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quinta-feira, janeiro 29, 2004

Coitado do Igby

Igby é um puto de dezassete anos que só está bem onde não está, porque toda a sua existência foi condicionada por um pai esquizofrénico e por uma mãe possessiva agarrada a bebidas espirituosas e comprimidos. Igby resolve então pirar-se da sua família disfuncional, deixando também para trás um irmão mais velho, snob e oportunista. Já em plena Manhattan, esconde-se num enorme estúdio onde trabalham dois artistas frustrados: uma bichona fassbindereana e uma jovem mulher com pernas até ao rabo que serve de brinquedo ao seu padrinho – um adorável canastrão, daqueles que só suportamos ver no cinema, e que sabe apenas fazer dinheiro e ostentá-lo do modo mais cabotino possível. Mas «Igby Goes Down»/ «O Estranho Mundo de Igby» não chega a ser tão estranho assim. O lado mórbido e cínico que talvez constitua a sua maior originalidade, é-nos apresentado de início, quando os dois irmão tratam de assassinar a mãe, embora só mais tarde venhamos a descobrir que com a conivência desta. Tudo se resolverá com uma dose excessiva de barbitúricos administrada com iogurte de morango e, finalmente, um saco de plástico enfiado pela cabeça da megera. Burr Steers, o realizador, menino de boas famílias da elite intelectual norte-americana (é, segundo consta, sobrinho de Gore Vidal que também aparece trajando de padre), estreia-se com um filme próximo do universo do genial Wes Anderson (atenção! filmografia completa: «Bottle Rocket», «Rushmore», «The Royal Tennenbaums»), criando expectativas em relação ao que o futuro no cinema lhe reserva. Um filme em cujo protagonista nunca se separa dos seus All Star Converse, modelo Chuck Taylor, cor preta, tinha garantida à partida a minha simpatia.
«Igby Goes Down» não faz, no entanto, valer os seu méritos exclusivamente de um par de ténis. Reúne sobretudo um excelente conjunto de actores de onde apetece realçar o regressado Jeff Goldblum (comediante impagável a quem coube a figura do padrinho de charuto da mão direita, maço de notas na esquerda e calças em baixo); também Bill “Lost Highway” Pullman no papel do pai catatónico; e Susan Sarandon na execrável mãe de vernáculo ágil. Kieran Culkin, o nosso Igby, é igualmente perfeito a dar a rebeldia do protagonista, muito upper west side, e a ser consecutivamente fornicado pelas duas mulheres mais bonitas do filme – faltou referir a presença de Claire Danes.
Pessoa amiga que já leu «The Catcher in the Rye», o livro de J.D. Sallinger, assegurou-me que «O Estranho Mundo de Igby» é mais uma variação sobre esse modelo de culto da adolescência boémia, porque em ruptura com o mundo dos mais velhos. Foi aí que me silenciei no desconhecimento da obra em causa, e nada mais por agora tenho igualmente a acrescentar.

quarta-feira, janeiro 28, 2004

22 Euros

«O Estranho Mundo de Igby»/ «Igby Goes Down» que se encontra em exibição, apenas com duas sessões diárias, nas salas do El Corte Inglés, foi um dos cinco filmes que vi em sala na semana passada - há muito que não cometia tamanha proeza. Gostei do «... Igby» e sobre ele escreverei mais tarde. Por agora, adianto-me apenas no pormenor do filme de Burr Steers, em consequência, me ter levado a comprar o CD dos Dandy Warhols «thirteen tales from urban bohemia» e o livro «the catcher in the rye», de J.D. Sallinger. Excelente pretexto para o consumismo, este da aquisição de "referências".

O Triunfo dos Porcos

João Miguel Tavares põe o dedo na ferida em mais um excelente texto da «Geração de 70».

terça-feira, janeiro 27, 2004

Dos Benefícios Dum Vendido no Reino dos Bonifácios

A 27 de Janeiro de 2004, dia chuvoso, descobri com trinta anos de atraso a Banda do Casaco. Felizmente, ainda vou a tempo.

Básico

Vasco Pulido Valente (VPV, para abreviar) regressa às páginas dos jornais no DN da próxima sexta-feira. No entretanto, aqui fica, não sem alguma indignação, um pequeno excerto da entrevista que o mesmo deu no passado fim-de-semana (fds, para abreviar) à revista Notícias Magazine. Leiam e bebam uma água das pedras logo de seguida. Um chá também serve. Foi o que se arranjou nesta falta de tempo danada.
"Fiz uma pesquisa na Internet à procura de opiniões sobre si, e...
Posso dizer uma coisa? As pessoas que escrevem nos blogues, como muitas das que escrevem nos jornais, como as que falam na televisão, dão aquilo que elas julgam que serão opiniões. Políticos falhados, jornalistas frustrados e tanta outra gente completamente iletrada, que não conhece os assuntos, e podiam dizer aquilo, ou o contrário, que era igual ao litro. Mesmo a maior parte dos cronistas são ignorantes, e o que escrevem são crónicas desnecessárias ou desabafos, aquilo a que chamo jornalismo da indignação. Mas faz muito sucesso, porque como as indignações são básicas, há muita gente a partilhá-las, e a ficar feliz por o senhor X, que até escreve no jornal, pensar como elas."

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Não precisam de agradecer

As lojas Valentim de Carvalho apresentam mais uma campanha de DVD's, esta tendo a particularidade de incluir a 10, 11 ou 12 Euros (consoante o número de títulos comprados) os filmes «O Cabo do Medo» e «A Última Tentação de Cristo», de Martin Scorsese. Ou Deus e o Diabo na terra do bem e do Mal.

Danças Ocultas

O que de melhor se (ou)viu no programa II deste ano do Ballet Gulbenkian. O movimento de Gilles Jobin ou Paulo Ribeiro, sempre interessante (quando não apenas previsível), embora melhores as músicas seleccionadas do que o trabalho de ambos os coreógrafos. Para quando o terceiro disco do quarteto de concertinas Danças Ocultas? Os cerca de 40 minutos de música "nova" a que tive oportunidade de assistir, pede edição discográfica urgente.

Charlotte Forever

E se de repente nos descobríssemos espectadores de uma bela história de amor que foi tomando forma quase sem darmos por ela? Isso era Lost in Translation, de Sofia Coppola, filme feito de pequenos nadas que discretamente caminha para o grande todo. Delicado como um arranjo floral, começa por ser um objecto melancólico e amoroso, sustentado nas coincidências que aproximam o imprevisível par – Charlotte (Scarlett Johansson) e Bob (Bill Murray) – à deriva por uma Tóquio filmada como se se tratasse de um parque temático, de uma terra quase mágica, que também como que por magia transforma as emoções dos protagonistas em algo que eles dão a impressão de se encontrarem a descobrir connosco.
Sofia Coppola é novamente de uma sensibilidade rara no impressionismo do seu modo de filmar, embora arriscasse dizer que Lost in Translation tem mais das emoções da própria realizadora do que « The Virgin Suicides», o anterior e surpreendente filme de estreia. Coppola terá colocado os seus sentimentos ao serviço da história de Charlotte e Bob, e por isso é que, em última análise, Lost in Translation se revela tão genuíno e sedutor. Do filme amoroso faz-se o filme de amor. Da tristeza faz-se o sorriso. Da comédia romântica faz-se o melodrama. Bob e Charlotte (magníficos Scarlett e Bill!!) terão sempre Tóquio, e ter-se-ão sempre um ao outro na recordação da cumplicidade partilhada (muito) longe de casa. A isto chamar-se-á de renovação do melodrama. Ou, de forma pouco mais elaborada, tudo o que o cinema volta a permitir.

Miklos Fehér (1979-2004)

Hoje sentimo-nos mesmo ou quase todos ainda que por momentos benfiquistas.

domingo, janeiro 25, 2004

«Treze - Inocência Perdida» numa frase e duas palavras

Larry Clark, versão soft, embrulhado no código do realismo MTV para servir à geração Spears & Aguilera. Um horror!

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Coisas Explícitas

Ainda que de aparência libertina, «Coisas Secretas» é sobretudo um conto profundamente moral. Toda a nudez será castigada neste fascinante filme de Jean-Claude Brisseau. Como se o “fascínio” só tivesse lugar no cinema actual quando esse mesmo espaço é preenchido com a ousadia e o fingimento. Imaginem então uma versão contemporânea das «Ligações Perigosas», de Laclos. Aumentada na explicitude da sua crueldade e do seu cinismo, mas também na teatralidade dos espaços e no artificialismo do jogo das emoções. Brisseau revela-se, só agora para nós, já com meia-dúzia de longas metragens no currículo, um cineasta com uma liberdade figurativa característica dos grandes primitivos – muito além de géneros ou catalogações. Envolvido por um sentido operático da inocência trágica, da morte do desejo e, por outro lado, sabotando o radicalismo mais blasfemo de «Coisas Secretas» com uma atracção indecifrável, quase surrealista, pelos mistérios da imagem e da imagem feminina. «Coisas Secretas» remete, no meu entender, para aquilo que o grande poder sugestivo do cinema deixa ainda na penumbra, livre para a atribuição de todos os significados.
O cinema é, sabemos bem, uma mentira, uma imitação da vida, um logro, um produto ontologicamente artesanal mesmo num contexto de indústria – e só assim justifica a designação de 7ª Arte. O reino do desejo e da fantasia, onde o homem desafia e substitui-se na figura de Deus, o criador. Tudo neste «Coisas Secretas» é explícito e falso como um orgasmo simulado. E nós, alguns de nós, sabendo-o ainda assim simulado, sucumbimos à exposição do seu ardil porque o cérebro é afinal de contas a zona mais erógena do corpo humano, n’est ce pas? «Coisas Secretas» representa a “tesão” de atravessarmos um sonho onde se manifestam física e psicologicamente os fantasmas do desejo feminino, território amplo para delírios vários, especulações diversas e refinadas punições. E uma vez também investidos do lugar de Deus, figura em certa medida afastada para se tornar mais presente ainda no filme de Jean-Claude Brisseau, não hesitaremos na fruição do juízo final: o Paraíso teve os seus dias contados; cabe ao cinema limitar-se a prolongar a ilusão de que o mesmo é ainda recuperável, apesar dos seus contornos em muito se assemelharem aos de uma Via Sacra.

Obs. Este texto não tinha por objectivo figurar nas páginas do Jornal de Letras, embora possa dar a ilusão disso.

terça-feira, janeiro 20, 2004

Russell todo-poderoso

Tudo o que me apetece dizer sobre «Master & Commander», de Peter Weir, é que se trata de um filme honesto. O que é dizer pouco.

segunda-feira, janeiro 19, 2004

É o clítoris, estúpidos!

Meg Ryan é uma cinderela exposta ao ridículo no novo filme de Jane Campion, In the Cut. Ryan faz uma professora de inglês que anseia pelo príncipe encantado, pelo homem que irá tocá-la nos sítios certos, mas que só consegue ir para a cama depois de demonizar o seu parceiro. Coisa fácil, uma vez que no filme de Campion os homens são igualmente patéticos, sem excepção: há um aluno de Frannie/ Ryan, um “nêgão” de bíceps transbordantes e, seguramente, com um enorme pénis (não é sra. Campion?!), obcecado por serial-killers que deseja “papar” a professora; há ainda um ex-namorado, um pinga-amor obsessivo-compulsivo, que apanha o cocó do seu lulú com luvas de látex esterilizado; e há, por último, o detective Malloy (interpretado por Mark Ruffalo) que apesar da bigodaça não consegue esconder o facto de se assemelhar a um irmão mais novo (um filho?) da balzaquiana Ryan.
In the Cut pretende-se um thriller erótico, embora resulte entediante e não excitante. O único prazer verdadeiro que para mim existiu (além de reconfirmar como são bonitos os pés de Meg Ryan!), foi o de ver Jennifer Jason Leigh degolada do seu eterno ar de sonsa. Pauline/ Leigh é a meia-irmã de Frannie, só que o à-vontade e a languidez entre as duas remete mais para um casal de velhas amantes que ainda se veste em feiras hippies, fuma charros e não sabe o rumo que a música tomou depois dos 70’s. Pelas conversas das duas manas passam alguns enunciados bacocos da condição feminista condenada, quer ao onanismo, quer à promiscuidade – nada ao acaso, Leigh habita um imóvel folclórico onde funciona non-stop um clube de strip. Aliás, cuidado homens, muito cuidado! A tese de Jane Campion aponta para a existência, no interior de uma mulher sexualmente reprimida, de uma lésbica com instintos justiceiros. Já vimos isto em muitas outras ocasiões, só que a variante, no caso, é a de que a justiceira em causa, apresenta-se nas mais das vezes, qual cinderela, parcialmente ou totalmente descalça – e com uma tendência, também, para ser alvo de atropelamento. E, finalmente, nas palavras do detective Malloy, Frannie tem ainda a particularidade, pelo modo como o seu clítoris reage ao toque masculino, de se incluir naquela categoria de mulheres que sabem tudo sobre o sexo. Vocês sabem, intelectuais e assim.

Mais Felicidade

Só descobri «Ventura» já este ano, mas o último CD dos Los Hermanos justificava um lugar junto dos melhores brasileiros de 2003. O “bloco do eu...” ficou deste modo menos “sozinho”. Gosto demais da prosa coloquial de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, e da produção pronto-a-ouvir de Kassin. Os Los Hermanos de «Ventura» permanecem sofisticados melodistas que apostam na imediatez do rock e do samba. Duas vozes normais, daquelas sem nada de especial, sem técnica aparente, que remetem para absolutamente nenhum vulto da história da música, dão-nos a conhecer 15 novas canções que são mesmo todas muito boas.

Microcosmos

Num domingo de sol, na cidade, o melhor programa afigura-se o de ser mesmo ficar por casa. O CCB estava um formigueiro, na Versailles pareciam moscas, e até no cinema, com o filme já a passar, as melgas não se calavam – de que serve não permitir que se leve pipocas para a sala, se as pessoas dão à matraca na mesma, só que de modo diferente?

sexta-feira, janeiro 16, 2004

Moral da história

O jornal «O Jogo» não resistiu ao trocadilho de mau gosto a propósito do novo reforço do Sporting, popularizado no Brasil pela alcunha de Tinga. Se o futebolista em causa não fosse preto, é lógico que a manchete também deixaria de ser "Já cá Tinga". Assim se ganham como se perdem leitores.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Jeepers Creepers

Saiu com a Premiere deste mês. A que traz o último samurai americano na capa. O filme de Victor Salva, «Jeepers Creepers» (como a canção), é o mais cinematográfico tratado de terror estreado em anos recentes. É todinho sobre o desejo, e sobre a capacidade deste realizador proscrito se projectar na figura de uma criatura sedenta de troféus humanos. Parece até que Salva saliva - também já teria há muito a sede de voltar a filmar. «Jeepers Creepers» traz inscrito em cada plano esse prazer, essa intensidade. Aqui, "homo" lava definitivamente mais escuro.

Irreversível

Da primeira vez cheguei a ter medo, mas revendo agora o filme, do princípio ao fim (i.e., do fim ao princípio), em DVD, tive apenas pena. Não é o tempo que tudo destrói, é o filme de Gaspar Noé que destrói a possibilidade do cinema nele existir. O que o cinema tem de mais belo é o seu poder de sugestão – um som, uma imagem, um terceiro sentido. «Irreversível» prefere exibir a sua crueldade pondo-nos a cabeça à roda. Gratuitamente explícito e, definitivamente, irreversível.

Acção!

Quem terá originalmente definido o cinema como "a arte da espera", sabia bem do que estava a falar.

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Surrealizar por aqui

Na Fantasia para dois coronéis e uma piscina, de Mário de Carvalho, que vou lendo quando posso, entremeada com as minhas obrigações decorrentes das folhas de serviço d’ A cara que mereces, a ficção já é de si pouco normal, mas o autor encontra inúmeras e inesperadas soluções para a tornar mais surrealizante ainda. Um mimo!

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Cinema a sério

É difícil concentrarmo-nos na acção que temos de executar, quando ao mesmo tempo devemos imaginar algo que à nossa frente já não está a acontecer (como se estivesse); quando é necessário olhar além do arvoredo à nossa volta; quando devemos fingir que não existe uma equipa técnica ali mesmo em cima do nosso nariz; e quando não nos podemos distrair com filtros, reflectores e restante equipamento de iluminação que espreita na periferia do nosso olhar. Como se tudo em volta conspirasse para nos fazer cócegas, mas não nos pudéssemos rir.

Ela, voz

Uma hora após ter terminado o concerto de Maria Rita, lá consegui que a mesma me assinasse os CD’s e o DVD. A operação autógrafo não foi isenta de contratempos, com sucessivas deslocações de uma porta à outra da saída dos artistas do Coliseu. O prazer não era sequer todo meu, embora ache que tenha valido a pena. Afinal, se cada geração tem a Elis Regina que merece, a nossa pode dar-se por muito satisfeita. Maria Rita foi graciosa, natural e tem uma voz, de facto, fenomenal.


Eu, samurai

O capitão Nathan Algren (Tom Cruise) é um romântico, e eu também sou. Apesar de sentir manobrar cada cordel desta fantasia masculina denominada de O Último Samurai, não deixei de me comover com a sua abordagem pseudo-orientalista de valores tão nobres como a honra, a amizade, a disciplina, o sacrifício, o amor e a bravura. Agora que não tenho mais idade para me imaginar na pele de um “karate kid” do alto da Avenida de Sintra, resta-me a hipótese de regressar ao tempo de todas as idealizações investido da intransigência moral e ética de um guerreiro japonês do século XIX. O filme de Edward Zwick é o código do Bushido sonhado pela máquina de fazer “maior que a vida” de Hollywood, e dispensa a coragem que imaginamos inerente a todos os que não temiam a morte e viviam pela espada. A coisa está tão bem feita que vai ao ponto de dar a ver as cicatrizes do torso de Algren/ Cruise como se se tratassem de ideogramas da caligrafia japonesa. Não é uma obra-prima, mas justifica a vénia.

sábado, janeiro 10, 2004

Uma Noite de Fados

Apesar da inquietação com o que se estaria a passar ao mesmo tempo em Alvalade, fiz questão de assistir ontem ao arranque da tournée «Como Sempre...» no Olga Cadaval, em Sintra. Camané cantou muito bem, surpreendeu inclusive com uma encenação revivalista na qual o som não fez justiça ao nível de entrega do fadista, superou-se num ou noutro fado (em particular no repertório do seu segundo disco «Na Linha da Vida») e nunca deixou esmorecer uma plateia rendida desde cedo. No final, após o apoteótico «Se ao menos houvesse um dia», a notícia de que o Sporting também ganhara, embora não tão facilmente. No fado, como na bola, é tudo questão de concentração e entrega. As minhas estavam repartidas, mas a noite não foi menos boa por isso.

sexta-feira, janeiro 09, 2004

4 1/2 Semanas

A partir de 2ª feira estarei a trabalhar na qualidade de actor (how glamorous! ) na longa-metragem «A Cara que Mereces», do Miguel Gomes - realizador das curtas «Entretanto», «Inventário de Natal», «31» e «Kalkitos». Não prometo um diário de rodagem; sei que chegarei a casa talvez sem vontade de escrever o que quer que seja. Mas ficar em branco absoluto até Fevereiro também não é mais provável. Vamos ver... Para já, importa comunicar que o meu endereço de e-mail nas próximas quatro semanas e meia passará a ser ricardogross@iol.pt

Para o que der e vier.

Tarzan Boy*

Será que vale mais um «Elephant» na mão, ou o resto do reino animal - Sebadoh, Royal Trux, Palace Music, Quickspace, Flying Saucer Attack, The Pastels, Plush, Smog, Woodbine, Elliott Smith, Clinic, Jim O'Rourke, Pram, Preston School of Industry, Folk Implosion, Silver Jews, Pavement, The Blueskins, Franz Ferdinand, Stephen Malkmus and the Jicks, The Kills, Clearlake, Hood, Four Tet, James Yorkston, Archie Bronson Outfit, Jason Loewenstein, Quasi, U.N.P.O.C., Movietone, Max Tundra, Adem, Bonnie "Prince" Billy, To Rococo Rot e Matt Elliott - agrupado num duplo CD a metade do preço? Chama-se «Worlds of Possibility», e é difícil conceber uma selva mais rica do que esta.

* para o Pedro Mexia

O Oitavo Ponto

«Porquê só os nomes do PS? A soma de mais um nome de topo do PS tem dois resultados que parecem desejados pelo autor da fuga. Um, a ideia de que o processo da Casa Pia é um processo contra o PS, envolvendo toda a elite socialista. Outro é o de que cada nome acrescentado, em particular nomes com forte efeito de inverosimilhança, desvaloriza todos os anteriores. Quantos mais nomes vierem a público nas circunstâncias dos de Sampaio e Vitorino, menos importância tem a carga simbólica da acusação sobre os nomes dos que são efectivamente acusados. É um mecanismo semelhante ao que aconteceu nas viagens para deputados: a multiplicação de nomes, misturando situações muito distintas, gera uma desvalorização de cada novo nome que apareça e de todos os outros para trás. A uma dada altura, as pessoas encolhem os ombros e dizem "são todos iguais", ou, "com todos estes nomes, tudo isto só pode ser falso".»
Todos os restantes pontos aqui. Mais José Pacheco Pereira como sempre aqui.

Mona

Mike Newell pedala superficialmente por muitos lugares-comuns próprios à relação das mulheres com as emoções, com os afectos e umas com as outras. E acontece ainda que sempre que Julia Roberts surge na imagem, «O Sorriso de Mona Lisa» dá um salto imediato da década de 50 (do século passado) para a actualidade. Imediato mas só aparentemente intencional, porque o não sacrifício da imagem de marca da actriz (os cabelos compridos e soltos, a dentição perfeita), com a colocação de sorrisos, gargalhadas e boquinhas sempre no lugar onde se espera, produz uma sensação de anacronismo que se demarca da mediania e previsibilidade do resto do filme. «O Sorriso de Mona Lisa» talvez pedisse uma musa que apresentasse um maior trabalho de composição (tal como o faz Marcia Gay Harden), e que não nos estivesse sempre a dar a ver a “estrela” em vez da actriz. Ainda assim, o filme de Newell não é totalmente desprovido de charme, e o factor reconhecimento tem tudo a ver com isso.

quinta-feira, janeiro 08, 2004

A angústia da página a verde

De cabeça atrofiada com companhias de seguros e institutos de farmácia e medicamentos, sobra disponibilidade nenhuma para postar mais que isto, que é nada. Passo os olhos pelos blogues à direita (atenção ao "d" que é minúsculo) e vejo que à parte de duas excepções - o Estrangeirados e o Flor de Obsessão - o resto da malta fez-ou-continua-em gazeta. Menos mal, estou com a maioria dos impedidos. Até amanhã.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

Na Mosca

O Abecedário 2003 do Contra a Corrente. É bom que exista alguém com tempo e talento para fazer uma súmula deste nível. Estou com ela (com ele) em todas as letras. Assim como estou, na medida do que conheço, com as escolhas de livros do Aviz. Já comprei o livro 10 (do que não conhecia), mas não há meio de encontrar o livro 7. O livro 1 tem a exuberância de linguagem de um (António) Lobo Antunes, e mais ainda, com a vantagem de ser satírico - i.e. ter um sentido de humor galopante a todo o país - e não ser denso. Mário de Carvalho foi quem mais fez (em 2003) pela leitura em Portugal, embora cento e tal mil leitores ainda não o saibam.

terça-feira, janeiro 06, 2004

Aborto

João Miguel Tavares categórico no DN de hoje. A consciência de cada um não deve pesar no bolso de todos.

P.S. Já em relação ao kalkito do "futebol rasca" concordo menos. Houve muito teatro, sim, mas também grande cinema - assistências de JVP, posicionamento de AP, controlo de bola de PB, dribles de L...

A síndrome de (tentar) ser criativo...

... pode dar origem (já deu...) à perplexidade em quem procura interpretar cores e pontuações ortográficas com que (sobre)subjectivei algumas das listas de discos referentes a 2003. As cores sublinham traços emocionais dos discos ou dos músicos aos quais se referem - o imaginário da noite e do vinho tinto para Camané, ou o cinzento para o pessimismo de Fausto, ou o laranja para a inteligência de LUXo convocada para revisitar o repertório de Sérgio Godinho. Os pontos de exclamação, interrogação e reticências são, por outro lado, mais explícitos: graus de entusiasmo (de ! a !!!!!), de dúvida (de ? a ?????) e de indecisão (de ... a ... ... ... ... ...).

Assalto à Instituição

João Pereira Coutinho passa a constar da lista de colaboradores do semanário Expresso. Farei por não perder nenhum dos capítulos desta saga que se prevê individualista e subversiva.

A Ganga de Maria Rita

Dei ontem uma espreitadela no DVD de Maria Rita que recebi de um amigo particularmente sensível à música enquanto obsessão. Não vi muito, mas o suficiente para perceber que se trata do registo de uma apresentação intimista (tipo showcase de luxo) do disco que devolveu ao Brasil e depois a Portugal a reencarnação tão fiel e diferente, ao mesmo tempo, da indomável Elis Regina. Indomável também, e gaiata, à sua maneira, Maria Rita apresenta as canções do seu CD de estreia perante um público que para nós não vai além da penumbra, embora por certo seja constituído por caras familiares da jovem cantora e por profissionais da Indústria e Comércio dos discos também. Estas coisas são sempre iguais, gerando fenómenos de celebração tão apaixonados quanto interesseiros.
Maria Rita revela-se uma sedutora blasé, cantando descalça em cima de um tapete com os restantes músicos em volta. As versões apresentadas são muito idênticas ao material gravado, embora este só permitisse imaginar o gingar de ancas, o trejeito de mãos (unhas das mãos e dos pés pintadas de vermelho) e os sorrisos marotos de Maria Rita. E esta apresentação da ritualização do palco meio sem jeito é traduzida numa iluminação igualmente escassa, bem marcada, proporcionando um muito sugestivo grão de imagem que é também produto do trabalho com a penumbra e o elevado contraste. Uma imagem coçada como se nos estivessemos a referir a um par de calças de ganga.
Maria Rita é uma espécie de versão denim daquilo que canta. Logo, tornou-se irresistível para tanta gente de forma tão galopante quanto natural. É prática, dá jeito, apetece usar e abusar da sua música. Os concertos de Lisboa e Porto desta semana dificilmente irão desiludir (para além do preço abu$ivo do$ bilhete$): mesmo para aqueles que mais cépticos não dão já o programa por ganho.

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Hollywood no Amor e na Guerra

"Podemos gostar de violência tão sangrenta como o inferno, mas gostamos das nossas guerras e dos nossos heróis perfeitos e simples. A fim e ao cabo, a maior vítima das novas guerras dos filmes é a vida real. O facto de a complexidade ser difícil de vender no mercado global explica porque é que Hollywood tem fugido da realidade e porque é que filmes como «Mystic River» são cada vez mais raros." Leiam também o resto do texto de Manohla Dargis, um exclusivo Público/ Los Angeles Times. E leiam-no de novo.

Ananana Top 40, 2003

Eis-nos finalmente perante a Lista da Casa, que é como quem diz a lista resultante das escolhas do João Santos, do Pedro Lourenço e do Pedro Santos, da melhor e mais esclarecida companhia que alguém pode desejar ter do outro lado do balcão de uma loja de discos. Façam o favor de conhecer o maior número possível do que aqui se apresenta e, se quiserem, levem também em conta as minhas exclamações, interrogações e reticências - tudo a bold mas sem qualquer intenção de se sobrepor às três sensibilidades aqui expressas. Boas descobertas e melhores audições.

1. david sylvian «blemish» (samadhi) !!!!?
2. bonnie 'prince' billy «master and everyone» (domino) !!!!?
3. robert wyatt «cuckooland» (hannibal) !!!...
4. colder «again» (output) !!!??
5. matmos «the civil war» (matador)
6. animal collective «spirit they're gone...» (fat cat)
7. black dice «beaches & canyons» (fat cat) por ouvir
8. vários «crammed global soundclash 1908-89» (crammed)
9. so «so» (thrill jockey) !!...
10. pulseprogramming «tulsa for one second» (aesthetics)
11. the sea and cake «one bedroom» (thrill jockey) !!!!?
12. supersilent «6» (rune grammofon)
13. howe home «the listener» (thrill jockey) !!!!!
14. cat power «you are free» (matador) !!!!?
15. him «many in high places are not well» (fat cat)
16. tuxedomoon «desire/no tears» (crammed)
17. lou reed «the raven» (sire) edição simples !!!!?
18. the cinematic orchestra «man with a movie camera» dvd (ninja tune) por ver
19. the cinematic orchestra «man with a movie camera» cd (ninja tune) !!!!!
20. autechre «draft 7.30» (warp)
21. rechenzentrum «director´s cut» (mille plateaux) !!!!!
22. jaga jazzist «the stix» (ninja tune) !!!??
23. vários «worlds of possibility» (domino) !!!!?
24. four tet «rounds» (domino) !!!??
25. fennesz «endless summer» (mego) !!!!!
26. susumu yokota «the boy and the tree» (leaf) !!!!!
27. loose fur «loose fur» (domino) !!!??
28. spring heel jack «ammased» (thristy ear)
29. tied & tickled trio «observing systems» (morr) !!!!!
30. jan jelinek «la nouvelle pauvreté» (scape) !!!...
31. burnt friedman & the nu dub players «can't cool» (nonplace) !!!??
32. rhythm & sound «with the artists» (burial mix)
33. stephen malkmus «pig lib» (domino) !!!??
34. prefuse 73 «one word extinguisher» (warp)
35. vários «channel 2» (output)
36. the band of blacky ranchette «still lookin' good to me» (thrill jockey) !!!!?
37. sue garner «shadyside» (thrill jockey) !!!??
38. murcof «martes» (leaf)
39. (smog) «supper» (domino) !!!...
40. pluramon «dream top rock» (karaoke kalk)

domingo, janeiro 04, 2004

Derby

O primeiro penalty não existe. O segundo penalty EXISTE. O Benfica atacou mais. O Sporting defendeu melhor. E teve as melhores oportunidades de golo. Sá Pinto e Roger entraram bem no jogo. Petit e Lourenço entraram mal. O golo do Benfica foi um peru de Ricardo. O golo de Silva foi um golpe de génio de Pedro Barbosa. O mesmo Barbosa foi o melhor jogador no primeiro tempo. Anderson Polga foi o melhor jogador o tempo todo. Sporting e Benfica quebraram com as expulsões de Rochemback e Miguel. O Sporting disfarçou melhor. O árbitro Pedro Proença esteve muito bem. Os jogadores não ajudaram nada. Liedson merecia ter marcado um golo. Os jogadores valentes merecem tudo.

Quem Quer Ser Americano?

Chamem-me cínico ou insensível até, mas não partilho do entusiasmo suscitado pelo último filme de Jim Sheridan, Na América. Nota-se que o mesmo é produto de uma vivência pessoal particularmente traumática. No entanto, julgo que Sheridan só teria lucrado com um luto que resultasse menos num “conto de fadas”, e que optasse antes por uma transposição do drama de inspiração real para a tela, mais subtil e sem lágrimas no canto do olho. Não posso gostar mais deste filme porque a sua dramaturgia é simplista nas metáforas a que recorre, e porque também insufla as emoções como o fazem certos concursos de TV que existem graças a «Quem quer ser milionário?». Existe aliás no filme de Jim Sheridan uma cena paradigmática do que acabei de afirmar, e que diz respeito ao momento em que a família de irlandeses acabada de chegar a Nova Iorque, a viver dificuldades económicas tremendas, ainda assim embarca na fantasia da filha mais nova que quer à força um ET de pelúcia que vê numa Feira, o que força a participação do pai-coragem num jogo de apostas que quase irá custar todo o dinheiro do casal – mas lá conseguem reaver o dinheiro e o boneco, ou não estivesse o filme impregnado da mais garrida fantasia...
A família vive a ressaca da morte por doença do único filho rapaz. A criança que terá ido para o céu (para casa) tal como o ET do filme de Spielberg tratado enquanto referência explícita. E a pobreza metafórica, e o realismo mágico de Sheridan, transpostos para uma Nova Iorque de “bom coração”, não ficarão por aqui. Conheceremos ainda um vizinho africano que vive um andar abaixo dos simpáticos irlandeses, muito pouco sociável, que é supõe-se que muito rico, que se encontra a morrer de doença prolongada (apesar do seu físico hercúleo: é de Djimon Hounsou de «Amistad» que falamos...) e que pinta umas telas muito Basquiat como tentativa de afirmar creio que a resistência à morte, mas também o inconformismo face à irreversibilidade da sua condição. No final, estará a morrer no mesmo hospital onde virá a nascer a terceira e redentora filha da família irlandesa. O óbito do vizinho feiticeiro – deitado no seu leito com uma túnica muito étnica – dará simbolicamente a vida à criança em risco, a mesma que terá (?) sido concebida noutro momento de montagem paralelamente infeliz deste Na América: Nova Iorque debaixo de forte tempestade, o casal irlandês a fazer amor, o mesmo vizinho negro agonizando no atelier face à sua conturbada produção artística, as filhas dos primeiros comendo gelados enquanto olham para a chuva que cai copiosamente.
Tamanha torrente de sentimentos teria beneficiado de um menor apelo à nossa ingenuidade e de um pouco mais de contensão. Tal não terá sido a ideia de Jim Sheridan e das suas duas filhas que com ele escreveram o argumento que afunda Na América num oceano popular de boas intenções.


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