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sexta-feira, abril 30, 2004

Três dias de pausa

O Babugem fará uma pausa de hoje até domingo por ser Dia Aderente nas Fnac, e em perspectiva estar uma visita em regime de contenção (são sempre as mais demoradas); porque amanhã a minha mãe fará o melhor cozido à portuguesa de... Portugal; porque nesse mesmo dia faz anos um grande amigo e há um jantar com muitos reencontros e especiarias muitas; porque no domingo de manhã irei ver o vol. 2 de «Kill Bill»; porque o Sporting lá terá que salvar a época sacrificando o seu rival da “2ª circular”; e, finalmente, porque qualquer que venha a ser o resultado faço questão de jantar fora depois do jogo com a mulher da minha vida (ouviste ...mor?).

quinta-feira, abril 29, 2004

Sobre Ricardo

Scolari pode até não ser a melhor escolha para treinar a nossa selecção (dúvidas... dúvidas...), mas do ponto de vista da ética profissional e do contributo para a criação de espírito de grupo, Scolari é um exemplo a seguir por todos. Ele nunca particulariza, não faz o jogo da comunicação social. Não é adepto da criação de bodes expiatórios. A responsabilidade é sempre do grupo. Da equipa. Toda.

O salto

Dizem que Camacho não foi consultado na contratação de Rossato do Nacional da Madeira. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que Camacho não treinará o Benfica na próxima época. Treinará sim, mas o Futebol Clube do...

Só dá norte

Para que conste, o Blitz divulga um segundo concerto de Arto Lindsay, a 9 de Maio, no Auditório Municipal da Guarda. O que para mouros como eu, vai dar no mesmo.

quarta-feira, abril 28, 2004

8 de Maio

A horas destas estou ainda a trabalhar. À espera de uma aprovação que pode condicionar o meu regresso a casa. É para hoje? Poucas coisas correram como previsto. A selecção nacional continua desinspirada (1-2... 2-2 Nuno Gomes!) e Scolari esboça um sorriso da cor do equipamento sueco. Mas houve pelo menos uma boa notícia: a que resolveu o meu "trilema" de 8 de Maio, isto é, a que concerto assistir - se ao de Elvis Costello no Coliseu de Lisboa; se ao regresso dos Lambchop, agora na Aula Magna; se à única apresentação de «Salt», de Arto Lindsay, no Teatro Sá da Bandeira. A ocasião ditou que me irei deslocar ao Porto para o que espero venha a ser uma noite em grande. Aceitam-se sugestões sobre o local ideal para jantar. Terá que ser necessariamente próximo do Sá da Bandeira. Vamos lá, malta do norte apreciadora da bela mesa!

Duas particularidades vocais e uma reminiscência

O cardápio musical de hoje andou à volta de quatro discos pelo menos muito bons, cujas particularidades exigirão uma maior atenção que, no entanto, não exclui outras tantas apreciações epidérmicas e sumárias. Foram eles:
Dreams Top Rock, dos Pluramon (de Markus Schmickler), ou a concretização em pleno séc. XXI de um novo disco dos Jesus and Mary Chain em que o papel de Maria coube à Diva do universo bizarro de Twin Peaks, Julee Cruise. Apesar da Diva, gosto acima de tudo das passagens instrumentais;
High Water, de EL-P, um músico de hip-hop que gosta de espreitar o que há do outro lado, e que na companhia de músicos de jazz extraordinários como Matthew Shipp, William Parker, Roy Campbell, Steve Swell, Daniel Carter e Guillermo E. Brown trilhou um admirável mundo sonoro novo;
Map of What is Effortless, dos Telefon Tel Aviv, um disco que por certo fará figura de excelência na lista dos melhores álbuns pop do ano, e que a título muito pessoal – apesar de nele não constar a voz de Paul Buchanan – representa a hipótese ideal de regresso dos Blue Nile à música, caso ainda estivessem activos. Canções de mel envoltas num sinfonismo de veludo;
Venice, de (Christian) Fennesz, no prolongamento natural dos prazeres auditivos de Endless Summer, em mais uma potencial obra-prima da electrónica prismática e vaporosa. As guitarras só aparecem mais para o fim, assim como a generosa retribuição de David Sylvian ao brilhante arranjo que Fennesz efectuara no disco Blemish, daquele. E depois há essa semelhança fonética entre o título do disco e o nome do seu autor que remete para o encanto do todo.

Ted e Sylvia

Tenho um preconceito em relação a mulheres realizadoras. Devo admiti-lo. Resisto à tendência feminina para o decorativismo e para o lamecha. Assim, de repente, não me recordo de excepções significativas à regra, e Leni Riefenstahl considero sobretudo uma enorme documentarista. Jane Campion, por outro lado, tem filmes interessantes; e a sua conterrânea Christine Jeffs (realizadora de Sylvia) também já tem, revelando inclusive algumas afinidades estéticas com a realizadora de «Um Anjo à Minha Mesa».
Mas mais importante do que chegar à conclusão de ter gostado ou não de Sylvia, foi achar que o compreendi nas suas pulsões mais secretas, ao efectuar um percurso não isento de um certo carácter projectivo, de encontro às razões de Sylvia Plath e de Ted Hughes. Este filme da neozelandesa Christine Jeffs interessa-me a partir do momento em que os poetas se casam até quando se separam. São as dificuldades da coabitação destes dois seres; a necessidade de se verem reconhecidos pela sua arte; os problemas que surgem quando um deles assume maior protagonismo (Ted) e o outro quase se anula (Sylvia) em função disso – no fundo reconhecer que uma grande poeta por detrás de um grande poeta (ambos considerados na medida exclusiva do seu talento) terá dificuldades em conformar-se com uma espécie de estatuto de sombra do elemento masculino.
Já quando Ted Hughes é forçado a abandonar Sylvia Plath para ir viver com outra mulher, acho que o filme de Christine Jeffs se abandona a um culto mórbido da insanidade mental da protagonista (Gwyneth Paltrow, magnífica “revelação”!). Gosto no fundo de Sylvia enquanto o filme se mantém à superfície, agarrado à vida, próximo de nós. O resto é o mito da escritora “baby suicida” para a qual a simples existência se torna insuportável. E aqui a corda da nossa paciência é esticada em função do maior valor artístico do filme.

P.S. (1) Para aprofundar os temas de que gostei em Sylvia, comecei hoje a folhear as «Cartas de Aniversário», de Ted Hughes (edição bilingue da Relógio d’Água).

P.S. (2) Mary Harron dirigiu, em 2000, uma adaptação desconcertante de «American Psycho», de Brett Easton Ellis. Outras excepções que começam a surgir...

terça-feira, abril 27, 2004

Esse rebelde objecto de desejo

Descobri na Fnac um filme de Luchino Visconti que não conhecia, a um preço irrisório. Trata-se de Violência e Paixão/ Gruppo di Famiglia in un Interno que o realizador italiano dirigiu em 1974, perto já do final da sua vida. É um filme curioso e estranho: a acção desenrola-se toda nos espaços fechados de uma vivenda apalaçada onde vive um professor idoso retirado do mundo e refugiado da dor que trazem as relações com as outras pessoas. O professor irá ser perturbado na sua reclusão reflexiva por uma família aristocrata – encabeçada pela matriarca libidinosa e impetuosa de Silvana Mangano – que usa de conduta promíscua cheia de segredos e permissividades. O elemento apenso a esta mesma família é um jovem adulto temperamental e misterioso envolvido sexualmente com a mãe, a filha e o filho. Interpretado pelo lunático Helmut Berger, ele é o objecto de desejo nem tão secreto assim, um pouco à semelhança do Terence Stamp do «Teorema» de Pasolini. O envolvimento platónico do velho professor (Burt Lancaster) com o jovem Konrad Huebel é o mais interessante do filme: Visconti projecta-se obviamente naquela relação que não é bem homossexual, não é bem incestuosa, mas que acaba por ser tudo isto e mais ainda, construindo a relação dos dois através das afinidades partilhadas por instinto ou pela razão, em relação à música (de Mozart) e à pintura. Konrad é o filho que o professor nunca (?) teve; é também a imagem de uma juventude rebelde e problemática que o professor terá (?) deixado para trás, e é por fim um elemento central de uma família irrecuperável também porque incestuosa. Violência e Paixão é enquadrado num formato largo magnífico com todo o fascínio que os espaços carregados de história e vivência podem conter. Os actores, escolhidos concerteza pela imagem que projectam, são impecáveis a traduzir a decadência das classes altas pelas quais Visconti – aristocrata e marxista – nutria um misto de fascínio e desprezo. Mesmo que não representem o apogeu do seu modelo de cinema, fazem falta filmes como este que irradiam um universo particular com tamanha intensidade.

P.S. Irei prosseguir o meu mini-ciclo Luchino Visconti com os DVDs de «Morte em Veneza», «Ludwig II» e «Os Malditos».

Digestão lenta

O borrego estava já mais morto que vivo (outra coisa seria, convenhamos, um horror), mas era tal a dose que o ensopado atirou-me ainda assim ao tapete.

Respondo o que é um Clássico (mesmo que não me tenham perguntado)

O pessoal da Ananana escreveu numa das suas preciosas newsletters, a respeito de «Music by Cavelight» do produtor de hip hop que assina Blockhead: ... um álbum instrumental que é, na essência, hip hop, sem recorrer a um sample minimamente associado à sua cultura. E, provavelmente, é o mais melancólico, majestoso, elegante, atmosférico, sublime e elegíaco conjunto de temas com break beats jamais produzido. Situa-se num espaço emocional que pouquíssimos conseguiram atrair ao hip hop. Tem elementos barrocos e impressionistas em contraponto com cool jazz, tem linhas melódicas de afro beat envolvidas com sítaras, nocturnos ao piano suspensos sob espanta espíritos e blues fora de rotação, até que se confunde com o ar, ardendo como a lenta e temperada combustão do incenso, nunca se extinguindo... simplesmente mudando de estado. Totalmente de acordo com esta rapaziada que sabe bem o que vende e, digo mais, este vai já para a lista de nomeados para o prémio de Melhor Sound Design de 2004. Aquela samplagem do «Köln Concert», de Keith Jarrett, na faixa "Sunday Seance" é inacreditavelmente boa e inesperada. Carlos, este é de aquisição obrigatória!

P.S. A primeira edição «Music by Cavelight» traz um segundo CD de remisturas que é um valor acrescentado.

Contra o que irá ele chocar a seguir?

Billy Joel sofre novo acidente (no "Pessoas" do DN)
É o terceiro acidente de carro em que o cantor Billy Joel se vê envolvido nos últimos dois anos. No domingo, o veículo do músico chocou contra uma casa, em Long Island. Isto depois de, no ano passado, ter chocado contra uma árvore. A polícia não encontrou vestígios de álcool ou droga no cantor, que acabou apenas por sofrer um pequeno corte. E se tivesse encontrado alguma coisa? Ficava-se apenas pelo corte?

Viu a luz onde antes era tudo escuridão*

… for this album, Oldham and several pals settled in at an upscale Nashville recording studio with a handful of first-call Music City session musicians (including the legendary Hargus "Pig" Robbins, Stuart Duncan, and Eddie Bayers) to re-record 15 tunes from the Palace songbook. (All Music) Todos os grandes artistas perseguem a beleza. Will Oldham (aka Bonnie “Prince” Billy) encontrou a sua. Que caminho seguirá agora depois do longo percurso que o fez chegar até à «Greatest Palace Music»?

* Um dos grandes discos de Oldham (muitos dos seus melhores discos são assinados por Bonnie “Prince” Billy) chama-se «I see a darkness».

Enter the Spektrum

Não vai ser fácil coexistir com o seu lado Nina Hagen, mas este disco tem também um groove viciante.

Ben Weaver «Stories under nails»

O tipo canta como se Tom Waits arrastasse a voz do mesmo modo que John Wayne arrastava as botas com o seu gingar de bacia. Um all american record de um all american boy.

Dois sacos

Ontem saí da Ananana com dois sacos de música nova. Como sou um rapaz ansioso, as próximas recensões seguirão o modelo telegráfico.

O Blitz

De há uns anos a esta parte voltei a comprar o Blitz, e faço-o todas as semanas. A sua fidelidade ao público do Metal nada me diz, embora perceba que essa mesma fidelidade ajude a tornar o Blitz viável também para os restantes públicos. É um negócio, se é que me entendem. A edição de hoje sobre a qual passei ainda e apenas uma ligeira vista de olhos, tem óptimo aspecto. As escolhas musicais de Jorge Mourinha, Gonçalo Frota e Pedro Dias da Silva à volta dos acontecimentos que o são de facto (Caetano, Spektrum, Quinteto Tati); o novo Clã, «Rosa Carne», que faz a capa (e o CD-single «Competência para Amar» antecipa o que pode vir a ser um excelente álbum de música adulta); o Miguel Esteves Cardoso a escrever sobre o novo CD dos seus queridos Madredeus; muitas críticas a concertos a que já me falta “pica” para assistir. E os pés de Mísia (uma das 52 personalidades escolhidas para ilustrar os 20 anos de existência do Blitz) imaculadamente cuidados com as unhas pintadas de vermelho-sangue. Bom jornal, grande número. Ficará para mais logo.

segunda-feira, abril 26, 2004

Resistir é existir (no amor)

José Mário Branco (JMB) resistiu catorze anos a gravar um disco novo. Fê-lo agora à custa de material seu de proveniência vária, e o resultado são dezasseis canções que tendem para o operático e que terminam abruptamente num silêncio prolongado e num agradecimento mais especial, embora escondido, a Sophia de Mello Breyner, após leitura do poema: Apesar das ruínas e da morte/ Onde sempre acabou cada ilusão/ A força dos meus sonhos é tão forte/ Que de tudo renasce a exaltação/ E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Resistir é Vencer é um cabaré onde se cantam a opressão no fim das ideologias, a ausência de memória e o culto do efémero. JMB diz-se um ser antigo, e essa antiguidade comove-me na vontade de amar o próximo (um sentimento cristão que não segue religião alguma), algo cada vez menos ao alcance do nosso culto quotidiano do individualismo. Comove-me igualmente a sua transcendência pela cultura, pela palavra dos poetas, dirigida ao mundo natural (tal como Terrence Malick filmava n'«A Barreira Invisível» a indiferença da natureza face à desgraça do homem pela guerra) e o desejo de uma harmonia que tarda em chegar. A da vida, porque da que se refere à música trata JMB de a arranjar com requintes que foram sempre excepcionais na história da música popular.
Ele poderá discordar de mim, mas o melhor que têm estas coisas da música em que JMB se envolve estão nos pormenores, e os mesmos pormenores estão no modo (não de generalizar políticas como o boneco do cantor de intervenção) de sentir a humanidade (quase escrevia interioridade). Um José Mário Branco mais poetizado e menos politizado. Um homem terno e sensível, um excelente orquestrador de regresso aos discos em nome próprio num registo irónico e mordaz que não deixa por isso de ser um caso sério. Embora por vezes essa seriedade se torne um fardo para quem quer ouvir este Resistir é Vencer com ouvidos de agora, desprovidos de utopias de um modelo social não concretizável nos próximos m-u-i-t-o l-o-n-g-o-s tempos («Canção dos despedidos», «Onofre»). É ainda assim de um belo disco que se trata, porque a mesma beleza da música resiste bem à cartilha revolucionária e dá-se às mil maravilhas com a metafísica da alma («Nem Deus nem Senhor», «Elogio de Caeiro») e com a caricatura da nossa pequenez («Fado em dó maior», «Canto dos Torna-Viagem).
JMB tem ainda a arte de tirar o melhor partido dos melhores músicos (magníficos José Peixoto, João Paulo Esteves da Silva, Carlos Bica, TODOS!) que temos – dentro e fora do país. Ele conhece-os bem e não é de agora. O homem é antigo, convém não esquecer. Só que às vezes também é dado ao esquecimento, desequilibrando poesia e comício, e o seu disco torna-se velho. Amemo-lo pelas contradições que lhe encontramos, respondendo na mesma medida a um sentimento que JMB nutre de facto pela música e pelo homem.

Amor e pastelaria

Gosto de mulheres brancas e de chocolate preto. Em separado.

sexta-feira, abril 23, 2004

A des graça alheia (impagável Alberto Gonçalves)

Suplemento cultural: análise de conteúdo
O «Público», passe a redundância, publicou hoje um poema de Manuel Alegre. Manuel Alegre ameaça tornar-se o bardo das efemérides. Há dois anos, a propósito do Mundial de futebol, levámos com um poema para Figo. Agora, a pretexto do 25 de Abril, há poema ao "r". Esperemos que, desta vez, seja melhor prenúncio.

E passemos ao comentário:

ABRIL COM "R"

[Gramaticalmente, é correcto]

Trinta anos depois querem tirar o r

[Parece-me que o "r" a tirar pertencia à palavra "Revolução", mas aceita-se enquanto metáfora (Revolução/Abril)]

se puderem vai a cedilha e o til

[Lá está: num efeito de elipse, passou-se de Abril à Revolução. Sucede que Revolução sem "r", cedilha e til, fica "evolucao", o que não faz grande sentido]

trinta anos depois alguém que berre

[A figura - e a prática - do berro é recorrente na vida e obra do autor]

r de revolução r de Abril

[Eis a metáfora resolvida - ver acima]

r até de porra r vezes dois

[Verso tipicamente Aryano. No entanto, é escusado enervarmo-nos]

r de renascer trinta anos depois

[O poeta confessa ter passado trinta anos acabrunhado]

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia

[Caso contrário, teríamos "iberdade", de significado oculto. A quem poderia servir esta afronta?]

democracia fica sem o d.

["Emocracia"? Idem]

Alguém que faça um f para a festa

[Não é preciso, já está feito]

alguém que venha perguntar porquê

[Porquê o quê?]

e traga um grande p de poesia.

[É forçoso ser muito grande? E para que serve?]

Trinta anos depois a vida é tua

[O poema, até aqui sem destinatário, ganha de súbito um interlocutor, infelizmente não identificado]

agarra as letras todas e com elas

[...faz uma sopa?]

escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)

[O dr. Alegre está nitidamente à margem das tendências sexuais dos últimos três mil anos, pelo menos. O exílio tem destes contratempos]

escreve a palavra amor em cada rua

[E depois quem limpa?]

e então verás de novo as caravelas

[Para que se veja assim caravelas no meio das ruas, dá-me a impressão que é preciso fazer mais qualquer coisa além de rabiscar paredes]

a passar por aqui: trinta anos depois

[O Salgueiro Maia desceu de Santarém numa caravela?]

O melhor disco da semana é de há 29 anos atrás

The Köln Concert é o que se chama com convicção de uma obra-prima. Deve constar em qualquer amontoado caseiro de discos digno de outro nome. Ao meu (tão arrumadinho quanto o permite a minha disciplina - dizem que é muita!) demorou mais de quinze anos a regressar. Questão de arrogância e preconceito que a certa altura determinaram uma atitude desalinhada do consenso gerado em torno deste best-seller do jazz. E nem a viagem de Moretti na sua adorável lambreta ao local onde Pasolini foi assassinado (a propósito: «Querido Diário» é o DVD do Público da próxima semana!) me levou a comprar de novo, mais cedo, este disco sublime de Keith Jarrett. Às vezes vale mais uma noite de bebedeira que nos atinja como um forte raio de lucidez. Ou o desejo de estabelecermos uma qualquer cumplicidade com outra pessoa por via dos discos. Não foi assim há tanto tempo quanto isso.

Obs. O novo disco de Caetano Veloso é uma maravilha. Falta apenas em tempo (de vida connosco) o que lhe sobra na duração dos seus quase 80 minutos de música, distribuída por 23 canções de sincera carícia e irónico piscar de olho.

Exílio

O Quinteto Tati já faz música por aqui.

Livro do Dia do Livro

Comecei ontem o livro «Budapeste», de Chico Buarque, de que tinha ouvido aliás excelentes referências. Passava já da meia-noite. É uma delícia que só lido.

Fado da Recaída

Lembrei-me de ti sem querer/ Entrei num bar e bebi/ Paguei a conta de dois/ Não consigo perceber/ Porque me lembrei de ti/ Todo este tempo depois// Fui à rua onde vivias/ Vi a tua luz acesa/ Apeteceu-me beber/ Fui ao bar onde tu ias/ E sentado à mesma mesa/ Lembrei-me de ti sem querer// Perguntei sem reparar/ Com quem vivias agora/ Se alguém sabia de ti/ Mas antes de alguém falar/ Levantei-me, fui-me embora/ Entrei num bar e bebi// Que feitiço ou que loucura/ Voltar a sentir ciúme/ Todo este tempo depois/ Andar à tua procura/ E nos sítios do costume/ Pagar a conta de dois// Rua em rua/ bar em bar/ Já não sei se te esqueci/ Se não te quero esquecer/ O que procuro encontrar/ Para me perder de ti/ Não consigo perceber// Lá em cima continua/ A tua janela acesa/ Como quando te perdi/ E no bar da tua rua/ Há dois copos sobre a mesa/ Porque me lembrei de ti// Em tantas noites iguais/ Perdoei o que tardaste/ Quando vivemos os dois/ Não te perdoo nunca mais/ A noite que me estragaste/ Todo este tempo depois.
(letra de Manuela de Freitas; música do fado correeiro)

Aprendiz de Pedro Lomba*

Jantei sozinho no Solar dos Duques perto de casa. Jantar sozinho causa-me alguma aflição. Obriga-me a olhar para as mesas em volta, e eu não gosto que as pessoas reparem que estou a reparar nelas. Obriga-me a pensar, e os pensamentos não me entretêm quando quero que o façam. E depois vem a comida, e eu não gosto de mastigar uma e outra vez, sem poder meter dois dedos de conversa pelo meio ou ouvir o que outros conversam à minha mesa. Entretanto, chega a Alheira de Caça Grelhada à Transmontana. Vou conversar com ela antes que esfrie. O Marquês de Borba encarregar-se-á de quebrar os silêncios mais incómodos. (...) O pai de família na mesa em frente pediu um JB 15 anos depois da refeição, sem mais nada. A mulher nem pestanejou – as mulheres costumam fazer cara feia a estes hábitos dos homens (quando não alinham pela mesma bitola etílica. Não era o caso!). Talvez devesse fazer o mesmo, isto é, beber um whisky depois. Mas acabou por ser uma aguardente velha Ferreirinha, que me ficou pelo mesmo preço da meia garrafa de tinto. Fiquei anestesiado para receber a conta e tudo o mais que viesse depois.

* Custo da primeira lição: 26,25 euros

quinta-feira, abril 22, 2004

So in love

Com os discos de Caetano Veloso dá-se sempre o risco de nos apaixonarmos pela primeira mulher bonita, e pela segunda, e pela terceira (...) que passe por nós enquanto estamos a ouví-los. «A Foreign Sound», viu-se, às primeiras canções (não contem a ninguém!), é excepção mas de outra regra talvez. E é também o cabo dos trabalhos. É que Caetano faz isto de propósito. Tenho a certeza.

Terrorismo

Se a Brigada de Minas e Armadilhas da PSP fizesse explodir hoje a mochila que trago comigo todos os dias, iam pelos ares:
O Público de hoje;
O Indy da semana passada;
Um envelope com o meu contrato de trabalho (assinado por ambas as partes);
Um saco com a roupa do Yôga;
A Notícias Magazine de Domingo;
Uma agenda de endereços;
Um caderno de notas;
Um livro quadriculado de apontamentos;
Algumas canetas esferográficas;
Três discos compactos: The Strokes “Room on Fire”, Bebo & Cigala “Lágrimas Negras", “Le Festival au Désert”;
O livro de Maria do Céu Pinto “Infiéis na Terra do Islão”;
Um saco de plástico da Bulhosa;
Um suplemento "Emprego" do Expresso já antigo de duas ou três semanas;
O programa da peça “Paisagens Americanas";
As duas últimas Periférica;
Outros sete livros: “A Infelicidade pela Bibliografia”, de Abel Barros Baptista, “Nenhum Nome Depois”, de Maria do Rosário Pedreira, “A Menina Sem Estrela”, Nelson Rodrigues, “Marca de Água”, de Joseph Brodsky, “Respiração Assistida”, de Fernando Assis Pacheco, “A Namorada Portuguesa e Outras 100 Histórias”, de Dan Rhodes e “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad;
Um conjunto agrafado de folhas com a Sequência Geral de Intermédios B;
Um factura da Valentim de Carvalho (dois DVD’s do “Annie Hall”) que já tratei de deitar para o lixo.

quarta-feira, abril 21, 2004

A antiguidade é um gosto

Um disco de Joe Lovano para agradar a toda a gente, porque não? Um disco de Joe Lovano para ouvir a qualquer hora do dia, preferencialmente no final do mesmo quando os colegas de trabalho começam a desertar, ou quando estamos praticamente a sós, já em casa, apenas privilegiados pela companhia que desejamos ter e não pela que nos é imposta pelas circunstâncias da vida, claro que sim! «I’m All for You» (Blue Note) serve todos estes propósitos na perfeição. É um disco de baladas e quase baladas de jazz, standards que já conquistaram a eternidade (“Stella by Starlight”, “I Waited for You”, “Like Someone in Love”), assim como o infinito conquistaram alguns dos músicos que os celebrizaram – para ficarmos por duas referências muito pessoais, cito apenas os nomes de Ben Webster e John Coltrane.
«I’m All for You» é também um disco tocado há medida da destreza e da maturidade do músico mais idoso deste quarteto de estrelas: o pianista Hank Jones que já tem em cada mão 43 anos de vida. Jones nunca foi um músico exuberante, e aqui volta a ser de uma enorme contenção (reparo agora que todos os discos de que gosto muito levam com os mesmos adjectivos... É assim!). Joe Lovano toca exclusivamente saxofone tenor, e os restantes músicos são o contrabaixista George Mraz (um nome da primeira segunda linha do jazz que acompanhou figuras como Tommy Flanagan e Sir Roland Hanna) e o baterista da delicadeza e sofisticação que é Paul Motian. Em relação a «I’m All for You» o facto mais curioso acaba por ser percebermos porque é que um disco cujos intervenientes caracterizam-se pela tentativa de tocar o menos possível, pode estar tão cheio de tão bela música. «I’m All for You» é o companheiro ideal deste outro disco de Joe Lovano.

Para ver as meninas

É a história de uma jovem rapariga da aldeia tornada prostituta na Lisboa dos anos 10, do século passado; tornada mulher de um banqueiro com o dobro da sua idade; tornada amante de um jovem jornalista sem tusto mas cheio de ideais; tornada por mero acaso na Virgem avistada pelos pastorinhos de Fátima. É O Milagre de Salomé, filme de Mário Barroso que resulta numa espécie de Visconti de trazer por casa: tem tragédia de amor, política e religião. Não tem é dinheiro. Vive de valores de produção esmolados. Disfarça-os com alguma dignidade, contudo. E tem muitas meninas em trajes menores de época. Adapta um romance (imagino) de José Rodrigues Miguéis que há altura (imagino) deve ter sido polémico. Mais um telefilme correcto que ficará na história e não para a história do cinema português.

Eu quero o lugar de J.B. no Y

João Bonifácio responde-me no seu Laranja Amarga:
"A VINGANÇA SERVE-SE FRIA? SÓ QUANDO NÃO TEMOS PERSONALIDADE...
Ricardo: dizer que eu tenho falta de sensibilidade e inspiração, vindo de quem vem, fica-lhe um bocadinho mal. Estamos a falar de escrita, certo?

(PS: Eu conheço, há muitos anos e muito bem, Antony. Por isso é que menciono a canção em que Antony me irrita. Mas é fácil levantar a dúvida e deixá-la pairar, não é? A vingança, Ricardo, é feia, para mais quando é desajustada. Um abraço. E vá lá rever o Brown Bunny. Experimente ir com "Animal Serenade" no discman - talvez assim goste.

E agora, com a sua licença, tenho o café à espera.)"

Comentário encenado (ao som de Lou Reed):
Caro J.B., o que seria de nós sem o Technorati? Um abraço.

Preparativos de um esparguete (com uma pitada de autoconsciência)

- Posso dar-te um beijo?
- Olha que tenho hálito a queijo.
- Não faz mal, eu não me aleijo.

Seta redimida

A Alexandra, discreta Seta Despedida, chamou em privado a atenção para o lapso que me levou a esquecê-la e ao seu blogue muito feminino, culto, inteligente e... sensível aquando da referência às (novas) presenças femininas no conjunto das minhas preferências linkadas. Não fique preocupada querida Alexandra porque, ao contrário do que pareceu evidente, continuo a visitar a Seta que aponta frequentemente para leituras interessantes, algumas de compra irresistível.

terça-feira, abril 20, 2004

A escaldar!!!

"... aqueles que lêem e escrevem a partir do que lêem entregam os seus artigos àqueles que ainda não leram, ou já não lêem, ou não lerão nunca." (Propedêutica da Humildade, de Abel Barros Baptista)

Imaginando que alguém me pergunta o que é um génio, que responderei eu? Bem, um génio é uma pessoa igual a outra qualquer. Com uma diferença. No caso de Abel Barros Baptista, as ideias presentes dos seus textos são tão fulgurantes (atingem-nos com tamanha força intelectual) que há a tendência de as esquecermos - questão de sobrevivência (nossa) - pouco tempo depois. O que daqui resulta, é que os mesmos textos têm sempre a capacidade de nos surpreender como no momento da primeira leitura que é, afinal, o que nunca deixamos de fazer.

P.S. A citação é mais a ameaça de um auto-retrato que sobre aqui paira, do que um paradigma do génio do autor. Comprem «A Infelicidade pela Bibliografia» (Angelus Novus) ou «Coligação de Avulsos» (Cotovia) e verifiquem com os vossos próprios olhos o que atrás foi dito.

Que livro gostaria de ver traduzido em Portugal?

«The figure in the carpet», de Henry James. A tradução que existe na Relógio D'Água é confusa e provoca juízos errados em relação à obra. Descobri que não sou eu que não sei ler; é mais o livro que não está em condições de ser lido. Mas é o que há... e a Oficina não pode parar.

Operação "Apito Dourado"

Quem disse que os senhores da Polícia Judiciária não têm sentido de humor?

Senti a falta de...

... mulheres "cultas, inteligentes e divertidas" para juntar à Bomba e a todos os outros "alguns blogues" (todos no masculino) aqui ao lado. Encontrei duas. A bondosa Inês e a desassossegada Sara. Viva!

segunda-feira, abril 19, 2004

Um homem que persegue outro homem

Com o desprendimento blasé de quem se dá ao luxo de “gastar” 20 euros num filme de vídeo por mero desfastio, despedi-me do cartão Fnac com a compra do DVD de O Batedor/ The Hunted, realização do histórico de 70 anos William Friedkin – o homem que deu no grande ecrã uma espectacularidade nova às perseguições automóveis e à sopa de ervilhas regurgitada – que evidencia sinais de ter sido truncada pelo estúdio que a produziu ou que a distribuiu: para os devidos (de)efeitos, a Lakeshore Entertainment ou a Paramount.
O Batedor é, ainda assim, um filme curioso. A narrativa encontra-se reduzida ao osso da quase ausência de psicologia credível, substituída por uma correria constante bem mais tangível. A fotografia de Caleb Deschanel é soberba, sobretudo quando o filme investe pelos territórios naturais (florestas e montanhas geladas). O Batedor, como outros já identificaram, é também um filme prejudicado pela acumulação de fórmulas cinematográficas que deram sucessos no passado: lembramo-nos, constantemente, do primeiro Rambo («First Blood») e também d’ «O Fugitivo» com Harrison Ford.
O Batedor só ganha em nervo e músculo às referências citadas. William Friedkin é um cineasta imensamente mais interessante do que Andrew Davis ou Ted Kotcheff, e isso nota-se no prazer quase felino com que são filmadas as perseguições de L.T. ao seu pupilo do exército: personagens interpretados, respectivamente, pelos carismáticos Tommy Lee Jones e Benicio Del Toro. Connie Nielsen (é uma actriz!), antecipando traços de virilidade que seriam explorados até à caricatura no «Básico», de John McTiernan (filme de que gostei pouco, mas que não me importaria de rever e reapreciar), tem uma participação igualmente relevante.
O último aspecto que me agrada neste filme ferido de Friedkin, é a apologia da luta justa (corpo-a-corpo) entre os diferentes predadores do planeta. O Batedor de Del Toro é alguém traumatizado pelos cenários de guerra que testemunhou ao serviço de tropas de elite, que renuncia agora à utilização de armas de fogo e mata aqueles que as usam por puro desporto. Por desfastio? Safa...

O cair da tarde

Mais um disco com a qualidade do selo ECM. De um jovem músico norueguês – compositor e guitarrista – que tem nome americano por ser essa a nacionalidade do seu pai. Jacob Young viria mesmo a estudar na América com Jim Hall e John Abercrombie, mas a personalidade para a qual remete o seu som neste disco é mesmo o Pat Metheny (+ Group) dos primeiros tempos (até ao «Offramp»), também na ECM. Jacob Young gravou na companhia de Mathias Eick (trompetista impressionante), Vidar Johansen (clarinete baixo), Mats Eilertsen (contrabaixo) e o lendário Jon Christensen (bateria) um disco bonito que não empalidece quando comparado com o folk/ jazz do norte-americano Metheny. Procurem por este «Evening Falls», mas só nas boas lojas de discos. E consultem o background para saber mais.

Três livros

Para o João, para o Carlos e para o Bruno queria expressar aqui os meus agradecimentos pelas referências que estão na origem da encomenda e do recebimento destes LIVROS: The Proper Study of Mankind: An Anthology of Essays, de Isaiah Berlin; Rationalism in Politics and Other Essays, de Michael Oakeshott; e United States: Essays 1952-1992, de Gore Vidal. Obrigado aos três, e desculpem a vaidade que o meu gesto também implica.

O amor, o deserto e a morte

Quando a história de amor que Sue Brooks nos conta fica japonesa, o filme da australiana torna-se muito interessante. E Toni Collette é de facto uma actriz extraordinária. O seu rosto é a paisagem que se substitui ao deserto profundo na segunda metade do filme. Uma história de amor japonesa é um melodrama que surpreende no momento em que muitos outros decidem acabar.

A infelicidade pela bibliografia

Tem hoje início na Ler Devagar, a Oficina de Leitura com Abel Barros Baptista. Sou um dos 9 pré-inscritos (quantos irão lá estar?). E dediquei parte do fim-de-semana à preparação da mesma Oficina, redescobrindo coisas interessantes como, por exemplo, um texto de ABB no excelente livro «A Infelicidade pela Bibliografia», intitulado «Propedêutica da Humildade» que tem por objecto de análise a novela de Henry James que será o nosso instrumento de trabalho ao longo de 6 sessões. Descobri, então, que no fundo iremos ser sujeitos a uma espécie de exame de acesso à "Ordem dos Críticos". Diz ABB na pág 48 d'«A Infelicidade...»: "... avanço com uma proposta: que, em caso de opção pelo exame de acesso, se adopte como texto base, manual ou sebenta, para preparação dos candidatos The Figure in the Carpet: ninguém seria admitido na profissão antes de dar inequívocas provas de ter compreendido as lições da novela de Henry James. (É mais difícil estipular que lições são essas, mas muito mal andaríamos se daí resultasse problema que uma Ordem dos Críticos não lograsse resolver - ou remover - com desembaraço.)"
Faltam-me cerca de 10 páginas (1/7, mais precisamente) para concluir a leitura da novela de Henry James, entre nós traduzida para «O Desenho no Tapete» na Relógio D'Água. Quanto à compreensão das tais ditas lições, ainda não fui além de duas ou três, clarificadas, aliás, pela leitura da «Propedêutica...» de ABB. O livro parece frustrar propositadamente a nossa vontade de o interpretarmos. É a uma primeira leitura vago, disperso, inconsequente, sabotando constantemente os sentidos aparentes. Essa parece ser a sua estratégia: a infelicidade pela bibliografia. De quem lê.

domingo, abril 18, 2004

Tempestade

Alguns versos de Aldina Duarte para o dia que está hoje. Ouvi finalmente o seu CD «Apenas o Amor» como ela gosta que o tivesse feito. Isto é, não fazendo mais nada. Aldina amplia o fado, nesta sua estreia discográfica, à expressão mais simples e verdadeira. Agora os versos:
A chorar a tua ausência/ Adivinho a tempestade/ Meu amor sem fantasia/ Entristece dia a dia/ Porque morre de saudade (Lírio Quebrado, na música do Fado Bailado)

Uma questão de imagem

José António Saraiva arrisca-se a estar absolutamento certo na análise que faz dos insucessos do Real Madrid. Selecciono apenas aqueles que considero os parágrafos mais importantes do texto «Lenços Brancos», no Expresso deste fim-de-semana:
Com Florentino Pérez, o Real Madrid deu início a um novo conceito de clube: os jogadores valiam mais pelo seu potencial mediático e comercial do que pelo seu potencial desportivo.
E esta lógica estendeu-se à contratação do treinador.
Inesperadamente, o Real despediu um treinador que conseguira razoáveis resultados e tinha uma forte ligação ao clube para contratar outro quase desconhecido em Espanha e com um currículo ainda curto.
Mas Vicente Del Bosque era um espanhol já entradote na idade, que vestia mal e não se tinha desfeito a tempo do seu bigode latino - e Carlos Queiroz era um jovem de boa figura, que sabia cuidar do aspecto e, para o meio do futebol, se expressava com uma certa sofisticação.
O Madrid aplicava ao treinador os mesmos critérios que levavam à contratação de jogadores: a imagem subrepunha-se aos critérios estritamente futebolísticos.

Boavista-Sporting

Obrigado Sr. Bruno Paixão. Pela incompetência sistemática.

sexta-feira, abril 16, 2004

Velhos e novos Mestres

epígrafe, título de um escrito; sentença ou divisa anteposta no início de um livro ou capítulo; título ou frase que serve de tema a um assunto.

Renascimento, período de renovação científica, literária e artística, vulgarmente considerado como iniciado no século XIV e prolongado através dos séculos XV e XVI, com base na imitação dos modelos da antiguidade clássica, grega e romana (nesta acepção grafa-se com letra maiúscula).

Ketil Bjørnstad (pianista, norueguês) e David Darling (violoncelista, norte-americano) usaram para escrever a pauta, recolhendo a inspiração em compositores e modelos da Renascença - William Byrd, Orlando Gibbons, Guillaume Dufay... Quando a disponibilidade para os livros é escassa, o melhor é mesmo ficarmo-nos pelas epígrafes. Obras-primas de emoção resumida a 3 ou 4 minutos de música. Calma e discreta.

À hora do almoço, Playtime

- Ontem estava a dar o Jacques Tati!
- Pois deu, mas eu não vi.

Candy Says (ou a hipótese de enforcamento do crítico musical)

O que nos vale é que a sensibilidade de Lou Reed nada tem a ver com a de João Bonifácio. O link do Y nada vai além disto, e teclar a crítica por inteiro está fora de questão. O pretexto é a edição do duplo CD ao vivo, «Animal Serenade». Fica apenas o instante de maior inspiração de J.B.: "Candy says", na voz de Antony (saberá João Bonifácio de quem se trata?), faz ponderar a hipótese de enforcamento do cantor: é bonitinho, é quase... (aarrrghh!) querido.

É a boa vizinhança, pessoal!

O José Mário Silva mudou-se para Campo de Ourique. Bem-vindo ao bairro, Zé Mário.

quinta-feira, abril 15, 2004

O melhor disco de jazz da semana, HOJE

Descubram a "boa vida" segundo Enrico Rava (trompete), Gianluca Petrella (trombone), Stefano Bollani (piano), Rosario Bonaccorso (contrabaixo) e Roberto Gatto (bateria). A exuberante musicalidade de um disco de jazz normal que, graças a estes italianos (!), não tem nada de especial. Cinco músicos, cinco estrelas.

O CORPO de Cristo

A vida de Cristo e o cinema não são inconciliáveis. A prová-lo estão os filmes de Martin Scorsese e Pier Paolo Pasolini, embora, na minha opinião, o filme de Mel Gibson não justifique ver-se incluído na mesma lista. Com o devido respeito por todos os católicos, A Paixão de Cristo parece-me confundir a palavra dos Evangelhos com o espectáculo da carne (viva), como se o alvo a atingir fosse não apenas as pessoas religiosas como também os adeptos do «Gladiador» e quejandos. O filme de Gibson preocupa-se até à náusea em dar a ver, cada vez com mais pormenor, a flagelação de Jesus da Nazaré, que a um dado momento transforma-se num odre de vinho que sangra. Este é um filme cujo simbolismo por vezes não anda longe do cruzamento entre «O Exorcista» e «O Nome da Rosa» - se exceptuarmos Jesus, a sua mãe e Maria Madalena, o resto é tudo gente grunha, possessa e careada (aquele Barrabás é digno de uma série Z). Mas os judeus até não se podem queixar muito, pois é sobre os romanos que por eles são mandados que desce toda a bestialidade. A Paixão de Cristo pareceu-me também um filme maniqueísta e paroxístico, pobre em cinema: a humanidade encontra-se dividida entre os sádicos e o profeta (masoquista), a dor e o sofrimento são levados às últimas consequências (é de um linchamento que se trata), e o investimento simbólico da câmara de filmar de Gibson torna-se pesado e abusa dos sublinhados: câmaras lentas com fartura (quantas vezes tomba o Cristo no chão empoeirado?) e enquadramentos de cabeça para baixo (Gibson, modéstia à parte, substituiu-se ao olhar de Jesus com tanta subjectividade). Só à música – tipo Enya da Galileia – cabe o papel de tentar fazer-nos transcender toda esta carnificina. Quando percebemos que a música não pára nunca, lá se vai de novo a epifania.
Agora que milhões de espectadores rendem-se à evangelização cinematográfica de Mel Gibson, eu respondo: “Seja feita a sua vontade, uma ova!” Não me revejo no cinema do australiano. Não me revejo nesta espécie de Bíblia sangrenta. Nunca fomos inocentes, nem a remissão dos nossos pecados poderá passar por uma catarse colectiva feita à custa da dor alheia. Muito menos no mundo do celulóide.

Celebrar de modo sublime a "evolução" de Abril

Por exemplo, ouvindo este disco.

Obs. A palavra-senha é "cravo".

Igual a zero

Matemática na Choupana: o melhor ataque em casa com a melhor defesa fora, anularam-se.

quarta-feira, abril 14, 2004

Medicina do trabalho

Pelo telemóvel, disse-lhe assim meio a brincar: "Não vais ficar viúva tão cedo."

Um mundo sem discos

Em Portugal, vendem-se neste momento cerca de 4000 CDs por semana. Por muitos e variados copy-controls que os discos tragam, há sempre alguém no nosso círculo de relações que tem um computador que consegue ultrapassar este obstáculo. Os discos vendidos são poucos, mas a malta continua a ouvir música que se farta. Os downloads oficiais tendem a tornar-se cada vez mais "na" realidade – os ilícitos são prática rotineira daqueles que exploram as potencialidades da Internet um pouco além do superficial. Entretanto, as editoras discográficas começam a reduzir o pessoal. Para quê promover o que não se vai vender? Ou fundem-se umas com as outras, o que para o pessoal vai dar no mesmo. Já há gente a pensar em emigrar; em dedicar-se ao turismo rural; a considerar mudar de vida sem saber para fazer o quê... Muitas angustias reunidas no coração de uma indústria onde um dia sonhei vir a trabalhar, tendo apenas concretizado em parte esse mesmo desejo. Os mais optimistas, nem sequer resignados, dizem que é mais justo assim - promotores "locais", vendas globais: distribuição dos promos em cada país para a rapaziada comprar depois, à medida, no site oficial das editoras. Não há motivo para ter escritórios em Lisboa quando Madrid pode-se ocupar da península inteira, não é verdade? Descarregam-se uns temas aqui, outros acolá, e está feita a compilação para ouvir no carro. Mas... pergunto eu, dinossauro fetichista: então e as capas, os livretes, as embalagens? Pergunto apenas para mim, por receio de ser mal entendido. Se resposta houvesse, ela provavelmente seria a de que é melhor cuidar bem dos compactos que tenho (alguns, verdadeiras obras de arte por fora e por dentro), para não vir um dia a acordar num mundo sem discos compactos de acordo com o modo como eu concebo a existência deles.

Sentidos não imediatos

O João consegue também ser comovente sem pieguice. Enquanto não passa a arquivo, procurem «Sem Graça» na entrada 2. As colaborações de Carlos Marques de Almeida nos Diários, pautam-se pela mesma eloquência esclarecida. Alguma relação com o (outro) João do Independente?

O Dia

Audição do dia - «Public», de Greg Osby (só sai em Junho); «I'm All For You», de Joe Lovano (só sai em Maio); «Somewhere: the Songs of Leonard Bernstein», do Bill Charlap Trio (edição datada do mês passado).
Obrigação do dia - A consulta de medicina do trabalho.
Anseio do dia - O Y de 6ª feira fará capa com aquele que será o mais divino e maravilhoso disco do ano: Caetano Veloso cantando o American Songbook em «A Foreign Sound».
Hesitação do dia - Comprar o não o DVD de «Intriga Internacional»/ «North by Northwest» que a Bulhosa tem a um preço não muito simpático, embora a proximidade seja tentadora.
Ritual do dia - Esperar pela noite para escutar com total disponibilidade «Apenas o Amor», de Aldina Duarte. É fado.
Desejo do dia - Dormir mais horas do que na noite passada.
Receio do dia - Que as visitas do Babugem fiquem com a ideia de que na minha vida só existe espaço para música, para filmes e para os livros. Que ideia...

terça-feira, abril 13, 2004

Músicas e Filmes

Nunca tal me havia acontecido. Ouvir uma banda-sonora antes de conhecer o filme a que a mesma diz respeito. Sucedeu com a selecção ultra-kitsch de Kill Bill – vol. 2. Inferior ao volume anterior, prego a fundo por uma ciganice desvairada. Mais Morricone e Bacalov engarrafados com lagarta dentro, e o hit “Goodnight Moon”, de Shivaree, demasiado not guilty para nosso prazer. O filme de Tarantino vai ser bem melhor. Aposto.
Já a celebração do catálogo das edições Milan Music – intitulada Music of My Dreams – resulta num alinhamento tipo «Cinema Paraíso» que tudo mistura: o bom, o mau e o assim-assim. Músicas de «Fala com Ela», «Intervenção Divina», «Sur» e «Sonatine» alinham pelo bom; a escolha de temas dos filmes «Genesis», «Feliz Natal Mr. Lawrence» e «The Truman Show» fica-se pelo assim-assim; sendo de lamentar as inclusões de Mort Shuman («À Nous les Petites Anglaises»), Hans Zimmer («Backdraft») e The Righteous Brothers («Ghost»). Demasiada abrangência. Passo.

Mão Morta

"Na noite que se avizinha, um mar de gatos com cio invade os sotãos, ensanguentando as memórias com a dor pungente dos dias em que o gume, o terrível gume das horas afiadas, rasgava os espíritos. Já o clarão das ruas tolda os cérebros com angústias venenosas e vertigens de suicídios sonhadores, na vontade de fugir ao inóspito vazio do tempo da ausência..." (Mão Morta, Gumes)

É com estas palavras, na dicção assombrosa de Adolfo Luxúria Canibal, que arranca o novo disco dos Mão Morta, «Nus». Há coisas que nunca mudam, e os Mão Morta só mudam aparentemente. A visceralidade da sua obra toda, é o que nos dão a ouvir uma vez mais em «Nus». Ainda bem que é assim. Hoje, com o jornal Blitz. E prá semana também.

A vida secreta dos gatos

Fiquei a saber através de um documentário do National Geographic que tenho em casa dois prodígios da engenharia. Dois adoráveis, exímios ou detestáveis predadores. Os muito queridos Porgy e Gira. Os meus gatos.

segunda-feira, abril 12, 2004

Elogio da plausibilidade

Augusto Seabra partilha connosco, no Público de hoje, a descoberta de «Big Fish», um dos melhores filmes que vi este ano. Mas, nas palavras do Augusto, o "peixe" de Tim Burton tem outro sabor. Ora provem: Da sua aprendizagem nos desenhos animados, deduziu Burton uma lógica que não é a da "verosimilhança" mas a da "plausibilidade" de acordo com uma lógica que, trabalhando ele agora com "imagens reais" e acolhendo referentes "reais", é no entanto uma lógica estritamente narrativa e imaginária.

sexta-feira, abril 09, 2004

Laconismo Motorizado

Vincent Gallo bem pode afirmar que as principais influências do seu desastroso «Brown Bunny» vêm do universo da pintura, mas esta impostura em forma de cinema de autor montes de sensível e montes de umbigista também, perde sempre quando comparada com as referências cinematográficas que são as que de facto convoca. A saber: Monte Hellman, pelo lado do road-movie existencialista; Philippe Garrel, pelo despojamento da mise-en-scène em cenário desértico; Clare Denis, pela aproximação ternurenta ao mundo animal como forma de romantismo algo ingénuo; finalmente Abel Ferrara, óbvia referência no cabotinismo do flashback final muito forçado.
Sempre pelo alcatrão fora, cruzando-se episodicamente no seu trajecto com mulheres de beira de estrada que têm todas nomes de flores (Daisy, Violet, Rose), à razão de uma música (excelente recolha musical) para cada novo percurso, mantendo-se sempre dentro dos limites da velocidade, embora ultrapassando em muito os limites da nossa paciência, Vincent Gallo chega finalmente à Califórnia (após remontagem, o percurso é cumprido em hora e meia) sem se dar conta de que o seu «Brown Bunny» ficara pelo caminho. Só com uma grande dose de masoquismo é possível defender este objecto mal escrito, mal produzido, mal realizado e mal montado por Vincent Gallo. Merda para a sensibilidade auto-complacente.

quinta-feira, abril 08, 2004

A rapariga no quarto do lado...

... já não é para o nosso "bico". Passo a explicar: acabou-se o corpo bronzeado; acabaram-se os decotes até ao fruto prometido; nada de pulseiras no tornozelo; a Diva fechou a loja. Mas abriu outra, em cumplicidade com o marido Declan MacManus - também conhecido por Elvis Costello (a quem o disco «The Girl in the Other Room» é dedicado, e o primeiro na lista de agradecimentos) -, pessoa a quem são devidas as honras por metade do que aqui se canta (e as primeiras impressões obrigam-se a destacar uma versão lindíssima de «Almost Blue») e, suspeito, também pelo resto de repertório seleccionado: Mose Allison, Joni Mitchell, Tom Waits, estão a ver a qualidade da colheita? Diana Krall deixou-se igualmente das grandes orquestras que abrilhantaram os muito recomendáveis seus dois anteriores discos (obrigado Johnny Mandel, obrigado Claus Ogerman), e regressou em força ao piano - umas vezes mais jazzy, outras mais bluesy. Casada de fresco com umas das eminências vivas do songwritting contemporâneo entendido no seu sentido mais clássico, Diana Krall (aliás Mrs. Costello, ou Mrs. McManus, tanto faz) parece ter decidido tornar-se numa espécie de Peggy Lee para o século XXI. O século XXI dá-lhe as boas-vindas, pois então!

Requiem Americano

Consegui acabar de rever «A Última Hora»/ «The 25th Hour», um dos melhores filmes estreados nos últimos anos, e também uma sagração consternada da cidade de Nova-Iorque que Spike Lee, o realizador, tanto ama. A “última hora” é quando se joga todo o ressentimento, e quando os mais fortes laços humanos que estabelecemos na vida são postos à prova. Spike Lee conduz toda esta elegia com a mestria de alguém que é um dos grandes cineastas surgidos nas duas últimas décadas. A edição do meu DVD é francesa (ou belga, não sei ao certo), mas por cá creio que o filme, entretanto, já foi editado.

2-2 Tenham dó!

Fiquei banzado com a dupla de comentadores da RTP1 ao jogo O. Lyon-F. C. Porto, realizado ontem. Apesar da enorme pressão dos franceses na primeira parte, o golo de Maniche, logo aos 6 minutos, garantia ao Porto que a passagem às meias-finais estava, pelo menos, mais do que assegurada. Mas os tais senhores da RTP1, já na metade complementar, e com o marcador em 1-2 (Maniche a bisar, de primeira), não arriscavam afirmar a irreversível condição de semi-finalista que o Porto tinha por garantida. Portugueses comedidos, a acreditar pequeno face a uma equipa com provas dadas e de uma invejável solidez, o que dão é dó.

quarta-feira, abril 07, 2004

Salgado mas não grosso

O imaginário do Carnaval é algo que não me seduz: muito barulho, muito suor, muitas horas sem dormir. Parte do novo disco de Arto Lindsay («Salt»), resulta de canções destinadas ao carnaval da Bahia onde o músico participa com frequência. Eu adoro o CD novo de Arto Lindsay e, mais ainda, acredito tratar-se do seu melhor disco da sua melhor fase de todos os anos. Como era de prever, as texturas deste “sal” são finíssimas: percussões com o pulsar da Bahia – tal como nos discos mais e menos recentes de Caetano Veloso (do «Estrangeiro», produzido por Arto Lindsay, em diante) – e programações electrónicas sugestivas (da responsabilidade de Kassin, elemento dos Moreno Veloso + 2 e produtor dos Los Hermanos), junto com intervenções pontuais de violinos e até mesmo de uma viola da gamba (!), garantem que a sensualidade se mantenha ao rubro e tão estranha como dantes. Músicas preferidas, para já: «Kamo (Dark Stripe)», uma das parcerias com Melvin Gibbs; e «Into Shade», destaque consensual, resultado da colaboração com o músico brasileiro Lucas Santana.
As notas de imprensa de «Salt» remetem para um artigo do New York Times, de 1999, sobre a herança do movimento Tropicália, que afirmava que Lindsay contribuíra para os melhores discos da música popular brasileira dessa década: referindo os nomes de Caetano Veloso, Marisa Monte e Vinicius Cantuária para atestar o facto. Na mesma lista, eu incluiria ainda os próprios discos de Arto Lindsay – híbridos que partilham das idiossincrasias da Bahia e da baixa nova-iorquina também – que numa ordem pessoal e crescente de gosto, figuram assim: «Invoke», «Prize», «O Corpo Sutil», «Mundo Civilizado», «Noon Chill» e agora, triunfante, este «Salt». O apelo é tão forte que não há estranheza que resista. Para comprar a 19 de Abril.

Para (outro que não eu) bom ouvidor...

Se adorou os dois discos do projecto Saint Germain («Boulevard» e «Tourist»), então vai gostar muito de «Echo Parcours», do Trio Elétrico.

How Sensitive

Programa musical para a tarde: ouvir os novos CD’s de Arto Lindsay («salt») e Peter Hammill («incoherence»), dois músicos vizinhos do génio, cada um à sua maneira. À segunda canção, o disco de Lindsay reforça já o sentido da frase anterior. A isto chamo eu de picar o ponto do prazer.

How Insensitive 3 (Três)

Várias vezes por semana, passo pelo edifício do Público na Rua do Viriato. Hoje coincidiu com o horário de funcionamento da loja do jornal. Entrei para comprar dois livros e um DVD, e fui obrigado a levar também a edição do dia. Disse à senhora que me atendeu, que já tinha comprado o jornal (omitindo que comprara também o livro de James Joyce). Nada a fazer: regras da casa. Mesmo para alguém que gosta tanto de jornais como eu, surpresas destas nunca são bem-vindas.

How Insensitive 2 (Dois)

Saio de casa, de manhã, mais atrasado do que o costume. Já alguns minutos volvidos sobre a hora combinada, contorno a esquina da rua e vejo um idoso com bengala que caminha na minha direcção. Passo pelo homem que se encosta a um sinal de trânsito. Exausto? Indisposto? Olho para trás alguns segundos desejando que nada de grave venha a acontecer. O homem não se mexe, e eu sigo o meu caminho (com a consciência pesada).

How Insensitive 1 (Um)

Jantar em família. Colocam-me sentado com o televisor na frente. Distraio-me com um programa da :2 sobre as alterações causadas pela puberdade nas mulheres. À mesa falava-se de um familiar que tinha sofrido recentemente um ataque de asma muito forte. Distraído, recordo, interrompi o relato para comentar a primeira vez que havia provado o vinho que estava a ser servido naquela refeição - «Loios», de João Portugal Ramos. O vinho caía bem, mas a minha interrupção parece-me, à posteriori, que não.

terça-feira, abril 06, 2004

Autobiografia

I'm glad I've got skin, I'm glad I've got eyes
I'm glad I got hips, I'm glad I've got thighs
I'm glad I'm allowed to say the things I feel
I'm glad I got hair, glad I got ears
I'm glad I got lungs, I'm glad I got tears
Glad that I never ever know what's real

I'm glad I got lost
I'm glad I'm confused
I'm glad I don't know, what I like
I'm glad I got stoned
I'm glad I got high
I'm glad I found out I'm alright

I'm glad when the sex is not so great
I'm glad that I doubt, I know what they say
I'm glad when I get my girlfriends names confused

I'm glad I know how my life will end
I'm glad I don't have no common sense
I'm glad the things are wrong I thought I knew

I'm glad I'm a mess
I'm glad you don't mind
I'm glad you're better than me
I'm glad that I changed
I'm glad I'm not nice
I'm glad it's the way, it must be

I'm glad I can't see beyond myself
I'm glad when the conversation ends
It's good when it's bad, I'm glad it's not -
worrin' me

(David Byrne "Glad", de Grown Backwards)

Pat Metheny Selected Recordings ECM :rarum

Os anos de formação do músico mais importante na minha formação.

segunda-feira, abril 05, 2004

Citação da suspensão

«In the two years since Tomasz Stanko’s much-loved “Soul of Things”, both the trumpeter and his young Polish band have continued to make their mark. Many miles of touring, on both sides of the Atlantic, have honed their already exceptional group understanding. “Suspended Night” builds upon the conceptual framework established by its predecessor – the bulk of the album is devoted to a series of haunting and soulful “Suspended Variations” - but the improvisational quotient is expanded, as all participants take more solo space, and more chances.»

Acompanho a música do polaco Tomasz Stanko vai para três ou quatro discos, mas a mesma nunca antes me pareceu tão simples e perfeita como desde que Stanko se reuniu a um trio de músicos muito jovens, também eles polacos, para pôr em prática algo que, justamente, de tão simples e perfeito, paira um pouco acima da nossa capacidade de explicação. Tal como nas peças mais belas de Arvo Pärt - as deste disco, por exemplo -, tudo passa por uma música suspensa entre o seu desejo de existir e a sua capacidade de nos fascinar. Bem-vindos ao catálogo da ECM, "o mais belo som depois do silêncio". Eles bem podem dizê-lo.

1, 2, 3 Ensaios sobre a Lucidez (excertos)

De Constança Cunha e Sá (pág. 19):
«O voto em branco pode ser o que quiserem: uma arma contra os partidos, uma forma de protesto inconsequente, um direito dos cidadãos ou mesmo um perigo para a democracia. Neste momento, não é mais do que um trunfo publicitário que serve para promover um livro. Há uma semana que anda meio país a discutir esta extraordinária matéria apenas porque Saramago aterrou, na Portela, com uma “provocação” que, segundo as suas próprias palavras, punha “todo o sistema em causa”. Aparentemente, o sistema não só sobreviveu a este golpe fatal como ganhou novo ânimo. Nos últimos dias, o país foi literalmente invadido por uma gigantesca campanha de “marketing”. Abria-se um jornal: uma entrevista com Saramago; ligava-se a televisão: um debate sobre Saramago; ouvia-se uma estação de rádio: um fórum a propósito de Saramago. E isto são orgãos de comunicação social que, na opinião do escritor, estão vendidos ao capital e actuam como “pelotões de grupos de interesse vários”. O que é que não teria acontecido se todos eles tivessem vergonha e um mínimo de deontologia? Mudavam-se para Lanzarote e começavam a “uivar”, como recomenda o cão na epígrafe do livro? É possível!»

De João Marques de Almeida (pág. 21):
«Nos últimos dias, a extrema-esquerda acusou os governos que apoiaram a Guerra do Iraque de terem mentido, propositadamente, sobre as armas de destruição maciça. Com a habilidade que o caracteriza, Louçã chamou-lhes mesmo o “eixo da mentira”. O primeiro ponto que deve ser notado refere-se ao descaramento da personagem. Veja-se o que escreveram há um ano Francisco Louçã e Jorge Costa no livro “Guerra Infinita”: “Os Estados Unidos não precisavam de inspectores para saberem imediatamente quais são os arsenais de Saddam: bastava terem guardado as facturas” (93-4). Esta afirmação é dita no contexto de um argumento que procura demonstrar que foi Washington quem armou o regime de Saddam. Afinal, os dirigentes do Bloco também não tinham dúvidas de que o Iraque possuía as famosas armas. Isto dava-lhes, aliás, um pretexto óptimo para atacarem o “belicismo imperialista” norte-americano. Agora, dizem-nos que sempre souberam que Bush mentia quando se referia às armas de Saddam. Extraordinário.»

De Vasco Rato (pág. 40):
«José María Aznar apoiou a intervenção militar que derrubou Saddam Hussein. Recentemente, o Partido Popular (PP) de Aznar sofreu um desaire eleitoral. Em Portugal, o PCP e o Bloco de Esquerda (BE) reclamaram a “vitória”: os resultados espanhóis eram a derrota da “política externa seguidista” de Aznar em relação a George Bush.
Em França, no domingo, a esquerda conquistou 50 por cento dos votos. Chirac – o rosto da oposição à intervenção no Iraque e crítico do processo de transferência de soberania a decorrer nesse país – sofreu uma pesada derrota. Adoptando a “análise” do PCP e do BE, dir-se-á que o eleitorado francês rejeitou a política externa de Chirac. Leitura absurda dos resultados das eleições? Claro que sim. Porque absurda foi a leitura do sufrágio espanhol feita pela esquerda radical portuguesa.
Porque o chefe do governo espanhol apoiou a invasão do Iraque, PCP e BE caracterizaram Aznar (Blair e Barroso) como um “seguidista” da política de Bush. Zapatero está ao lado de Chirac na questão iraquiana e na questão da “Constituição europeia”. Espero que, em nome da coerência, Carvalhas e Louçã passem a dizer que Zapatero é um seguidista de Chirac. Ou será que apenas os aliados de Bush é que são seguidistas? Quanto ao BE e ao PCP, será que ainda seguem o sonho totalitário e os amanhãs que cantam?»

Tudo no Independente de sexta-feira, 2 de Abril de 2004.

Anjo Negro

Quando alguém pensa na figura de um Anjo (e esse alguém não é habitante da Bahia), não imaginará um corpo de mulher negra transbordante nos seus mais de cem quilos de peso, com uma voz de contralto afinadíssima a toda a extensão, cantando músicas que remetem para a herança africana que os escravos trouxeram consigo quando foram carregados à força para outros mundos muito longe do seu. Músicas que até podem ter ido buscar inspiração numa tristeza infinita, mas que quando hoje as ouvimos nos tocam pela sensualidade do ritmo e pela beleza das palavras. Quando alguém escuta um disco como «Mares Profundos», não pensará encontrar na profundidade destes mares uma sereia com corpo de baleia que ainda assim enfeitiçaria qualquer marujo de ouvido tão instruído quanto a sua destreza para a faina. Virginia Rodrigues é esse anjo negro, essa sereia em corpo de baleia, uma voz magnífica que contou com o apadrinhamento do conterrâneo Caetano Veloso desde o primeiro momento. Este já é, se a memória não me falha, o seu terceiro disco, e tem Veloso novamente na figura de produtor executivo, passando a responsabilidade dos arranjos e direcção musical (anteriormente a cargo de Celso Fonseca) para o guitarrista da banda do mesmo Caetano, Luiz Brasil - que esteve há pouco tempo em Portugal acompanhando os Morelenbaum e Sakamoto. «Mares Profundos» é um disco dedicado aos afro-sambas: basta decompor a palavra para saber do que se trata – África + samba, o lamento dos escravos mais o orgulho e a celebração da raça negra. Um ciclo de canções com músicas de Baden Powell e letras de Vinícius de Moraes. Provavelmente a contribuição mais valiosa destes dois vultos para o património musical brasileiro. Na minha opinião, o melhor disco de Virginia Rodrigues até à data, misto de tradição e de modernidade (ouça-se os sopros e as cordas), com um Oceano de talento e bom gosto dentro. Tão excelente à superfície quanto a qualquer nível de profundidade. E ainda só vou no segundo...

Sexo, mentiras e vídeo

Os Friedman é um documentário que faria excelente figura no apregoado serviço público que os canais de TV têm dificuldade em ingerir, só que em termos puramente cinematográficos não chega a deslumbrar. Mas há questões pertinentes que Os Friedman suscita, mesmo que estas fiquem pairando naquilo que constituirá a matéria encefálica de cada espectador. Por exemplo: porque é que os Friedman se filmaram sempre de modo tão obsessivo – um hábito que passou do pai para os filhos – nos diferentes rituais comuns a todas as famílias? Porque provavelmente procurariam reiventar as suas vidas numa ficção, de modo a tornar suportáveis os aspectos mais sórdidos das mesmas. A nossa percepção da normalidade naquela família resulta da forma como a mesma se encena nos muitos home-movies que nos dão a ver. O documentário de Andrew Jarecki não é mais do que a derradeira encenação, nunca clarificando aquilo que de mais secreto e condenável imaginamos ter existido. É o próprio pai, Arnold, que a um dado momento diz para a câmara que a sua vida privada é... privada. Elas assim hão-de permanecer (as vidas de todos), porque cada revelação tem o sabor de uma nova ocultação – tal como um icebergue cuja massa à superfície da água é muito inferior à que permanece debaixo dela. Outro aspecto igualmente interessante neste trabalho de Andrew Jarecki, diz respeito ao nosso entendimento de que o modo como procuramos a verdade – nos casos de pedófilia – condiciona a verdade que iremos encontrar. Todos os envolvidos por este cenário (dos agressores às vítimas) refugiam-se numa espécie de memória selectiva que recalca tudo aquilo de que os mesmos não se querem lembrar. Essas pessoas passam a viver uma espécie de vida dupla, dentro e fora do contexto onde os actos pedófilos foram praticados. O documentário de Jarecki tinha a intenção inicial de falar apenas da vida do palhaço mais requisitado de Nova Iorque, David Friedman. A história que ele encontrou depois é aquela de que trata Os Friedman, e onde se sente a falta de uma maior abrangência de pontos de vista e de um desejo superior de explicar a verdade para além da(s) fachada(s). O filme promove um ping-pong entre as certezas da culpa dos Friedman que têm as instâncias jurídicas e policiais, e as dúvidas suscitadas no espectador pela incredulidade de outras pessoas como por exemplo alguns elementos da família. O trabalho de Jarecki parece-me uma investigação no sentido mais académico do termo que, talvez deslumbrada com o material humano que tinha em mãos, perdeu a vontade de levar o projecto até às últimas consequências. Digamos que Jarecki poupou os Friedman. É isso. Terá sido isso.

Os tigres do Majara

O elogio que me ocorre fazer a dois amigos que no Sábado trataram de organizar um programinha gastronómico muito simpático, que teve lugar num igualmente muito generoso “pedaço do norte” (com digestivos servidos sob a forma de DVDs, discos compactos e águas Vidago Salus na nova Fnac de Gaia, que é assim-assim mas onde se faz sempre umas belas compras), é que no momento do regresso a casa - e como eu gosto de regressar a Ela - senti-me dividido entre o desejo de o fazer e a vontade de permanecer no Porto mais algumas horas, pelo menos para jantar ainda em tão simpática companhia. Obrigado Alberto e obrigado João.

sexta-feira, abril 02, 2004

Já não os fazem mais assim

Nem aos babuinos. Nem aos homens. Nem aos discos. Nem aos discos ao vivo. «Animal Serenade» (ver também o post de ontem) foi a melhor coisinha que esta semana atravessou os meus ouvidos - sempre no sentido esquerda-direita - por vezes congestionados. E não é com cera. É com tudo o resto.

Parabéns

Para a Charlotte e para o seu maridão, no primeiro aniversário do Bomba Inteligente:
Vanessa da Mata
Título: Case-se Comigo
(Vanessa da Mata e Liminha)
Case-se comigo
Antes que amanheça
Antes que não pareça tão bom pedido
Antes que eu padeça
Case-se comigo
Quero dizer pra sempre
Que eu te mereço
Que eu pareço
Com o seu estilo
E existe um forte pressentimento dizendo
Que eu sem você é como você sem mim
Antes que amanheça, que seja sem fim
Antes que eu acorde, seja um pouco mais assim
Meu príncipe, meu hóspede, meu homem, meu marido
Meu príncipe, meu hóspede, meu marido
Case-se comigo
Antes que amanheça
Antes que não me apareça tão bom partido
Case comigo
Antes que eu padeça
Case-se comigo
Quero dizer pra sempre
Que eu te mereço
Que eu me pareço
Com seu estilo
E existe um forte pressentimento dizendo
Que eu sem você é como você sem mim
Antes que amanheça, que seja sem fim
Antes que eu acorde, seja um pouco mais assim!


Machado de Assis não tinha um blogue

21 de agosto, 5 horas da tarde
Não quero acabar o dia de hoje sem escrever que tenho os olhos cansados, acaso doentes, e não sei se continuarei este diário de fatos, impressões e idéias. Talvez seja melhor parar. Velhice quer descanso. Bastam já as cartas que escrevo em resposta a outras mais, e ainda há poucos dias um trabalho que me encomendaram da Secretaria de Estrangeiros, - felizmente acabado.”
24 de agosto
Qual! Não posso interromper o Memorial; aqui me tenho outra vez com a pena na mão. Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel cousas que querem sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão. Venhamos novamente à notação dos dias.” (Memorial de Aires, pág. 80, edições Cotovia)

quinta-feira, abril 01, 2004

A Serenata

Impressões a escaldar. O CD-duplo deve ter para cima de duas horas, mas quando a cerimónia se eleva para além do firmamento, o mesmo acaba: numa sequência assombrosa de três temas – “Set the twilight reeling”, “Candy says” e “Heroin”. Na pressentida imponência de Lou Reed, na gravidade do violoncelo de Jane Scarpantoni, na androgenialidade vocal de Antony. A cerimónia dá pelo nome de Animal Serenade, e vale ainda mais para todos quantos não puderam presenciar este espectáculo, ao vivo, em Coimbra. Já as imagens em movimento do Mestre de Tai-chi ficam para uma edição em DVD que igualmente se impõe.

Natação 2 (Dois)

Os adolescentes. Algumas mulheres adultas acham muita piada à bestialidade deles; à sua força descontrolada; às suas hormonas sempre prontas a saltar. Eu, pelo contrário, sempre desejei ser adulto, e sinto a mesma estranheza da adolescência em relação a essas manifestações púberes. Quanto às minhas hormonas, não tenho razão de queixa.

Natação 1 (Um)

As pernas. Parece que o meu estilo em costas é um pouco como o daquele personagem do veterano muitilado da Guerra do Vietnam - interpretado por Gary Sinise no filme «Forrest Gump» - que víamos atirar-se ao mar a partir do barco da apanha de camarão do seu ex-camarada Bubba. O herói tinha as pernas amputadas, e eu não faço grande uso das minhas (a nadar). Não tem graça?

Um leitor

Um leitor do Babugem faz este reparo em relação ao que presumo ser um dos trailers do filme «Lá Fora», que passa actualmente na TV e nas salas de cinema. Tem a palavra o Daniel Mota: Escrevo porque já não posso ouvir mais a Alexandra Lencastre a dizer correCtor. Não é correCtor que se diz (isso é algo completamente distinto), é mesmo corretor! Se se dissesse corrector, escrevia-se corrector. Como se escreve corretor (alguém que faz corretagem), diz-se corretor, com o "e" não acentuado. Tenho esperança que um dia deixe de ouvir os jornalistas a dizerem corrector
(mais parece um censor dos outros tempos a "corrigir" artigos de imprensa) ...



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