1.º José Pedro Gomes & António Feio A Treta Continua 2 UAU

2.º Katia Guerreiro Nas Mãos Do Fado Ocarina

3.º Ronda dos Quatro Caminhos Terra de Abrigo Ocarina

4.º Ibrahim Ferrer Buenos Hermanos World Circuit

5.º Buena Vista Social Club Buena Vista Social Club World Circuit

6.º Bau Silencio Lusafrica

7.º Bonga Kaxexe Lusafrica

8.º Simentera Tr’adictional Mélodie

9.º Celso Fonseca Natural Crammed Discs

10.º Katia Guerreiro Fado Maior Ocarina

11.º Cibelle Cibelle Crammed Discs

12.º Bau Cape Verdean Melancholy Lusafrica

13.º Hélder Moutinho Sete Fados E Alguns Cantos Ocarina

14.º Zuco 103 One Down, One Up Crammed Discs

15.º V/A Brazilectro 5 Audiopharm

16.º V/A Asia Lounge 3 Audiopharm

17.º V/A The Very Best Of World Divas Nascente

18.º Bebel Gilberto Tanto Tempo Crammed Discs

19.º Jordi Savall Antonio Vivaldi Alia Vox

20.º Richard Galliano Piazzolla Forever Francis Dreyfus

21.º Ani Difranco Evolve Righteous Babe

22.º Jordi Savall La Parnasse De La Viole Alia Vox

23.º Orchestra Baobab Specialist In All Styles World Circuit

24.º Ariana Savall Bella Terra Alia Vox

25.º V/A The Very Best Of Latin America Nascente

26.º Ibrahim Ferrer Buena Vista Social Club Presents Ibrahim Ferrer World Circuit

27.º V/A The Very Best Of Blues Nascente

28.º Ministry Animositisomina Mayan Records

29.º V/A Nova Soul 2 Audiopharm

30.º V/A Brazilution Ministry Of Sound

31.º V/A Hecho En Cuba Ministry Of Sound

32.º Oumou Sangare Oumou World Circuit

33.º José Barros & Navegante Vivos... E Ao Vivo Ocarina

34.º Kamelot Epica (ed. limitada) Noise Records

35.º Trovadores Urbanos Copacabana Megamúsica

36.º Hector Zazou Strong Winds Materiali Sonori

37.º V/A N.Y. Lounge 2 Blue Flame

38.º Wim Mertens Epic That Never Was Megamúsica

39.º Gamma Ray Skeletons In The Closet Metal-Is

40.º Gilberto Gil Z Blue Jackell

Seguem-se rápidas e sintéticas conclusões:

- Com tanta música interessante, ver a posição cimeira ocupada pela "treta" do JPG e do AF é sintomático do país cultural em que nos encontramos;

- A inexistência do fabuloso novo disco de June Tabor leva-me a concluir que, das duas uma: ou para além de um país culturalmente da "treta", somos também um país de surdos, ou (espero bem!) o atraso na distribuição de «Echo of Hooves» impossibilitou que as suas vendas tivessem sido contabilizadas;

- Alguma da melhor música de África e Cuba chega felizmente até nós: Bau, Oumou Sangare, Simentera e o pessoal do Buena Vista que, a pouco e pouco, caminha para a extinção;

- Que o fado que não chega aos Tops chega a muitos outros lados;

- Que se o jazz que estes senhores também distribuem chega a algum lado, não faço uma pequena ideia de qual esse lado seja...

Finalmente, para não fugir ao espírito da Quadra, cinco escolhas pessoais - em cima, a bold.

O homem que não existe

O DVD chama-se «American Psycho», tal como o controverso bestseller de Bret Easton Ellis. A realizadora Mary Harron diz que Patrick Bateman personifica tudo de mau que existe no homem. Um homem que partilha do mal que existe nos outros todos, mas que afinal só existe a um outro nível. Com a cabeça de Patrick Bateman, a questão é que quanto mais fundo vamos mais indistintos se tornam os contornos do real e da fantasia. O yuppie Bateman existe na abstração resultante daquilo que ele é com aquilo que ele pretende ser. É uma construção do próprio levada à psicose: espaços assépticos, superfícies igualmente assépticas (começando pela própria pele...), rituais de violência ao som dos hits da pop anos 80 (Whitney Houston, Huey Lewis, Phill Collins, Chris de Burgh...), o sexo vivido enquanto apoteose do onanismo, e o culto da personalidade que não passa de uma imagem sem existência sensível, humana.
Este filme faz rir porque é uma sátira implacável, e uma prodigiosa desconstrução do lobisomem americano de Wall Street. Um ser que se alimenta do fetiche ultra-caro e que é totalmente desprovido de emoções. Uma máquina que se limita a perpetuar o culto de si própria através daquilo que impressiona outros da mesma espécie. Mas este filme dá também medo, uma vez que partilhamos todos de algo de deplorável do predador Patrick Bateman, integrados que estamos numa sociedade que apela constantemente ao culto compulsivo do belo, do caro e do efémero. Existe um «American Psycho» adormecido em nós que até pode nunca vir a despertar. Apesar de constantemente incomodado no seu sono profundo por tudo aquilo que reduz a vida a esquemas de competição pela beleza, pela riqueza e pelo estatuto. Patrick Bateman é um estereótipo filmado a vermelho sangue no seu quotidiano delirante. A acidez da “laranja” de Kubrick actualizada para a América de Reagan.

segunda-feira, dezembro 22, 2003

A Ária da Estrela

Creio que foi Scott Walker que escreveu no livrete do seu quarto disco de originais, que o trabalho de um artista se resumia à busca daquelas duas ou três imagens face às quais o seu coração se abrira pela primeira vez.
Este fim-de-semana aconteceu-me uma experiência próxima das palavras de Scott Walker, quando me ofereceram, pedindo-me para escutar de seguida, um CD que resulta da primeira colaboração entre o maestro Christian Thieleman e o baixo-barítono Thomas Quasthoff, intitulado «Evening Star - German Opera Arias». A surpresa estava relacionada com uma passagem, em particular, retirada da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner, conhecida precisamente pela designação de "Ária da Estrela" (Wie Todesahnung Dämmrung deckt die Lande - O du, mein holder Abendstern), na qual Wolfram evoca a luz da estrela da noite para o guiar em mais do que um sentido... O mesmo trecho, apesar de ouvido em condições menos correctas (num aparelho velho cheio de estática...), emocionou-me até às lágrimas que procurei disfarçar com embaraço. Eu já ouvira aquela música, e não foram necessários muitos segundos até me lembrar onde: num dos filmes favoritos do meu pai, «Ludwig da Baviera», de Luchino Visconti, um dos menos amados do realizador embora tão majestoso como os outros. A "Ária da Estrela" era a música que se escutava quando o Rei passeava num barco em forma de cisne pela águas de uma gruta assombrosa.
Ludwig era um homem que vivia para a beleza. Daí a sua paixão por Wagner e pela música deste. Uma música que esteve na razão do meu nome de baptismo, e que me levou a chorar uma vez mais (embora por outros motivos!) muitos anos mais tarde. Como se o ruído da estática nada pudesse fazer para impedir que o meu coração se abrisse de novo...

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Cinema 2003

Uma vez que não ligo à trilogia do «Senhor dos Anéis», e também porque já consta da minha lista o filme de Takeshi Kitano da praxe, parto de imediato para o balanço de mais um ano de cinema em sala - contando ir ver ainda alguma coisa antes que 2003 se esgote. Temos assim...

... um poker:
1) Mystic River, de Clint Eastwood;
2) A Última Hora, de Spike Lee;
3) Elephant, de Gus van Sant;
4) Apanha-me Se Puderes, de Steven Spielberg;

... a virtude de estar no meio:
5) O Emprego do Tempo, de Laurent Cantet;
6) Dolls, de Takeshi Kitano;

... um trio de reis:
7) Cidade de Deus, de Fernando Meirelles;
8) Kill Bill - A Vingança, de Quentin Tarantino;
9) Xavier, de Manuel Mozos;

... um par de valetes (inviabilizado pela intromissão de uma dama...):
10) O Adversário, de Nicole Garcia;
11) Longe do Paraíso, de Todd Haynes;

... e um BLUFF:
1) B Inadaptado, de Spike Jonze;
2) L Frida, de Julie Taymor;
3) U Solaris, de Steven Soderbergh;
4) F Respiro, de Emanuele Crialese;
5) F Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson.

Bem-vindos à política do espectador-jogador!

Dune

No final comprei não apenas um mas dois DVD's. A pessoa a quem ofereci o segundo acabou por ser a razão determinante de ter comprado o primeiro. Obrigado aos entusiastas que se deram ao trabalho de me "mailar".

Mentira ou Consequência

«Rodger Dodger» é um filme que passa o tempo todo na corda bamba do cinismo e do estereótipo. Desequilibra-se mas nunca verdadeiramente tomba, embora o seu trajecto seja em queda e tenha como ponto mais baixo a madrugada do dia seguinte e a solidão. Roger é publicitário, logo, é alguém que lida com clichés. Destila a natureza humana até que esta se torne catalogável no seu manual de arrogância e desprezo. Roger alimenta-se social e profissionalmente da miséria humana da sociedade de consumo, sendo também ele um frustrado e um insatisfeito que se esconde atrás de uma sofisticada verborreia. Dylan Kidd, o realizador de «Roger Dodger», trata tão mal o seu protagonista como este trata os que o rodeiam. É isento, portanto. Mas também algo ingénuo. Se Roger representa o desespero de uma masculinidade ameaçada, não existe uma visão igualmente lúcida e cruel do outro sexo – não existe uma visão das mulheres que não seja romantizada. Nesta questão, Dylan Kidd parece identificar-se com o ponto de vista de Nick, sobrinho de Roger, que visita o tio em Nova Iorque e que por ele é iniciado no ritual humilhante do engate pelo sexo, do sexo por tudo o resto que a publicidade, por exemplo, quer-nos fazer crer que nos faz falta. Nick é um adolescente que chega do Ohio, tem 16 anos e anseia perder a virgindade. É no fundo um miúdo que ainda brinca ao “verdade ou consequência” , e que vai aprender que no mundo dos adultos o nome do jogo é outro: chama-se “mentira ou consequência”. Dylan Kidd filma a sua desorientação, a desorientação afinal de todos os personagens, ao longo da noite – da “happy hour” até à “sad hour” – colocando imensos obstáculos à frente de uma câmara de filmar também ela frenética. E isto soa igualmente um pouco falso, tratando-se de um cliché primeiro cinematográfico e depois televisivo. «Rodger Dodger» é mais interessante pela esperteza dos diálogos e pelo naturalismo profissional de todos os actores – Campbell Scott é muito bom mesmo! E também pela tensão que estabelece na tentativa de nos fazer acreditar que as relações entre os sexos tornaram-se clichés a partir do momento em que homens e mulheres se limitaram a reproduzir comportamentos estereotipados uns com os outros – restando o cinismo para os que não se reconhecem nessa inevitabilidade, mas jogam ainda assim o jogo com algum distanciamento e afectação.
Às vezes é isto que se passa, outras vezes o argumento também da autoria de Dylan Kidd, quem sabe talvez deslumbrado com o seu aparente virtuosismo, limita-se a reproduzir uma visão do mundo concordante com centenas de briefings trabalhados diariamente por agências publicitárias. Dylan Kidd e «Rodger Dodger» são prodígios ainda algo imaturos...

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Zé Cid

Se o José Cid tivesse conhecimento do que foi hoje o meu almoço, roer-se-ia de inveja...

Ao de leve

Respondo sem aprofundar à questão que intriga o Burn do instigante Caso Arrumado. O meu entusiasmo pelo CD dos Tribalistas nunca foi excessivo. Não gosto da sobreposição das vozes, e aquele sentimento pop que eles pedem emprestado aos Beatles e que já dera "cocada" no «Omelete Man», do Carlinhos Brown, torna-se novamente enjoativo. Mas é um disco com algumas excelentes canções - em particular as mais calminhas... Em relação ao desgaste produzido pela repetição massificada de determinadas músicas, devo confessar (corando!) que, apenas para dar um exemplo, nunca me fez gostar menos de «Frozen», de Madonna. E assim, envergonhado, I rest my case...

Mellow Gold

Ela já teve a sua fase "bitter", mas agora está mais "mellow". Ela chama-se Meshell (Ndegeocello) e tal como Bjork é conhecida apenas pelo primeiro nome. Meshell tem uma das discografias mais inatacáveis da música afro-americana, conseguindo sintetizar sonoridades aparentemente tão díspares como as de Prince, Led Zeppelin e Ryuichi Sakamoto - este último dos discos «Heartbeat» e «Sweet Revenge». O seu novo «Comfort Woman» já foi lançado internacionalmente, embora por cá só esteja nas lojas a 2 de Fevereiro. Tem sido umas das companhias mais assíduas nos meus dias de trabalho, e as sucessivas escutas mais ou menos atentas revelam uma sequência de temas lânguidos, de uma sensualidade vaporosa, cósmica, que se agarra à pele como o fazem as brilhantinas que iluminam a cara de Meshell na capa do disco. E depois, a circunstância de Meshell ser lésbica ajuda no facto de partilharmos com ela o mesmo referente sexual. «Confort Woman» vale o seu peso em ouro, não pelo número de discos que poderá vender mas pela qualidade da música que encerra.

Uma História Simples

O Sporting fez ontem o seu pior jogo deste ano. Uma equipa totalmente desconcentrada e sem atitude competitiva. Todas as novidades funcionaram para pior. Regressos quase nulos de Paulo Bento, João Pinto e Pedro Barbosa. Uma displicência confrangedora de que foram únicas excepções Nélson e Anderson Polga.
Um Setúbal de contra-ataque na 1ª parte, a trocar bem a bola e a ganhar todos os ressaltes. No segundo tempo remeteram-se à defesa com algum anti-jogo pelo meio - jogadores a cairem na relva sem motivo aparente, pontapés de qualquer maneira para aliviar a pressão...
A arbitragem do Sr. Paulo Paraty oscilou entre o patético e o tendencioso. E Fernando Santos, o que fez o nosso armador? O engenheiro surpreendido (uma vez mais!) nada fez para além três substituições provavelmente justificadas...
O Sporting começou a cantar (Liedson fazia anos!) e prosseguiu completamente desafinado. Derrota e consequente eliminação mais que merecidas. O Sporting teve quase 90 minutos para pelo menos levar o jogo a prolongamento, e ao contrário do Vitória de Setúbal nada fez...

quarta-feira, dezembro 17, 2003

Se isto não é um Autor

Fazer tempo na Fnac significa sempre gastar algum dinheiro, mas, por outro lado, a redescoberta de um filme – ainda por cima de um filme que não havia deixado uma impressão por aí além quando visto em sala – é uma coisa magnífica. Aconteceu-me algumas vezes... andar de volta dos DVD’s e escolher comprar um título que não me havia suscitado grande entusiasmo, mas que por alguma razão mais secreta se impunha agora a outros cuja impressão em sala fora precisamente a oposta. «John Carpenter’s Ghosts of Mars» é um desses casos (e fez as delícias da semana em termos cinematográficos!) e, se me escapou o habitual link para o AllMovie Guide, é porque a opinião deles sobre o mesmo filme é “abaixo de cão”. Que grande fita! A co-autoria de Carpenter no argumento terá sido decisiva para que esta seja mais uma variação sobre o modelo «Rio Bravo», de Howard Hawks, referência que John Carpenter faz questão de tornar pública a cada nova ocasião. «... Ghost’s of Mars» pode assim ser entendido como um aglomerado de western desértico, ficção científica de baixo orçamento e filme de vampiros heavy-metal. A intriga é conduzida através de uma série interminável de flashbacks que a certa altura dão ao filme como que uma existência cada vez mais virtual, cada vez mais fantasmagórica...
John Carpenter cruza “pancada da grossa” com a conceptualização própria a quem vai reforçando os estatutos autoral e (auto-)referencial no modo muito pessoal de contar uma história e nos elementos que integram a mesma: é aqui que surgem o culto do individualismo, a masculinidade extensível às próprias mulheres e a conjugação de esforços em lados opostos da lei no combate a um inimigo comum. E há também espaço – como sempre! – para o comentário de cariz político que representa a espécie humana com uma dimensão mercenária que lhe é inata. «John Carpenter’s Ghost’s of Mars» é ainda um divertimento delirante que conjuga com requintes de selvajaria diferentes iconografias, descarregando na banda-sonora a melodia ensurdecedora das guitarras (a música é igualmente da autoria de John Carpenter!) e obtendo um gozo muito particular na estilização das cenas de combate onde não faltam apontamentos gore dignos de quem domina também este subgénero cinematográfico.
Numa sociedade matriarcal (o sonho húmido de qualquer misógino!), John Carpenter dá a conhecer a tenente Melanie Ballard (Natasha Henstridge) e o fora-da-lei James “Desolation” Williams (o rapper Ice Cube), as faces loura e negra, voluptuosa e musculada, da mesma moeda, que se irão confrontar e mais tarde juntar forças para que, assim em Marte como na Terra, nunca deixe de existir alguém disposto a aviar uns quantos indigentes - em inglês do Texas, “to kick some ass”.
Bem-vindos ao retro-futurismo ou ao neo-primitivismo, tanto faz.

terça-feira, dezembro 16, 2003

Dilema Lynch

David Lynch tem sido um dos cineastas mais representados nas colecções de DVD's que habitualmente saem com os jornais portugueses. Eu (como muitos!) já tive pelo menos oportunidade de comprar "por tuta e meia" o «Mulholland Drive» e o «Lost Highway», encontrando-me igualmente a postos para o DVD de «Uma História Simples» que sairá com o Público desta quinta-feira. O dilema prende-se com a surpresa de ver anunciada a opção de compra de «Dune» com o DN de sexta-feira próxima. «Dune» foi um filme que vi em diferentes fases da vida; cuja defesa li da "pena" de Bénard da Costa (por exemplo); que era objecto de entusiasmo e análise por parte de alguns professores da Escola de Cinema; mas que sempre me suscitou tédio e indiferença. Reconheço-lhe o estatuto de culto, e o apreço que tenho por grande parte da obra de Lynch até me leva a considerar a hipótese de deixar de considerar este estranho filme um enorme "pastelão", mas não estou certo de para efeitos disso mesmo ir desembolsar os 8 Euros da praxe...

Aceitam-se opiniões e/ou sugestões para www.ricardogross@caixaalta.pt

OBRIGADO(S)

MPB 2003

Primeiro Acto:
Estes foram os melhores discos de música brasileira que comprei este ano. Só o primeiro da lista não se encontra por cá. Mas, afinal, com a Internet, até o Brasil se torna geograficamente num país vizinho. Em relação à matéria do conservadorismo de gosto, arrisco afirmar que seja ainda mais assumida por mim do que pelos artistas em causa. Outras listas de cinco títulos seguir-se-ão nos próximos dias...

Segundo Acto:
Chico Pinheiro - Meia Noite, Meio Dia (importação Net)
Dori Caymmi - Contemporâneos (importação lojas)
Ney Matogrosso - Interpreta Cartola Ao Vivo (importação lojas)
Maria Rita - Maria Rita (Warner Music)
Ed Motta - Poptical (Trama/ Universal)

Terceiro Acto:
À falta de «Manhatã», de Caetano Veloso, que deslocou a data do seu lançamento algures para o próximo ano, não consigo ver que outro músico possa ter ficado esquecido. Quanto ao fenómeno Tribalistas que tinha muito mais piada quando a «Velha Infância» era ainda nova, dou graças pela descoberta de Maria Rita e da sua proposta que vale bem mais pela negritude do som do que todas as cores do arco-íris do disco de Arnaldo, Carlinhos e Zé.

Just a Gigolo

Wayne "Mad Dog" (DeNiro) passa a sua primeira noite de amor com Glory (Uma Thurman), apresentando-se depois ao serviço ligeiramente eufórico. O diálogo tem lugar após mais uma operação policial:

Mike (David Caruso) - Did you get laid last night?
Mad Dog - Mike, I don't get laid. I make love.

Como eu gosto deste filme... !

Porta dos Heróis

Reportagem no jornal da noite da SIC: em cada criança israelita ou palestiniana sobrevivente de um ataque suicida, reside um potencial kamikaze. Uma conclusão que vai de encontro à argumentação da filosofia budista (referência que não consta da mesma reportagem) que diz que a violência gera invariavelmente mais violência. Para quem já desistiu da vida - alienando a sua existência às organizações terroristas -, nada melhor do que sair pela porta dos heróis...

Babugem nuns segundos

«Zidane. Francês do Real Madrid eleito melhor futebolista do ano.»
Não podia estar mais de acordo!

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Fogo

A escaldar na minha mesa de trabalho estão os DVD's de «A 25ª Hora», de Spike Lee e «Mad Dog and Glory», de John McNaughton. O primeiro é um dos três melhores filmes estreados este ano, a justificar plenamente uma retrospectiva por parte da Cinemateca Portuguesa em torno da obra de um dos mais relevantes cineastas dos últimos vinte anos. O segundo tem origem num incrível argumento offbeat de Richard Price, que resulta na mais original comédia romântica que alguma vez vi - como se Jim Jarmusch filmasse o «After Hours» de Scorsese com direcção de actores - Uma Thurman, Bill Murray, Robert DeNiro - a cargo de Aki Kaurismaki.
Dois filmes magníficos (chegados via Amazon.fr) que, convém notar (!), não custaram o mesmo que os monos das Edições Avante, mas que ficaram antes pelo preço das novidades Gallimard $$$$$.

Associação dos Ofendidos da Justiça

Tem entre os seus mais ilustres signatários o decano do jornalismo desportivo Alfredo Farinha. Representa um conjunto de indivíduos do Sport Lisboa e Benfica que acredita ainda que o Pai Natal é calvo; que paraíso fiscal é o local para onde os empresários honestos vão quando morrem; que Lucky Me é nome de medicamento contra o vício do tabaco; e que Sergei Ovchinnikov não passa de uma marca de caviar que não se impôs junto dos consumidores portugueses.

Q&A

- Qual é a canção do novo disco dos Rádio Macau que parece retirada do alinhamento de «Sea Change», de Beck?
- A número 7, «Deserto».

Paulo Branco apresenta...

Uma co-produção norte-americana e inglesa com alguns trocados da península Ibérica. Um filme de George W. Bush. Recordações da Casa Amarela, protagonizado por Saddam Hussein.

Obs. O ex-ditador dispensa qualquer tipo de caracterização.

Nemo

Quem peixe procura, peixacha.

sábado, dezembro 13, 2003

Luzes da Cidade

Encaro cada Sexta-feira à noite com a ansiedade de quem vai finalmente descomprimir de uma semana carregada dos mesmos horários e dos mesmos compromissos de todas as outras. Às vezes, há que aguardar um pouco mais pelo desanuviamento que tarda em se instalar... Jantei esta Sexta-feira mais tarde do que é habitual mas, em contrapartida, fui surpreendido com a redescoberta de um dos melhores restaurantes de cozinha indiana (que, por acaso, também apresenta um menú de especialidades italianas!) da cidade: refiro-me ao Delhi Palace, situado na Rua da Padaria a caminho do Castelo de S. Jorge - óptima comida servida com a dose certa de simpatia e educação. Mas as surpresas da noite não se ficaram pelos carís e pelo basmati: é forçoso reconhecer que o presidente da Câmara sabe montar um espectáculo digno desse nome. As luzes de Natal na baixa lisboeta estão mais bonitas do que alguma vez foram, com bolas e estrelas volumétricas que nos fazem reviver o maravilhamento próprio à infância. Talvez inspirado por esse estado de alma (ou seria já o «Casa de Santar» embrulhado com o molho de côco a fazer das suas...) resolvi fechar ainda as minhas contas com a loja de discos Ananana onde comprei «The Mess We Made», de Matt Elliott (um disco sombrio mas fascinante que escuto neste preciso instante!) e onde me ofereceram o novíssimo ep de James Yorkston and The Athletes, «Someplace Simple». Entrei e saí com tal pressa (o carro ficara onde dera, com os piscas ligados!) que os dreads aglomerados sobre os paralelos dir-se-ia terem-me confundido com um estafeta um pouco mais bem vestido do que é habitual. Era apenas um pacato cidadão em velocidade acelerada que desfrutava das primeiras horas de uma descompressão afinal ilusória...

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Silêncio

Ninguém me encomendou o sermão, mas vou dá-lo ainda assim. Trata-se do meu disco deste Natal que surpreenderá numa área saturada pela concorrência - no Natal os tenores vendem-se como perus. John Potter, uma das vozes que integrava o prestigiado Hilliard Ensemble, voltou a reunir-se com Stephen Stubbs (guitarra barroca), John Surman (sax soprano, clarinete baixo), Maya Homburger (violino barroco) e Barry Guy (contrabaixo) - que por sua vez se denominam de Dowland Project - numa leitura nada reverencial de canções e madrigais de Monteverdi, Purcell, da Rore, Ferrari, Rognoni e outras luminárias que desconheço por completo. «Care-charming sleep» editado na ECM Records - que com total justiça descreve o seu riquíssimo catálogo como contendo «a mais bela música depois do silêncio...» - é a abençoada iconoclastia que resulta num exultante disco cheio de canções tristes. Um paradoxo que assenta perfeitamente no espírito da quadra. May the BEST turkey step forward!

quinta-feira, dezembro 11, 2003

O rei vai nú (mas leva gel no cabelo)

Para um leigo em política como eu, a clareza deste texto de Pacheco Pereira é da ordem da estupefacção.

Natal Feliz (última parte)

No início da fase madura da sua carreira, Camané gravou um falso disco ao vivo a que chamou «Uma Noite de Fados». Nos estúdios da Valentim de Carvalho simulou-se uma casa de fados que não existia, do mesmo modo que Marceneiro pedira um dia que lhe tapassem os olhos para, estando ele num estúdio de gravação, conseguir imaginar-se numa casa de fados. Durante a tournée internacional de Camané suportada já pelo seu segundo disco – o mais sincopado e igualmente muito belo «Na Linha da Vida» - uma bondade clandestina deu origem a um CD que de pirata tinha apenas a edição – Camané ao vivo numa «quase impronunciável», mas importantíssima, sala de espectáculos holandesa –, hoje apenas na posse de umas poucas dezenas de felizardos insuportavelmente persistentes como eu.
Agora já não é preciso ir tão longe. O melhor, mais generoso e mais original disco ao vivo que Camané jamais gravou, está por todo o lado. A selecção dos fados que figuram no mesmo deve ter dado um trabalho imenso: como escolher entre diferentes graus de absoluto? O que é ser mais perfeito, menos perfeito ou mais perfeito ainda? O resultado só não é inacreditável porque Camané é a encarnação dos impossíveis na história do fado – falo do que ouvi, e já ouvi gravadas todas as vozes de referência de um género que nunca conheceu nada assim...
Há pouco tinha um nó na garganta (sempre é uma imagem mais feliz do que «uma lágrima no canto do olho»!), mas também não é a cantar que me proponho convencer-vos de que se existe um disco de compra indispensável em mais um ano de excelente música (todos os géneros incluídos!), esse disco é, sem dúvida alguma, «Como Sempre... Como Dantes». O mais belo estilar do fado está presente nas trinta faixas destes dois CD’s: primeiro em salas grandes, depois na Taverna do Embuçado. Percebam (passe a presunção!) como são impotentes penteados, costureiros e colunas sociais face a uma voz que só verdadeiramente se explica quando canta. «Como Sempre... Como Dantes».

Se neste exacto momento...

...mais precisamente há dez minutos atrás... antes do intruso insensível ter baixado o volume já de si baixo... alguém me tirasse uma radiografia ao cérebro... o resultado seria a imagem de uma «super-bichona» a abanar-se ao som do último BBR.

Silogismo da Bulhosa

Vou entregar finalmente a minha proposta de adesão ao cartão da melhor livraria de Lisboa. Se não for a melhor, pelo menos é a de que mais gosto. Fica em Entrecampos, o que também dá imenso jeito. Tem alguns funcionários muito prestáveis, outros excepcionalmente menos. Nunca pedi para irem buscar um livro «ao outro lado do mundo», mas quando a coisa se resolve pelas livrarias da cadeia, resolve-se em menos de 24 horas. Sempre que um amigo ou um jornal ou uma revista me despertam a curiosidade sobre determinado livro, é lá que os encontro - sejam as tiragens de 300 exemplares ou de 300 mil! E não resisti quando me pediram, meio educada meio envergonhadamente, para colocar a dita proposta de adesão junto do livro comprado nesse dia.
Gosto muito de música e de cinema também, mas comprar um livro dá-me mais prazer do que qualquer outra coisa que possa comprar. As boas livrarias são a melhor forma de não nos sentirmos totalmente sós quando não queremos companhia. E nunca existirá um melhor suporte para a palavra escrita. O papel é como que o prolongamento ideal da pessoa do autor. O leitor é como que o prolongamento ideal do objecto livro. Donde, não é com sabão azul e branco que nos lavamos por dentro.

O que se diz de um filme...

Hesitei alguns segundos... mas acabei por comprar o DVD que acompanha a Visão de hoje. Trata-se do filme «Death and the Maiden»/ «A Noite da Vingança», realizado por Roman Polanski em 1994. Tenho uma vaga recordação de ter gostado de o ver em sala, mas lembro-me sobretudo de ter falado sobre ele com o então meu professor da Escola de Cinema, e agora meu amigo, João Lopes. O João chamava a minha atenção para um pormenor puramente visual que remetia o filme para paragens ainda mais aterradoras - tudo a propósito da existência de uma só luz que se apaga neste cenário de tortura, com todas as consequências que a extinção da mesma acarretará em termos de suspense. O João Lopes que há dez anos atrás me levara o ver o filme de Polanski com a inteligência da sua argumentação, faz-me antecipar de novo o reencontro com «A Noite da Vingança» sem que para isso tenha existido qualquer outra conversa. Há palavras que ficam... O que se diz de um filme é sempre mais importante do que o filme propriamente dito.

Balcão Central

Os bilhetes para os concertos de Maria Rita - 9 e 10 de Janeiro próximo, no Coliseu de Lisboa - custam entre 20 e 50 Euros. Estes preços levam a pensar se os promotores do evento não terão perdido a cabeça, embora a questão seja mais de pura-e-simples «chulice» do novo-riquismo «esohistérico». Os VIP's irão todos a correr ver a reencarnação da Elis Regina e dos tempos em que ainda não se preocupavam com plásticas, e quem, mais prosaicamente, gosta apenas de boa música, terá de alinhar a contragosto na especulação. Procurando ser moderado, desembolsei ainda 32.5 Euros por bilhete. Vou sentar-me com os VIP's do Bloco... perdão (!), do Balcão Central.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

A culpa é do barrete

O Natal também pode ser ridículo. Porque é que funcionárias das caixas do Pingo Doce são obrigadas a enfiar o barrete de Pai Natal com ar de enfado? É que quem mostra ar de frete, ar de frete recebe. A compaixão não se dá bem com as grandes superfícies comerciais.

Deyampert «Shapes & Colors»

Pessoas a quem devemos agradecer por mais este GRANDE disco na intersecção da soul com a house e a electrónica: aos Jazzanova que o apadrinharam; ao Sonar Kollektiv que o editou internacionalmente; à Symbiose/ Vortex que o distribui entre nós e ao Ricardo Saló que é das poucas boas razões para continuar a carregar com o «Espesso» todas as semanas. File side-by-side with Ursula Rucker and Two Banks of Four. Great, amazing, terrific, excellent stuff. (Ricardo Gross, in Babugem)

P.S. Amigo Victor G. e estimado Carlos, este CD é MESMO para vocês!!

Café da Manhã

Estava como de costume a aguardar pela minha boleia num dos cruzamentos de Campo de Ourique, mastigando uma bola de berlim para fazer horas, quando vejo caminhar na minha direcção uma velhinha que me saúda da seguinte forma: «... o que é preciso é cumer e buber e quem ficar cá que se f***!». Perguntou depois se eu sabia onde ficava o Posto Médico «... onde tratam duma pessoa...» e seguiu o seu caminho.

Natal Feliz (parte 1)

Este ano, o Natal começou para mim no Sábado passado. Ainda não tinha escrito de viva voz que considero June Tabor a melhor voz ainda viva. E mesmo que todas as outras vozes já mortas fossem ainda vivas, a de June não deixaria de se sobrepor a elas todas. «An Echo of Hooves», assim se chama o disco que me chegou no Sábado e que cumpre o desígnio de apresentar arranjos instrumentais diversos que remetem para diferentes momentos de um percurso sem outra mancha além do «grão» da sua própria voz – acompanham os regulares Huw Warren (piano) e Mark Emerson (violino), o regressado Martin Simpson (guitarra), com inesperada intervenção, também em duas canções, da estrela dos Northumbrian pipes Kathryn Tickell. O repertório é uma vez mais constituído por baladas inglesas e escocesas, algumas provavelmente de tradição oral. June Tabor descreve assim este seu disco: «For me, the Ballads of the English (and Scots) speaking peoples are story telling at its stark, urgent best. As you listen – for these are songs in wich poetry and music are equally important – feel the wind and rain, see the Hunter’s moon rise and catch an echo of hooves on the night air.» . Que não restem dúvidas de que ninguém interpreta estas histórias (que invariavelmente acabam mal...) com a serenidade de June Tabor. Ela é como o oráculo que recebe, reproduz e prolonga diferentes tradições e culturas numa só voz. «An Echo of Hooves» volta a ser o mais profundo e belo eco de todos. Ainda muito vivo, para nossa maior felicidade. Um dos discos do ano... que ganhará a eternidade.

terça-feira, dezembro 09, 2003

«Um dia sem sexo é um dia desperdiçado!» (Bob Crane)

Há qualquer coisa de «pacto faustiano» no novo filme de Paul Schrader. Greg Kinnear (Bob Crane) e Willem Dafoe (John Carpenter) interpretam indivíduos viciados em filmar as suas proezas sexuais que entram numa montanha russa orgiástica de imparável ascensão seguida de previsível queda. O movimento (o pacto!) dura no filme cerca de 14 anos - entre 1964 e 1978 - e muitas «cavalgadas» depois irá terminar com o assassinato de Bob Crane, uma estrela da TV americana cuja história Auto Focus adapta. Se o Diabo/ Carpenter depende do charme e da popularidade de Fausto/ Crane nos engates compulsivos, também Bob depende e muito dos conhecimentos técnicos de John que lhe permitirão transitar de leitor secreto de revistas masculinas para realizador fascinado com a pornografia caseira. Na prática, Bob funciona como isco para as mulheres, ao passo que o equipamento (o isco na sedução a Bob!) é da responsabilidade de John.
E como se estas cambalhotas não bastassem já, o que surpreende mais ainda é que Schrader filma este tipo de conduta sem moralismos, antes com uma candura que não anda longe da que Spielberg aplicara à trajectória do burlão Frank Abagnale Jr. no igualmente excelente Catch Me If You Can. Bob Crane é também apresentado como um all american boy cuja aparente ingenuidade esconde um comportamento obsessivo. Bob deixa pelo caminho dois casamentos – o último dos quais nascido de um invulgar pacto, de outra natureza, que será duramente posto à prova... – pois nunca está em casa, e quando está passa o tempo de volta dos seus home movies. E há finalmente o subliminar homoerotismo que se observa na relação de Bob e John, feito da repetição de rituais de adolescência tardia como a masturbação conjunta.
Auto Focus - que evolui da estética technicolor pastel até ao grão da imagem e à instabilidade da câmara - é mesmo a mais inesperada das surpresas de um ano em que, uma vez mais, os americanos salvaram a honra da sétima «dama»: Clint Eastwood, Gus van Sant, Spike Lee, Steven Spielberg e agora Paul Schrader.

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Sintra

A casa de chá do Restaurante Colares Velho, e todo o espaço em volta – com igreja, coreto, Serra ao fundo e luz de fim de tarde... – faz maravilhas pela vida sentimental de qualquer um. Mesmo que ela dispense a intervenção de um suporte mágico d(est)a natureza. Fica no Largo Dr. Carlos França, números 1 e 2. Aconselho o chá completo com dois scones e uma majestosa fatia de bolo.

Carvões da Vida

O isco era a banda-sonora de David Byrne a que fiz referência num post anterior. A utilização desta no filme de David Mackenzie é decepcionante, porque decorativa. Aliás, todo o filme não consegue ir além da criação de uma atmosfera glauca, desoladora, que remete vagamente para a obra-prima de Jean Vigo, “L’Atalante”: o triângulo amoroso constituído pelos marinheiros novo e velho e pela mulher de um deles, o transporte de mercadorias no rio, o trabalho com o carvão que alimenta o barco, alguma sordidez própria a este universo... Mas com o filme “Young Adam”, de Mackenzie, percebi que algumas coisas não eram para perceber. Começando pelo título – young who? E a caução literária com a muleta de Camus não ajuda a tornar o filme mais interessante. E menos opaco. Mas tudo bem. Há a pretensa questão justificativa do absoluto egoísmo e indiferença do aqui inexpressivo Ewan McGregor, e a exclusão de qualquer outra pulsão que não a do sexo – figurado aliás com requintes canídeos próprios a esta distorção da vida. E que relação com a experiência humana – como a que existia, por exemplo, no filme de Jean Vigo? Muito pouca para demasiada pose. “Young Adam” exibe constantemente o seu ultrapassado estatuto de objecto artístico do dirty realism na angustia diletante do seu protagonista. Descambando numa apatia toda ela cerebral. Nada de muito excitante, portanto.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Premiere

Sem filme que interesse. Menos 10 Euros. Na maioria das vezes, passo.

Os poetas também se abatem

Fernando Pinto do Amaral - professor, crítico literário, poeta - entra/ subitamente pela carruagem do Metro/ adentro. Respiração ofegante - afinal/ os poetas também sabem "sprintar"... / Desapareceu, num ápice, / na estação seguinte. Ainda consegui ler algo/ no seu rosto. O esforço, imagem mais pungente/ do que muita coisa que se escreve... e publica.

Fancaria

Anda por aí anunciada uma foleira "Colecção Caixinhas de Surpresa - Só quem usa é que sabe o que têm dentro", mais uma jogada chico-esperta do 24 Horas para cativar leitores que sejam igualmente fumadores. Já deu para perceber para que servem as ditas caixinhas... E também, se dúvidas houvesse, para constatar que o 24 Horas é uma espécie de "lojinha dos trezentos" da imprensa portuguesa. É só fancaria: por dentro e por fora.

Acontece

Comprar o Correio da Manhã à sexta-feira. Enrolá-lo no Público para parecer melhor. Fazer da carruagem de Metro a minha "sala de estar". Não ler para além da página 2. Oferecer o jornal de dentro.

A Estranheza do Mundo

Reagindo ao fascínio que Jeffrey manifesta por Dorothy Vallens e pela história de contornos sórdidos a que esta parece (ainda só) estar associada, Sandy diz não saber se o deve chamar de detective ou de pervertido? Apesar de já movida pelos ciúmes em relação à figura da cantora de “Blue Velvet”, Sandy toca na questão central do cinema de David Lynch e na própria essência da Sétima Arte. A saber: a coexistência em todo o espectador da sala escura de ambas as dimensões – a de detective e a de pervertido – assumindo, quer uma quer outra, maior preponderância, consoante o caso. O que David Lynch na prática nos mostra é que todo o cinema se alimenta da nossa curiosidade, da nossa vontade de querer ver e saber mais, e que finalmente nos larga à amarga constatação de sermos todos irremediáveis pervertidos. Neste jogo de sedução e decepção, neste filme sonhado em forma de pesadelo, reside a especificidade do cinema todo – tudo o resto é literatura!
Só falta dizer que ontem à noite (como convém!) revi em DVD - intocado no seu elevado grau de perturbação – o fascinante “Blue Velvet” (1986), um dos filmes que tem mais cinema dentro e, muito possivelmente, a obra-prima incontestável de David Lynch. Eu, menos detective e mais pervertido, me confesso...

quinta-feira, dezembro 04, 2003

Blogue do Eu Sozinho

Comecei por ficar logo fascinado com o título do disco: "Bloco do Eu Sozinho". Mas a única música que conhecia dos "caras" - "Anna Júlia", do anterior CD - era assim a puxar para o enjoativo. No entanto (atenção Indígena, apontem mais esta!), as entrevistas de Maria Rita - com referências elogiosas aos tais Los Hermanos do "Bloco do Eu Sozinho" (2001), onde fora buscar o tema "Veja Bem Meu Bem" mais o compositor Marcelo Camelo que entrou com vários originais no seu arrasador disco de estreia - tinham feito disparar irreversivelmente a minha curiosidade para com os Nirvana do hemisfério sul, esta espécie de Strokes baianos, cariocas ou paulistas. O disco não desiludiu, muito pelo contrário: já não ouvia rock brasileiro deste calibre desde o eclipse dos saudosos Legião Urbana. Coloco lado a lado as quatro referências - duas americanas vs. duas brasileiras - pela qualidade da escrita evidenciada, pela invulgaridade das composições mesmo quando mais ruidosas (da escola dos Beatles do "álbum branco") e pela conservação intacta da imediatez própria ao rock... que rola. Os Los Hermanos está visto (!), passaram a fazer parte da família.

More Than Just a Gigolo

Preenchi uma parte pequenina da manhã pesquisando a filmografia de Bill Murray que regressará em breve ao nosso convívio através do muito aguardado novo filme de Sofia Copolla, "Lost in Translation" (estreia a 23 de Janeiro de 2004). O AllMovie forneceu informação suficientemente detalhada. Dei conta de que a minha ainda imberbe dvdeteca apresenta lacunas indesculpáveis em relação ao maior comediante de cinema vivo: comprei há pouco tempo os originalíssimos e ternurentos "Rushmore" e "The Royal Tenenbaums", ambos de Wes Anderson. Mas, e então, cadê (?) o "Groundhog Day" (Harold Ramis), o "Ed Wood" (Tim Burton) e o "Mad Dog and Glory" (John McNaughton), este último uma das minhas "comédias românticas" favoritas de sempre - que não possui uma versão karaoke de "More Than This", por Bill Murray, mas, em compensação, mostra-nos um De Niro surpreendente a cantar com a jukebox o "Just a Gigolo"... Como se poderá observar através da consulta ao referido site, Bill Murray foi fazendo muita porcaria ao longo-da-sua-já-longa carreira, mas também está associado a algumas das melhores comédias que o cinema nos deu nos últimos vinte anos. Poderão ter sido poucas, mas compensam a sua escassez com uma irreprodutível originalidade. Acrescentará Sofia Coppola algo de novo a este desconcertante património? A avaliar por "The Virgin Suicides", creio bem que sim! Quanto ao resto, www.amazon.co.uk/ fr/ de/ whatever...

quarta-feira, dezembro 03, 2003

A Lógica da Cevada

Se alguém definir o som dos ingleses The Fall como rock proletário, não é de música que está a falar. Agora, imaginar que eles dão vontade de dançar como se alguém nos estivesse a dar choques eléctricos, aí já estamos a comunicar on musical terms... O nada carismático - logo, imensamente carismático! - Mark E Smith (que tem cara de quem passa os dias a encher-se de cerveja), sempre zangado, solta há mais de vinte anos umas bojardas monocórdicas (ter-lhe-ão dado um nó cego nos miolos estando ele distraído?) enquanto a banda produz um som igualmente atordoante. Para conhecer melhor o subversivos The Fall numa altura em que música desta ainda passava da porta das multinacionais (no caso a Polygram, depois da Warner), têm à disposição a compilação "The War Against Intelligence - The Fontana Years" a preço "camarada" - é ir à discoteca do Atrium Saldanha para o efeito. Entre singles vários e álbuns de culto como "Extricate", "Shift-Work" e "Code: Selfish", este pessoal levou em diante uma luta feita de abanões de ancas e pontapés na cabeça. A guerra era deles. A inteligência também.

Um Lento Espreguiçar

Gostei de ouvir o novo disco dos Rádio Macau que comprei hoje. A banda de Xana, Flak, Alexandre Cortez e Filipe Valentim simplificou os processos criativos. Se "Onde o Tempo Faz a Curva" era a noite que se queria moderna e electrónica, o regresso ao trabalho parece resultar na recordação dessas mesmas noites por parte de quem já prefere estar por casa... Tudo ficou mais arejado e cristalino: música e letras. E penso que objectos planantes não identificados como os que constroem os Sigur Rós e os Mogwai passam também por aqui. O disco dos Rádio Macau lê-se "Acordar", mas é exactamente o oposto que apetece fazer enquanto o estamos a ouvir. Música de sofá? É do meu género!

terça-feira, dezembro 02, 2003

A confissão de Beto

A receita parece estar a resultar. Sala cheia em feriado cheio de chuva. Plateias que se reconhecem num Portugal de papelão. Em que os personagens projectam imagens-feitas de actores que só dão o corpo. Em que a história é pouca e a intriga acena com histórias que não sabe contar. Os homens, todos umas bestas. As mulheres, todas umas... vocês sabem! E muito realismo "tuga" à mistura: a bejeca pela manhã, o palavreado misógino, o whisky a toda a hora, o fado do cansaço (... ai os imortais, os imortais!), a confissão de Joaquim de Almeida para o gravador que não acaba nunca... É assim "Os Imortais", de António Pedro Vasconcelos, ou como um autor manco falha a qualificação para as olimpíadas do cinema industrial.

Epifania

Mais do que qualquer outra arte, a música representa o suplemento de beleza que me faz acreditar que o silêncio pode surgir da perfeita conjugação de sons e palavras. Isto deu-se enquanto ouvia o deslumbrante último disco de Dori Caymmi, "Contemporâneos": estando eu onde devia, estava já também onde queria estar... Os contemporâneos são os irmãos de Dori, Danilo e Nana, e ainda Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo e Renato Braz.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Pessoal e Transmissível

Entre um copo de Whisky e um gravador de quatro pistas, Melo D gravou o seu primeiro disco da era pós-Cool Hipnoise. Apostou numa música caseira, onde os beats asseguram a fluidez de um discurso que sacrifica a rima em favor da utilização da palavra justa. "Outro Universo" é das propostas mais despretensiosas que ouvi este ano. Melo D preocupa-se em enumerar as suas influências - que vão de João Gilberto aos Public Enemy, passando por Wes Montgomery -; homenagear as figuras paradigmáticas de Marvin Gaye e Barry White; contar-nos tudo o que necessitamos saber sobre a história do hip-hop, em 5 minutos ("Influência"); e celebrar o funje que a mãe cozinha todos os Domingos. "Outro Universo" tem dentro de si uma música feita do mesmo interesse e da mesma paixão que Melo D sempre procurou no trabalho dos outros. O homem é um ser espiritual, alguém que gosta tanto de música que se dispôs a trocar o estrelato pelo balcão de uma loja de discos onde provavelmente poderá fazer sentir a(s) sua(s) influência(s) a um nível mais pessoal e profundo.

Vodka Geral

Sábado, já de noite. Jantar de aniversário no renovado Bolshoi. A carismática Helena, a russa dona e animadora do restaurante insiste nas canções ambiente de Adriana CalCANHOTTO.

A Luta Continua (à chuva)

Sábado à tarde. Entre mim e a loja de discos da Ananana encontra-se uma manifestação de trabalhadores da CGTP que enche a Av. da Liberdade, de alto a baixo. "Está na hora... Está na hora... Do governo ir embora". Camaradas, a isto chamo eu de sacrificar interesses individuais - os meus (!), que vi restringida a minha boleia à Rua das Pretas... - em favor dos interesses colectivos. Furo pela manif já parcialmente encharcada em direcção a outra gente e a outras músicas. A chuva, surda como é e alheada da luta de classes também, vai molhando tolos à esquerda e à direita.


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