«No Verão passado, resolvi gastar algum tempo lendo o que agora chamam blog. Alguns, pouquinhos, dada a abundância, pelo menos naquela altura. E o que ali vai de escrita... muita opinião, decerto, mas também argumentos, controvérsias, leituras e reflexões, referências e alusões, considerações graves e facécias. Às vezes organizados, às vezes uma miscelânea bem caótica. Coisa nova, sem dúvida: um bulício. Gostei de ver um antigo aluno a comparecer galhardamente entre os bloguistas mais activos: aliás, estive a pique de o meter no currículo! Não demorei a encontrá-lo , lá estava o... ponhamos PCh, designação convencional, porque não me atenho ao caso, mas ao exemplo: exemplo do que me agradou menos, embora em harmonia com tendência forte, nos blogs e noutros lados. Foi naquele dia muito quente, ainda antes daqueles dias muitíssimo quentes, e dizia ele que não escreveria porque ia estar "ocupado a viver até domingo". Era quinta-feira.
Pois isto não acabo de entender: ocupar-se a viver? Se tivesse dito "a ganhar a vida", percebia-se: acudir ao orçamento na coluna das receitas, a bolsa de criação literária acabou, o trabalho chama, pôr o pão na mesa, os livros não vendem que chegue, o blog rouba tempo e só tem custos, embora poucos, etc. "Ocupar-se a viver", com franqueza... parece sarcasmo denegrindo algum colega bloguista caído em estado comatoso, literal ou figurado, em qualquer caso de mau gosto. O PCh, dir-se-ia apoiar-se numa dualidade estranha: que existe uma coisa chamada vida e, fora dela, demarcada e remarcada, outra, chamada blog ou, quem sabe, escrita, em sentido amplo, muito amplo. Enveredando por leitura literalista, se sempre indispensável muitas vezes suficiente, seria legítima a inferência de que o PCh não se considera vivo ou ocupado a viver enquanto compõe pequenas prosas para o blog. Tornar-se-á pessoa espectral? Cai a noite, o bloguista abre o computador como Drácula abria o caixão, desliza pelas teclas sem atrito nem inércia e... não se vê reflectido no espelho! Pasma, antes de perceber que deve ser essa a própria condição de possibilidade do blog.
Conjectura decerto esdrúxula, salvo se tivesse havido grave degenerescência. O PCh, na época recuada em que o conheci, não era uma dessas organizações esquisitas que tantas vezes entram nas aulas, jovens originais, despenteados, cheios de embriões de coisas novíssimas: era antes um rapaz amável e bem humorado, aliás virado para as coisas simples da vida. Ah, se calhar é isso, as coisas simples da vida ocupam muito tempo... por outro lado, a ser assim, nunca o blog teria nascido. Um amigo a quem, na ocasião, falei do caso, escarneceu e riu-se-me na cara: "Ocupar-se a viver? Foi para a praia!" O cínico leva boa vida, já se vê: simplifica tudo, não acredita em nada, mas afinal contenta-se com o meramente provável. Não há paradoxo nem tão-pouco novidade no que vou dizer, mas os cínicos são sempre crédulos.
Entretanto, a teoria da praia não se perdeu de todo; provavelmente engendrou outra conjectura, que há dias resolvi confirmar: quem sabe o Inverno traria formas de vida mais congruentes com o blog... Nova espreita: o blog ainda lá estava; e o PCh ainda se ocupava a viver, só que agora deixando registo da vida em que se ocupava. Por exemplo este, e transcrevo tudo: "Hoje, sábado ao fim da tarde, calcei os ténis, embrulhei-me no cachecol, meti o passe da carris no bolso e fui, sem agenda, ao cinema. De cara ao vento, sem querer saber os horários das sessões ou da distância do percurso. 3 horas depois estava de regresso, enregelado, com uma refeição de fast food e um filme com a Diane Keaton no bucho. Nem sempre a liberdade nos cai bem no estômago..." Não parece difícil ocupar-se uma pessoa nisto, salvo a digestão e o frio. Mas notem a insistência digestiva: bucho para
fast food e filme (detecto ali um zeugma: acho improvável que fosse o filme ter a Diane Keaton no bucho), estômago, mais elevado, para a liberdade. (Há critério nesta discriminação.) Dir-se-ia, com Platão, que o elemento dos apetites tomou conta da alma do nosso bloguista. Mas não sejamos intransigentes. Ocupar-se a viver também inclui comer; e o frio é estímulo, e estimulo vital: sentir frio é reagir, é sentir vida, é prestar-lhe homenagem! Que fazes hoje? Ocupo-me a viver: passo frio.
O ponto, porém, está na decisiva passagem do bucho para o estômago. Notem: foi ele quem foi ao cinema, os ténis e o cachecol seriam dele, terá sido ele a comer o hambúrguer, mas aquilo de a liberdade nem sempre cair bem no estômago, o que quer que signifique, é nosso ou diz-nos respeito: nem sempre
nos cai bem. O bucho é só dele - o estômago. Há nisto critério, repito: humilde ou com senso de decoro, o bloguista reserva para si o termo que poderia ofender outros bloqueando a exemplaridade. E aí têm como a opção entre duas palavras decide problema sério: o da transmissão de experiência. A esta luz, a fórmula ideal, que parecia incongruentemente sentenciosa, é na verdade quase aforística (quase, por causa das reticências, que quebram o necessário fechamento do aforismo na típica completude breve). Dissesse ele "nem sempre a liberdade me cai bem no estômago", e ficaríamos reduzidos ao privilégio, ainda assim importante, de perguntar que tínhamos nós com o caso. Dissesse, por outro lado, "nem sempre a liberdade nos cai bem no bucho", e seria ele a ficar reduzido ao privilégio, ainda assim importante, da facécia. Mas experiência, exemplaridade, algo que se partilha com os outros a partir de qualquer acção singular - isso ser-nos-ia negado.
Proponho, então, que o PCh avançou para etapa superior: se houve um tempo em que ocupar-se a viver o obrigava a suspender a escrita, agora consegue ocupar-se a viver e fazer disso escrita. Ninguém negará o progresso. Amadureceu. Cresceu. A ponto de, além de fazer duas coisas ao mesmo tempo sem se desorientar, justamente orientar uma para a outra, a vida, em que se ocupa, para a escrita, em que também se ocupa. Ocupar-se a viver significa agora ocupar-se a escrever. Não é esse o limite ideal de todo o escritor? Sem dúvida: tudo na vida pode desembocar num blog.
Não obstante, eu preferia o primeiro PCh. Era mais fácil percebê-lo, bastava espreitar o blog dia após dia: não havendo acrescentos, era certo que continuava ocupado a viver. Agora não. Alcançou essa etapa superior, já se atreve a querer legitimar pela exemplaridade o próprio facto de escrever; em contrapartida, dele mesmo nem sequer se sabe se ainda vive. Exactamente: nesse cume da exemplaridade é que o PCh se pode ter tornado pessoa espectral. Morto-vivo.
Reparem: Que garantia temos de que ele foi mesmo ao cinema naquele sábado? Absolutamente nenhuma. A pormenorização diligente complica em vez de nos tranquilizar: quem nos assegura de que tudo aquilo não passa de ficção? Ninguém nos assegura. Acontece que a relevância disto é nula, porque, ficção ou não, o certo é que motiva o ensinamento que o PCh nos chama a partilhar: a liberdade nem sempre nos cai bem no estômago. Só isso devemos reter, porque só isso nos é dirigido: o resto é lá com ele. O resto, quer dizer, a ocupação com a vida, o bucho. Daí que, e é o ponto, quando se chega a este nível superior de transmissão de experiência pela escrita, a escrita permaneça ao passo que a vida se dissipa, destruída pelo próprio instrumento que se diria transmiti-la. Se tanto faz que a ida ao cinema seja verdade ou fantasia, facto ou mistificação, se tal, aliás, é o melhor que lhe pode suceder - porque a verdade ou o facto seriam sempre pessoais, pobres, mesquinhos, impartilháveis -, o vivente, que come, sente frio, usa cachecol e vai ao cinema de ténis, esse desvanece-se inexoravelmente, ou melhor, sacrifica-se para nos legar um ensinamento essencial: a liberdade nem sempre nos cai bem no estômago.
A partir daqui, as coisas só podem piorar. O PCh foi apanhado na teia maléfica da escrita, e justo quando se alçou a nível superior. Quanto mais insistir em que se ocupa a viver, quanto mais se ocupar a escrever sobre a vida que se ocupa a viver - e Deus o livre dessa tentação! -, maior será a suspeita de que vida e pessoa ocupada na vida são mero efeito da ocupação da escrita: voltamos à pessoa espectral, que, bem vistas as coisas, nem carece de ténis ou cachecol. A única vantagem, que de resto torna a profissão de escritor superior às outras, reside precisamente na possibilidade da ficção da vida. Não me refiro apenas nem sequer principalmente a cada um inventar a vida em que se ocupa, mas à possibilidade fundadora de inventar que se ocupa a vivê-la.
Ora, como essa ficção apenas seria consequente na condição de o PCh se ocupar a viver sem disso deixar rasto - ou seja, consequente num modo que a tornava impossível, como se viu quando suspendeu o blog até domingo -, o preço a pagar por aquela vantagem é muito alto: não escrever. Ou então morrer. E ninguém quer morrer. Ninguém gosta de ser tomado por efeito textual: tão-pouco reputado pessoa espectral. Daí a estranha insistência na vida, maior nos escritores do que em qualquer outra profissão, e de resto amplamente partilhada por quase todos os que falam dos escritores ou com eles falam. Um livro sobre as coisas importantes da vida. Um livro forte desentranhado da vida. Um livro que nos ensina a vida. Um livro como só alguém que ama a vida pode escrever. Um livro de quem se ocupa antes do mais a viver. Etc: um sujeito distrai-se, e até julga que regrediu ao tempo do preconceito obnóxio que supunha a vida mais importante do que os livros. Ora, vamos e venhamos, pode-se regressar da escrita como quem regressa a casa mal alimentado e depois de ver um filme com Diane Keaton? Podendo ou não, sempre se vai tentando; convém é estar prevenido. Porque não há vida depois da escrita.»
(Abel Barros Baptista
in Ensaios Facetos, Cotovia, págs 137/144)