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terça-feira, junho 29, 2004

Ao que sabem?

Saving the Koala, por Auberon Waugh

«News that London is emerging as one of the richest places in Britain for wildlife – not just rabbits, hedgehogs and deer, but rare creatures such as water voles, dormice and marsh warblers – must have some social significance. In the old days, these animals were caught and eaten by the poor. Just show a water vole or a marsh warbler to your average old-fashioned Cockney, and he would pop it straight into his mouth.
This may seem cruel, but at least it kept the numbers down. Nowadays we are constantly told that under nice Mr Major the poor are poorer than they have ever been, so I can attribute the present plague of water voles and marsh warblers only to the fad for vegetarianism.
Australia is facing a similar problem with koalas, whose numbers have increased up to ten times in some places, threatening the survival of the very eucalyptus trees whose leaves are the only thing they eat.
One proposal, to cull 2,000 of them in South Australia, created an outcry from animal lovers. Now the State of Victoria proposes to vasectomise as many as possible of the males, but I am doubtful about this. Roger Martin, a research fellow at Monash University in Victoria, points out that vasectomy won’t work because “koalas are highly promiscuous animals. You only have to miss one and he will fertilise all the females right through the summer.”
Strangely enough, it never seems to have occurred to anyone to eat them. On my first visit to Adelaide about 12 years ago, my hostess asked if there were any Australian delicacy I fancied. I said I would like to try a koala. They all fainted in horror.
Now they know that koalas are an ecologically responsible thing to eat, the Australians should produce them at official receptions for visiting grandees like the Prince of Wales. This might produce an incentive for those of us who really want to know what they taste like to work a little harder and try to get invited.»
(23 September 1996)

Tradução: Water vole (ratazana da água); marsh warbler (toutinegra do pântano); dormice (ratinho selvagem tipo hamster, acho?).

O pequeno monge

O espaço, embora natural, remete para o espaço teatral: toda a acção decorre num lago, na casa flutuante onde vivem um monge budista e o seu jovem aprendiz e na floresta que circunda o lago. Tudo o que acontece é tão obsessivamente centrado na casa, na existência de uma porta que dá para um quarto que não tem paredes, na outra porta simbólica que existe e que dá acesso ao lago, na repetição de gestos e práticas quotidianas, que diríamos estar a assistir a emissões consecutivas em directo da casa do big monge. Que injustiça...
O filme de Ki-duk Kim, Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, é um objecto sério que faz apelo a uma filosofia budista linha dura, a uma poética austera, a uma vida difícil. É um filme ao mesmo tempo simples e abundantemente metafórico. Tem detalhes de uma ingenuidade dura de engolir para ocidentais como nós, e a música (a que sou particularmente sensível em todas as ocasiões) é de um exotismo forçado sobre o naturalismo das imagens. É o elo mais fraco desta obra.
Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera envereda pela via da autopunição na busca da paz interior, o que é escusado de ver quando não acompanhado do respectivo substracto pensante, uma vez que o espectador sentado no conforto da sala escura remete-se a uma atitude passiva, refastelada, face ao destino do pequeno monge que fica grande e que cede às tentações do mundo adulto representadas pelas pulsões do desejo, do ciúme e do crime.
No filme de Ki-duk Kim, o crime (e tudo o mais) pressupõe também castigo: a isto poderá chamar-se, com alguma liberdade semântica, de karma. E castigo pressupõe uma variada série de padecimentos. Em vida. Até que a paz se instale. Se o aborrecimento não vier antes. Brando simbolismo.

segunda-feira, junho 28, 2004

Memória sintética sentimental da costa alentejana (ida e volta)

Sair de Lisboa. Depois de vencida a resistência é libertador.
Almoçar de frente para a praia da Amoreira na Taberna do Gabriel. II.
A água doce depois da água salgada. E antes de mais água doce.
Ouvir discos com um prazer que julgávamos esgotado: Maria Rita, «Só», ...
Perdermo-nos no caminho, encontrando ainda assim à nossa espera a mesa reservada para meia-hora atrás.
O Sítio do Rio. Não conheço melhor pouso gastronómico nas redondezas. Ainda não foi desta, areia da Carrapateira!
Fazer um caminho fresquinho no regresso. Cantar com... sob o efeito desinibidor de um jarro-jarrão de sangria branca e de uma aguardente velha.
Olhar do alto a Arrifana em volta na manhã seguinte. Repor vitamina C no organismo e dar a este um saudável choque de água gelada do mar.
Comprar o Record na estação de serviço à saída de Vila Nova de Milfontes apenas porque na capa vêm o Adriano e o Paulo Assumção sublinhados a verde.
Trincar uma massinha de peixe, sem espinhas, num apeadeiro chique junto à areia de S. Torpes. Como é possível ver gente a encomendar hambúrgueres num sítio como este?
Regressar, agora a casa, pelo magnífico cenário da ponte Vasco da Gama. Escutando «Poptical».
Passear por amor na Feira do Artesanato. Internacional? É tudo igual.
Bilhetes comprados depois para a Calcanhotto, de pé, e para o Ed Motta, sentado(s).
Emborcar Targus à razão de uma por cada golo da Checa. Até ao dois zero.
Olhar fixamente para a capa de «Will This Do?», de Auberon Waugh, mas decidir antes por pôr em dia a leitura da imprensa nacional. Coisa pouca escolhida com critério de preguiça.
Não há nada que chegue à nossa caminha, pois não?

O grande lance é fazer romance

Desde que começou o Euro que não vou ao cinema.
Amanhã já não poderei escrever o mesmo.
Hoje vou perder o 5º episódio da série Anjos na América.
O motivo só a mim diz respeito. Bem, não só a mim...
Em Setembro, a série Anjos na América sai em DVD no mercado inglês.
Como a Internet faz do mercado inglês o mercado de todos nós, o resto adivinha-se.

Troubleman depois de Trouble Man

Quando queremos escutar o certo em vez do duvidoso, chamamos por Troubleman. Troubleman foi a designação escolhida pelo produtor Mark Pritchard (dizem as notas de produção tratar-se um dos mais respeitados produtores britânicos na área da electrónica de dança) para dar corpo a um projecto onde - em atitude de grande modéstia que só lhe fica bem - as vedetas que brilham mais intensamente são os cantores: Nina Miranda (Smoke City), Eska (New Sector Movements), mas sobretudo Steve Spacek que participa na faixa mais inspirada de todo o disco, #10 «Without You».
«Time Out of Mind» é uma revigorante mistura, embora nada original, da cadência da bossa brasileira (como se outra bossa houvesse? digo eu), dos beats londrinos e da sensibilidade afro universal. Prima o eclectismo e o bom gosto a produzir de Pritchard, excepto quando as vozes o arredam para fora da spotlight. Irónico é imaginarmos que ele não se importa de ver-se assim remetido para um estatuto secundário; pois se Troubleman recorda de imediato a figura tutelar e tantas vezes referenciada de Marvin Gaye (mais a banda-sonora por este composta para um filme com o mesmo nome, i.e., «Trouble Man»), é legitimo pensar-se que apesar da variada paleta de recursos dada a ouvir por Pritchard (algures entre uns 4hero e uns Jimpster), Troubleman e «Time Out of Mind» não encontrariam razão de existir sem a substância vocal dos seus convidados. Um bom disco é um bom disco é um bom disco.

Ala que já não é sem tempo!

Se Marek Heinz gosta de Portugal e do Sporting, nós, sportinguistas, e, portugueses, fazemos figas por Marek Heinz. Venha de lá o checo louro de pontapé forte e colocado. E isso rápido que a malta já desespera por novas contratações. MUITAS.

Checos e vikings

A República Checa arrumou com todo o mérito a minha querida Dinamarca que imaginei ter estaleca para chegar à final. A Dinamarca nunca se tinha visto em situação de desvantagem no marcador e sucumbiu aos contra-ataques perigosíssimos dos checos. A capacidade de dar a volta ao resultado que os checos já haviam demonstrado contra a Holanda, a Dinamarca revelou não possuir. A impotência dos vikings imagino que terá dado ao adversário o título de campeão europeu, por antecipação, uma vez que encarei este jogo como tratando-se daquele que colocaria frente-a-frente as duas melhores equipas do torneio: e a República Checa foi(é) mortífera graças a dois municiadores excepcionais – Poborsky e Nedved – e a um finalizador que já é o melhor marcador do Euro – Baros, o Nuno Gomes da República Checa (mais jovem e mais concretizador que o sósia lusitano). Adeus Dinamarca. Parabéns República Checa.

sexta-feira, junho 25, 2004

Galáxia lusitana

A UM JOGO que teve de tudo nada mais há a acrescentar.

Duas figuras: o regressado Ricardo e o eterno Eusébio.

quinta-feira, junho 24, 2004

Depressão

THE LAST TIME I SAW RICHARD
by Joni Mitchell

The last time I saw Richard was Detroit in '68,
And he told me all romantics meet the same fate someday
Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe
You laugh, he said you think you're immune, go look at your eyes
They're full of moon
You like roses and kisses and pretty men to tell you
All those pretty lies, pretty lies
When you gonna realise they're only pretty lies
Only pretty lies, just pretty lies

He put a quarter in the Wurlitzer, and he pushed
Three buttons and the thing began to whirr
And a bar maid came by in fishnet stockings and a bow tie
And she said "Drink up now it's gettin' on time to close."
"Richard, you haven't really changed," I said
It's just that now you're romanticizing some pain that's in your head
You got tombs in your eyes, but the songs
You punched are dreaming
Listen, they sing of love so sweet, love so sweet
When you gonna get yourself back on your feet?
Oh and love can be so sweet, love so sweet

Richard got married to a figure skater
And he bought her a dishwasher and a Coffee percolator
And he drinks at home now most nights with the TV on
And all the house lights left up bright
I'm gonna blow this damn candle out
I don't want nobody comin' over to my table
I got nothing to talk to anybody about
All good dreamers pass this way some day
Hidin' behind bottles in dark cafes
Dark cafes
Only a dark cocoon before I get my gorgeous wings
And fly away
Only a phase, these dark cafe days

A Legião Urbana canta Joni Mitchell no seu acústico MTV.

Sabem como é

Tanta euforia em torno da selecção nacional põe-me deprimido.

A Zed & Two Noughts

Cheguei há pouco do Jardim Zoológico. Não estranhem, eu explico: é que a seguir ao almoço, os donos dos carros resolveram empreender uma deslocação até à baixa lisboeta para ver os animais no seu habitat natural. Ingleses, ingleses, mais ingleses. A praça do Rossio tomada de assalto, decorada com estandartes enormes e latas de Superbock de meio litro – a Superbock tem as cores oficiais da selecção inglesa se é que repararam? Centenas de adeptos de todas as idades esparramados pela calçada, junto das estátuas e dos fontanários, tão descontraídos como se estivessem a posar para um quadro de Gaugin ou Matisse. Uma vez soprado o balão, o Rossio ficaria em cacos. Antes que tal aconteça, o melhor é mandá-los para casa já amanhã.

quarta-feira, junho 23, 2004

Que querido!

Encontrando-me eu descontraído no WC a pensar em nada, fui assaltado pela melodia de uma piroseira assinada por Paco Bandeira - A ternura dos 40 –, interpretada por Cidália Moreira no espectáculo de há semanas atrás no CCB, As grandes testemunhas do fado. Nessa noite, também sem motivo aparente que não fosse o comprometimento da minha empatia face a um casal amigo que me acompanhou no programa, alinhei com a plateia de cerca de 500 pessoas que trautearam a dita música em resposta à solicitação da fadista Cidália. Estranho, mais estranho ainda porque me faltam 6 anos para lá chegar.

Mulheres belas no ecrã e na vida real

Quando estreou Irma Vep, de Olivier Assayas, "aconteceu-me" entrevistar Maggie Cheung com outros dois (estes sim!) jornalistas: João Antunes e José Prata. Maggie foi muito simpática. Maggie continua a ser muito bela, traços perfeitos: face a face mais ainda.

Turismo musical

Deslocarmo-nos até às Ilhas Caimão no tempo de uma canção, não passa pela agência de turismo mais próxima nem exige sequer que nos lavantemos do sítio onde fazemos contas às horas que custam a passar. Se a solução não se encontra aqui, deve necessariamente procurar-se neste outro lado. Liberdade de expressão igual a turismo musical. E a mais algumas coisas também...

Não vá não ter sido suficientemente explícito:

CAYMAN ISLANDS
Through the alleyways to cool of in the shadows, then into the street following the water. There’s a bearded man padding in his canoe, looks as if he as come all the way from the Cayman Islands. These canals, it seems, they all go in circles, places look the same, and we’re the only difference. The wind is in your hair, it’s covering my view. I’m holding on to you, on a bike we’ve hired until tomorrow. If only they could see, if only they had been here, they would understand, how someone could have chosen the length I’ve gone, to spend just one day riding. Holding on to you, I never thought it would be this clear. Kings of Convenience

para a Mad, brisa (por vezes vento) que sopra nesta ilha

Os artigos expostos são para consumo da casa

Guarda-redes:
1 Thomas Sorensen (Aston Villa/Ing), 16 Peter Skov-Jensen (Midtjylland) e 22 Stephan Andersen (Akademisk Boldklub);

Defesas:
3 René Henriksen (Panathinaikos/Gre), 4 Martin Laursen (Milan/Ita), 5 Niclas Jensen (B. Dortmund/Ale), 6 Thomas Helveg (Inter/Ita), 13 Per Kroldrup (Udinese/Ita) e 18 Brian Priske (Genk/Bel);

Médios:
2 Morten Wieghorst (Brondby), 7 Thomas Gravesen (Everton/Ing), 14 Claus Jensen (Charlton/Ing), 15 Daniel Jensen (Murcia/Esp) e 17 Christian Poulsen (Schalke 04/Ale);

Avançados:
8 Jesper Gronkjær (Chelsea/Ing), 9 Jon Dahl Tomasson (Milan/Ita), 10 Martin Jorgensen (Udinese/Ita), 11 Ebbe Sand (Schalke 04/Ale), 19 Dennis Rommedahl (PSV Eindhoven/Hol), 21 Peter Madsen (Bochum/Ale) e 20 Kenneth Perez (AZ Alkmaar/Hol).

em destaque

Agora que a Alemanha volta a mostrar-se pálida imagem das selecções históricas que teve noutros tempos em que aliava a força da técnica à técnica da força, a minha equipa preferida deste Europeu chama-se Dinamarca. Digo-o de novo.

Lençóis & Cobertores

Se cada geração se enrosca ao som dos Simon & Garfunkel que lhe coube em sorte, podemo-nos pois considerar uma geração muito afortunada. Isto porque em riot on an empty street - o segundo álbum de originais dos nórdicos Kings of Convenience – pressente-se a sussurrada maravilha que assegurará (como o anterior quiet is the new loud já o fazia) aos que cedam ao prazer de a escutar, perfeitos finais de tarde de Verão, aconchegantes noites de Inverno e inspiradoras auroras outonais e primaveris: as restantes combinações são também elas verdadeiras. É um disco simples e mágico como a natureza. Música servida em balão aquecido.

terça-feira, junho 22, 2004

O local do crime

Class Trip (ECM)
Class Trip by the guitarist John Abercrombie … recalls the early fusioneers – specifically the Mahavishnu Orchestra. Like John McLaughlin’s group, guitar and violin share the leads, but McLaughlin’s frenetic team would have had to chill out a good deal to sound like this quartet. Abercrombie is rooted in jazz but can turn on the rock swagger if required; the violinist Mark Feldman veers from classical poise to bluesy swing. The pair deliver breakneck unison lines and dart lightly round themes, ably supported by Marc Johnson, double bass, and Joey Baron on drums. … The four musicians combine beautifully. A class trip? Absolutely.
John Bungey, The Times

Storyteller (ECM)
Marilyn Crispell first became known as a sprinting free-jazz pianist with lyrical tendencies, but now the lyricism has taken over. The energy has been subsumed into calmer phrases, heavy with implication. What’s best about her growth over the past decade is that she has shed her outer mannerisms in favour of finding her inner pulse: her keyboard touch, her improvised melody shapes, the rhythms she naturally gravitates toward, feel as if they’re full of their own weight and shape.
Ben Ratcliff, The New York Times

Promises Kept (ECM)
The lineup on Promises Kept says it all: Steve Kuhn with strings. Kuhn is a jazz pianist whose recordings may have been out of the jazz mainstream for most of the five decades his career has spanned, but it hardly matters. Kuhn’s style is signature, though his explorations have taken him to many different terrains in the world of jazz, from knotty post-bop to pointillism and modalism and through the nefarious world of 20th century vanguard composition to the place where listeners find him now: the place of a supreme and unabashed lyricism that is as sophisticated and forward-looking as it is historical and inclusive… The title track, an homage to Kuhn’s Hungarian immigrant parents, waltzes and glides between Old Europe and a far more romantic vision of America than exists today. In sum, this is one of the finest recordings Kuhn has ever issued.
Thom Jurek, American Music Guide

Apesar dos encómios supracitados – gosto particularmente do pequeno texto sobre Marilyn Crispell – todos estes discos representaram para mim, em certa medida, a um primeiro contacto, três desilusões. Assim de fugida, achei «Class Trip» um disco vulgar com demasiado protagonismo por parte do violinista Mark Feldmann (o violino e o jazz deviam seguir sempre caminhos separados: excepção feita a Billy Bang!?); quanto a «Storyteller», parece-me que o trio era melhor quando tinha Gary Peacock e que desta vez a recolha de temas resultou menos interessante; e, por último, «Promises Kept», que é apenas bonitinho (ia dizer xaroposo) entre atmosferas de film noir e bandas-sonoras assinadas por Sakamoto. Referindo-me à discografia destes três músicos na ECM, sugiro antes este, este outro e ainda este outro disco. Entretanto, se a minha opinião se alterar, darei conta do facto no local do crime. Aqui mesmo.

Inspiração

Ney Matogrosso mais Pedro Luís e a Parede explicam como é, num disco não menos que excelente. Atenção, ao ouvir, às intervenções decisivas, entre outras, de Pedro Jóia (violão).

Transpiração* (Alzira Espíndola/ Itamar Assumpção)

A inspiração vem de onde/ Pergunta pra mim alguém/ Respondo: talvez de Londres/ De avião, barco ou bonde/ Vem com meu bem de Belém/ Vem com você nesse trem/ Das entrelinhas de um livro/ Da morte de um ser vivo/ Das veias de um coração/ Vem de um gesto preciso/ Vem de um amor, vem do riso/ Vem por alguma razão/ Vem pelo sim, pelo não/ Vem pelo mar gaivota/ Vem pelos bichos da mata/ Vem lá do céu, vem do chão/ Vem da medida exata/ Vem dentro da tua carta/ Vem do Azerbaijão/ Vem pela transpiração/ A inspiração vem de onde/ Vem da tristeza alegria/ Do canto da cotovia/ Vem do luar do sertão/ Vem de uma noite fria/ Vem olha só quem diria/ Vem pelo raio e trovão/ No beijo dessa paixão/ A inspiração vem de onde

* faixa #3 do CD Vagabundo

Melhor do que a encomenda

Experimentei há minutos atrás um pouquinho de felicidade. Paga. É que acabei de chegar de mais uma investida pelas lojas Valentim de Carvalho que têm a decorrer uma campanha promocional de música brasileira que justifica a visita. Há muitos títulos recentes (Caetano, Gal, Daniela, Lenine), referências irrelevantes (para quê referi-las?) e alguns clássicos dos clássicos (Buarque, Vinicius, Jobim). Saí de lá com o primeiro objectivo cumprido - comprar «Vagabundo» por 11 euros: o CD do Ney com Pedro Luís e a Parede - e trouxe ainda o acústico MTV da Legião Urbana, a melhor banda rock brasileira (se bem que agora temos os Los Hermanos) que alguma vez existiu - dos incontornáveis Dado Villa-Lobos e Renato Russo - que revisita músicas de todos os seus discos e apresenta também outras surpresas, i.e., covers. Confesso que peguei neste Legião Urbana desconhecendo o conteúdo do mesmo, o que só amplia o sentido da expressão "saiu melhor do que a encomenda."

Sonhar com Kluivert

Desde que sonhei que Patrick Kluivert vinha para o Sporting, que fiquei numa espécie de transe apático que não se dissipa até mesmo perante os jogos da Selecção Nacional. É que foi um sonho tão real que no dia seguinte ainda me questionava se não teria tido uma conversa sobre o jogador do Barça que tivesse originado o facto de sonhar com ele. Não consigo lembrar-me de qualquer conversa, pelo que a conversa a ter acontecido só pode ter ocorrido, também ela, no bendito sonho. O engraçado é que embora tenha conhecimento do valor do avançado holandês, Kluivert está longe de ser um nome que tenha sempre presente quando me refiro aos melhores do mundo. Até por este detalhe o sonho não deixa de ser curioso. E inesperado. E uma condenação que passa pela consulta diária, obrigatória, das páginas da Internet dos nossos jornais desportivos. Para ver quando este ou outros sonhos se tornam, finalmente, realidade.

segunda-feira, junho 21, 2004

Querido diário

O Bruno Bénard-Guedes da revista Op já me havia alertado para a qualidade do segundo álbum de originais de Alicia Keys, criança prodígio transformada em senhorinha princesa do R&B e dos tops norte-americanos, de assalto à velha Europa. Versão feminina, possível, visual, mestiça, fresca, exótica, de Stevie Wonder, para o nosso século XXI também. E eu, na minha incessante busca do próximo arrepio de espinha e com a confirmação por escrito de um bom concerto no Rock in Rio em Lisboa (Ricardo Dias Felner, no Público), insisti com velho conhecimento na editora de Alicia em Portugal (a BMG) para receber finalmente o seu «the diary of...». Passado de imediato à fase de escuta no decorrer das deslocações motorizadas do fim-de-semana, e hoje continuada já com o rabo em assento laboral.
Bem ouvidas as coisas... Mau grado opiniões preconceituosas de orelhas vizinhas, devo dar aqui testemunho de uma surpresa muito agradável e distante de comparações alheias com as subdivisionárias JLo, Britneys e Aguileras da vida. Onde tudo se decide, na música, a mocinha Keys, digna de ombrear com damas da envergadura de India Arie e Mary J. Blige, arranca à quinta de quinze músicas (o que fica antes são pequenos deslizes e concessões desulpáveis à sensibilidade comercial mais grosseira) com um alinhamento entre os modelos tradicionais e pontuais inovações que, nunca ofuscando a evidência de uma senhora voz, atestam igualmente de um bom gosto nos arranjos e sentido de balanço mid-tempo muito gostoso. E o piano que Alicia toca pontualmente pode-se considerar em jeito de metáfora estival como cacau quente que se derrete sobre sorvete de morango – conferir a receita em «diary», sétima faixa que conta com a participação dos Tony! Toni! Toné! OH YEAH!

Faz-nos...

Festas
«Um cavalheiro entra num café de Zurique e diz: «Permita-me que beije a mão do homem que escreveu Ulisses». E o homem que escreveu Ulisses responde:«Não: a mão que escreveu Ulisses também fez muitas outras coisas». É a minha história favorita. Literalmente falando, claro. Não façam essa cara. A coisa é mais séria do que parece. Como lembrou Christopher Hitchens em ensaio recente, a masturbação ocupa um papel central na vida e obra de Joyce. Na vida, basta ler as cartas do próprio a Nora Barnacle para perceber a importância solitária do vício. Na obra, basta lembrar a própria Nora – o amor primevo de Joyce que, no dia 16 de Junho de 1904, nas docas de Dublin, resolveu dar andamento a uma epifânica carícia. Não admira que, ao escrever Ulisses, Joyce tenha concentrado a narrativa nesse único e seminal dia: o célebre Bloomsday, centenário este ano, que fez as delícias de críticos e turistas. Os críticos celebram a obra. Os turistas celebram o dia: mas nesta como noutras histórias, convém recordar às massas que o vício antecede a teoria.»
(João Pereira Coutinho in Expresso 19 Jun 04)

JPC, um prosador seminal. Perdão, genial. Embora esta pequena maravilha não conste do livro editado na passada sexta-feira, convém recordar: já compraram «Vida Independente: 1998-2003»? Façam esse favor à desejável intumescência da vossa massa inteligente.

Foi Deus?

Não creio. Deus estava ocupado ontem com as funções de comentador do Espanha-Portugal na TVI: e esse foi todo um espectáculo à parte. Mas lá nos livrámos do fracasso. Estivemos mais aguerridos, mais competitivos, mais equipa. Coragem, Portugal, que só nos encontramos a uma vitória dos objectivos mínimos! Sobre a Inglaterra ou a Croácia? (marchar, marchar...)

sexta-feira, junho 18, 2004

O fim da sedução

Os amigos mais próximos sabiam que nutria uma espécie de culto pela figura de Tozé Martinho, em particular por um personagem que o mesmo fizera na telenovela cujo nome não recordo mas que tinha Lídia Franco no papel de uma cinquentona abandonada pelo marido (Tozé Martinho) que se iria envolver com um homem mais novo (Nuno Homem de Sá: vêem como mantenho presentes as minhas referências?), cabendo ao Tozé a figura de um gajo batido bem apessoado que gostava de whisky, snooker e de fazer ver constantemente aos filhos modernaços que a vida custa muito a ganhar: do género, o dinheiro é meu, só eu posso gastá-lo como quiser (tenho inclusive legitimidade para empalitar a senhora vossa mãe), deixem-se dessas crises de adolescência e vençam na vida.
O que me fascinava no reaças do Tozé tinha sobretudo a ver com o seu figurino que me recorda o pai de um vizinho meu, o João (o pai curiosamente também se chama João), que foi um dos amigos mais chegados que tive até metade da adolescência. Depois a nossa vida limitou-se a seguir rumos diferentes, só isso. MAS ISTO ASSIM JÁ ESTÁ A FICAR UM POUCO BICHA. VOU ARREPIAR CAMINHO E CONCLUIR.
Tozé Martinho desiludiu-me de forma irreversível. Não sabia dos seus dotes jurídicos e muito menos conhecia o facto de Martinho estar a defender Espadinha na polémica de direitos de autor contra Sam the Kid. Até que li a mais recente newsletter da Ananana e foi o fim da sedução... Passo à transcrição, mais sofrido mas também mais maduro. Venha o whisky e o snooker porque agora o Tozé Martinho (o da novela) sou eu:

« já sabíamos o que se passava há algum tempo,
mas pela revista danceclub ficamos a saber o ponto da situação.
sam the kid ainda não se livrou de victor espadinha e do seu advogado,
no célebre caso de
"quando eu era novo havia uma coisa muito bonita, que era a sedução". para quem não sabe ainda: um 'sample' da voz do senhor espadinha incluído do «beats vol. 1», gerou a polémica sobre os direitos autorais. o ping-pong surge pelo facto de a voz ter sido obtida não de um disco ou qualquer registo de obra protegida, mas sim através de uma entrevista na televisão. ficamos a saber também que o diabinho vermelho que costuma estar num dos ombros de espadinha dá pelo nome de tozé martinho, seu amigo e advogado.
foi este senhor (recém licenciado) que tenta ser actor há bastantes anos que convenceu o outro senhor que também tenta ser actor há muitos anos que havia caso para sacar algum dinheiro extra ao pobre samuel. como sempre, a lei irá interpretar o caso e decidir o vencedor e vencido, mas estes casos flutuam acima da lei, numa espécie de versão empírica e emotiva dos artigos legislativos. ou aceitamos a lei à letra ou achamos que a mesma está errada e é injusta. neste caso em concreto - aliás, o primeiro caso português de 'sampling' ilegal - a divisão ocorre automaticamente entre os amantes de música, e, do outro lado, os que simplesmente acham que o respeitinho é muito bonito, que isto nem tem nada a ver com a música, que o samuel até deve ser bem intencionado,
até gostam de hip hop, até gostam de todos os tipos de música... e blá blá. agora há as merecidas férias grandes dos juízes e juristas, mas o desfecho está para breve e será acompanhado aqui como o mesmo fervor que os media dão ao caso casa pia.» (Ananana, Folha Informativa Nº180)

Os quatrocentos caracteres

Sono. Estou cheio de sono. À minha volta estão cheios de sono. A TV está um bom metro acima da linha dos olhos mas a minha cabeça pende. Pende para a Dinamarca e pende cheia de sono. Sinto-me como sua excelência o Rei D. Juan Carlos forçado a obrigações protocolares na tribuna de honra do Grécia-Espanha (protocolo aqui quer dizer trabalho: que oscila do folgado ao ausente). Este jogo, hoje, está muito idêntico àquele. Os vermelhos dominam, rematam, muitas vezes mal, e vai valendo um golo solitário de Tomasson que já podia ter marcado outros dois ou três. Quatrocentos caracteres mais tarde sinto-me despertar. Chega de deitar conversa fora. Vamos lá Dinamarca! De cabeça levantada.

Apesar de trajarem de vermelho e branco

Fim de música. No more PC. Nada de telefonemas, fixos ou móveis, por favor. Agora, se me dão licença, vou ver jogar a melhor selecção do Europeu. Aquela que acredito irá derrubar todos até ao fim. A Dinamarca ainda por cima joga hoje na mais insólita e mais bonita das molduras - a pedreira relvada assinada por Souto Moura.

Aperto:... mas talvez seja de fazer um chichizinho antes. A correr.

Organograma clínico do SCP para breve

Então, como é que fica com a bela e prudente Caroline Ruffato?

Capa dura

O LIVRO DE CRÓNICAS QUE HOJE SAI COM O INDEPENDENTE É DA AUTORIA DO JOÃO PEREIRA COUTINHO. O João há muito que merecia este livro. E nós o prazer de descobrir o que está para trás do primeiro texto que dele lemos.

quinta-feira, junho 17, 2004

Sem guito

Na verdade, a quem quero (verdadeiramente) dedicar a transcrição do Buarque é a este tipo muito talentoso que está sem guito para comprar livros. Convém insistir que o CD do Quinteto Tati, Exílio, é o melhor disco português editado este ano: muitos ainda se encontram a ganhar pó numa tabacaria perto de si uma vez que outros limitam-se a deixar acumular cera nos ouvidos. Merda para a indiferença.

Uma outra Vanda de bruços

No último livro de Chico Buarque, «Budapeste» (Dom Quixote) - alô buarquianos! - encontramos parágrafos que se assemelham a pequenos contos. Magníficos.

«Girei a chave, ninguém na sala, água escorrendo na cozinha, era a empregada. Atravessei o corredor, a porta do quarto estava fechada, fui torcendo a maçaneta sem fazer ruído. O sol da tarde já baixava, vazando as persianas e projectando como que uma grade no assoalho e na coberta da cama. O banheiro estava aberto, a luz acesa. Enrolada numa toalha branca, com os pés apartados, a Vanda atirou a cabeça para frente, quase tocando o chão, como num tipo de penitência. Passou a escova na nuca, puxando os cabelos castanhos pela raiz, e pude olhar suas pernas, seus braços, seus ombros nus, aquela pele que eu conhecia morena por igual no corpo inteiro, menos nos seios e debaixo da calcinha. Entretanto, olhando a Vanda assim de repente e tão perto, mais uma vez me admirei; minha primeira dúvida, sempre que vinha de viagem, era se a Vanda ganhara viço na minha ausência, ou se em meus pensamentos ela desbotava. Ergueu a cara vermelha, me viu pelo espelho e vacilou: você entrou pelo terraço? Não, roubei a chave. Você é louco, meu marido pode chegar a qualquer momento! Seu marido está em Istambul. Não pode ser, estou esperando ele desde ontem! O avião dele caiu. Oh! Dei um passo à frente e me encostei nela, que descalça mal passava do meu queixo, e durante um bom tempo nos fitamos pelo espelho, eu apertando seus quadris como ela gosta. Até que se voltou amolecida, a cabeça pendendo para a direita, a boca entreaberta, os olhos fechados com as pestanas tremelicando; depois do beijo, quando soltasse seus lábios dos meus, ela diria que estava com sono. Soltou seus lábios dos meus, apoiou-se na pia, me encarou com os olhos ainda fechados, esfregou-os e disse: estou morta de sono. Passou por mim como uma sonâmbula, os passos lentos mas retos, e caiu inerte na cama, a toalha branca pousando em seu corpo. E o sol invadia o quarto, e as sombras da persiana estampavam uma jaula na toalha sobre o corpo na cama. A Vanda fingia dormir, esperando que eu lhe roçasse a língua atrás da orelha. Demorei uns segundos de propósito, considerando que a toalha era um molde perfeito sobre o corpo dela; se a descolasse do corpo com cuidado, poderia em tese construir ao lado uma outra Vanda de bruços. Afinal me ajoelhei no chão e rocei a língua atrás da sua orelha, que cheirava a sabonete. Súbito saltou da cama, pensei que fosse recomeçar a brincadeira do marido, mas não. Era faro de mãe pressentindo o menino lá embaixo, no playground ou na garagem do edifício, pois só minutos mais tarde o choro dele entrou no apartamento. A Vanda já estava de blusa e jeans na porta do quarto, o que aconteceu?, o que aconteceu? Acontecera nada, um menino tinha batido no menino e a babá o trouxera da escola mais cedo. Estatelado na cama, quem fingia dormir agora era eu, mas deu para ver que o menino tinha ganhado mais uns quilos. Meu filho estava obeso.»
(Chico Buarque, Budapeste, págs. 28/29)

AVISO À NAVEGAÇÃO

Problemas com a leitura de alguns posts - sobretudo os mais extensos - resolvem-se com recurso ao link no arquivos com data mais recente. Se a coisa não funcionar ao primeiro click, por favor insistam. É que os posts mais longos são geralmente os que mais interessam. E exigem também uma outra amplitude de página que algumas vezes dá erro. Pelos autores, que não eu, vivos ou mortos, agradeço!

Apanhado na teia

Comprei o Púbico - o único jornal que hoje em dia compro - mas trouxe antes o DVD do Diário de Notícias: o inquietante «Spider», de David Cronenberg, que é dos t... ^0^

^0^ igual a aranha.

quarta-feira, junho 16, 2004

Bem-vindo Mr. Bernard!

É chegado o momento de dar aqui as boas-vindas a Jeffrey Bernard (1932-1997), uma amizade recente que também devo a outras amizades. Há inúmeras portas de entrada para o submundo deste grande escritor/ jornalista. Bernard foi sempre o grande tema de Jeffrey Bernard. Deixemos que seja cada leitor a decidir onde ficam as fronteiras da realidade e da ficção. Bebamos a isso! Outros copos seguir-se-ão mais tarde.

INTRODUCTION (excerto)

«(...) And speaking of families brings me to the delicate subject of women – although, heaven knows, they’re about as delicate as an SS Panzer Division. Over the years it’s been a strange sort of war between us, but now, well into the second half of the ridiculous game, they’re leading me by the equivalent of six nil. But we’ve had some terrific truces. The sad thing is nearly always ends in tears – mostly mine. In spite of that I’ve been very lucky in knowing some marvellous women and they’ve been very good to me. The clashes have been mostly over my selfishness and the fact that I can’t bear the way most of them are so firmly in touch with reality. It is fairly typical of them that my favourite woman and wife said to me, when we split up, “I thought you’d change and settle down.” I was drunk for most of the time I was wooing her, and surely you can see a train coming if you’re standing on the line. Anyway, you don’t change and settle down at forty-six.
Another trouble, I’ve always been at firs attracted by the packaging, only to discover there was another person inside and not the one I’d dreamed of. Perhaps I’m caught in some sort of sartorial time-warp, or perhaps my tastes for appearances are somewhat dated. It’s odd that winning stays in a gambler’s memory for longer than losing does and I find a little depressing that all the fringe miseries of being unable to make a relationship work stick vividly, whereas happy times in the mind’s eye are now in soft focus. Perhaps it’s because of that that I write so much, probably too much, about loss. This may be why some people enjoy reading about low life in the Spectator. It probably makes them feel safer. If you’re living where the grass is greener it must be reassuring to glance occasionally at a rubbish dump.
Some women, though, seem to want to turn rubbish dumps into gardens. They also seem to like little-boys-lost. Well, at fifty-two I’m afraid that game’s over, but I used to be quite good at it. But dear, oh dear, the things this obsession with women and sex led to in the past. It’s utterly absurd, ridiculous and laughable to think that I’ve been through two spates of drunken suicide attempts over two different women. But then for years and years I was terrified of living alone and of the desolation of being left. It wasn’t until quite recently that I discovered that being alone can often be a luxury.
The other thing I’m getting the hang of is building enough necessary arrogance of a sort to defend myself. It has to be reciprocal. If a person doesn’t like you as much as you like them then they are quite simply, by definition, the wrong person. Playing Dante to a Beatrice isn’t my idea of fun. (…)»
(Introduction, Jeffrey Bernard in «Low Life»)

Vivaviz!

Aqui celebra-se, precisamente, um ano de existência. Um grande abraço de cumplicidade à distância.

Grito de guerra

Existe na estação de Metro de Entrecampos um pedinte que está lá todos os dias e que não tem uma das pernas abaixo do joelho, ainda que não deixe de se parecer demais com Luiz Felipe Scolari. Se ele fosse o próprio do Felipão podia muito bem dizer que hoje é um bom dia para matar. Ou morrer. Amanhã, creio bem que vou passar por ele de novo.

Vícios de ouvidor (os Wilco de novo...)

Com uma segunda passagem de «a ghost is born», as coisas, como de costume, começam a clarificar-se. Há o lado mais experimental (na prática, maior investimento no número de "sonzinhos"), a componente sónica colocada consequentemente em maior destaque: a energia das guitarras mostra alimentar-se de pilhas cada vez mais rock em vez de folk. Algumas melodias são menos catchy, existem pré e poslúdios densos e abstractos, embora curtos (há uma excepção), para reforçar a estranheza e o estatuto de objecto artístico e também para massajar o ego do produtor Jim O’Rourke que gosta muito deste tipo de explorações – confirmar na coda (na cauda, a excepção) da última faixa, a #11 (que não é afinal a final, pois existe FAIXA ESCONDIDA).
Mas na prática estamos face a um prolongamento plausível do excelente «Yankee Hotel Foxtrot». Os Wilco continuam a representar uma das melhores sínteses pop/folk (com energia rock) surgidas na década anterior, reforçada no seu lugar de referência desde «Summerteeth» (1995). Dissipadas as primeiras dúvidas, tenho a relatar que «a ghost is born» é bom nas horas. Jeff Tweedy still rules!

Nota: Seremos muitos a sentir falta da "presença" do Luciano Amaral. Parabéns e até sempre, caro Comprometido e caro Espectador.

terça-feira, junho 15, 2004

Nasceu!

Este post só interessa para já a quem considerou «Yankee Hotel Foxtrot», dos Wilco, um dos melhores discos de 2002. E interessa na medida em que estou a ouvir o novo CD da banda de Jeff Tweedy, uma vez mais produzido por Jim O'Rourke. O início - as duas primeiras faixas, para ser mais rigoroso - é um tanto soturno mas entretanto a experimentação sónica dos Wilco está mais solta, mais Sonic Youth (que surpresa... tendo O'Rourke na produção). Expectativa para os próximos longos minutos e prováveis repetições. O vício da catalogação imediata fez-me antecipar que o filão que os Wilco atacavam agora em a ghost is born chamar-se-ia Rolling Stones, depois de uma colagem criativa aos Beatles do álbum branco no anterior «Yankee Hotel Foxtrot». Uma voz aqui ao lado fala em Velvet Underground e ainda nem sequer vamos a um terço da viagem. Guitarras... guitarras... mais guitarras... continuo na minha: rock sónico é o que é. To be continued...

Curiosidade: Jeff Tweedy e Jim O'Rourke gostam muito um do outro. Depois da colaboração nos Wilco, em 2002, encetaram nova parceria a que chamaram Loose Fur. Tenho esse disco. É curioso.

Drummond de Andrade

O «Poema das Sete Faces» foi o segundo prazer descoberto, à noite, sóbrio, antes e depois do son(h)o, na «Antologia Poética» de Carlos Drummond de Andrade (Publicações Dom Quixote). A seguir aos tons de verde da capa e da mancha gráfica. "Eu não devia te dizer/ mas essa lua/ mas esse conhaque/ botam a gente comovido como o diabo."

Poema das Sete Faces

Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
Porém meus olhos
não perguntam nada

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucas, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
seria apenas rima, não seria solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Luadefraque

Já não ouvia Tuxedomoon desde o tempo em que os meus gostos musicais começavam a tornar-se mais interessantes... Estávamos no final da década de 80 e os discos eram «Desire», «Suite En Sous-Sol» e «Holy Wars». Regressei agora ao contacto com os Tuxedomoon e não lhes encontro diferenças de maior: nem quaisquer outras para falar verdade. O que dirá isto da música deles? O que a música deles dirá ainda de mim? O melhor é talvez apenas ouvir...
... ... ... ... ... ... ... ... ...
A aventura «Cabin in the Sky» (2004) recomeça (ou começa) aqui. Gosto, continuo a gostar destes velhos-novos Tuxedommon. Por vezes, muito até. Quando as músicas sabem a cenas de um disco que sabe a filme.

Quem é Oren Ambarchi?


domingo, junho 13, 2004

O mal menor...

Já está. Foi aí pelas 11h, no Bairro Azul. Mais precisamente na Escola Marquesa da Alorna. Só para contrariar o camarada Saramago, ainda que desgostando alguns amigos.

Fizemos História

Portugal foi o primeiro país organizador a perder um jogo inaugural do Europeu. Tínhamos que fazer História, desse lá por onde desse.

Nota: A ideia, pouco feliz de resto, era "deixá-los em ruínas". Donde se conclui que a publicidade delira. Ó se delira...

sábado, junho 12, 2004

Sonic Youth Sonic Nurse

Em escuta ALTA. Great shot!

Sozinho em casa

Não faço ideia se Paul Thomas Anderson terá inventado o género da comédia romântica psico-caótica com Punch Drunk Love, mas reconheço que a imensa originalidade de tom do filme escapou-me da primeira vez que o vi. Já esta manhã foi um prazer assistir à travessia amorosa de Barry Egan (inquietante Adam Sandler: quem diria?) do pânico até à bravura possuída por uma força incompreensível, vinda do amor. Desconcertante filme.

Obs. Onde se confirmou dias antes, na estrada, que Our Mutual Friend, de Neil Hannon/ The Divine Comedy, é, se não a melhor canção da banda, pelo menos uma das grandes canções deste ano.

Termómetro

Força, Portugal! E Força Portugal.

Ilha deserta

Confrontados com a questão de que discos levar para a ilha deserta, e descontando a impossibilidade de reproduzir na ilha esses mesmos discos, há ainda um terceiro dado que diz respeito à possibilidade de levarmos discos que são eles próprios como ilhas desertas. Discos raros como «Grapes from the Estate«, de Oren Ambarchi, que nos colocam a sós num cenário idílico (porque irreal) com sons pontuais - toques, tons, apontamentos - que são como miragens de composições à beira de o serem. Vultos sonoros. Tesouros à superfície.

Febre de sábado à noite

Junto ao rio, num extremo da cidade, propunham Lenny Kravitz, Fatboy Slim, Massive Attack, Pixies. Junto ao mesmo rio, já noutro extremo dessa cidade, cantavam Vicente da Câmara, Cidália Moreira, João Ferreira Rosa, Beatriz da Conceição. Escolhi o super-fado (sentado) e escolhi bem.

Colecção Aventura

O projecto Biosphere (do norueguês Geir Jenssen) propõe no novo CD uma viagem «Autour de la Lune». A herança do Feldman (Morton) orquestral de «Coptic Light» traduzida para 9 paisagens electrónicas onde quase se sente a gravidade zero. Rumo à lua. Hipnótico e luminoso.

Café e Cigarros

São pequenos postais em interiores da mitologia americana distorcida por Jim Jarmusch. O objectivo aqui é ter piada a partir da desconstrução da pose pelo blasé, mas poucos são os exemplos que conseguem ser divertidos: as excepções são protagonizadas por GZA, RZA e Bill Murray; Alfred Molina e Steve Coogan; Bill Rice e Taylor Mead e o episódio mais conhecido desta série de 14, protagonizado por Iggy Pop e Tom Waits. Digamos que o propósito inicial ou a sua inexistência - o que vai dar quase no mesmo - já era em si muito limitado. E as limitações ficam à mostra quando nos deixam frente apenas ao imaginário para onde remetem aquelas presenças. O que se vê e o que se ouve é em grande parte muito pobrezinho apesar do invulgar voluntarismo para improvisar de todas as figuras. É como no jazz: se o tema é de interesse curto, não há muito a fazer com a improvisação do mesmo. Jarmusch que gosta de música devia ter consciência disso.

quinta-feira, junho 10, 2004

Há vida depois da escrita?

«No Verão passado, resolvi gastar algum tempo lendo o que agora chamam blog. Alguns, pouquinhos, dada a abundância, pelo menos naquela altura. E o que ali vai de escrita... muita opinião, decerto, mas também argumentos, controvérsias, leituras e reflexões, referências e alusões, considerações graves e facécias. Às vezes organizados, às vezes uma miscelânea bem caótica. Coisa nova, sem dúvida: um bulício. Gostei de ver um antigo aluno a comparecer galhardamente entre os bloguistas mais activos: aliás, estive a pique de o meter no currículo! Não demorei a encontrá-lo , lá estava o... ponhamos PCh, designação convencional, porque não me atenho ao caso, mas ao exemplo: exemplo do que me agradou menos, embora em harmonia com tendência forte, nos blogs e noutros lados. Foi naquele dia muito quente, ainda antes daqueles dias muitíssimo quentes, e dizia ele que não escreveria porque ia estar "ocupado a viver até domingo". Era quinta-feira.
Pois isto não acabo de entender: ocupar-se a viver? Se tivesse dito "a ganhar a vida", percebia-se: acudir ao orçamento na coluna das receitas, a bolsa de criação literária acabou, o trabalho chama, pôr o pão na mesa, os livros não vendem que chegue, o blog rouba tempo e só tem custos, embora poucos, etc. "Ocupar-se a viver", com franqueza... parece sarcasmo denegrindo algum colega bloguista caído em estado comatoso, literal ou figurado, em qualquer caso de mau gosto. O PCh, dir-se-ia apoiar-se numa dualidade estranha: que existe uma coisa chamada vida e, fora dela, demarcada e remarcada, outra, chamada blog ou, quem sabe, escrita, em sentido amplo, muito amplo. Enveredando por leitura literalista, se sempre indispensável muitas vezes suficiente, seria legítima a inferência de que o PCh não se considera vivo ou ocupado a viver enquanto compõe pequenas prosas para o blog. Tornar-se-á pessoa espectral? Cai a noite, o bloguista abre o computador como Drácula abria o caixão, desliza pelas teclas sem atrito nem inércia e... não se vê reflectido no espelho! Pasma, antes de perceber que deve ser essa a própria condição de possibilidade do blog.
Conjectura decerto esdrúxula, salvo se tivesse havido grave degenerescência. O PCh, na época recuada em que o conheci, não era uma dessas organizações esquisitas que tantas vezes entram nas aulas, jovens originais, despenteados, cheios de embriões de coisas novíssimas: era antes um rapaz amável e bem humorado, aliás virado para as coisas simples da vida. Ah, se calhar é isso, as coisas simples da vida ocupam muito tempo... por outro lado, a ser assim, nunca o blog teria nascido. Um amigo a quem, na ocasião, falei do caso, escarneceu e riu-se-me na cara: "Ocupar-se a viver? Foi para a praia!" O cínico leva boa vida, já se vê: simplifica tudo, não acredita em nada, mas afinal contenta-se com o meramente provável. Não há paradoxo nem tão-pouco novidade no que vou dizer, mas os cínicos são sempre crédulos.
Entretanto, a teoria da praia não se perdeu de todo; provavelmente engendrou outra conjectura, que há dias resolvi confirmar: quem sabe o Inverno traria formas de vida mais congruentes com o blog... Nova espreita: o blog ainda lá estava; e o PCh ainda se ocupava a viver, só que agora deixando registo da vida em que se ocupava. Por exemplo este, e transcrevo tudo: "Hoje, sábado ao fim da tarde, calcei os ténis, embrulhei-me no cachecol, meti o passe da carris no bolso e fui, sem agenda, ao cinema. De cara ao vento, sem querer saber os horários das sessões ou da distância do percurso. 3 horas depois estava de regresso, enregelado, com uma refeição de fast food e um filme com a Diane Keaton no bucho. Nem sempre a liberdade nos cai bem no estômago..." Não parece difícil ocupar-se uma pessoa nisto, salvo a digestão e o frio. Mas notem a insistência digestiva: bucho para fast food e filme (detecto ali um zeugma: acho improvável que fosse o filme ter a Diane Keaton no bucho), estômago, mais elevado, para a liberdade. (Há critério nesta discriminação.) Dir-se-ia, com Platão, que o elemento dos apetites tomou conta da alma do nosso bloguista. Mas não sejamos intransigentes. Ocupar-se a viver também inclui comer; e o frio é estímulo, e estimulo vital: sentir frio é reagir, é sentir vida, é prestar-lhe homenagem! Que fazes hoje? Ocupo-me a viver: passo frio.
O ponto, porém, está na decisiva passagem do bucho para o estômago. Notem: foi ele quem foi ao cinema, os ténis e o cachecol seriam dele, terá sido ele a comer o hambúrguer, mas aquilo de a liberdade nem sempre cair bem no estômago, o que quer que signifique, é nosso ou diz-nos respeito: nem sempre nos cai bem. O bucho é só dele - o estômago. Há nisto critério, repito: humilde ou com senso de decoro, o bloguista reserva para si o termo que poderia ofender outros bloqueando a exemplaridade. E aí têm como a opção entre duas palavras decide problema sério: o da transmissão de experiência. A esta luz, a fórmula ideal, que parecia incongruentemente sentenciosa, é na verdade quase aforística (quase, por causa das reticências, que quebram o necessário fechamento do aforismo na típica completude breve). Dissesse ele "nem sempre a liberdade me cai bem no estômago", e ficaríamos reduzidos ao privilégio, ainda assim importante, de perguntar que tínhamos nós com o caso. Dissesse, por outro lado, "nem sempre a liberdade nos cai bem no bucho", e seria ele a ficar reduzido ao privilégio, ainda assim importante, da facécia. Mas experiência, exemplaridade, algo que se partilha com os outros a partir de qualquer acção singular - isso ser-nos-ia negado.
Proponho, então, que o PCh avançou para etapa superior: se houve um tempo em que ocupar-se a viver o obrigava a suspender a escrita, agora consegue ocupar-se a viver e fazer disso escrita. Ninguém negará o progresso. Amadureceu. Cresceu. A ponto de, além de fazer duas coisas ao mesmo tempo sem se desorientar, justamente orientar uma para a outra, a vida, em que se ocupa, para a escrita, em que também se ocupa. Ocupar-se a viver significa agora ocupar-se a escrever. Não é esse o limite ideal de todo o escritor? Sem dúvida: tudo na vida pode desembocar num blog.
Não obstante, eu preferia o primeiro PCh. Era mais fácil percebê-lo, bastava espreitar o blog dia após dia: não havendo acrescentos, era certo que continuava ocupado a viver. Agora não. Alcançou essa etapa superior, já se atreve a querer legitimar pela exemplaridade o próprio facto de escrever; em contrapartida, dele mesmo nem sequer se sabe se ainda vive. Exactamente: nesse cume da exemplaridade é que o PCh se pode ter tornado pessoa espectral. Morto-vivo.
Reparem: Que garantia temos de que ele foi mesmo ao cinema naquele sábado? Absolutamente nenhuma. A pormenorização diligente complica em vez de nos tranquilizar: quem nos assegura de que tudo aquilo não passa de ficção? Ninguém nos assegura. Acontece que a relevância disto é nula, porque, ficção ou não, o certo é que motiva o ensinamento que o PCh nos chama a partilhar: a liberdade nem sempre nos cai bem no estômago. Só isso devemos reter, porque só isso nos é dirigido: o resto é lá com ele. O resto, quer dizer, a ocupação com a vida, o bucho. Daí que, e é o ponto, quando se chega a este nível superior de transmissão de experiência pela escrita, a escrita permaneça ao passo que a vida se dissipa, destruída pelo próprio instrumento que se diria transmiti-la. Se tanto faz que a ida ao cinema seja verdade ou fantasia, facto ou mistificação, se tal, aliás, é o melhor que lhe pode suceder - porque a verdade ou o facto seriam sempre pessoais, pobres, mesquinhos, impartilháveis -, o vivente, que come, sente frio, usa cachecol e vai ao cinema de ténis, esse desvanece-se inexoravelmente, ou melhor, sacrifica-se para nos legar um ensinamento essencial: a liberdade nem sempre nos cai bem no estômago.
A partir daqui, as coisas só podem piorar. O PCh foi apanhado na teia maléfica da escrita, e justo quando se alçou a nível superior. Quanto mais insistir em que se ocupa a viver, quanto mais se ocupar a escrever sobre a vida que se ocupa a viver - e Deus o livre dessa tentação! -, maior será a suspeita de que vida e pessoa ocupada na vida são mero efeito da ocupação da escrita: voltamos à pessoa espectral, que, bem vistas as coisas, nem carece de ténis ou cachecol. A única vantagem, que de resto torna a profissão de escritor superior às outras, reside precisamente na possibilidade da ficção da vida. Não me refiro apenas nem sequer principalmente a cada um inventar a vida em que se ocupa, mas à possibilidade fundadora de inventar que se ocupa a vivê-la.
Ora, como essa ficção apenas seria consequente na condição de o PCh se ocupar a viver sem disso deixar rasto - ou seja, consequente num modo que a tornava impossível, como se viu quando suspendeu o blog até domingo -, o preço a pagar por aquela vantagem é muito alto: não escrever. Ou então morrer. E ninguém quer morrer. Ninguém gosta de ser tomado por efeito textual: tão-pouco reputado pessoa espectral. Daí a estranha insistência na vida, maior nos escritores do que em qualquer outra profissão, e de resto amplamente partilhada por quase todos os que falam dos escritores ou com eles falam. Um livro sobre as coisas importantes da vida. Um livro forte desentranhado da vida. Um livro que nos ensina a vida. Um livro como só alguém que ama a vida pode escrever. Um livro de quem se ocupa antes do mais a viver. Etc: um sujeito distrai-se, e até julga que regrediu ao tempo do preconceito obnóxio que supunha a vida mais importante do que os livros. Ora, vamos e venhamos, pode-se regressar da escrita como quem regressa a casa mal alimentado e depois de ver um filme com Diane Keaton? Podendo ou não, sempre se vai tentando; convém é estar prevenido. Porque não há vida depois da escrita.»
(Abel Barros Baptista in Ensaios Facetos, Cotovia, págs 137/144)

segunda-feira, junho 07, 2004

Brian Wilson on (extra) acid!

Sung Tongs, dos Animal Collective. Primeiro a estranheza. Depois a estranheza que é também já outra coisa ainda por definir. Daí o título: o do post.

A perfeição


Masters class

Parece que muitos anos depois de o terem selado publicamente com a marca prestigiante da Blue Note Records, John Scofield e Pat Metheny continuam a espreitar a casa um do outro. Refiro-me agora mais concretamente a Scofield e ao seu disco ao vivo acabado de sair (na Verve, embora gravado no clube Blue Note de Nova Iorque), como me poderia estar a referir ao igualmente muito viajado trio de Metheny que por acaso (?) até tem com a formação de Scofield a coincidência de ambos terem ido recrutar o mesmo baterista - o extraordinário Bill Stewart. O terceiro elemento de «EnRoute», do John Scofield Trio, é o baixista Steve Swallow e não é por este que sairia lesada a telepatia que esperamos sentir num disco como este.
É difícil caracterizar de forma original um objecto cujos méritos são comuns a centenas de outros álbuns de jazz que reflectem o mesmo tipo de musicalidade e amadurecimento em músicos que a partir de certa altura escolhem com quem tocam de forma extremamente criteriosa. «EnRoute» é (é previsível) um bom disco: não converterá aqueles que torcem o nariz à guitarra jazz mas para os indefectíveis representa mais de uma hora de master-class. Três músicos, três amigos que partilham grande vivência e cumplicidade musicais, gerações diferentes representadas embora mestres todos eles. Pat Metheny tem a palavra seguinte. ATÉ JAZZ!

O futuro radioso

Boas notícias que chegam da América. Go Arnold!

sexta-feira, junho 04, 2004

Demónios que se ouvem por bem

Pensem numa espiral de sons industriais e electrónicos combinados como um conjunto de reflexos infinitos provenientes de uma manipulação de luz e de espelhos. Se é difícil de pensar, imaginar é talvez mais difícil ainda? No entanto, sentimos o poder de sedução da música e o sentido que ela tem, embora difícil de explicar. Talvez que os sentidos sejam tão infinitos como os espelhos e as luzes que reflectem? Não sei colocar as coisas de outra forma (em palavras): as impressões causadas pelo de longe melhor disco que ouvi esta semana. E, como é já hábito, ainda nem sequer lhe dispensei a atenção de(vida). Tanto suspense, tanto devaneio, para dizer que o novo VLADISLAV DELAY, intitulado «demo(n) tracks», cujo poder de assombração manifesta-se logo na imagem da capa, é uma obra-prima da electrónica a juntar ao melhor Ekkehard Ehlers, ao melhor Fennesz, ao melhor Tim Hecker. Um disco de infinitas implicações auditivas e igual número de prazeres de auscultação. Prazeres "auscultos".

Algumas quase certezas em relação ao novo Morrissey

As letras são melhores do que as músicas. As músicas são piores do que os arranjos. Os arranjos são piores do que a produção e mistura de som (Jerry Finn, seu filho de uma mãe surda). Dêem-me “Vauxhall and I”, “Viva Hate” ou até “Southpaw Grammar” (que os outros não conheço). “you are the Quarry” tem a meu ver demasiada electricidade, uma sonoridade silicone que não assenta bem com a atitude do velho, respeitável mas não (?) acomodado Morrissey. As letras são adultas – elegíacas e agressivas, despejando amor e ódio - embora o som pareça apontar na generalidade a um público imberbe. Até nos dão direito a uns teclados manhosos pelo meio, e outros pormenores de um profissionalismo bacoco. Morrissey a candidatar-se às primeiras partes dos Placebo, Muse e outros que tais? Alguém esqueceu-se de lhe dizer que essa música traz um prazo de validade mais apertado do que ele provavelmente desejaria. Se continuar pelo caminho de “you are the Quarry”, Morrissey arrisca-se a sair de cena mais rapidamente do que as suas longas ausências fariam desejar. “you are the Quarry” é um disco musicalmente a resvalar para o quadradão (um wall of sound de plástico). Esparrela em que já caiu, por exemplo, o maduro David Bowie. O que lhe sobra em amplificação, falta-lhe em rugosidade. Se ao menos na metralhadora da capa do disco ainda enfiassem com um ramo de flores...

Semi qualquer coisa

Toda a gente parece interessada em testemunhar o renascimento de Elsa Raposo, desde que esta se mostre mais ou menos como veio ao mundo.

A cabeça também

Eu que já me lavava até ao pescoço com sabão azul e branco (vulgo, sabão macaco), pus em prática esta manhã o segredo do Dr. João de Deus Pinheiro. Aparentemente, com bons resultados para não dizer óptimos.

quinta-feira, junho 03, 2004

Xarope infinito

Os Madredeus limitam-se de há vários discos a esta parte a fazer cópias das músicas que ajudaram a construir um imaginário que ficou gasto. A tabela de vendas mostra o contrário, embora eu prefira acreditar no açúcar acumulado no outro canto da sala.

Direito de resposta: veio de tractor com as Field Recordings 1995/ 2002, de Fennesz.

Custa

Pensar que levo a vida a desistir de coisas que não gosto de fazer.

quarta-feira, junho 02, 2004

Klimek

É o que está a dar. E o que está a dar são analogous, acoustic sound impressions with a contemplative approach to pop ambient. A Matéria Prima distribui mas a Ananana também arranja.

Pago em mourinhos

Eu é que ia já para o Chelsea, aguentava-me por lá um mês até eles toparem que era uma fraude, e com 130 mil contos no bolso nunca mais fazia nada na vida.

Our Auberon

AUTO-ESTIMA & FILHOS LDA
«Ainda ninguém me convenceu de que “auto-estima” não é o nome de um “stand” de carros usados. E, no entanto, eles bem tentam. Mal terminou o jogo do Porto com o Mónaco, o Presidente da República e o primeiro-ministro, além de 3674 vultos menores, apressaram-se a prever espantosos melhoramentos do nosso ânimo, fruto de um desafio de futebol, três golos e uma taça (vulgo “caneco”).
Continuei sem perceber. Se a auto-estima fosse mensurável pelo incremento sustentado do pagode, eu, à semelhança do dr. Sampaio, admitiria sem problemas que a retoma está à porta. Centenas de milhares de pessoas aos gritos de “vitória” e de “somos os maiores” não serão um exemplo flagrante de produtividade, mas representam, decerto, uma afirmação de relativa confiança nas capacidades próprias.
Infelizmente, o pagode desmobiliza-se depressa. Cinco dias depois de Gelsenkirchen (última aquisição nacional em matéria de sabedoria geográfica), o povo regressou ao ramerrão costumeiro e, apesar de um cachecol aqui e uma bandeira ali, parece consensual a suspeita de que, afinal de contas, os maiores talvez sejam outros quaisquer.
Já medir a auto-estima pela coesão social que promove, como insistem alguns, nem vale a pena. Mesmo no apogeu da festa, a alegria dos adeptos da bola era regularmente interrompida por joviais expressões de ódio a uma misteriosa cáfila de portugueses que, aparentemente, não fervilha de gozo a cada jogada do sr. Deco.
Por fim, se o critério para aferir da auto-estima está ligado à prosperidade económica,o caso também não é claro. No máximo, os triunfos na Liga dos Campeões renderam ao Futebol Clube do Porto e, por extensão optimista, ao País, uns escassos milhões de euros, no fundo uma ajuda insignificante ao controlo do défice. A que se pode acrescentar um pontual estímulo ao tráfego aéreo e ao comércio nas imediações de Dusseldorf, este pouco susceptível de se reflectir positivamente nas nossas balanças, a comercial e a de serviços.
Um cínico achará mais provável que a mítica auto-estima seja exactamente aquilo que parece: um chavão de baixa propaganda política, que, como o conceito obriga, visa atirar aos olhos da plebe uma mão cheia de nada, deixando-a consolada e mansa no período possível. A ser assim, ver as principais figuras elegíveis da nação envolvidas na hipotética fraude não espantaria, mas dar-nos-ia uma ligeira diferença de perspectiva sobre a natureza de quem nos lidera.
Por isso, continuo a acreditar no tal ‘stand’ de automóveis. Questão de inocência. Questão de higiene.»

albertog@netcabo.pt
Alberto Gonçalves

Corram a dizer-lhe, porque o Alberto não acredita.

Dedicatória

«ESTILO: Leio um livro (político) que defende teses com as quais concordo, mas que está mal escrito. Prefiro mil vezes um livro do qual discorde mas que esteja bem escrito. A minha política é o estilo.» Pedro Mexia

A noite passada, antes mesmo de fechar a última luz, foi este texto retirado do livro Fora do Mund o – textos da blogosfera a última coisa que li, ou que reli, melhor dizendo. É bom adormecer em total e absoluta concordância.

terça-feira, junho 01, 2004

Transcrição simultânea

Secret Society, por Auberon Waugh
«Tremendous over-excitement has been caused in the secretive ranks of Vespa, the Venerable Society for the Protection of Adulterers, over the Bishop of Edinburgh’s announcement that adultery is not a sin, that it is caused by genetic inheritance and should not be frowned upon.
It has been suggested that the Bishop should be asked to become the society’s chaplain, but I am not entirely sure that we need one. Our purpose is not to encourage adultery, merely to balance the crazed hacks of the Murdoch empire who seek to spread misery by exposing it.
The Bishop does not have an elegant turn of phrase. Complaining that he had been misrepresented, he told reporters that he had been "stitched up" by the media because he liked to "shoot from the lip", adding: "I wish you guys had a good war to cover somewhere."
This sort of sentiment does not come well from a bishop. Although it is true that vocations for the ministry increase in wartime, it is not often suggested that the Church should start a war for that reason.
When asked about his own experience of the matter in question, he replied: "If you expect me to get personal, get lost."
No, I don’t think he strikes quite the right tone to make a successful chaplain. In fact, I might veto his membership. So far the Venerable Society has only one official member, its president.
All the rest are secret.»
(20 May 1995)

Esta crónica foi lida duas vezes apenas: a primeira ao passar para o Word. Depois, na verificação antes do desejado Cut & Paste. Com um abraço forte de agradecimento pelas recomendações do João e do Carlos. Tanto o «Low Life» como o «Will This Do?» já vêm a caminho. Privilégios de quem recorre ao serviço de usados da Amazon britânica, old chaps. Nunca anteriormente por mim posto à prova...

Juízos precipitados (e adjectivação aos molhos)*

São das raras especialidades aqui do Babugem. Quando o desejo de vos provar que “ocupo a minha vida a ouvê-la” leva-me a reportar de imediato sobre discos escutados nesse mesmo dia. Para já, rodou até há momentos:
Masada Guitars – directamente dos anais do agora da cultura judaica radical – segundo rabino John Zorn –, o disco que dá protagonismo exclusivo aos guitarristas que habitualmente colaboram com a Tzadik: Bill Frisell, Marc Ribot, Tim Sparks. O resultado está mais próximo de Julian Bream do que de Derek Bailey (o que agradeço) e conta com a execução imaculada dos três intérpretes, cada um de sua vez. Digamos que interiorizaram, todos três, os mistérios da cabala.
Britta Philips & Dean Wareham – Conheceram-se mais profundamente nos Luna, a banda de Dean que veio depois dos Galaxie 500. Ele tem o charme lacónico dos anti-heróis, ela trouxe a candura e a sensualidade de uma bond-girl. Armados do revivalismo Gainsbourg meets Birkin gravaram este disco de originais e versões produzido pelo histórico Tony Visconti (David Bowie, Prefab Sprout). Ideal para se ouvir, no volume a gosto, abaixo dos 70 quilómetros/ hora, pela Estrada Marginal fora. Chamaram-lhe, apropriadamente, «L’Avventura».
David Sylvian/ Ryuichi Sakamoto – Single desdobrado em dois que corre o risco de desapontar. Música mais redonda e aconchegante para reaproximar todos quantos sentiram na pele a frieza e a estranheza de «Blemish». Música com mensagem, demasiado explícita, o que é de lamentar. Depois aparece por lá Ryoji Ikeda para dar um safanão naquele conformismo. Eu que tinha falado em pérola, por antecipação, devo reconhecer que às primeiras audições não vai além da bijuteria fina. «world citizen – I won’t be disappointed». I’m affraid I am...
Yesterdays New Quintet – Chama-se «Stevie» porque é à arca do mestre Wonder que foi buscar toda a inspiração. Esteve retido na fase prévia à edição, parece que devido a uma questão bicuda de direitos de autor que deu dores de cabeça a Mr. Madlib, o produtor. Shame on them! Trata-se de um disco instrumental, excelente, com um groove elegante, orgânico (é o que é suposto escrever quando existe um orgão e teclados vários) sempre mais... e mais... e mais... até final. A partir de um quinteto de funk-jazz “tradicional”, Madlib volta a elevar a fasquia aos níveis mais surpreendentes do artesanato de onde desconhecemos o começo e o fim da samplagem, e no qual a modulação electrónica (?) enrola-se com os instrumentos acústicos no supremo love-making. Right on!

* veio tudo da Ananana.

Anjos na TV

O solicitador que votou duas vezes em Reagan e o escriturário Louis(e) encontram-se no WC dos escritórios onde ambos trabalham. Louis(e) está num pranto porque ao seu amante tem sarcoma de Karposi (a acção passa-se em 1985, na América). A conversa entre os dois homens – um judeu, gay, assumido, e o outro Mormon, gay, reprimido (e casado) – leva-os a uma série de trocadilhos e equívocos, só aparentemente inofensivos, acerca da (in)compatibilidade entre o ser-se homossexual e o ser-se republicano. A cena tem lugar a meio do episódio 1 de Anjos na América, e daí para a frente não mais se perdeu a qualidade evidenciada nesse momento inaugural em que as nossas maiores expectativas parecem confirmadas. A série televisiva realizada por Mike Nichols (baseada na peça de Tony Kushner levada à Broadway) é mesmo a não perder nos serões televisivos da :2 nas próximas cinco segundas-feiras que já se demoram.

Falou bem, excelência!

Excelente, sóbria (exceptuando o uso incontido da palavra "flagelação", cara ao entrevistado) e muito esclarecedora, a entrevista de José Lamego aos jornalistas Teresa de Sousa e Francisco Sarsfield Cabral. Para quem foi para a cama mais cedo no Domingo, o Público do dia seguinte deu uma segunda oportunidade. De ler também os "outros títulos em destaque".


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