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domingo, fevereiro 29, 2004

O que é que Sérgio Godinho voltou a ter a noite passada no Coliseu que é diferente dos outros?

Como Vitorino (Salomé) resumiu e bem ao abandonar o palco: bons arranjos, excelentes músicos. Perdão, "assessores"! Eu é que, em parte, como invariavelmente, passei ao lado da festa.

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

As minhas coisas preferidas

Alguém falou em «speakerboxxx» - Dr. Dre meets Busta Rhymes meets Eminem... ? Eu cá continuo a gostar mais ainda de «the love below» - Prince meets Beach Boys meets John Coltrane... File under Outkast, naturalmente.

A "ternura" aos sessenta

Nancy Meyers (tal como Nora Ephron) representa uma espécie de rival pela posse do ceptro de Woody Allen, que parece ter querido agora vingar-se do seu oponente exercendo a retaliação sobre o macho que não sabe envelhecer e se entrega a jogos mais ou menos ridículos com mulheres de metade da sua idade. Os jogos de mesa são aliás a metáfora perfeita para descrever este «Alguém Tem Que Ceder»/ «Something’s Gotta Give»: Diane Keaton (magnífica: esqueçam a “monstra” e dêem o Oscar a esta senhora!) joga com as pedras brancas, ao passo que Jack Nicholson (está uma lontra!) prefere as pedras pretas. Quando os dois decidem jogam pela mesma cor, o sexo acontece – essa epifania da terceira idade. O filme de Nancy Meyers também nos ensina, pelo mesmo lado, que não existe Viagra mais eficaz para um homem de sessenta anos do que fazer amor com uma mulher da mesma idade. «Alguém Tem Que Ceder» tem, no entanto, mais reviravoltas do que a montanha russa. E a vingança parece ir consumar-se (uma vez mais, agora é que é!) sob as luzes de Paris, num momento de total previsibilidade só mesmo suplantado – na capacidade de o anteciparmos – pelo mais convencional dos epílogos.
A avaliar pelos seus últimos filmes – ambos em exibição em Lisboa – Nancy Meyers ainda tem umas coisas (uma data delas!) a aprender com o ancião Allen – e não apenas sobre o “Tzão” por mulheres com menos de trinta anos. Quanto a «Alguém Tem Que Ceder», perguntem de novo pela minha opinião daqui a uns trinta anos, que talvez tenha umas coisas mais simpáticas a acrescentar ao que aqui foi dito. Apesar das aparências, posso assegurar-vos que se trata de um filme perfeitamente inofensivo para cardíacos.

Guilty

Se vos pudesse dizer o que este disco de Barbra Streisand pode fazer pelo simples acto de dobrar a roupa interior de um alguidar cheio dela, às 7h45 da manhã... "I am a woman in love/ and I do anything/ to let you into my world/ and hold you within/ It's a crime, I confess/ over and over again".

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Música (im)popular

As perguntas até que não são grande espingarda, mas o bom velho Jack encontrava-se inspiradíssimo. Mr. Nicholson em entrevista, no Domingo passado, ao Notícias Magazine. O homem pode ter vivido a apoteose da contra-cultura na América dos anos 70 («Easy Rider», Guerra do Vietnam, etc.), mas se isto não é um refinado conservador a falar...
"Acredita que depois do 11 de Setembro a percepção dos valores mudou? Será que há uma procura maior de temas mais relacionados com a diversão e com as relações? Lembro que você próprio confessou que depois dessa data procurou unicamente fazer comédias...
Não sei. Os valores da América... Os media estão sempre a mudar e as pessoas convencem-se de que são especialistas de tudo. Ninguém diz «não sei», todos têm uma opinião formada em assuntos políticos quando na verdade não fazem a mínima ideia do que estão a dizer. Tenho viajado muito na Europa e percebo agora as diferenças. Na América, em termos de discurso público, as pessoas agarram-se a uma ideia e tornam-na sabedoria convencional. Dessa forma, por exemplo, toda a discussão sobre a guerra do Iraque se centra na questão da Al-Qaeda e das armas de destruição em massa e nunca se torna um debate sobre a necessidade da aplicação de medidas de paz, o que na verdade era a principal razão do ataque ao Iraque... O Saddam mantinha um regime que violava o tratado de paz. Essa, para mim, era a única legalidade para justificar um ataque. Mas, respondendo à questão, as pessoas tendem a agarrar-se aos valores que acreditam ter. A verdade é que não os têm. Há muitas facções desse pensamento que são militantes em acções que não se enquadram com a realidade. Os americanos são muito influenciados pela propaganda. Há demasiados talk-shows opinativos, demasiados editoriais, tantos que se chega ao ponto de todos nós sentirmos que somos obrigados a ter uma opinião. E, na realidade, ninguém está informado sobre nada. Até eu... como sabem, sou um americano patriota. Amo a América... correndo o risco de ser chauvinista, não acredito que haja no mundo um outro lugar com tanta liberdade. Não existe. Mesmo em países com sociedades mais liberais, essa liberdade não existe. Em Inglaterra ou em França, locais onde a educação é superior, temos sempre as velhas sociedades, com os seus elementos que continuam activos. Estou a falar das «velhas escolas», das velhas famílias. Aí, demora-se mais a aceitar modificações. Tenho é de confessar que nunca na minha vida cheguei a ser pessimista, mas quando ouço hoje uma canção de rap com doze anos de existência não consigo encontrar sinais de melhoria. Os rappers nunca conseguiram evoluir e eu sempre acompanhei a música popular."

Gostos

Esta é a semana em que Dani Siciliano nos visita para apresentar - no Lux (onde mais poderia ser...) - o seu disco de estreia, «Likes». Dani gosta muito da música do namorado Herbert, daí não ser de estranhar que «Likes» soe a Herbert suave, pegando em coisas que o músico inglês de certa forma já abandonara após os excelentes «Around the House» e «Bodily Functions». A primeira metade do disco é a menos relevante (incluindo uma cover de Nirvana algo descaracterizada), depois dá-se um interlúdio que anuncia a reentrada no tal domínio «Bodily Functions». A derradeira faixa, «Remember to Forget», destaca-se do resto do disco pela profusão de clarinetes que poderá anunciar o trajecto a seguir por Dani Siciliano se esta se quiser demarcar do som Herbert. A mulher que nos acostumámos a ouvir por detrás do grande criador poderá ganhar assim estatuto próprio, personalizando créditos que já possui. Por enquanto limita-se a dar-nos conta dos seus variados gostos.

Know what I mean?

D'Angelo, Bilal e agora Amp Fiddler. Para os que sabem o que eu quero dizer.

terça-feira, fevereiro 24, 2004

Aniversário

À idade de Cristo já sobrevivi. Uau.

domingo, fevereiro 22, 2004

Heavy Metal (3 filmes e 1/2)

Onde confesso a minha quase vergonha pelas coisas que adorava há vinte anos atrás. “Conan e os Bárbaros” para pouco mais dá do que a contemplação devidamente fetichizada do arcaboiço do Mr. Universo, há altura, Arnold Schwarzenegger. O resto são cabeleiras ao vento, cada uma mais risível que a outra e a apologia do "aço". Vi ainda (é aqui que apelo a uma qualquer espécie de redenção!) “Caminho para Perdição”, de Sam Mendes, que ostenta a cada rajada de metralhadora o seu estatuto de objecto artístico, e que tem uma direcção de fotografia extraordinária de Conrad L. Hall, falecido pouco depois de haver terminado o trabalho neste filme; ainda “Fogo de Artifício”, de Takeshi Kitano, uma das suas três ou quatro obras-primas no sentido inesperado do termo; e ainda a metade final do “Italiano para Principiantes”, de todos eles o filme Dogma mais despretensioso, cheio de personagens calorosas filmadas num tom quase documental. Fica bem porque não procura dar nas vistas.

Sete Magníficos

Últimas compras; próximas escutas: Paula Frazer “A Place Where I Know”; The Aluminum Group “Morehappyness” (indeed, suspeito); Tethered Moon “Experiencing Tosca” ( jazz inspirado na “própria”); Mark Olson & the Creekdippers “Creekdippin’ for the first time”; Dani Siciliano “Likes”; Mice Parade “obrigado saudade” (porque o João Lisboa disse que sim!); Roy Ayers “Virgin Ubiquity” (porque o Ricardo Saló provou que sim!). Todos ainda por abrir com plástico e tudo. Chamem-me masoquista.

Jantar

Poucos dão por ele, e só lá cabe mais quase ninguém. O restaurante Baralto, na Rua Diário de Notícias, é um espaço minúsculo onde se come muito bem. Descobri-o este Sábado com umas costeletas de borrego com alho e batata frita a sério (a dourada em frente tinha também ela óptimo aspecto!), depois de um queijinho pareceu-me que alentejano, tudo mimado com um tinto Fundação Eugénio de Almeida (valor seguro!). À sobremesa, um leite creme aveludado, para ela, e uma tarte de requeijão, para ele, enqueijada, como convém. E a seguir fomos comprar(-me) discos quase ali ao lado.

Periférica

Sai no final da semana o número de Inverno. Vamos estender-lhe a passadeira vermelha (salvo seja!).

Neve?

A neve voltou a cair na Serra da Estrela, e o granizo a mais chegou mesmo até Campo de Ourique.

Lucky Me

Algumas prendas já anunciadas que receberei na próxima terça-feira: o livro gigante do Jacques Barzun; o CD do gigante Amp Fiddler (“Waltz of a Ghetto Fly”, do que já conheço, genial – é dos nossos, grande Carlos!); a integral em DVD do César Monteiro; três DVD’s da nova série mid-price dedicada a Clint Eastwood - “Um Agente na Corda Bamba”, “Caçador Branco, Coração Negro” e o tão aguardado (por outro dos grandes, viva (!) AG) “A Última Canção”/ “Honkytonk Man”. E, por último, uma tostadeira (?) que virá também ela a calhar.

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Projecto para o fim-de-semana

Ver se me livro deste maldito estado depressivo revendo o DVD do Conan e os Bárbaros.

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Mirabolância

O homem pode até ser um aldrabão. Um ladrão. Mas ninguém merece ser transformado em jogete do desatino judicial. O que aconteceu hoje com Vale e Azevedo - libertado para logo a seguir ver-se reconduzido à situação de detido (ou o diabo que o valha...) - é uma vergonha. Tornada ainda mais vergonhosa pela cobertura televisiva a que foi sujeita. Há coisas que pura e simplesmente não devem ser mostradas. Como por exemplo um homem vitimado na dignidade da sua condição humana.

Um igual

Havia sempre um "rei" a tapar o caminho da baliza deles. Os artistas do nosso lado no decorrer da 1ª parte foram Rui Costa, Figo e Simão. Mas surpreendente mesmo, só o rigor dos fiscais de linha a assinalar foras-de-jogo - bateu sempre certo. O joelho caprichoso de Miguel é que bateu errado ditando a primeira alteração no marcador. O jogo perde qualidade após o autogolo de Portugal. E... outra vez Pauleta - um golo de livre, fenomenal. Mais um jogador intransponível da Inglaterra destacar-se-ia agora: Bridge. Dá-se a saída de Petit ("...da-se", até que enfim!) para a entrada desejada de Hugo Viana. O prémio do "não aparecido em combate" terá de ir com total justiça para Cristiano Ronaldo: os accionistas do BES terão ficado apreensivos. O jogo foi dos centrais com Fernando Couto igualmente em bom plano. Quem diria?

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

Essa é que é essa!

"Do que é que o povo percebe? O povo percebe de futebol. Os portugueses podem não fazer ideia de quem foi o poeta de bigodinho que criou a Ode Marítima, mas têm na ponta da língua o nome do defesa do Benfica de bigodaço que falhou o penalty contra o PSV na final da Taça dos Campeões de 1988. Têm dificuldade em lidar com a sintaxe, mas percebem de sistemas tácticos. Não é a melhor cultura, mas sempre é alguma forma de cultura - não faz mal nenhum cultivá-la."

No dia em que Figo celebra a sua centésima internacionalização, eu volto a dar os parabéns ao João Miguel Tavares.

Em seguida comprometo-me a ir fazer uma pesquisa sobre o autor da Ode Marítima. É para quantos milhares de Euros mesmo? Shame on me. O capitão Veloso, pelo contrário, sei bem quem é (foi).

Infelicidades (crianças educadas por homossexuais)

Caro Dr. Villas-Boas:
Devo confessar que alguns conhecidos apelidam-me de positivista, mas olhe que até mesmo a mim, me ocorrem, pelo menos, umas 1743 outras razões de ordem variada para atestar da infelicidade de uma criança decorrentes da interiorização de "atitudes", "aprendizagens" e da reacção do ambiente onde esta se encontra, e outras interferências ao "normal percurso do exercício da sua sexualidade natural". Umas mais mediáticas, outras menos.
Tenha dó, caro Dr. Villas-Boas... as perturbações que poderão ocorrer numa criança educada nestas circunstâncias serão, na minha opinião (de modesto positivista), acima de tudo da responsabilidade dos efeitos provocados (retaliações mais ou menos veladas) por uma sociedade preconceituosa que não sabe lidar com a diferença, e não se explicam por meia dúzia de patacoadas psicologistas que nos queiram fazer comprar. A palavra-chave chama-se amor, e situa-se além de todas as variantes inatas ou adquiridas.
Caro Dr. Villas-Boas, considere-se autorizado a voltar para o armário.
Passar bem.

A fuga das galinhas

Ontem descobri um programa de rádio com uma selecção musical fantástica. Encontrava-me eu a ler os jornais, muito sossegadinho, quando fui assaltado por uma sequência de temas que alinhava Amp Fiddler, Only Child e Roy Ayers. E, de imediato, vá de largar o pasquim para começar a tirar notas... Às 23h subi ao quarto e fiquei mais cerca de uma hora de volta agora do Blitz, ainda ao som (baixinho porque, note-se, não durmo sozinho; o suficiente apenas para sacar mais um pouco do perfil das emissões) de Galinhas no Horizonte, Voxx, FM 91.6, 22h-02h. Na voz do apresentador pareceu-me reconhecer as palavras e a sensibilidade musical de Ricardo Saló. Fiquei fã, instantaneamente. Que tragédia se a venda da frequência da Voxx implicar, dentro de pouco tempo, a deserção de programas como este. Vamos acreditar que não. E continuar a ouvir. Enquanto a coisa dura...

terça-feira, fevereiro 17, 2004

É estranho, Al!

Ouvir um disco de 2003 como se para a música não tivessem existido as três últimas décadas, é estranho e obriga-nos a uma imparcialidade por vezes impossível de atingir. A Blue Note deveria ter-nos mentido: promovia o regresso de Al Green anunciando a descoberta de um inédito datado de 1973, e ficava o caso bem arrumado. É que se trata de um disco de escuta sem dúvida que agradável, mas receio que também irremediavelmente datado, de tal modo é obsessiva a sua fidelidade para com uma sonoridade tão específica como a soul de Memphis dos anos 70. Intemporal não quer dizer, na minha opinião, que os próprios mestres se possam copiar a si mesmos por tempo indeterminado. Al Green parece querer dizer-nos - ou alguém o terá convencido disso? - com este disco que não pode parar («I Can't Stop»). Talvez ele o devesse ter feito?

Obs. Argumentação semelhante devia ser aplicada, por questões de coerência, a cada novo disco dos Steely Dan. No entanto, sem razão aparente, a minha tolerância é ligeiramente outra em relação à banda de Donald Fagen e Walter Becker. É da voz, só pode ser da voz... Ou será dos arranjos? Aqueles metais, hmm...

Flor de Obsessão (06/2003 - 02/2004)

O link manter-se-á (embora inactivo a partir do próximo fds) porque uma referência é uma referência é uma referência. É favor, ainda, repartir saudades e humores pelas semanas vindouras: no DN, a cada três terças-feiras, e no Indy, quinzenalmente, às sextas. Correcto, Pedro?

Siameses (composições panorâmicas)

Fazer render a soul. À semelhança do que anteriormente intentaram os Tindersticks, apesar dos Lambchop de Kurt Wagner - por muito que a algumas luminárias lhes custe digerir (ver Expresso do último Sábado, 14/2) - apresentarem sinais de uma outra vitalidade, pulmão mais aberto, ao contrário da rapaziada da foggy London town coff, coff... E eu até aprecio o último registo da banda de Stuart Staples, «Waiting for the Moon», reconhecendo embora algum cansaço (a claustrofobia, o estado depressivo, leva-nos a perder menos tempo com eles há medida que tomamos consciência do tempo que de facto perdemos) que passa igualmente para quem ouve - «Simple Pleasure», de 1999, é ainda o último óptimo disco deles. Agora, de regresso aos Lambchop, em «Aw Cmon» e também no seu siamês «No You Cmon», o que se quer são espaços abertos, ar puro e boa disposição. Vezes dois. Com cordas e sem elas. Retomando «Nixon» e «Is a Woman». Pese embora a perplexidade de tentarmos encaixar, em vão, algumas das composições (encomendas) no universo de Murnau («Sunrise»/ «Aurora»), não deixa de ser um muito bom disco. Perdão, dois muito bons discos que reflectem entre si o brilho dos resultados traduzidos para música.

Álcool Puro

Um barman que também escreve. E muito bem. As crónicas do Martins tornaram-se a principal razão para nos darmos ao trabalho de folhear o suplemento DNa. Só elas contêm sempre alguma novidade, alguma surpresa. Destiladas na perfeição. Dispensando a adição de qualquer outro elemento: sobretudo água, nem vê-la. Para aprender que na Escócia, pátria do whisky, eles bebem-no misturado com tudo, de todas as maneiras. Para saber que os melhores bagaços, ou bagaceiras, ou aguardentes, tem na grande maioria das vezes origem artesanal, caseira. É o tal indispensável "cheirinho" após copiosa refeição. Para concluir que exceptuando as marcas que se escondem mesmo no circuito das grandes superfícies, tanto os whiskies, como o(a)s vodkas, como os gins, andam por aí acabrunhados no seu teor alcoólico, fruto das misturadas com água aquando do processo de fabricação. Abaixo dos 40º é para esquecer. Com o Martins, estamos sempre a aprender para melhor beber. Brindo a isso!

Ar, doce ar!

O apelo pop electro-acústico do novo CD dos Air, «Talkie Walkie», é irresistível. Não vou ser original. Apresento por isso a minha rendição incondicional. Vou continuar a ouvi-lo só mais um bocadinho e volto já já.

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Dieta musical (seguida de João sem PC)

Esta semana faço tenção de ouvir exclusivamente os novos discos dos Air, dos Lambchop (um duplo-CD) e do regressado Al Green. Sempre num contexto profissional; sempre com a atenção condicionado pelo trabalho. O tal dilema irresolúvel de quem não consegue ouvir música apenas, e que dificilmente concilia o prazer da mesma com outra ocupação que não seja demasiado cobradora. A condução representava o compromisso ideal, mas perdeu o seu sentido quotidiano levando-me a prescindir do carro há cerca de um ano. Enfim, os relatórios seguirão o curso normal - de modo mais ou menos impressionista - nos próximos dias.

P.S. He's back, prometendo regressar com mais regularidade. Máquinas malditas... benditas máquinas!

P.S. (2) Acabaram de ligar da Bulhosa do Campo Grande. Já têm o meu "salteador" do Walser. Antes que o post se deixe contaminar por um tom muito Jorge Silva Melo, fico por aqui.

Esta não era a casa deles

Vem esta reflexão sintética a propósito do filme Uma Casa na Bruma/ House of Sand and Fog: a felicidade de uns, ou, pelo menos, aquilo em que alguns pensam que consiste a sua própria felicidade não pode ser construído sobre a infelicidade de outros - e ainda mais quando iranianos íntegros se deparam com americanos que o são menos. O realizador Vadim Perelman abusa da carga simbólica de algumas imagens e de alguns movimentos de câmara cuja retórica está estafada, e também recorre algo indescriminadamente à banda-sonora de James Horner de gosto duvidoso. Mas a história adaptada (a disputa trágica de uma casa) é forte, a "rigidez marcial" de Ben Kingsley é estupenda e o trabalho do resto do elenco está ao mesmo nível. Fica assim encontrado o «Monster's Ball» da edição 2004 dos Oscars de Hollywood - o filme do ucraniano Perelman encontra-se nomeado nas categorias de Melhor Actor Principal (Kingsley), Actriz Secundária (Shoreh Aghdashloo) e, incompreensivelmente, Banda-Sonora Original.

domingo, fevereiro 15, 2004

Cold Mountain

É a história de uma mulher (Ada, o mesmo nome e os mesmos dotes pianisticos da heroína de Jane Campion) que encontrando-se a caçar perus na montanha nevada, dá de caras com o noivo que três anos antes havia partido para a guerra integrado nas fileiras do exército sulista. Os dois amar-se-ão uma primeira e derradeira vez, antes que as sete vidas de Inman cheguem ao fim. E há ainda Renée Zellweger a fazer de Janis Joplin na casa da pradaria, e o próprio do Jack White ("Stripes") em presença discreta. Se isto soa um pouco ridículo, o resto do filme de Anthony Minghella encarrega-se de não destoar. Desenxabido, desenxabido, três vezes desenxabido.

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

ADM

Bush teria tanto interesse em invadir o Iraque, quanto Saddam Hussein de chegar à fase de guerra iminente com os Estados Unidos. Este ditador - para além de outras atrocidades - iludiu os seus apoiantes convencendo-os da existência (demonizada ao longo dos seus anos de poder) de um inimigo comum: como se a América toda odiasse todo e cada cidadão iraniano. O conflito resumiu-se (?) a uma questão de orgulho desmesurado: Bush em busca de uma vitória que menorizasse os efeitos do 11 de Setembro; Saddam não reconhecendo a inferioridade militar do seu país e alimentando o jogo do gato e do rato com as armas de destruição em massa, afinal inexistentes. Saddam mereceu perder porque fez bluff, talvez acreditando numa intervenção da comunidade internacional que nada pôde contra a determinação dos americanos e (vá lá...) dos seus aliados. Perdeu a guerra porque perdeu o jogo. O resto - o que não fica para a história - resume-se às verdadeiras vítimas, anónimas, mera estatística que já não serve sequer de abertura aos telejornais. Entretanto, a economia norte-americana dá sinais de crescimento, uma vez que a indústria militar alcança lucros mais elevados que o orgulho somado de ambos os lados.

Autobiografia possível (após 50 páginas)

O efeito da Mulher:
“Ao vê-la agora, não a achei menos saborosa que no cemitério, e há tempos em casa de mana Rita, nem menos vistosa também. Parece feita ao torno, sem que este vocábulo dê nenhuma idéia de rigidez; ao contrário, é flexível. Quero aludir somente à correcção das linhas, - falo das linhas vistas; as restantes adivinham-se e juram-se. Tem a pele macia e clara, com uns tons rubros nas faces, que lhe não ficam mal à viuvez. Foi o que vi logo à chegada, e mais os olhos e os cabelos pretos; o resto veio vindo pela noite adiante, até que ela se foi embora.” (página 18)

O efeito da Multidão:
“Um conhecido meu, homem de imprensa, achando-me ali ofereceu-me lugar no seu carro, que estava na Rua Nova, e ia enfileirar no cortejo organizado para rodear o paço da cidade, e fazer a ovação à Regente. Estive quase, quase a aceitar, tal era o meu atordoamento, mas os meus hábitos quietos, os costumes diplomáticos, a própria índole e a idade me retiveram melhor que as rédeas do cocheiro aos cavalos do carro, e recusei. Recusei com pena. Deixei-os ir, a ele e aos outros, que se ajuntaram e partiram da Rua Primeiro de Março. Disseram-me depois que os manifestantes erguiam-se nos carros, que iam abertos, e faziam grandes aclamações, em frente ao paço, onde estavam também todos os ministros. Se eu lá fosse, provavelmente faria o mesmo e ainda agora não me teria entendido... Não, não faria nada; meteria a cara entre os joelhos.” (página 42)

Memorial de Aires, de Machado de Assis

Teremos sempre as sextas-feiras!

Das duas uma, igualmente ligeiras: salsichas enroladas em couve lombarda com feijão branco e arroz, ou feijoada à brasileira. No Stop, ali às Olaias.

Discriminação pelo oposto

Os Nazis bordavam a estrela de David na roupa dos judeus com o objectivo de assinalar a diferença e de assim melhor os identificar. Os franceses proíbem agora os estudantes muçulmanos de usarem o véu nas aulas com o propósito de "suprimir" a diferença e diminuir os episódios de racismo nas escolas. Não se tratará de um procedimento igualmente discriminatório só que ao contrário? Tanto o uso do véu como o programa currícular dos liceus de França são anteriores à coabitação das culturas europeia (francófona) e islâmica. Isto na prática significa que ninguém deve prescindir dos usos e hábitos culturais que decidiu fazer seus. Do mesmo modo que num qualquer país islâmico me parece despropositado que os franceses deixassem de se fazer notar pelo uso obrigatório do véu, em França o povo muçulmano deve igualmente respeitar o programa currícular das escolas do país onde decidiu viver. Só assim, mesmo correndo riscos de manifestações racistas que poderão ter sempre lugar por muitas e variadas outras razões, acreditaremos na possibilidade de uma cada vez mais total e pacífica integração entre diferentes culturas. A tolerância partilhada é o princípio do fim do fundamentalismo. De todos eles.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Curtas (boas e más)

Rockport: Quando calço sapatos de vela experimento uma espécie de regressão. Sinto a adolescência de volta, sem nostalgia e sem outras coisas menos boas também.

Sopraninho: Ontem coloquei uma fotografia do meu sobrinho – aquela em que ele se parece com um pequeno Soprano trajando roupa de penitenciária – no interior do «Memorial de Aires» do egrégio Machado de Assis, em jeito de marcador. O puto começa a estender a sua teia de relações ainda que involuntariamente.

Sem comentários: Fila de trânsito inexplicável numa 4ª feira, às três da tarde, no IC19. Afinal um camião passeava-se tranquilamente pela faixa direita enquanto pintava o tracejado desta margem da estrada.

O véu: Os deputados franceses deveriam ver-se eles próprios obrigados a usar o véu islâmico para esconder a vergonha da aprovação esmagadora (494 votos a favor e 36 contra) de uma medida hipócrita e suspeito que débil. O racismo nunca deixará de existir enquanto as pessoas não encontrarem forma menos estúpida de extravasar todo o tipo de frustrações e demais complexos de inferioridade.

Ed Bloom: Passando em conversa a brilhante filmografia de Tim Burton, chamei a atenção dos meus interlocutores para o facto de encontrar uma grande afinidade entre as figuras de Ed Wood, do filme com o mesmo nome, e Edward Bloom de «O Grande Peixe». Ambos ostentam uma crença ingénua e desmesurada no seu imaginário, isto é, na verdade da mentira (do artifício, da fantasia, do CINEMA). «O Grande Peixe» é um grande filme burtoneano da cabeça ao rabo.

Stereolab: As primeiras impressões de «Margarine Eclipse» mostram que felizmente existe vida e musicalidade intactas depois do desaparecimento de Mary Hansen. Não será dos melhores discos desta instituição pop revivalista, embora haja motivo para alguns entusiasmos.

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Espaço 2004

O Segway – espécie de trotineta transversal motorizada que nos querem impingir como tratando-se da última revolução na locomoção humana, mas que, de acordo com o meu cepticismo, vejo-o mais talhado para deslocações no interior de uma qualquer Estação Espacial por vir – devia vender-se acompanhado de um livre-trânsito para um colega qualquer do prof. Fernando Pádua. Se a moda pega e as pessoas deixarem de todo de andar, substituindo a pouca actividade física que têm por um brinquedo Segway, então é que será vê-las cair que nem tordos onde der menos jeito. Depois queixem-se de que não foram avisados.

terça-feira, fevereiro 10, 2004

A ocasião fez o canibal

Tornei a ouvir, mais ou menos por acaso, o último CD de Lenine lançado há já cerca de dois anos. «Falange Canibal», assim se chama ele, saiu depois de «Na Pressão» com mais pressão ainda, sendo recebido com alguma indiferença, agora, no meu entender, bastante injustificada. Como o próprio admite, «Falange Canibal» podia ser o título de qualquer um dos CD's que Lenine gravou até hoje, embora o "canibalismo" a que o título de refere - uma espécie de "tropicalismo" para o novo milénio - nunca antes tivesse sido levado a um tal grau de densidade e exigência. Vale a pena insitir, digo-vos eu! «Falange Canibal» é constituido por um alinhamento de betão - só músicas boas (são doze!) - com muita samplagem, muita citação, muitas camadas fatiadas ao corpo artístico já anteriormente constituído pelo músico, um disco de produção tripartida (Tom Capone, Mauro Manzoli e Lenine) que tira o máximo proveito do trabalho de estúdio. Entre as suas melhores canções, encontramos, por exemplo, «lavadeira do rio», popularizada mais tarde por Maria Rita - cujas pernas ficaram bambas, em mais de uma ocasião, na presença de Lenine, como a mesma fez questão de confessar no concerto do Coliseu. Asseguro-vos, no entanto, que destacar músicas assim, de um disco como «Falange Canibal», faz pouco sentido. Há que ouvi-lo todo por inteiro, e averiguar da espantosa arte do retalho e da recomposição que Lenine orgulhosamente expõe. Só os franceses da Inrockuptibles se apreceberam dela no momento devido. Com demasiado tempo de atraso, também eu, "simbloguicamente", me penitencio.

Foi você que pediu... quantos guilty pleasures?

Por insistência deste senhor e deste outro cavalheiro, os Hidden Cameras vêm já a caminho – Amazon UK, correio normal(íssimo). «The Smell of Our Own» chegará pela mão do «Guilty», de Barbra Streisand – o tal que tem dedo (e voz!) de Barry Gibb, dos Bee Gees), trazendo ainda, no mesmo embrulho, o DVD de «Dead Ringers» - o filme mais insinuante de David Cronenberg: aquilo que se designa, apropriadamente e à descarada, de obra-prima – e «Come Away With Me», de Norah Jones, porque quando o hype é demasiado, é aconselhável espreitarmos com um disco de atraso.

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Philibert registou os factos. Burton imprimiu o mito. E eu tive um Domingo em cheio, cheio de bom cinema.

Mito

A vida não tal como ela é, mas como queremos e fazemos os outros acreditar que esta seja. O Grande Peixe renova o sentido da expressão “bigger than life” referente ao cinema enquanto apoteose da imaginação do homem. Escusado será dizer (mas digo-o na mesma) que chupei o “peixe” de Tim Burton até às espinhas. E que me diverti imenso a fazê-lo.

Factos

Um cenário idílico. Um professor exemplar. Um olhar disponível. Ser e Ter, de Nicolas Philibert, reduz o mundo à sua expressão mais simples: as estações que mudam, os animais que pastam, as crianças que aprendem. É um filme harmonioso e essa é a sua única surpresa.

quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Merritt

É já no próximo mês de Maio que sai o novo CD dos Magnetic Fields, intitulado «I». Será de novo desconcertante pelo menos no conceito: todas as canções (salvo excepções impostas pelos limites da criatividade) começam por "I" qualquer coisa. A informação é de fonte segura, a mesma que num lícito passe de mágica me fez chegar hoje a banda-sonora de «Pieces of April», constituída por quatro novas músicas dos Fields, outra do rapaz Stephin Merritt (o que vai dar no mesmo...), e material antigo retirado do genial «69 Love Songs» (um dos mais incontornáveis discos de toda a história da pop, se é que não perceberam AINDA!) e do igualmente excelente «Hyacints and Thistles» dos The 6ths, isto é, Merritt e ilustres convidados. De «Pieces of April» posso adiantar que o repertório antigo (Epitaph for My Heart, I Think I Need a New Heart, The Luckiest Guy on the Lower East Side, onde o capricho da métrica dá origem a frases como "my car is ugly but, then, I'm ugly too" ...) dá baile à produção recente, mas isto não deve fazer esmorecer as nossas expectativas em relação a «I», um disco que forçosamente terá de ser GENIAL. Ouviu Mr. Merritt?

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

O reparo merecido (para o Miguel)

O Miguel Gomes tem razão. Sendo ele um amigo de longa data, acho que abusei na forretice ao apresentá-lo aquando da primeira alusão, aqui no Babugem, ao meu trabalho de actor no filme «A Cara que Mereces», que o Miguel está a realizar. Se não nos tivessemos conhecido na Escola de Cinema; se não tivessemos aprofundado a nossa cumplicidade, em conversas ao almoço, após inúmeros visionamentos de imprensa (o Miguel escreveu textos brilhantes nas páginas de cultura do Já e do Público); se não tivessemos feito umas belas noitadas na companhia um do outro, e de outros amigos também; primeiro, não existiria «A Cara que Mereces» e, segundo, eu logicamente que não faria parte dela. Um abraço Miguel, e até logo.

terça-feira, fevereiro 03, 2004

Sobre a questão da esquerda e da direita (work in progress)

Quando nasci, baptizaram-me de Ricardo em homenagem ao compositor alemão Richard Wagner. Troquei o Benfica pelo Sporting por volta dos sete anos de idade. Os colegas de trabalho da minha mãe achavam-me parecido com o general Kaúlza de Arriaga. Cheguei a passar férias numa quinta onde foram caseiros os pais de Oliveira Salazar. Mais depressa dispensava hoje a leitura do Expresso do que a do Independente. Os meus colunistas preferidos são: Helena Matos (Público), Alberto Gonçalves (Correio da Manhã), Vasco Pulido Valente (DN), João Pereira Coutinho (Expresso), João Marques de Almeida e Luciano Amaral (Independente). O crítico literário que mais sigo é o meu amigo Pedro Mexia (DN). Estou com a “geração de 70” em mais de um sentido. Acho que na TV (e nos jornais também) José Pacheco Pereira dá que pensar e o professor Marcelo dá que distrair. Gosto de Clint Eastwood e de Arnold Schwarzenegger (consigo, por vezes, escrever o seu apelido de cor). Sou grande apreciador de fado e, em tempos que já lá vão, cheguei mesmo a aprofundar os meus conhecimentos neste domínio. Faço questão de beber vinho tinto a todas as refeições. Quando pratico Yôga – disciplina a que me obrigo diariamente – a parte física sempre se sobrepõe à parte espiritual. Passei a comprar a The Spectator (que traz o Paul Johnson, o Mark Steyn e o Theodore Dalrymple, favoritos pessoais) todas as semanas, mesmo que deixe acumular números por ler. Não resisti a aderir à montra de vaidades que são os blogues. Tenho opiniões contraditórias em relação à questão da descriminalização ou despenalização do aborto, o mesmo para as drogas leves e duras, ainda para a intervenção dos EUA no Iraque, e não só. Acho que a contradição é intrínseca ao ser humano (ontem foi o Jorge Silva Melo, depois o José Mourinho e chegará também o dia do Pulido Valente). A vida é demasiado longa, e difícil é manter a coerência entre imagens pública e privada e no interior de cada uma destas também. Só as máquinas reagem de forma programada até se avariarem. Não gosto da impunidade das ditaduras, mas gosto de um estado forte que não deixe o país virar uma bandalheira. Talvez por ser alto, raras vezes me esqueço que o exemplo deve vir de cima. Acontece-me pensar que sou conservador e individualista. Tenho mais curiosidade pelas gerações anteriores à minha do que por esta malta nova que usa calças pelos joelhos, ténis que parecem botas, botas que parecem andas e gorros até às orelhas. Se fosse personagem do último livro de Mário de Carvalho, seria concerteza o coronel Lencastre. E iria jantar todas as semanas ao Mordomo, porque não conheço o Gambrinus. Quando me visto, arrumo sempre o "dito" para o lado esquerdo, mas (ah!) deito-me sempre no lado direito da cama.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

É sempre a mesma Manhattan

Após uma transição para o séc. XXI que considero consecutivamente decepcionante do ponto de vista artístico - os filmes em causa foram «Sweet & Lowdown», «Small Time Crooks» e «The Curse of the Jade Scorpion» (muita estilização para pouca frescura criativa) - e desconhecendo o trabalho de realização que se lhes seguiu («Hollywood Ending»), foi com surpresa e alegria que constatei o esforço de Woody Allen em fazer rejuvenescer o seu cinema, na medida do possível, o que na prática passa por colocar de novo as histórias próximas da vida neurótica nova-iorquina - semelhante à vida de qualquer outra cidade do mundo ocidental, Lisboa incluida - e convocando uma dupla de actores que provocarão uma identificação mais imediata com o público jovem - Jason Biggs e Christina Ricci.
Sem mais considerações, achei «Anything Else - A Vida e Tudo Mais» o melhor Allen em anos recentes: uma celebração discreta e a cores de Nova Iorque que, com ou sem Torres Gémeas, se mantém encantadora, e diverti-me ainda com a história do jovem humorista-masoquista que é constantemente enxovalhado por aquela que ele pensa - pobre ingénuo - ser a mulher da sua vida. Woody Allen na figura de um professor, também humorista, e judeu, com o vício patológico da perseguição é igualmente muito divertido. Embora ainda distante das glórias do passado, a escrita de Allen dá sinais de uma recuperação que importa saudar. O homem até já põe em causa a psicanálise... É ou não surpreendente?

domingo, fevereiro 01, 2004

Peso Pluma

A avaliar pela magreza de interesse do que é dado a ver no badalado segundo filme do mexicano Alejandro González Iñarritu, quer-me parecer que o peso total da massa cinzenta do realizador terá baixado durante o projecto aos tais «21 Gramas». Só esse facto explica a intencionalidade do figurão em levar a cabo um filme estimável a partir de uma vulgaríssima história de dor, catarse, dor, vingança falhada, dor, nova catarse, dor, nova tentativa de vingança (agora é que é!)... estruturada aos solavancos como se as páginas do argumento tivessem sido filmadas e montadas de uma forma mais ou menos "ao calhas" cuja relevância só está ao alcance do delirio do espectador. Iñarritu é apenas mais um realizador da moda deslumbrado com as potencialidades do cinema para contar as histórias de sempre, só que de modo diferente. Por mim, sentenciava-o a não menos do que cinquenta visionamentos do, esse sim, pungente e profundo, «Vidas Privadas»/ «In the Bedroom», do também jovem Todd Field, para que tomasse consciência de que quanto mais pretensiosamente amplos são os objectivos, maior deve ser o investimento em sensibilidade e bom senso. Assim, a existência das emoções no tempo não se chega a dar em «21 Gramas» porque todos os momentos são sabotados com o aparente propósito de criar novas acrobacias temporais – «21 Gramas» rapidamente cansa com tanto mortal à frente e flic-flac à retaguarda. Não há mesmo carisma que resista, bem o podem dizer Benicio Del Toro e Sean Penn, ou o notável director de fotografia que é Rodrigo «25th Hour» Prieto.

Óbito

A mais fulminante das doenças prolongadas fez outra vítima no cinema português. O realizador José Álvaro Morais faleceu na última sexta-feira. No que me diz respeito, nunca esquecerei a deslumbrante criação de Beatriz Batarda no «Peixe Lua» - filmada sublimemente entre Alcochete e a Andaluzia - mas, acima de tudo, recordarei sempre um dos mais belos filmes de toda a história da nossa cinematografia, o fulgurante «O Bobo» de seu nome. Até um dia, Zé Álvaro!

São Jorge e os outros onze

O Sporting conseguiu ontem ser, durante quase noventa minutos, a melhor equipa da Super Liga. No final o dragão não morreu, acabou apenas ferido. Parabéns às duas equipas que proporcionaram o espectáculo mais emotivo da ainda curta existência do Alvalade XXI.


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