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quarta-feira, março 31, 2004

É preciso relativizar

Acho que hoje dei excessiva importância ao meu protagonismo neste espaço. Cheguei inclusive a pensar acabar com o(a) Babugem por não saber escrever de outra forma. Felizmente, um colega de trabalho mais distraído deixou-me fechado às escuras na casa de banho. Tive que desenrascar-me sozinho. A vida prossegue - ela nunca deixou de o fazer! Também por aqui.

O João Lopes ligou-me no momento preciso em que acabava de colocar o meu post sobre o filme de Fernando Lopes, para me convidar a assistir ao conjunto de três textos numa só peça - «Paisagens Americanas», a partir de Neil Labute, no Teatro Aberto - por ele encenados em colaboração com o também crítico de cinema, Rui Pedro Tendinha. Há sinais que nos dão um nó na garganta e um aperto no coração. Não querendo passar a ideia de que estou comprometido com outra coisa que não uma necessidade (por vezes suicida, ou será egocêntrica?) de ser intelectualmente e emocionalmente honesto. Comigo e com os outros.

Código desconhecido

Vou escrever resumidamente (isso queria eu) o que penso do novo filme de Fernando Lopes, Lá Fora, para ver se me livro do incómodo (sofro do complexo de frontalidade) que é para mim exprimir a desilusão por um trabalho que envolve directamente duas pessoas por quem tenho grande consideração (o segundo elemento é o argumentista de Lá Fora, João Lopes) e, num dos casos (o do João), tenho até uma certa amizade. Falar sobre este filme coloca-me como que à beira do abismo, pelo que vou seguir o conselho do “futebolês” e dar mesmo o passo em frente...
Aqui vai: Lá Fora parece-me um ensaio sobre o triunfo da Morte sobre o Amor, à maneira do Godard de «Salve-se Quem Puder», filmado com a frieza clínica e o rigor plástico do Michael Haneke de «Código Desconhecido», e que recorre ainda, de forma demasiado explícita, a outras referências cinéfilas e do planeta audiovisual em geral como, por exemplo(s), o retrato, na alfaiataria, do actor Joseph Cotten (dos primeiros grandes filmes de Orson Welles, símbolo de um cinema que se perdeu...), diálogos de «Pedro, o Louco» (Godard, de novo) e até um determinado plano de uns determinados sapatos de senhora deixados pelo chão, que eu juraria ter sido importado directamente do videoclip de «The Power of Goodbye», de Madonna. Num filme escrito pelo João Lopes, são referências pertinentes de sentido. Mas que sentido faz (tem) este filme, cujo argumento parece resultar de uma colagem de pequenas ficções perdidas num limbo cada vez mais abstracto, em que não nos permitem voltar atrás “na página” (já explico) para tentar perceber se aqueles diálogos cifrados, naquelas imagens poéticas, têm um pouco mais de alguma coisa para nos dizer? Sim, porque a única hipótese de este filme comunicar com alguém, esse alguém é o espectador. Os personagens, os protagonistas (uma apresentadora de TV muito “blond ambition”, e um corrector da bolsa que é uma versão séc. XXI do Tomás da Palma Bravo de «O Delfim») vivem encerrados num condomínio de luxo, vivem fechados nas suas próprias cabeças, falam sozinhos e parecem também falar sozinhos noutras ocasiões - graças a essa "maravilhosa tecnologia" que são os auriculares dos telémoveis -, martirizando-se nas suas solidões, vivendo a impossibilidade do amor com um masoquísmo tão novo-rico e intelectualizado que custa a aceitar mesmo na base de um qualquer código realista que tive dificuldade em descortinar. Lá Fora (isso queria também eu) não é suposto ser literatura, mas os personagens limitam-se a abrir o livro, uns com os outros, quando falam (para se ouvirem?) – por exemplo, na cena pesadamente bergmaniana (enquadramentos «Face a Face»), em que Laura (Premminger!) Albuquerque visita a sua psicoterapeuta.
Um derradeiro reparo. Conclusivo, embora mais houvesse para dizer: entre o amor e a morte, o corrector (Rogério Samora) escolhe a morte. Entre este filme de Fernando Lopes e outros exemplos retirados do resto da sua obra, eu escolho «O Delfim». Para falar da vida. Lá fora. Que ecoa dentro de nós.

P.S.1 O direito de resposta existe, mas não alimentarei polémicas aqui ou em qualquer outro espaço (que sendo privado não deixa de ser) público. Quero acreditar, sobretudo, que a estima e a amizade podem coexistir com este tipo de desabafos. Será que podem? Somos um país tão pequeno cheio de susceptibilidades tão grandes...

P.S.2 Coisas boas em Lá Fora: Joaquim Leitão e Miguel Guilherme. A música de Bernardo Sassetti (as outras músicas, idem), no entanto, mal utilizada. Algumas opções de raccord. O som.

Músculo

Início da tarde “à deriva” com a música extraordinária de Michael Blake, Peck Allmond, Briggan Krauss, Ron Horton, Marcus Rojas, Steven Bernstein, Frank Kimbrough, Tony Scheer, Ben Allison, Matt Wilson e Mauro Refosco. Faz lembrar o som de Charles Mingus nas suas formações mais alargadas, e também por isso é mesmo muito bom. Quem distribui cá é a Dargil. Spreschen zie deutsch?

Rente ao chão

O que é que se ouve no conjunto das muitas canções, mais um ou outro instrumental, presentes em «Seek», o novo CD dos Beanfield? Um pouco de Jazzanova, um pouco de Spacek, bastante Herbert. A procura dos Beanfield resume-se a percorrer de novo caminhos já trilhados pelos projectos principais da cena europeia electrónica de dança. Os temas de «Seek» nunca descolam verdadeiramente do espaço físico onde são ouvidos, mas no seu voo rasante há que recolhecer-lhes uma constância qualitativa à imagem de um regular bater de asas. Vale a pena conhecer.

terça-feira, março 30, 2004

Eternizar a adolescência com os N*E*R*D

"Em entrevistas, confessavam recordar-se de viagens de carro com os pais ao som de Cat Stevens, Allman Brothers e Creedence Clearwater Revival, de sessões de air guitar acompanhando Lynyrd Skynyrd e Van Halen, tardes passadas em salões de jogos a enfrentar vilões ouvindo Rock FM ou horas infindáveis sobre os skates com hardcore a sair dos tijolos. Estava visto que N*E*R*D era o projecto das férias de Verão intermináveis – os passeios até à praia, as viagens de bicicleta com um grupo de colegas, namoros, banda de garagem, saídas à noite... o desejo de eternizar a adolescência." (in 000165 Folha informativa regular, mas não exaustiva, das novidades da Ananana)

Eternizar a adolescência não é propriamente o meu projecto de vida. Logo eu que sinto uma espécie de nostalgia por tempos em que apenas sonharia vir um dia a descer a este mundo. Mas nem por isso sou insensível ao apelo da música dos N*E*R*D, apesar de reconhecer que em «Fly or Die», Chad Hugo e Pharrell Williams, percorrem 12 músicas na corda bamba que tem por baixo algumas páginas lamentáveis da música norte-americana das últimas décadas do séc. XX (para as ditas referências, ver citação acima). É como se o disco representasse um constante desafio aos limites dos nossos parâmetros estético-musicais. Só que para jogar o jogo a sério, é preciso ter ouvido muita porcaria daquela durante a adolescência (motivo pelo qual mirra mais ainda o desejo de a eternizar). O jogo continua...

Quem é Vinicius Cantuária (biografias cruzadas)?

Lembrei-me de Vinicius Cantuária a propósito do concerto de ontem de Vanessa da Mata. Nada em comum entre os dois, para além do facto de se inserirem na mesma nobre linhagem da MPB que vai da bossa-nova ao tropicalismo, até ao que hoje se denomina, de acordo com palavras de Lenine, por falange canibal. Vinicius Cantuária apareceu na banda de Caetano Veloso dos anos oitenta, pirou-se depois para Nova Iorque e uma década mais tarde aparecia com o CD «Sol na Cara», produzido por Arto Lindsay e que contava com a contribuição em piano e teclados de Ryuichi Sakamoto. «Tucumã», o disco seguinte, já trazia na ficha artística nomes como Laurie Anderson e Bill Frisell. Cantuária tornara-se num músico de culto entre as luminárias da downtown de Manhattan. Há pouco mais de um ano atrás foi editado o até agora seu último trabalho de estúdio, intitulado simplesmente «Vinicius», que traz duetos maravilhosos com Caetano Veloso e David Byrne, e que será (talvez?) o seu melhor disco até à data. Vinicius Cantuária já actuou por duas vezes em Portugal, sempre no Porto, no anfiteatro dos jardins do Palácio de Cristal. Concertos incríveis, um debaixo de chuva torrencial que me ensopou até aos ossos (não tenham pena, os ossos são de primeiríssima qualidade), nos quais a sua música entrava numa espécie de transe do improviso próximo do jazz, e em que dava a sensação de Vinicius Cantuária se encontrar na atitude idêntica à daquele que distraídamente (um trainspotter?) aguarda pela passagem sucessiva dos comboios, podendo sempre apanhar aquele que ele bem desejar. Este pulsar que Lisboa nunca testemunhou em directo, pode agora ser ouvido no duplo-CD ao vivo «Live Skirball Center 8/7/03» que a Fnac importou e expõe na sua secção de jazz - pelo menos a da loja do Chiado. É o prémio de consolação, e é uma bela consolação, diga-se a propósito. Ouçam como a música pode soar tão natural quando quase já não soa a música feita de acordo com a formatação que nos é dada a consumir de forma massificada. Passe o chavão, apetece escrever que Vinicius Cantuária já há muito deixou de fazer música. O próprio tornou-se numa versão aperfeiçoada da música que um dia começou a fazer. Quando emancipado se mudou com tudo para os Estados Unidos da América.

segunda-feira, março 29, 2004

Morena de canela e os quatro anões

Vanessa da Mata actuou esta noite na sala grande (meio cheia) do Centro Cultural de Belém. Que mulherão! Não fui eu que disse, mas em pensamento era todo concordância.

Como adoro estas fórmulas!

Imaginem o que nasceria do encontro criativo de Ryuichi Sakamoto com os Stereolab, numa praia de Ipanema, de frente para o mar e com umas cervejas frescas em cima da mesa? Parem de imaginar. A concretização desse cenário está no disco do projecto Savath & Savalas (de Scott “Prefuse 73” Herren), que na fase de misturas contou com a intervenção de John McEntire (Tortoise, The Sea and Cake), por certo determinante para que estas quase que canções electro-acústicas se tornassem ainda mais sustentáveis na sua leveza. «Apropa’t» (ver www.warprecords.com) é o multiculturalismo que dá à costa em lentas, doces e sucessivas vagas. Música de Verão para escutar dentro de casa.

Fly or Die

Os N*E*R*D, depois dos Outkast, são apenas mais um exemplo em tempo recente de músicos que comem as papas na cabeça do artista anteriormente designado por (artista anteriormente designado por) Prince. Bons como o caraças!

La musique c'est bien quand même

Fui ver este fim-de-semana a animação Belleville Rendez-vous. Pareceu-me óbvio, e numa cena é até mesmo explicitada, a admiração que o realizador Sylvain Chomet nutre pelo cinema de Jacques Tati. Como não gosto particularmente de Tati (é cá uma embirração muito pessoal), é também óbvio que não fiquei deslumbrado com este filme francês. Falta agilidade narrativa onde sobra virtuosismo artístico. Falta ritmo num filme em que a música sobe várias vezes ao palco. Tem, no entanto, o mérito de não ser moralmente conformista como o são as histórias da Disney e da Pixar, e há uma memorável interpretação (ao piano martelado) de «Uma casa portuguesa», e ainda um adorável ciclista deprimido. Não é muito, mas foi suficiente.

A nossa mútua poltrona

Hoje sai o novo CD dos The Divine Comedy, um dos meus grupos de poltrona que se vê reduzido à figura do ex-dandy agora de aliança de matrimónio do dedo, Neil Hannon. «Absent Friends» é um not so short album sobre a solidão em que regressam os arranjos neo-clássicos com orquestra de «Fin de Siècle» (num cruzamento entre a escrita de Michael Nyman e a B.S.O de Brideshead Revisited) junto com a escrita mais "séria" de «Regeneration». Nas primeiras três músicas, Hannon abraça até ao absoluto mimetismo a figura de Scott Walker - sobretudo o de «Scott 3» e «Scott 4» -, a quarta faixa corresponde ao single «Come Home Billy Bird» que é do mais orelhudo que uma playlist que prime pelo bom gosto pode exigir, há mais para a frente uma música completamente fabulosa (as músicas mais belas são as que provocam em nós a comoção) que se chama «Our Mutual Friend», e o resto do álbum mantém-se a um nível muito elevado. «Absent Friends» pode ser música de poltrona, como admiti, mas esta é daquelas que tem pés de um tamanho que nunca mais acaba.

sexta-feira, março 26, 2004

NESTE mundo

Hoje não estive disponível para ninguém. Sábado, domingo e segunda parece-me que também não.

quinta-feira, março 25, 2004

Não resisto a citar (e ainda não parei de rir sozinho)

"... ir à casa-de-banho era arriscar uma intoxicação de naftalina, tal a quantidade de bolas que colocavam nos mictórios... " Esta é também a memória (olfactiva) que guardo das salas do Mundial. Coisas que já não se usam, apesar da alternativa esporádica que representavam em termos de programação. Muito esporádica. Fraca programação.

Inéditos

1. O Mistério da Légua da Póvoa, de Agustina Bessa-Luís
2. Falo do que Vi, de Sophia de Mello Breyner Andresen
3. Pif-Paf, de Millôr Fernandes
4. A Amargura dos Contrastes, de José Rodrigues Miguéis
5. Lisboa e Assim, de Alexandre O’Neill
6. A Guidinha antes e depois, de Luís Sttau Monteiro
7. Matéria insondável, de Mário Cesariny de Vasconcellos
8. Urzes, de Manuel Hermínio Monteiro
9. Não É Artista Quem Quer, de Raúl Lino
10. Segunda Escolha. Ensaios de História, de Rui Ramos
11. Liberdade, de Victor Cunha Rêgo
12. 15! Best Of do Independente

O Independente, convertido à política do jornal + livrinho, resultará nesta colecção de inéditos de língua portuguesa que reúne textos nascidos para a imprensa escrita – crónicas, artigos de opinião, pequenas ficções – agora agrupados por autor (e que autores!) no formato livro de ir ao bolso. Mais uma razão para comprar ao longo de 12 semanas aquele que é o melhor semanário cá do burgo. Passe a publicidade.

quarta-feira, março 24, 2004

Fora do Mundo

Faço questão de que esteja aqui dentro. E mais ali ao lado também.

Teremos sempre os Clássicos

O rapaz Mehldau está de volta com o seu CD menos afectado desde tempos que assinalaram a estreia do próprio na Warner (1995) e o início da série «The Art of the Trio» (1997). Assim é como eu mais gosto dele: sentado relaxadamente ao piano, percorrendo repertório alheio – canções tornadas Clássicos pelo juízo do tempo – mais introspectivo que expansivo, reinventando sem ser por demais inquieto e impositivo, com espaço para ouvirmos (sempre) os músicos que o acompanham: Larry Grenadier (ctb) compreensivelmente mais do que Jorge Rossy (btr). «Anything Goes», assim se chama este disco, respira nova-iorquismo e oxigénio do Central Park por todos os orifícios. Começa com o ímpeto da felicidade e termina em apaziguada resignação. Percorre temas de Harold Arlen, Cole Porter (daí o título), Monk, Hoagy Charmichael, Paul Simon, Chaplin, Lerner & Lowe e os “incontornáveis” Radiohead (quem está a par da discografia de Brad Mehldau apanha a insinuação). Três músicos de jazz sentados na relva, embora calçados, à conversa, num qualquer final de tarde, também me sugere uma metáfora visualmente perfeita para traduzir a música que este «Anything Goes» traz dentro. Ouçam-no a qualquer altura, pois acredito que terá sido para isso que ele foi feito. Sempre com os Clássicos por linha do horizonte.

terça-feira, março 23, 2004

Transcendência pelo fado

A penúltima coisa que ontem fiz antes de me deitar ( a última foi descascar e comer uma maçã), foi assistir à entrevista de Camané no programa «Por Outro Lado», de Ana Sousa Dias. Embora não reconheça méritos invulgares à senhora entrevistadora (nem seja assíduo do programa), a verdade é que criou-se entre ela e Camané um clima mais propício à confessionalidade do que a afamada timidez do fadista faria supor. Gostei especialmente do momento em que Camané reconheceu o fascínio que sentia pelas histórias contadas pelos fadistas das gerações mais velhas, que remetiam para um tempo que não viveu mas de que tinha saudades. Talvez seja isso que sentimos e que é dificil explicar quando ouvimos Camané cantar. Uma voz que se projecta (e que pertence ao) no passado, presente e, creio eu, futuro.

segunda-feira, março 22, 2004

22 de Março (de há dois anos atrás...)

Como em todos os inícios de semana (bem, vá lá, como em todos os dias), procuro entradas novas do João Pereira Coutinho. Hoje trazia finalmente uma, «A Arte da Rudeza», datada de 22 de Março. Às primeiras três linhas pareceu-me familiar. No final do primeiro parágrafo, regressei ao título. Depois ao dia. Mês. Ano. Faz hoje dois anos que o João a escrevera. No Independente. Bolas.

Canções Suecas

O disco chama-se «Watercolours», e reúne de novo os talentos da mezzo-soprano Anne Sofie von Otter e do pianista Bengt Forsberg. Canções líricas suecas (da terra natal de von Otter e Forsberg) em repeat, cuja beleza quase que dispensa a compreensão das palavras. O livrete inclui, no entanto, a reprodução dos textos das canções em sueco e inglês. Não fosse a leitura dos jornais estar tão atrasada...

Sheik-Mate

Golpe mais rude que este, só o assassinato do próprio Yasser Arafat. As coisas prometem ficar muito feias. O Hamas ameaça, "não será uma vingança, será guerra aberta". Madrid já faz parte do passado. Porque isto anda tudo ligado. Não é o que parece?

sábado, março 20, 2004

A Paixão de Santos

O Sporting foi esfolado vivo em Vila do Conde. ACABOU-SE.

sexta-feira, março 19, 2004

Manchetes que me forçam a comprar um jornal como quem acende uma velinha a Nossa Senhora de Fátima


quinta-feira, março 18, 2004

À "quinta" foi de vez...

Depois de rejeitar a versão redux de «Apocalypse Now», despropositadamente iluminado onde as trevas eram mais cerradas; de ter feito o mesmo com «Vigaristas de Bairro», que põe Woody Allen e a irritante Tracy Ullman a apanhar pastéis; de passar ao lado de «Cinema Paradiso», para cujo peditório de lágrimas já dei há muito; de amaldiçoar a hora recente em que encomendei «Gosford Park» pela Net, julgando que tão cedo não aparecia por cá em saldo; finalmente inaugurei hoje a minha DVD(teca) DNa com Disposta a Tudo (1995), de Gus Van Sant, filme sobre o qual imagino que os anos terão assentado que nem vestido curto de pele de leopardo sobre as formas da protagonista-oportunista, e também porque me apetece rever a estreia do grande Joaquin Phoenix, e esse cameo memorável de David Cronenberg (na ficha técnica identificado como "o homem no lago") que faz de assassino contratado para "congelar" a bela Nicole Kidman.

Uma história simples

... esta é a história de como entrei na Valentim de Carvalho do Saldanha para comprar um disco que afinal não tinham recebido e fui abordado por um indivíduo de meia idade simpático junto aos escaparates de DVD's em promoção que me perguntou se eu não queria escolher algum filme para juntar aos dois que ele já tinha na mão de modo a que pagássemos o preço mais baixo e acabei por aceitar a proposta selada com um aperto de mão saindo da mesma loja com o DVD do episódio inaugural da até agora e ainda a contar trilogia do «Exterminador Implacável» que foi talvez o filme que mais vezes vi no cinema e que foi responsável pela origem do meu culto da figura de Arnold Schwarzenegger nome que uma vez mais consegui escrever correctamente não sem depois confirmar o feito na embalagem do mesmo DVD...

Os Outros

Um excelente filme contado do ponto de vista dos mortos. Nos dias que correm à velocidade de 24 imagens por segundo, são já raros os exemplos de uma gestão tão rigorosa de meios (luz, música, dramaturgia, actores) como este filme do espanhol Alejandro Amenábar. «Os Outros» parece ter sido realizado nos anos 60, e tem todos os méritos de uma direcção de fotografia a preto-e-branco, embora seja de facto a cores - o trabalho de Javier Aguirresarobe (responsável também por «Fala com Ela», de Almodóvar) é das coisas mais notáveis que vi em cinema nos últimos anos (méritos da fotosensibilidade, sem dúvida!). Um controlo absoluto ainda da atmosfera de suspense, e uma transição de rara subtileza no momento em que as almas penadas tropeçam da ilusão da sua existência real, e percebem que são elas que se encontram do outro lado. Eles podem todos já estar mortos de início, mas Amenábar consegue a proeza de ressuscitar Grace Kelly e dar-lhe o rosto, o corpo e a voz de Nicole Kidman. Cinema em casa deste calibre, até parece que é mais cinema que os outros.

quarta-feira, março 17, 2004

Nu com a minha música

Diz o nu ao roto: "Sempre compraste o CD dos Loto?"
Diz o roto ao nu: "Se queres ouvi-lo, compra-o tu!"
E eu assim fiz.

O Guru

Na impossibilidade de beijar as mãos com que João Lisboa escreve todas as semanas, no Expresso, as suas críticas musicais de um bom gosto irrepreensível, venho apresentar aqui a minha contrição para com algumas reservas manifestadas a propósito do mais recente disco compacto de Lhasa - a cantora canadense com voz de "seca adegas". João Lisboa não lhe poupou elogios, e «The Living Road» foi parar de novo à minha playlist. Duas audições consecutivas foram quanto bastou para que até mesmo o nariz torcido face às músicas cantadas em francês e inglês (ao contrário da dominante espanhola do anterior «La Llorona»), retomasse a posição com que nasceu. A alegria da (re)descoberta tive-a hoje graças a Lhasa. E ao João Lisboa.

Escolher/ Não Escolher

A postura dos partidos de esquerda e de direita em relação aos recentes eventos em Espanha e à relação destes com a intervenção militar no Iraque, ameaça descrever uma espiral de respostas e contra-respostas que se dirigem para um qualquer infinito, um esgoto onde o odor de ambas as argumentações se tornará indício de algo que apodrece face ao desinteresse geral resultante. Vou portanto resumir esta questão à expressão mais "simples", com ligeiros desenvolvimentos de alguma imodéstia e, espero que pouca, ignorância. Digamos que os Estados Unidos e os terroristas islâmicos (talibã e seus derivados) procuram impor ao resto do mundo modelos de uma opressão totalmente distinta: no caso muçulmano, essa mesma opressão resulta da incapacidade de escolha face à inexistência de alternativas à absoluta ortodoxia do seu “modelo” de sociedade; no caso norte-americano, a opressão verificar-se-á pela liberdade absoluta de escolha no interior de uma sociedade democrática que faculta ao indivíduo formas infinitas de modos de vida, inclusive à margem da própria, desde que não fora da lei. Ter o máximo de escolha possível pode suscitar uma perplexidade próxima daquela que produz a ausência de opção alguma. Os talibã sabem bem que a tentação de escolher supera sempre o desejo de tudo recusar. As sociedades muçulmanas mais fundamentalistas constituem-se na sua coesão pela recusa de todos os valores que venham do exterior. Nada é permitido experimentar, não vá as pessoas gostarem mais da “novidade”. A novidade confunde-se na maioria dos casos com o prazer. Daí também a desigualdade de direitos entre homens e mulheres. Quanto menos estas saibam, menos ameaça representam para os seus maridos, donos e senhores. E porque é que os talibã e outras seitas integristas não se limitam a opor uma resistência dentro de portas? Porque em pleno século XXI, com os avanços tecnológicos traduzidos em velocidade de deslocação e abrangência de comunicação, é impossível manter um país completamente selado ao estrangeiro. Há coisas, informação, impressões, material diverso, objectos culturais que sempre furam a barreira geográfica e, consequentemente, ideológica. E o ser humano é por natureza curioso, antes de ser católico, muçulmano, capitalista, socialista, o que quer que o valha. Os valores estão na mesa. Os que fazem a guerra, só do lado dos talibã detêm o monopólio da não escolha. No Ocidente, sempre há a possibilidade de se verificarem epifenómenos, reacções quase imediatas, como as que deram origem aos resultados das últimas eleições de Espanha. Os espanhóis escolheram. Ao povo muçulmano, incentivado no seu ódio e fanatismo (muitas vezes coincidentes), é oferecida essa possibilidade? Parece-me que não. Evolução na continuidade, ou involução – retrocesso, primitivismo? A escolha afigura-se nossa. Que ainda podemos escolher. Por vezes a tentativa de democratizar o resto mundo (de forma mais e menos legítima), é a única garantia de preservação do mesmo mundo tal como hoje o conhecemos. Oprimidos com a possibilidade de tudo escolher.

Ten

A que é que sabe entrar numa espécie de hipnose e abanar a cabeça em jeito de ameaça à integridade do monitor do PC, ao som dos cLOUDDEAD? Sabe BbBeEEmmmEEMMeemmemm................

Amor aos pedaços

«A minha namorada morreu. Despedaçou-se-me o coração e jurei ser fiel à sua memória. De início, não foi difícil; estava tão aflito que nem sequer conseguia imaginar-me a beijar outra pessoa. Mas, passado um bocado, outra rapariga começou a demonstrar certo interesse. Resisti à abordagem.
– És muito bela – dizia-lhe – mas ainda é muito cedo. Desculpa.
Não desistia. Não parava de me tocar carinhosamente e de bater as pestanas com rimel. Acabei por ceder e caí-lhe nos braços. O homem pediu-nos que saíssemos. Explicou que o nosso roçagar, os nossos sorvos e as risadinhas incomodavam as outras pessoas do velório.» (“Fidelidade”, em A Namorada Portuguesa e outras 100 histórias, de Dan Rhodes)

O tom é sempre este. A tradução faz uso de um óptimo português. A edição da Gótica é como de costume, cuidada. 101 excelentes rapidinhas com a cortesia do jovem talento, Dan Rhodes (n. 1972).

terça-feira, março 16, 2004

Procurem-na aqui à direita

Em segundos fiquei conquistado pela auto-proclamada "melhor defesa contra o estado geral de bovinidade". Não sei se será a melhor, mas que é muito boa não restam dúvidas. Tenham medo, tenham muito medo de ver-se incluídos no quadro de blasferas... A ausência de link é só para dar um pouco mais de trabalho.

O esplendor dos Pekar

Harvey Pekar apressa-se a informar a futura terceira mulher, Joyce, no momento em que os dois se conhecem, de que havia feito uma vasectomia. Igual procedimento cirúrgico parece ter ocorrido com o filme «American Splendor», na altura em que os dois autores, Shari Springer Berman e Robert Pulcini, deveriam emprestar uma terceira dimensão (não me refiro à ilusória profundidade de campo, mas a uma profundidade psicológica que não se resuma a um conjunto de esgares e desaforos) à figura do popular autor de BD underground, Harvey Pekar. Sempre ficaríamos mais bem servidos com um "tosco" menos estereotipado. Uma vez que não é isso que sucede, «American Splendor» nunca descola da interacção algo previsível das linguagens próprias ao cinema e à BD. Exemplo: inserção de vinhetas com informação de locais e datas. Regressando à figura de Harvey Pekar, pelo que o filme nos dá a conhecer, de forma algo deslumbrada, digamos que não é minha intenção visitá-lo no seu blog.

Watchman

Caro sr. Ministro e dr. Figueiredo Lopes,
É favor não descurar a carga simbólica de um cenário como a ponte 25 de Abril em hora de trânsito intenso. Obrigado.

segunda-feira, março 15, 2004

Pontos de vista

Marcados pelo regresso de um querido amigo...
"Caro Gross,

Não penses q é perseguição. Aqui vai mais uma discordância.

O teu texto sobre o resultado e os efeitos das eleições em Espanha
insinua (ou mesmo explicita) que Zapatero reage à chantagem dos
terroristas e faz-lhes a vontade, retirando as tropas do Iraque. Não é
verdade. Zapatero já tinha prometido em campanha (antes do atentado)
que essa seria uma das medidas a tomar no imediato. A sua posição
quanto à política de apoio à invasão do Iraque ao lado de Bush e Blair
já era amplamente conhecida: contra.
Não há aqui nenhuma imagem de "desistência". Há sim uma resistência: à
política cega dos EUA, à mentira para justificar uma guerra, ao
seguidismo politicamente correcto. Será um "política de toalha branca"?
Concordo: antes assim do que manchada de sangue. Espanhol, iraquiano,
palestiniano...

Um abraço,"

... e pela minha tentativa de lhe responder.

Querido amigo,

Discorda sempre que quiseres. Quanto às questões propriamente ditas, tenho a dizer-te que não acompanhei a campanha de Zapatero nem do PP, por sinal. Não me espanta a divergência completa de opiniões em relação à “invasão” do Iraque. É esse o papel da oposição. Deitarei foguetes (não me perguntes de que que tipo...) quando alguém na oposição concordar com os governantes em qualquer assunto susceptível de mobilizar o eleitorado. Acho os políticos demasiado previsíveis para o meu gosto. Por isso gosto dos que se nota pensarem pela própria cabeça, mesmo quando não concordo com eles. Exemplos, de ambos os lados da barricada (embora um não seja político e faça política apesar de o não ser): Pacheco Pereira e Sousa Tavares. Voltando ao Zapatero, confesso ter ficado desapontado com a sua falta de firmeza (mas parece que é uma característica do senhor...), e com a sua pressa de, num momento particularmente delicado, se libertar de imediato das responsabilidades assumidas em matéria de política externa pelo anterior governo. Cheira-me a fraqueza e, pior ainda, a populismo. Afinal, porque é que a Espanha foi atacada? Por pactuar com a intervenção militar no Iraque? E em que é que isso se traduziu? No envio de tropas no período póstumo à deposição do regime de Saddam Hussein? E essas mesmas tropas dispararam quantos tiros que justificassem as mortes de Madrid? 200 pessoas morreram e 1500 ficaram feridas porque o governo espanhol pensa de modo diferente dos talibã? E em que é que pensam os talibã? Acho que o pânico de que o Ocidente apresente um modelo de vida alternativo ao que experimentam os povos subjugados por eles e pelo islão vivido numa perspectiva integrista, incute neles a cegueira deste tipo de acções que visam anular qualquer espécie de pensamente pelo despoletar do caos, da barbárie, da morte. Sei que a política alimenta e se alimenta de interesses em todas as partes do mundo, e que muito poucos estarão nela com um sentido de missão, mas não tenho dúvidas e nem sequer posso colocar as coisas em matéria de mal menor. Como confessei à mesa, em família, este fim-de-semana, mais depressa daria um tiro em Osama Bin Laden do que um abraço em George W. Bush. Parece-te ambíguo? A intenção é mesmo essa.

O abraço é todo meu.

Toda a cinefilia será premiada

«Má Sorte», do até agora desconhecido Wayne Kramer, é um filme curioso, interessante também de observar pelo ângulo de uma cinefilia muito dirigida a referências dos anos 90: a filmes como «Hard Eight», de PT Anderson, «Leaving Las Vegas», de Mike Figgis, «Os Fabulosos Irmãos Baker», de Steve Kloves e «Casino», de Martin Scorsese. Outros cinéfilos invocarão, porventura, outras referências. Trata-se de uma fantasia romântica que tem lugar nos ambientes dos casinos de Las Vegas, em cujo par poderá ser descrito por Mr. Cooler (Sr. Azarão) e Lady Luck (Sra. Sortuda). «Má Sorte» encontra-se perfumado de música jazz, anti-heroísmo e um modo surpreendente, cru mas terno, de tratar a intimidade. A certa altura, após terem feito amor pela primeira vez, ela (Maria Bello) elogia-lhe o pénis, a câmara faz um travelling que percorre os corpos deitados dos amantes, até que observamos que uma das mãos da mulher agarra o sexo do homem (William H. Macy). Simples, directo, pungente. Scorsese é a referência tutelar que mais se destaca neste «Má Sorte», projectando-se nas figuras do dono do casino, um Alec Baldwin que ostenta um sadismo próximo do que Joe Pesci já havia mostrado em «Goodfellas» e «Casino»; e do crooner decadente e heroinómano de Paul Sorvino, personagem que não sobreviverá à mudança dos tempos. O filme de Wayne Kramer termina, aliás, com uma imagem muito semelhante à que encerrava o «Casino», de Scorsese: a implosão de um casino que dará lugar à construção da sua versão modernizada. «Má Sorte» é um filme profundamente revivalista que não estando à altura das referências que convoca, é ainda assim um objecto de resistência por uma certa noção de romantismo fantástico que na literatura tem em Paul Auster e nalgum Mamet (David), dois dos seus mais bem sucedidos cultores.

Eleições

José Luis Zapatero - de rabo fresco mas já enfiado entre as pernas - apressou-se a comunicar ao povo que vai mandar regressar o contingente de tropas espanhol no Iraque. Esta imagem de desistência, traduz os efeitos do poder e da inteligência por detrás dos actos terroristas – combinação letal: mentes brilhantes sem amor à vida (alheia) a comandar; mentes acéfalas sem amor à (própria) vida a executar. Apesar de terem ficado aquém do seu potencial máximo de destruição, os atentados da semana passada em Madrid conseguiram ainda assim punir os espanhóis e castigar o governo de Aznar. O PP nem teve tempo de ir além de uma reacção dúbia e titubeante, demasiado agarrada – e por tempo demasiado – à atribuição plena das responsabilidades à ETA, mesmo quando os indícios apontavam já o azimute do Médio-Oriente. O timing da perfídia islâmica foi de tal modo perfeito, que parece ter mobilizado a comoção do eleitorado mais apático, à esquerda, que veio a garantir a vitória do PSOE. Agora, resta-nos assistir apenas às repercussões desta aparente política de “toalha branca” do novo governo espanhol, sobre a incidência da barbárie aparatosa, em Espanha, e no resto do mundo democrático.

sexta-feira, março 12, 2004

Pequeno intervalo publicitário

A cachaça «Velho Barreiro», 1873 Aged and Double Distilled, brazilian spirit made from sugar cane, 40% Vol. deseja a todos os visitantes do Babugem um excelente fim-de-semana. Se o mundo lhe parecer por vezes demasiado complexo, beba! Vai ver que nada ganha sentido, e você com isso?

quinta-feira, março 11, 2004

Resposta a um querido amigo

Pergunta ele: "... Então " O terrorismo é algo de tão condenável que torna legítima qualquer acção que vise expurgá-lo da face da Terra. "???

Gross, não te deixes levar pela raiva que estes actos hediondos nos desperta. Não me digas que defendes um terrorismo de Estado (como, precisamente em Espanha, os GAL)...

Ou é outra vez a questão da pena de morte, aplicada a quem mata?"

Respondo eu: Quando o meu irmão era ainda uma criança, um vizinho nosso ameaçou-o com uma pedra dizendo que o ia matar. O meu irmão pegou então, também ele, numa pedra e fez menção de a atirar antes do outro. Só que foi interceptado pela nossa empregada que evitou que algo mais desagradável viesse a acontecer. Então o meu irmão disse-lhe: "Ele ameaçou que me ia matar, e antes que o fizesse matava-o eu a ele". Quando alguém atenta contra a nossa própria vida, não tenho qualquer dúvida em subscrever as palavras do meu irmão de há muitos anos atrás. Não sou apologista da pena de morte, mas se alguns terroristas "ficarem pelo caminho" (aspas assumidas) no decorrer do processo de extinção de todo o tipo de organizações dessa desprezível índole, não vou chorar a sua morte. E também não me atrevo sequer, a mais do que imaginar qual a opinião das pessoas que foram directamente afectadas pela barbárie que se viveu esta manhã, no centro de Madrid, em hora de ponta.

Obs. Quando falo de extinção, falo de prisão e não de morte (não como meio, muito menos como finalidade). Mas sei que a morte pode acontecer em actos desesperados de resistência à prisão. E em processos de linchamento também. Não gosto, tão pouco, do carácter dúbio da designação Grupos Anti-Terroristas de Libertação. E, para concluir, uma coisa é aquilo que a nossa consciência deseja, outra, bem distinta, é o que ela consegue suportar.

Alguns esclarecimentos sobre terroristas e terrorismo, aqui. Jornal Público, 6 de Maio de 2001.


Porquê ele?

Do que assisti, julgo que, ainda assim, parte significativa do debate promovido pela SIC Notícias em torno da estreia do filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, congratulei-me com o facto de João Lopes ter marcado a presença mais esclarecida e esclarecedora. Fui particularmente sensível à sua argumentação em relação à falta de transcendência no Cristo de Gibson, ao contrário do que sucedera com a mesma figura no filme «A Última Tentação de Cristo», de Martin Scorsese. Um Jesus Cristo, agora revisto, que nunca coloca a questão "porquê eu?", ao longo de uma Paixão feita de fé e sofrimento (não terá nascido deste cenário a expressão "sangue, suor e lágrimas"?), não se enquadra de todo nas minhas expectativas face a um paradigma religioso que é suposto gerar (e gera!), pela sua dimensão humana, um culto tão universal em volta. Como é provável que vá ver o filme de Mel Gibson, talvez o assunto não morra aqui?

O 11 de Março

A ETA terá rebaptizado hoje o 11 de Setembro à escala espanhola. O terrorismo é algo de tão condenável que torna legítima qualquer acção que vise expurgá-lo da face da Terra.

P.S.I (às 15h00) E se não tiver sido responsabilidade da ETA, mas de uma organização terrorista islâmica tipo Al-Qaeda?

P.S.II (às 21h30) A TVI divulga em rodapé que a Al-Qaeda reivindicara por carta os atentados de Madrid.

O esquerdista de serviço

Fui ontem ver, finalmemnte, As Invasões Bárbaras, já muito para além do tempo regulamentar - o filme regressou às salas do Quarteto em virtude de ter recebido o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Gostei do desembaraço destas "invasões bárbaras"; da forma ligeira de abordar assuntos sérios. Afinal, trata-se dos últimos dias de vida de Remy, um professor universitário auto-proclamado esquerdista de serviço, que abraçou todas as ideologias (todos os “ismos” como ele e os amigos comentam divertidos), e que se encontra a morrer de cancro. O filho com quem mantinha uma relação distante e fria, irá proporcionar-lhe a última das utopias: morrer num cenário paradisíaco, rodeado pela família e pelos amigos. O filme de Denys Arcand é no entanto suficientemente lúcido para dar a ver que essa derradeira utopia foi construída, a cada momento, com tudo aquilo que o dinheiro permite comprar – o filho de Remy tornara-se um capitalista que ganhava mais num mês do que o pai num ano inteiro. O também outrora (?) esquerdista de serviço, Denys Arcand, põe os pés bem assentes na realidade contemporânea. Resignado, parece dizer-nos, “nada há a fazer em relação aos bárbaros!”. Talvez apenas manifestar amor à vida, não perdendo de vista o sentido do humor.

quarta-feira, março 10, 2004

Sing a long

"Now the clock is striking one/ So we might on well begin it/ As there's dancing to be done/ And our time is not infinite// If there's such a thing as love/ I'm in it" («If there's such a thing as love», The Magnetic Fields). Este «I» nunca encabeçará listas de melhores do ano. Os The Magnetic Fields ganharam uma vez mais direito a uma categoria só deles. Sing a long!

Webster's

Charles Webster «Remixed on the 24th of July», ou como um excelente disco de deep-house - «Born on the 24th of July», de Charles Webster (a.k.a. Presence) - pode dar origem a um quase tão bom CD de remisturas. Assinadas por especialistas como Ian O'Brien, United Future Organization, Jimpster ou Herbert. A imprensa conhecedora não se mostrou muito entusiasmada. Que se dane (mas que não se deixe de ler...) a imprensa conhecedora!

Duas palavras de alegria imensa pela valentia do Futebol Clube do Porto

Ah leõ... AH DRAGÕES!

terça-feira, março 09, 2004

Ler LA

Em matérias de polémica israelo-palestiniana, e noutros assuntos também, faz bem à saúde estar a par com a escrita de Luciano Amaral. Que não tem relação alguma, como é óbvio, com "Luciano Amaral", o outro (quantos serão na verdade?). Acreditem que vale a "pena". Quero dizer, a pena. Pesquisar também os episódios anteriores desta saga de aspas. Agora, sem elas.

(bom) Princípio de Resistência

"Por enquanto, ainda não capitulei: continuo a não ler os artigos de Pedro Strecht." Coragem João Miguel! Quanto ao Proust, podes sempre deixá-lo ficar para a reforma. Ou para adormecer a Carolina quando ela estiver mais irrequieta.


(Eu também tenho) os meus 5 filmes preferidos de Jean-Luc Godard

Sem dúvidas. Nem dramas. Dedicado ao João Lopes a quem já não punha o ouvido em cima há muito, muito tempo. Até ontem.
- Vivre sa Vie (1962);
- Le Mépris (1963);
- Sauve Qui Peut (la Vie) (1979);
- Passion (1982);
- Nouvelle Vague (1990).

segunda-feira, março 08, 2004

Atracção Pelos Anéis? Nããã...

O que ouvir depois de se ter ouvido já tanta coisa num dia em que pouca coisa houve que fazer? Que tal as canções de Schubert, em versão orquestral (DG 471 586-2), sob a batuta de Claudio Abbado e com as vozes maravilhosas da "élfica" Anne Sofie von Otter e do "hobbitiano" Thomas Quasthoff. A mim purifica-me os couratos, se me é permitido descer da universal trilogia para níveis de expressão de uma tangibilidade lusa. A audição prossegue dentro de 2... 24 horas. Critérios do pessoal da sala de trabalho que ainda faz luto pela Voxx, ao som de David Bowie.

Para fãs dos Beatles, Elliott Smith, Elvis Costello, Bob Dylan e Tom Waits, necessariamente por esta ordem!

No Dia Internacional da Mulher, uma escolha que não comprometa a minha intimidade. Sam Phillips, por exemplo: "... A Boot and a Shoe, which is produced by T Bone Burnett and derives much of its power from restraint and subtlety. The arrangements are remarkably simple, consisting mostly of acoustic guitar, electric bass, drums and Phillips’ vocals. The playing and singing are hushed throughout, although the reverberations of loosened drums and aging guitars are audible at every turn. "
Enquanto que outros aguardam pela sua vez, acabei de levar a senhora para dar mais uma volta. Ou será que foi ela que me levou a mim? Ooops, já estou comprometido...

Atracção Pelo Abismo

O que faço quando os livros por ler se acumulam por falta de tempo? Compro mais livros.

Corte de Cabelo

Tal como o desenho de um automóvel que não será conduzido; tal como o projecto de uma casa que não é suposto vir a ser habitada; tal como um modelo de roupa que ninguém usará fora da passerelle, o cinema dos irmãos Coen é muitas vezes de um virtuosismo vazio de emoções que não nos permite estabelecer com ele uma relação que vá além da completa racionalidade - apesar dos apontamentos humorísticos que aliviam o stress mental. A única e absoluta excepcionalidade de «Fargo» faz dele o melhor filme da dupla, sem a mais pequena dúvida (talvez a par de «História de Gangsters», mas este teria que ver de novo). Quanto a O Barbeiro, filme que está na razão directa deste desabafo, há que reconhecer a habilidade do argumento que força os limites da verosimilhança de um universo de normalidade caricaturada; a caracterização de alguns personagens (mas também com actores daqueles, é brilhantismo de composição 100% garantido!); a beleza da fotografia a preto-e-branco e o rigor dos enquadramentos; mas então porque diabo não resisti a certa altura a deixar-me ficar indiferente em relação ao rumo dos acontecimentos? Talvez O Barbeiro não seja objecto conforme com gente impaciente como eu, mas temo que de tão abstracto este filme por vezes quase dê a impressão de não existir sequer. A questão de fundo é sempre a mesma: é mais interessante que seja a natureza dos personagens a determinar aquilo que lhes vai acontecendo (eles são assim, logo reagem assado!), ou o inverso, i.e., ser a natureza da intriga a subjugar as premissas psicológicas das mesmas figuras (eles reagem assim, logo são assado!)? Os Coen parecem-me partidários da segunda hipótese. Donde alguns dos seus filmes darem a sensação de existir sobre coisa nenhuma. Puras construções mentais. Exercícios puramente virtuais. Tal como aquilo de que os cabelos são feitos, o cinema dos Coen parece muitas vezes ser constituído de células mortas. E a obra vai crescendo com resultados mais e menos interessantes. O Barbeiro situar-se-á aí num meio termo, bem escovado e aparado junto às orelhas.

Demagogia pura

José Magalhães, no último Domingo, na Quadratura do Círculo, na Sic Notícias, às voltas com a sua concepção ridícula do politicamente correcto, fala de "standard ariano" a propósito de uma alínea que excluia a participação de crianças deficientes físicas ou mentais de uma iniciativa de carácter lúdico (desportivo?) patrocinada pela McDonalds em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa. O politicamento correcto é o fundamentalismo atroz das sociedades ocidentais muito por responsabilidade dos sentimentalismos de esquerda ou, pura e simplesmente, por responsabilidade dos partidos que se encontram na oposição. Tudo lhes serve de pretexto para o protesto. Santa paciência!

Jazz Lírico

Já aqui tinha feito menção ao CD «Experiencing Tosca» do trio de jazz Tethered Moon: Masabumi Kikuchi (piano), Gary Peacock (contrabaixo), Paul Motian (bateria). Uma referência baseada apenas em expectativas amplamente correspondidas neste fim-de-semana - com audição comparada, intercalando com a ópera de Puccini e tudo... mais leitura de jornais pelo meio. O novo disco dos Tethered Moon resulta de uma leitura muito pessoal da música da ópera Tosca (de 1900) cuja melodia identifiquei apenas nos temas «Ballad» e «Part IV», que partem de duas das árias mais populares da referida partitura - «e lucevan le stelle» e «vissi d'arte» - para se estenderem por improvisos de 8 e 11 minutos respectivamente. Não apenas pelo facto do pianista "gemer" enquanto toca, são óbvias as afinidades deste trio com o de Keith Jarrett - o lirismo, o gosto pelas canções, o sentido introspectivo, a interligação quase telepática entre os diferentes músicos. «Experiencing Tosca» situa-se numa categoria à parte no que à música diz respeito. Uma obra de arte que começa por sê-lo logo pelo invólucro (as edições Winter & Winter são sempre assim!) que antecipa a fruição do que depois traz no seu interior.

Não é preciso ir mais longe

"Não é preciso ir mais longe do que os recentes atentados no Iraque e no Paquistão para perceber o erro essencial desta análise: não é por si a política americana que é o adversário, nem o conflito israelo-palestiniano, mas o confronto global entre um islão fundamentalista e tudo o que limite a sua influência e poder. A própria existência de um mundo alheio ao islão fundamentalista é razão para a guerra."
O islão fundamentalista é uma religião que à semelhança de todos os cultos levados às últimas consequências (isto é, à morte), se alimenta do ódio dirigido ao inimigo. Os Estados Unidos são para os muçulmanos extremistas apenas a cereja no topo do bolo-rei que inclui, a bem dizer, todo o mundo ocidental. A situação de guerra, de conflito iminente, é-lhes muito conveniente porque faz convergir o ódio, permanentemente, em face da demonização dos que não professam a sua "fé". A convergência desse mesmo sentimento necessita depois de uma qualquer libertação. E aí espalha-se o terror. Convém não morrer de medo, mas convém também não menosprezar o adversário nem a sua capacidade de avaliar o momento mais oportuno para desferir o próximo golpe. Como o próprio texto de Pacheco Pereira põe excelentemente em evidência, há medida que vamos pensando sobre estas questões, as conclusões têm tendência a simplificar-se, a tornarem-se mais claras. O que não tem nada a ver com simplificações ou exercícios de retórica só para contrariar.

sexta-feira, março 05, 2004

Mal Vestida Para Matar

É fácil rejeitarmos o filme de Patty Jenkins quando não muito tempo depois de este ter começado percebemos que vamos assistir a um “caso de vida” repleto de ambientes e personagens sórdidos, miseráveis, desprezíveis. Confesso que procurei oferecer alguma resistência aos impulsos iniciais, mas dei por mim no derradeiro fotograma sem argumentos para defender o filme. E cheguei ao mesmo final também sem certeza alguma em relação à história que Monster, de Patty Jenkins, pretendia contar: em última análise, duas histórias, pareceu-me que inconciliáveis. Uma que é trágica para a protagonista (Aileen Wuornos/ Charlize Theron), que descobre a capacidade de amar alguém que mais tarde a usará até à traição final (a este propósito devo admitir que o meu desejo de justiça ia mais para a figura repugnante de tão caprichosa da companheira de Aileen (Selby Wall/ Christina Ricci); outra que é trágica para as vítimas da prostituta convertida em serial-killer, que se faz valer nos instantes de catarse sanguinária de uma frieza em tudo distinta da mulher que ela quer ser para Selby. Se o filme de Patty Jenkins vai integrando a deformidade que mais sentido faria caso estivesse circunscrita à figura de Aileen Wuornos, é porque a indecisão (a incapacidade?) face à identidade do próprio objecto filmico o vai estilhaçando e o vai tornando inverosímil. Aileen Wuornos acaba reduzida à figura de patinho feio nascido, crescido e encaminhado para o corredor da morte (representado por um foco de luz intensa que tão bem assenta a Wuornos, a mártir) por um conjunto de circunstâncias que gritam constantemente o seu estatuto de vítima. A interpretação ainda recentemente premiada de Charlize Theron também me parece desfavorecer a nossa relação com qualquer espécie de verdade que o filme de Patty Jenkins devia alcançar. A actriz está irreconhecível ao ponto de perguntarmos porquê Charlize se foi para transformá-la numa outra pessoa a partir da qual nascerá então o personagem? Vê-la reduzida a uma máscara de tiques improváveis de observar no mais rude camionista, furta-lhe a possibilidade de transcender a categoria de F.L.L.D (fantasia lúbrica lésbica delirante). Monster é um filme indigesto que assentará mal até sobre a mais frugal refeição. Considerar vê-lo em jejum não é alternativa que se preze.

Sexta-feira santa...*

... com a benção do nosso colunista que melhor escreve (à falta do link para o texto de hoje, deixo-vos com prosa antiga de três semanas a esta parte) e que tão bem pensa tão bem. Alberto Gonçalves a ferir susceptibilidades devidas com ironia finíssima num texto (este, «Torres e Peões») próprio para os amigos de esquerda que desta vez não sentirão necessidade imediata de o apelidar de "reaças". Este homem, se alguma coisa é, chamar-lhe-ia antes de tesouro nacional - quem mais escreve assim ("Por um lado a ideia é divertida, dado que o exemplo contrário - Rui Rio, quem haveria de ser? - tem ouvido o que Maomé não disse do vinho." Deixem-no à solta e dêem-lhe o resto dos dias da semana para a impagável «Sala de Estar» (se ele quiser!).

* escrito no verso de um cartão do restaurante «O Capote», tal a incontinência do entusiasmo suscitado pela leitura.

Alarvidade do dia

Começo a suspeitar de que «Grown Backwards» seja a obra-prima de David Byrne do período pós-Talking Heads... É para já o melhor disco de 2004, ouviram bem? Não ouviram nada, maldade a minha, mas faltam poucas (!) semanas (!) para o fazerem.

voz de qualidade produzida em região demarcada

Um tímbre de “vinho tinto”; voz imaculada. Ladeada pelos seus cúmplices habituais: Torrie Zito (piano eléctrico, arranjos), Lew Soloff (trompete), George Mraz (contrabaixo). Enquadrada por uma orquestra de 32 elementos. Servindo ambos os repertórios; clássico e contemporâneo. A checa Jelena Milcetic que há décadas atrás adoptou o nome artístico de Helen Merrill é, a par de Shirley Horn e Betty Carter, uma das sobreviventes do período aúreo das grandes vozes femininas do jazz: geração insubstituível que incluia senhoras tão maravilhosamente carismáticas quanto Sarah Vaughn, Ella Fitzgerald, Dinah Washington, Billie Holiday e Carmen McRae. Desde a década de 50 que Merrill vem personalizando um registo desapaixonado que impregna as suas versões de um carácter quase fantasmagórico. Uma voz que pertence a um tempo infinito, um tempo sem coordenadas, regressou para enfeitiçar-nos com o disco «Lilac Wine» (edição de 2003), situado no grupo dos seus segundo melhores de sempre. Um ligeiro deslize na derradeira faixa não chega a comprometer o resultado final. Senhor maestro, estou pronto para uma nova cascata de violinos, violas e violoncelos!

Todo o sabor da laranja pelo preço de um só gomo

A promoção que as lojas Valentim de Carvalho estão a fazer com o «Best of» do Gomo, faz-me acreditar que a música portuguesa recomendada (e recomendável!) pode chegar a um público cada vez mais numeroso. Objectivo primeiro: vitaminar todo o país, de norte a sul. Alinho nisso!

O melhor do mundo são os jornais

2ª feira: Público
3ª feira: Blitz, Diário de Notícias
4ª feira: Público
5ª feira: Diário de Notícias, Público
6ª feira: Correio da Manhã, Diário de Notícias, O Independente, Público
Sábado: Expresso, Diário de Notícias, Público
Domingo: Diário de Notícias
No dia seguinte aos jogos do Sporting: Record

Deixei de ler edições on-line!

quinta-feira, março 04, 2004

Que fragilidade!

Porque é que o novo Zero7 não consegue constituir-se enquanto corpo digno de admiração (como no caso do disco de estreia, «Simple Things»), abanando de fragilidades várias apesar da solidez das suas fundações? Manteve-se a matriz sonora electrónica com a intromissão de sopros e cordas; manteve-se a predominância das vozes de Sophie Barker, Mozez e Sia Furler; manteve-se a espacialidade dos arranjos próxima ainda das coordenadas lançadas pelos Air de «Moon Safari». O que sucede é que nem todas as canções são tão boas quanto as do episódio original, um pouco à semelhança do que se passou com os Alpha por alturas de «The Impossible Thrill» - disco que, ainda assim, me proporcionou belas sestas na Residencial dos Lóios, em Santa Maria da Feira. Os Zero7 não reformularam a receita: nada a opor em relação a isso. Conservam intacta a simplicidade aparente da sua música, embora sem o mesmo grau de discreta e prolongada sedução. «When it Falls» não suscita em nós o desejo da descoberta de algo mais que se desprenda da homogeneidade das suas camadas sonoras e da previsibilidade dos momentos puramente instrumentais. É um disco que parece constituir-se de sobras de «Simple Things», defensável embora dentro da lógica do “hás-de dizer-me onde fica o teu caixote do lixo!”. Não traz surpresas mas não compromete a curiosidade para o que nos poderá reservar um terceiro opus: o pulsar criativo dos Alpha também regressou em pleno com «Stagazing», sem bem se recordam. Quanto a «When it Falls», com menores expectativas as suas canções levam-nos mais longe. Numa viagem algo acidentada para indefectíveis, recém-chegados e musico-dependentes como eu.

Entrevistos (um pouco mais tarde)

Jornal na mão, aguardente velha no copo, SIC Notícias no televisor. Tudo (excepto os gatos que me disputavam o colo) a conspirar para o relaxamento há muito desejado. Passar a vista pelos jornais em atraso enquanto os ouvidos se ocupam das actualidades e os lábios se deixam impregnar de outras divinidades... Acontecia a programação em sequência de duas entrevistas a que prestei uma atenção, até dado momento, intermitente: primeiro com o dr. Francisco Louçã, o aniversariante; depois com o prof. Fernando Gil, um filósofo de passagem pela política. Dois homens inteligentes, esquerda e direita representadas, embora o primeiro mais telegénico que o segundo (dispensa até o uso da gravata para dizer o que pensa!): Louçã agarrado às ideias; Gil confrontando a entrevistadora com factos. Um pensamento mais cristalizado em Louçã (alguém que soa como se nunca se enganasse e raramente tivesse dúvidas...); um pensamento mais móvel em Gil (reconhecendo não dominar os múltiplos pontos de vista sobre uma determinada realidade). O dr. Louçã irradiando certezas e convicções; o prof. Gil descendo das utopias à inevitabilidade do novo curso do mundo. Larguei finalmente os jornais para prestar atenção às palavras do filósofo, deitando-me um pouco mais tarde. Embora para muitos ainda bastante cedo.

quarta-feira, março 03, 2004

Mea Culpa

Embora a constante referência à Nonesuch Records possa já parecer suspeita, o facto é que é deles o lote de edições mais importante dos próximos meses: em Março sai David Byrne, em Abril Sam Phillips (com o CD de novo muito alt./pop/folk/etc. «A Boot and a Shoe», desta senhora que tem a cara de Debbie Harry, a voz de Marianne Faithfull e que se dá com gente tão ilustre quanto T Bone Burnett, Elvis Costello, Marc Ribot e Van Dyke Parks: já ouvi, é artesanato divino!), e em Maio chegam os The Magnetic Fields. A Nonesuch distribuirá ainda nos Estados Unidos o novo CD de Caetano Veloso que por lá vai chamar-se «A Foreign Sound», e que é constituído por glórias passadas e recentes do American Songbook. Nesta pesquisa desenfreada, descobri finalmente informação, ainda que sucinta, sobre «Grown Backwards» de David Byrne - está nas upcoming releases. Check it out!

terça-feira, março 02, 2004

Pérolas a passo de caranguejo

Outro dos discos que ouvi hoje foi o novo «Grown Backwards", de David Byrne. É também uma edição Nonesuch Records (à semelhança dos The Magnetic Fields) mas, estranhamente, o site da editora não contém qualquer referência a este lançamento. Portanto, aqui vai, após breves impressões pessoais, um plágio da Billboard que dá sempre jeito nestes apertos: o disco é muito variado e muito bom. O dueto com Rufus Wainwright - devem ser os dois tenores mais cool do planeta Terra e arredores - é bonito sem resultar surpreendente. David Byrne é de há décadas a esta parte um valor seguríssimo (um clássico!), talvez seja injusto exigirmos que nos provoque forçosamente o espanto. A abrangência do seu universo musical é que é fantástica! E agora o textinho mais objectivo da Billboard:
Former Talking Heads frontman David Byrne's new album, "Grown Backwards," will also be his debut for Nonesuch Records. Due March 16, the set includes a duet with Rufus Wainwright on "Au fond du Temple Saint" from Georges Bizet's opera "The Pearl Fishers," plus a collaboration with the Carla Bley Band on "Empire". "Many of these new songs began as melodic fragments," Byrne reveals. "In the past I would often begin songs based on improvised textures and grooves, adding melodies and then later on I'd write lyrics to fit. But this time I began carrying a little microcassette recorder with me in my backpack, and if a tune popped into my head I'd hum it, wordlessly, into the mic, wherever I was."

Obs. Não faço ideia se Portugal manterá a data de lançamento internacional - 16 de Março - mas não vejo razão contra a não ser por estratégia de marketing editorial. E o homem afinal actuará por cá em Abril, não é verdade?

Marcelo, não é quem quer...

Nas duas últimas noites dormi metade das horas que devia e o dobro do que gostaria que constituísse a minha necessidade.

O post que muitos gostariam de escrever por mim

I... I... I... I... Catorze vezes I: o título de todas as canções começa com a letra "eu". Pois é, passei a manhã distraído em sucessivas escutas - dasarmadas (para os efeitos devidos, estava a trabalhar...) mas integrais - do novo CD dos The Magnetic Fields que será lançado em Maio. Dizer-vos, assim, que o disco é genial soa um bocadinho forçado (demagógico até!). O privilégio obriga-me a uma certa contenção... Pronto, «I» é mesmo magnífico, nada a recear em comparação com o patamar estabelecido - para os recém chegados ao universo de Stephin Merritt - pelas anteriores «69 Love Songs». Mais do mesmo, como se pretendia, entre a folk-pop, a synth-pop e a scarlatti-pop. «I» atribui um significado novo à expressão hopelessly devoted to you. Desta vez é menos a brincar, a sério!

P.S. Para contrastar com modéstica a gabarolice anterior, apraz-me reconhecer o prazer da descoberta dos The Hidden Cameras através do seu «The Smell of Our Own» - recomendação da elite blogosférica. Mais festivos que os Fields, para efeitos semelhantes de penugem eriçada pelo corpo todo.

segunda-feira, março 01, 2004

O sedutor canhoto

Prado Coelho no seu texto de sábado do Mil Folhas parece exclamar, nas entrelinhas: "Caro Pedro, não andes para aí sozinho e amargurado pelas ruas de Lisboa. Ainda para mais agora que já possuis estatuto intelectual suficiente, que abandonaste os teus amigos extremistas e que até condenas a intervenção militar no Iraque, faz todo o sentido que te juntes a nós para viver a vida social intensa da esquerda Lux". Ou como da contextualização esclarecida do poeta e da sua obra se faz uma operação de charme manhosa. Ser de esquerda (ou de direita, já agora!) não tem forçosamente que ser uma doença, verdade? Ainda que ostente o nome pomposo de «Sapatos Agnósticos».

Obs. O título deste post é também ele assumidamente pomposo.

A1 e A2

Os dois melhores lugares (discutível, mas adiante...) para o concerto de Vanessa da Mata, no CCB, a 29 de Março, foram ontem comprados pelo preço simpático (indiscutível!) de 22.5 Euros - quando a mocinha cá voltar uma segunda vez a fasquia já terá dobrado, garanto-vos! Vanessa da Mata é uma coisa doce que a MPB nos deu a provar em 2002, com confecção assegurada pela própria e por alguns elementos do clã de Caetano Veloso - observe-se a ficha técnica linkada. O disco é todo ele muito gostoso, mas permito-me destacar a canção «Case-se Comigo» que colocaria entre as melhores de sempre do cancioneiro brasileiro. Antes de enveredar pela música a tempo inteiro, Vanessa da Mata trabalhou como modelo - além de talentosa suspeita-se que seja muito bonita também. Suspeita a confirmar na noite de segunda-feira 29, olhando-a de mais perto, primeiro que os outros...

Oscar Night

Com um olho aberto e outro fechado, cumpri uma vez mais o ritual da noite dos Oscars (que para nós se estende até de madrugada) tendo por única companhia desperta as banalidades acrescentadas pelos comentadores oficiais da TVI, José Vieira Mendes e Vitor "a ver vamos" Moura. A conquista do pleno (11/11) por parte d'«O Senhor dos Anéis» levou-me a delirar se o mesmo filme não seria realizado por José Mourinho himself. A indústria do Cinema e das Artes Cinematográficas pautou-se pela afirmação do "sistema" em todo o seu esplendor - um sistema sem rosto mas, em contrapartida, com a cor do dinheiro, do negócio: que se deseja cada vez mais transferido para a naturalmente toda-poderosa Nova Zelândia. Para a maratona do próximo ano não contem comigo, é o que sempre digo e o que nunca faço.


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