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sexta-feira, julho 30, 2004

A Santíssima Trindade dos Single Malt

Para conhecer e sobretudo provar estes três néctares da natureza e suas variações:
LAPHROAIG
"There are 3 main ingredients for making Laphroaig - Barley, Water, and Yeast, but the secret ingredient is the People." http://www.laphroaig.com/home.asp
LAGAVULIN
“Lagavulin- the aristocrat of Islay malt whiskies” http://www.scotchwhisky.com/focus/lagavulin.htm
TALISKER
“Robert Louis Stevenson mentioned it in a poem, The Scotsman's Return from Abroad in 1880, ‘The king o' drinks, as I conceive it, / Talisker, Islay or Glenlivit.’ ” http://www.scotchwhisky.com/focus/talisker.htm

São caros, mas o que é que nesta vida é assim tão bom que o não seja?

http://www.isleofjura.com/home.asp

Um dia hei-de ir até lá! Mas, por enquanto, limitar-me-ei a tomar-lhe o gosto. E a ler e a ficar a saber mais sobre ela.

quinta-feira, julho 29, 2004

Atlântida

Uma vez que é humanamente impossível tirar partido demorado do silêncio que faz debaixo de água, sem garrafa de oxigénio, a alternativa é, de acordo com este post, mergulhar à superfície na música de «Quiet City», dos PAN-AMERICAN.
Por aqui, os desconhecidos ilustres chamam-se Mark Nelson: electrónicas, guitarra, voz e mistura; Charles Kim: contrabaixo, faixas #4 e #5; Tim Mulvenna (Vandermark 5, Jeb Bishop Trio/Quartet): bateria, #4 e #5; Steven Hess (Hat Melter, Bosco & Jorge, Aluminum Group): bateria, #7; David Max Crawford (Poi Dog Pondering, Wilco, Stereolab): trompete na #5, fliscorne na #7.
Há palavras segredadas como nos Sparklehorse e há também um DVD que não vi ainda - imagens de ternurentos ursos polares nadando (?): possibilidade de submersão audiovisual. Sempre com as coordenadas www.kranky.net

Pressentir nas palavras (a música instrumental de Arve Henriksen)

Alguém mencionou ser disco para mim mas já não tinha tempo para ouvir mais nada. Limitei-me a olhar e ler o nome de cada uma das faixas: sammon – main entrance; viewing infinite space; inside tea-house; peaceful – close to cherry trees; procession passing; evening call; breathing; beauty of bamboos; tsukabai – washbasin; planting trees creating beauty; “stones should never be placed carelessly”; white gravel; shrine; paths around the pond; children in my garden. O suficiente para arriscar, a surpresa? Pois surpreendido não fiquei quando esta manhã dediquei alguma atenção à arte da jardinagem musical do norueguês ARVE HENRIKSEN (membro dos Supersilent), uma das presenças agendaddas do já próximo Jazz em Agosto da Gulbenkian.
Descobri depois tratar-se do penúltimo disco de Arve o que tinha estado a ouvir. Sairá prá semana (quem sabe se a tempo do festival?) o mais recente «Chiaroscuro», também pela Rune Grammofon – www.runegrammofon.com -, onde Arne deixa de fazer música sozinho, formato em que se apresentará ainda no programa da Gulbenkian.
Francamente que não hesito entre um jardim Zen e a pintura Renascentista; também não tenho dúvidas de que a música respirada de Arve Henriksen é mais da ordem da intimidade do que do espaço público; mantenho-me no entanto indeciso quanto à hipótese de me deslocar dia 7 à Sala Polivalente do Acarte, fechar os olhos para as pessoas em volta e deixar-me evadir para um território de sopros e electrónica – na linha orientalista de Jon Hassell – onde Henriksen dispõe a gravilha sonora com rigores de ancinho. Num espaço chamado «sakuteiki».

quarta-feira, julho 28, 2004

Revistas

ESTA SEMANA...
Cumpri uma promessa feita há muito. Assinei a OP por cinco números;
Por aqui a PERIFÉRICA saiu antes da data oficial de lançamento. É sempre melhor quando é assim;
Comprei a LER sem antes reparar se traz nova crónica de Abel Barros Baptista. Oxalá não me arrependa;
A VEJA desta semana fala também do "filme-bomba" de Michael Moore. Ler sobre o bomba interessa-me, mas nada mais do que isso.

NÃO GOSTO DE PANFLETOS. PREFIRO REVISTAS.

Pacto com Canibal

ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL deixou escapar ontem uma confissão a Bárbara Guimarães que me levou à comoção pelo inesperado. Num programa da SIC-N, o «Páginas Soltas», onde é suposto fazer-se o elogio da literatura, e onde é também suposto os convidados exibirem erudição e gosto pela leitura, o vocalista dos Mão Morta afirmou que lia menos do que antes porque agora adormecia a ler (AQUI passa-se o mesmo!). Adolfo disse mais: ele agora adormecia a fazer quase tudo... (não "olhem" para MIM!).
Momento surpreendente e desconcertante (dir-se-ia anti-televisivo), o desabafo de Luxúria Canibal deixou Barbie muito intrigada (andaria ele cansado... ?). Depois falou-se da escolha feita pelo nosso “leitor adormecido” para apresentar no mesmo mini-programa. Esta dizia respeito a uma leitura de adolescência – geracional – que se mostrava tão forte hoje como dantes: «Os Cantos de Maldoror» (Quasi), de Isidore Ducasse a.k.a Conde de Lautréamont. Comprei-o à horas atrás porque a escolha desperta de um homem que, como eu, adormece a ler é uma imposição. Tal como um pacto.
TENHAM SONO, TENHAM MUITO SONO.

Para bom entendedor...

... UMA "CABEÇA" BASTA.

E a falta que fazem os links?
Fica o endereço, por extenso:
www.abrupto.blogspot.com

Pacheco Pereira, com espinhas.

Exemplo aos pais

ANGER AT LAST, por Auberon Waugh

«There are those who complain that our New Labour Government is showing itself too bland, too suave, too consensual. Real anger emerges for the first time in an interview with Frank Dobson, exciting new Health Secretary, which appears in the current New Statesman.
Dobson calls for “horrendous action against alcopops and the people who promote them”. At last, someone is talking about the real issues in our society – and talking tough, the way we like to hear it.
For my own part, I tend to share his doubts about whether these sweet fruit drinks are the best way to introduce children to the delights of alcohol. My own introduction, at the age of about six, on my Father’s knee, was to teaspoonsful of crème de menthe and minute quantities of wood port. Unfortunately, crème de menthe is appallingly expensive nowadays and good tawny port is hard to find as more and more people concentrate on the greatly inferior “late bottled vintage”.
My own children were started at the same age, possibly younger, on inexpensive French wines from the Languedoc, mixed with water. All still enjoy their wine, and none of them has yet turned into an alcoholic. I doubt whether alcopops provide quite such a satisfactory introduction, but I would not take the threat to their future pleasures quite as seriously as Dobson. “The alcopop effort is just to get children hooked on booze,” he says. “Anyone who says that it is not so is a liar.”
Oh dear. I wonder what “horrendous” punishments he proposes. Something rather odd seems to happen to politicians whenever children are being discussed.» (14 Junho 1997)

SAÚDE!

terça-feira, julho 27, 2004

Outubro magnético

Os MAGNETIC FIELDS estarão de regresso a Lx para um concerto único, dia 20 de Outubro, na Aula Magna. O preço dos bilhetes rondará os 30 euros. Não há notícias de descontos para a blogosfera, embora desse muito jeito. Mas a malta vê-se por lá.

Refrescos

Música electrónica para fazer baixar a temperatura:

- to rococo rot. "hotel morgen" ABSOLUT ROCOCO
- hervé boghossian.mouvements OCEAN'S TEN
- bill wells/ stefan schneider/ annie whitehead/ barbara morgenstern "pick up sticks" FUTURE BREEZE
- colleen "everyone alive wants answers" SWEET LOOPS

Escolha a SUA e refresque-se.

Genocídio

Em DARFUR, no Sudão, 150 mil mortos e a contar... Um genocídio que acontece no local errado em momento inoportuno. O Rua da Judiaria (www.ruadajudiaria.blogspot.com) alerta para o massacre e para o silêncio do "mundo civilizado". O silêncio que inclui todos nós. ALERTA AOS TODO-PODEROSOS.

O negociador

Recoil - Liquid (era €18,70: agora por menos 75%)
Lloyd Cole - Love Story (era €12,99: agora por menos 25%)

Promoções das lojas Valentim de Carvalho. Juro que ia só tirar umas fotocópias ali ao lado.

Polvo sentado

90% dos frequentadores do restaurante «Irmãos Rocha» (!) de Alvalade (!) são tipos barrigudos. Mau presságio.

Debord arde

Incêndios florestais: um mal necessário à sociedade do consumo e do espectáculo.

segunda-feira, julho 26, 2004

Por favor não tente fazer isto em casa (pois posso estar interessado em comprar o CD que você nem sequer pensa editar)

«(...) starting point are several guitar-compositions played live into computer. in a second step the composition is re-worked using plug-in-effects. the results are gliding sounds. a pleasant harmonic take in the glassy-metallic sound ­a far reminiscence of the primary of the guitar-composition. thus the complete album becomes a real transcendence. structures of tact where completely dissolved. the magnetic-acoustic stream gets a wide perspective. (...)»
HERVÉ BOGHOSSIAN.MOUVEMENTS www.raster-noton.de

A transcendência. Sempre a transcendência...

Três vidas e uma só Arte

Parte Bob Dylan. Parte Townes van Zandt. Parte Leonard Cohen. Formam um todo chamado SIMON JOYNER: segui-o em «Hotel Lives», persegui-o em «Lost With the Lights On». Para chegar à conclusão de que se raros são os escritores de canções deprimentes que merecem ser ouvidos, não são mais frequentes as ocasiões em que nos apetece estar na companhia deles. Simon Joyner é, no paradoxo de tal divagação, um indivíduo duplamente invulgar. E os The Wind-Up Birds (Wiil Hendricks, Eric Heywood, Michael Krassner, Fred Lonberg-Holm, Jim White) amparam-lhe o lamento. www.jagjaguwar.com

Ser positivo

BILL T. JONES apresentou no CCB um espectáculo retrospectivo à passagem do vigésimo aniversário da sua companhia, a Bill T. Jones/ Arnie Zane Dance Company. Não fiquei fã. Talvez da próxima vez?
Quando a própria estrutura dramática que devia assegurar a ligação entre as diferentes coreografias apresentadas limitou-se a uma evocação cronológica da memória pessoal e da memória de outros, tornando-se dispersa, imperceptível, fantasmática (tratando-se embora, no caso, do The Phantom Project de Bill T. Jones); quando a personalidade dos excelentes bailarinos me pareceu demasiado subalternizada à cerimónia do Mestre (tratando-se embora, no caso, do histórico Bill T. Jones); quando o espectáculo obedeceu a uma (crono)lógica de acumulação de testemunhos, em particular no seu corpo central, o mais extenso, resultante de uma nova abordagem ao espectáculo Still/Here sobre o modo de viver quando o espelho nos devolve a consciência da nossa própria seropositividade; e quando o trabalho dos artistas em palco se mostrou tão impregnado de morte embora a agilidade e a leveza dos movimentos pressupusesse a vida, não consegui evitar o cansaço e alguma indiferença.
Imagino ter havido quem até chorasse com os muitos pequenos episódios que se dançaram à volta dos vértices vida, doença, morte, mas o lado emocional-conceptualizado do The Phantom Project tocou-me muito ao de leve e a mesma apresentação foi-se tornando, há medida que se dirigia para o ano presente, mais redundante em termos musicais (um Vernon Reid muito pink-floydiano) e cénicos (quadrados de luz que limitavam-se a mudar de cor). The Phantom Project pareceu-me demasiado refém da palavra e da presença de Bill T. Jones de onde a mesma provinha. Mas eu de dança pouco percebo e a emoção procuro-a invariavelmente nos corpos: na beleza destes e na capacidade de se transcenderem. Eles ou eu por seu intermédio.

Falar do tempo é inevitável

Usar um dos filmes da minha vida para fazê-lo é um privilégio. E agora com vocês...

MISTER SEÑOR LOVE DADDY/ Samuel L. Jackson

«Waaaake up!
Wake up! Wake up! Wake up!
Up ya wake! Up ya wake! Up ya wake!

This is Mister Señor Love Daddy. Your voice of choice.
The world's only twelve-hour strongman, here on WE LOVE radio, 108 FM.
The last on your dial, but the first in ya hearts, and that's the truth, Ruth!

Here I am. Am I here? Y'know it. It ya know.
This is Mister Señor Love Daddy, doing the nasty to ya ears, ya ears to the nasty.
I'se play only da platters dat matter, da matters dat platter and that's the truth, Ruth.

Doing da ying and yang da flip and flop da hippy and hoppy (he yodels)
Yo da lay he hoo. I have today's forecast. (he screams) HOT!»

DO THE RIGHT THING by Spike Lee

Second Draft March 1, 1988; Brooklyn, N.Y.

Forty Acres and a Mule Filmworks, Inc.
YA-DIG SHO-NUFF
BY ANY MEANS NECESSARY
WGA #45816

sexta-feira, julho 23, 2004

Escarlatina

E se, de repente, da vontade de querer fazer tudo e de não querer fazer nada, no impasse da descompressão comprimida da chegada do fim-de-semana que invariavelmente se extinguirá com a mesma velocidade de todos os outros, uma determinada música se impusesse enquanto banda-sonora perfeita para dar um forte empurrão nesse mesmo estado de apatia stressada, isso era ITALIAN INSTABILE ORCHESTRA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! É o jazz que nos e m p u r r a pedindo que o deixemos p a s s a r. Pois que vá o jazz e que eu vá também para dois dias de merecido "descanso".

Obs. Não têm de contar os pontos de exclamação: são 24, um por cada hora do dia. Queimadas como fósforos que exclamam TIREM-ME DAQUI.

Morte anunciada

Morreu CARLOS PAREDES. Um músico de excepção no excepcional sentido da guitarra.

quarta-feira, julho 21, 2004

Para acabar de vez com a ciência e tudo o mais (valha-nos o vinho!)

FRONTIERS OF SCIENCE, por Auberon Waugh

«Readers of this column will not be at all surprised to learn that scientists now believe there is nothing particularly wrong with our sperm counts. The scare originated with some Finnish scientists who were not very good at counting. The explanation for our declining fertility in the West is to be found in the water. For many years now the public water supply has contained a high proportion of oestrogen from contraceptive pills, maliciously urinated into it by female onanists. This has the effect of making men grow breasts and women grow moustaches. In some areas, fluoride is also added to the water by scientists. Its apparent affect is to mottle the teeth of children who still have teeth left to mottle, but when I was in America I learnt from a conservative magazine that this dangerous poison also has de function of destroying that part of the brain which makes it resistant to the false blandishments of Marxist dialectic. Now half a million people in the South of England have been told to boil their water in case it contains a parasite called cryptosporidium. I very much doubt whether cryptosporidium, or any other parasite, could survive in that water for long, but boiling it might have the effect of concentrating the chemicals. Nobody with any sense would drink English tap water. Good catholic households might permit its use for washing their cars, but they would certainly not use it to water any garden where vegetables were growing. The only debate is whether we should drink white wine or red wine instead. So far as scientists talk any sense on this subject, the consensus seems to be that whereas white wine may be less harmful, red wine is more beneficial. Bad wine is not to be recommended. I wonder if this explains the epidemic of diarrhoea that has closed five primary schools in Barnet.» (8 de Março de 1997)

Para os meus amigos que gostam de JAZZ

Deixo aqui algumas informações sobre "Line on Love", de MARTY EHRLICH, um disco para o qual certo dia alguém se lembrou de inventar a sexta estrela. Sou suspeito porque tenho todos os CDs deste músico extraordinário, por isso comprem, ouçam, e tirem as vossas próprias conclusões.

Em meia dúzia de linhas definiram-no deste modo: «The first recording of Marty's for Palmetto Records is a quartet featuring pianist Craig Taborn, bassist Michael Formanek, and drummer Billy Drummond. "Line on Love" evolved from a very successful European tour with the quartet in spring 2002. Featuring 8 evocative originals, it is a recording both reflective and vigorous in its music-making.» (www.martyehrlich.com)

O disco saiu como se viu na Palmetto, cujo endereço é www.palmetto-records.com

BOAS AUDIÇÕES.

O leão mostra duas novas garras

HUGO VIANA e ROGÉRIO (ex-capitão do Corinthians) são os novos reforços do Sporting. Contreras pode regressar e Ricardo Oliveira é ainda uma possibilidade. A SAD mostra astúcia, os sportinguistas rejubilam e a selva não é mais local de passeio para águias e dragões: Pinto da Costa, rói-te de inveja! Não podes ter todos...
Que excelente começo de dia.

terça-feira, julho 20, 2004

Escape from Alcatraz

Por que gosto eu de filmes de prisão? Macacos me prendam se tenho resposta definitiva. Gosto de me imaginar encarcerado numa rotina por tempo indeterminado. Será que gosto? Gosto de me imaginar rodeado exclusivamente de homens, pretos e brancos. Será que gosto? Vestidos todos de forma sóbria e indistinta. Será que gosto? De não ter nada que fazer a não ser tempo para fazer nada. Será que gosto? De me encontrar isolado do mundo e de todas as responsabilidades. Será que gosto? De ver passar o moço da biblioteca da prisão com jornais e revistas, a não ser que fosse eu a executar essa mesma tarefa. Será que gosto? De me imaginar no pátio a “puxar ferro” com o tipo que tem por missão proteger-me. Será que gosto? De ser respeitado por andar sempre na companhia dos gajos mais duros da cadeia. Será que gosto? De elaborar depois um plano de fuga infalível para regressar à vida de que já sentia falta. Será que gosto? A verdade é que tenho poucas certezas do que gosto. O melhor é viver as certezas que tenho em liberdade. Disso eu gosto.

O sinal da X

O filme que esta 5ºfeira sai com o jornal Público é o melhor título lançado até hoje na série Y. Chama-se AMERICAN HISTORY X e foi realizado em 1998 pelo desconhecido Tony Kaye que o viria a rejeitar por discordar da montagem final imposta. Que se lixe o Tony Kaye. O filme é que interessa. Trata-se de um objecto fortíssimo que acompanha a vida de dois irmãos envolvidos com o movimento neo-nazi na Califórnia. AMERICAN HISTORY X é cruel embora justo e apresenta uma proposta de tolerância não sem antes nos fascinar com a catarse pela violência. O percurso do espectador também se reparte pelas vivências de Derek e Danny Vinyard - os magníficos Edward Norton (irmão mais velho) e Edward Furlong (mais novo) - até à impossibilidade da redenção final. O filme pode ser justo no olhar mas essa mesma justeza implica a injustiça da violência sempre que esta se manifesta: na sua dispersão, na sua disseminação e na previsível retaliação que resulta em tragédia. AMERICAN HISTORY X fala das sementes do mal que crescem, corrompem e matam nas gerações seguintes, para de novo voltarem a germinar. Por isso é que este filme de Tony Kaye é um grande filme. Por isso é que nunca perde a sua actualidade. Nem a urgência de para ele olharmos uma outra vez.

segunda-feira, julho 19, 2004

Azeiteiro

tive um sonho enquanto almoçava... eu tinha ficado em casa em vez de ir trabalhar... tinha-me levantado por volta das duas da tarde... o frigorífico estava vazio, o que fazer? havia pão fresco... a solução era molhar o pão previamente aquecido em azeite e alho e acompanhar o petisco com uns copos de tinto... no final do repasto, acometido da prostração que caprichosamente me vergava com o calor do sol... voltei a deitar-me e tornei a adormecer.

O homem que engoliu uma caixa de ritmo e ficou assim

Para os curiosos apenas, o que falei com Ed Motta depois do concerto no Olga Cadaval - enquanto que este me assinava uns discos - foi dizer-lhe que embora me considerasse um melómano e um gourmet (a palavra correcta a utilizar deveria ter sido gourmand), a presença de alguém como ele reduzia-me à minha insignificância.
Ele uma posta de bacalhau, eu um pastelinho de nata (isto já sou eu agora a pensar).

Furtos

"Cenas da vida conjugal". "O estado em que se encontra este blogue". Dois títulos que surripiei ao Bomba Inteligente sem as merecidas vénias. Os links estavam em baixo, os links continuam em baixo. Estou também sem bolds, itálicos, previews... Será problema exclusivo do meu PC?

domingo, julho 18, 2004

Kompensan do dia seguinte

Sou uma besta. Sou uma besta porque tenho mais olhos que barriga. E assim cairam-me mal o segundo Homem-Aranha - tragédia infantil que expôe e expôe e expôe ao ridículo as angústias do super-herói (ele até já serve para entregar "pizzas na brasa") - bem como a francesinha traiçoeira que almocei em contra-relógio, próximo de Serralves, antes do concerto do excelente Gerry Hemingway Quartet.
Ah, mas o jantar de sexta no Restô do Chapitô foi tão bom: os boémios endinheirados por ali, como por vários outros lados, tratam-se mesmo bem; Ah, mas os jardins de Serralves foram tão inspiradores que o concerto de jazz do dia seguinte adiou a azia da gula para depois da sua conclusão: só faltou a providencial água mineral [a área de restauração mais próxima estava reservada aos artistas (?)] ou duas pastilhinhas de Kompensan para que o o gás do viajante cultural não se tornasse gás comprimido. Mau ambiente.

sexta-feira, julho 16, 2004

Ao Bruno o que foi de Pacheco

Parabéns atrasados ao Desesperada Esperança "escrito pela mão invisível de Bruno Alves". A falta do link justifica-se pelas falhas com que o blogger me surpreendeu esta 6ªfeira. Mas podem sempre socorrer-se aqui à Direita.

Estado em que se encontra este blogue

Open, to love tal como no solo piano de Paul Bley. But taken.

O Dimitri de Lisboa

Antes de «Torch songs for secret agents» já existia «Sacrebleu». Inclino-me a pensar que o nosso Armando Teixeira, Mr. Bulllet, e Dimitri from Paris terão sido separados à nascença na maternidade Alfred da Kosta. Vale?

quinta-feira, julho 15, 2004

Cenas da vida conjugal

Unbalanced, por Jeffrey Bernard

«The past few days have been just about as bad as bad can be. I’m still getting some nasty twinges because of the man who cut off his penis. Yes, if you didn’t happen to see it in the papers this man cut off his penis and threw it on the fire so that he could devote the rest of his life to God without any distractions. It seems that he and his wife had been discussing the horrific business for the past twelve years and last week he took the plunge. With her blessing, wouldn’t you know. Well, I’ve been pondering aspects of this bizarre do-it-yourself surgery and some interesting points arise, apart from the very obvious fact that the wife must be a Guardian reader (she’s probably already received her “Jill’ll Fix It” badge).
But why did the wretched man choose his perfectly harmless penis? Surely he must have realised that sex is in the head and that his penis was merely his solo instrument in a far bigger concerto than you or I will ever comprehend. I mean, if I wanted to devote the rest of my life to any one thing at all without being distracted I’d cut off my head. Then, of course, I can’t help wondering what their sex life must have been like during the past twelve years of disarmament talks. Pretty tentative I should think and, with the thought of the dreadful redundancy to come in the back of his mind, maybe non-existent. And another thing, why dispose of the black-balled would-be member on a fire? What on earth does he think waste-paper baskets are for? I suppose he was committing it to hell. And then, in spite of what must have been considerable post-operative pain, he discharged himself from hospital after only three days – that is, if a man sans penis can discharge himself at all.
The fact that God didn’t intervene in the matter proves my theory that He is a woman after all. But what a typically selfish woman that wife. You wouldn’t want to go into the jungle with her. I mean, she could have cut off something herself, even it had only been her hair, just to show willing. What a Grimm business. If the silly man had never got married in the first place he would only have had to cut off his right arm, assuming he’s right-handed, that is.
What a mug. Wouldn’t you be suspicious? I can just imagine a wife saying to me, “Now, come along. Be a darling and cut it off.” I’d think, “Now hang on a minute. Is she trying to tell me something? Is this some sort of clue?” I’m not daft, you know. And another thing. If you were in his boots having done the deed how would you feel if you saw your renegade wife chatting up the milkman? There’s a possible television comedy series in this.
Another criticism I have about this now top-heavy evangelist is that to take twelve years to make up one’s mind about anything shows a certain lack of resolution. If I was lying in my bath feeling slightly disgruntled and pondering a penisectomy I’d do it there and then. Or would I? Perhaps not. Whereas his pruning was quite ruthless, I’d probably chicken out and take it an inch at a time.
So, where will he go from here? What will guide him? Speaking for myself – a bad habit I must get out of – I’m where I am today having followed for thirty-odd years the direction in which my penis has pointed. The resultant emotional aggravation has been colossal, but I wouldn’t have done without it. The aggravation, I mean. How slow, calm and tedious would the rat race be if none of us jockeys had whips.
Yes, as I say, it’s been a horrid week and I can’t help wondering whether our man has had second thoughts. Dear God, it’s a sad life. What people do to each other is bad enough. Now I’m beginning to think that madness is self-inflicted. Never trust a man who’s not grateful for small mercies.»

(Low Life, Pan Books 1986)

Palavras de Caim (e voltei atrás)

Serve esta nota para agradecer a um mui estimável sujeito, partilhando com os demais o meu encontro com os segundos primeiros prazeres auditivos oriundos do novo jazz italiano. Comprei Italian Instabile Orchestra e Gianluigi Trovesi, e foi o octeto deste último que me fez hoje balançar o cerume nos ouvidos (todos temos algum, não há como negá-lo...). O CD em causa chama-se Fugace e pertence ao catálogo da ECM. Música de tremenda pujança criativa que introduz discretamente – à maneira do ensemble de Louis Sclavis (outro génio dos sopros!) – elementos da electrónica pelo meio das percussões, dos contrabaixos, violoncelo, trombone, saxofones e clarinetes. O jazz de que gosto mais é assim: antigo e moderno; uma no cravo... Toca a ouvir!

1º aniversário

Parabéns ao Miniscente. Visita regular da casa como eu sou da dele.

terça-feira, julho 13, 2004

O factor O'Rourke

Ouvindo dois dos melhores discos de produção 2004, temos que admitir que sem a presença de Jim O'Rourke eles seriam concerteza um bocadinho menos excelentes. Os CDs a que me refiro são os novos Sonic Youth ("Sonic Nurse") e Wilco ("A Ghost is Born"). O que seria da faixa #9, I Love You Golden Blue, dos Youth sem o interlúdio de O'Rourke, e o que seria do efeito derradeiro do novo Wilco sem o êxtase electrónico que o encerra? Jim O'Rourke PRODUZ toda a diferença!

A felicidade pela bibliofilia

Acabei de salvar in extremis um exemplar da Arte de Sublinhar, de Gustavo Rubim, de ser devolvido ao distribuidor. "Mas é um livro recente...", perguntei eu. "Sim, mas encomendámos três e só se vendeu um... dois." A edição é da Angelus Novus. De 2003. Bem...

Já não é segredo

Os secretos de porco preto que ontem jantei na companhia dos dois mais simpáticos panamianos que conheço estavam uma maravilha de se repetir não fosse a escassez da dita iguaria ter ditado um remate sob a forma de dois bifinhos de picanha. O repasto não foi dado a existencialismos, afogadas que foram as eventuais angústias de cada um em duas garrafas de Dom Rafael - a opção atoladas em doçaria regional ou multinacional também é válida para a mesma refeição. Mas aí já seria tarde demais e refeição sem vinho não merece o nome dado, digo eu.
Grande abraço aos dois Pedros, excelente companhia que até nem devo à blogosfera.

JVP

O Artista regressa assim ao tabuleiro onde jogou pela primeira vez. Gosto da geometria da opção de João Vieira Pinto. Oxalá se volte a dar bem respirando o ar que sopra nos "loureiros". Enquanto sportinguista, reconheço e agradeço as melhores épocas da sua carreira cumpridas ao serviço do meu clube. Vai João, e dá-lhes espectáculo!

segunda-feira, julho 12, 2004

From zen gardens where we feel secure

Na tarde demasiado quente deste sábado, escutei vezes seguidas à sombra da minha sala com os gatos a gerirem m-i-l-i-m-e-tricamente os feixes de sol que desenhavam no tapete rectângulos dirigidos ao infinito do céu, o primeiro registo audiovisual caseiro do japonês Yuichiro Fujimoto que tem por nome Komorebi. O João Santos definiu-o bem quando mo vendeu, daí ter usado a sua frase para título do post: ao mesmo tempo trivial e erudito, esta espécie de polaroids com música dentro conseguem soar familiares parecendo também estranhas. É que a música pode ser universal, mas os fragmentos de vida que o aprendiz Fujimoto lhe adiciona tornam-na secreta e particular.

As minhas palavras, precisamente

A propósito de Oren Ambarchi e do seu deslumbrante segundo e penúltimo CD «Suspension», alguém escreveu o seguinte:

... where compositions have the exploratory freedom, spontaneity and fluidity of improvised music, yet contain the determination, discipline and solidity of composers such as Alvin Lucier (of whom Ambarchi is an open admirer). As the title suggests, the listener is suspended in dense tonal fields or complete silence; adrift, never touching the bottom, never reaching the surface but continually held in the realm of the instant. Movement and flux contend with stasis and rigidity. Sounds continually unravel and solidify. These works are endless, eternal, never opting for obvious resolutions or easy destinations. Often beginning in abstraction, seemingly random and irregular pulses and tones coalesce and converge. All elements are part of a greater logic, which reveals itself through intense, immersive and repeated listenings.

As composições deste australiano são a minha paixão musical do momento. PARA FICAR.

Cinema nu(lo)

O único escândalo de Minha Mãe é o facto de ser um objecto tão confrangedoramente poseur e nulo. Pensem no cinema de Garrel, de Ferrara, e tirem-lhes toda e qualquer relevância. O que sobra? Corpos nus entregues a uma encenação pedante e murcha. O resto é paisagem. As Canárias em versão decadentista (haverá outra?). E Isabelle Huppert: aborrecida, à deriva, ridícula.

Consciência de classe

O Lidl é o supermercado onde a classe média sente-se rica. Posso lá entrar apenas para comprar o areão dos gatos e umas dúzias de rolos de papel higiénico, e trazer também duas cadeiras de jardim. Enfim. No Lidl folgamos com a sensação de poder comprar tudo.

Reforços (poeminha à bola)

O Douala ainda vá lá,
mas agora o Sérgio Conceição
NNÃÃÃÃOOOO!
Ele que vá para Penafiel
fazer companhia ao Capucho
e ao Jardel.

sexta-feira, julho 09, 2004

Em nome do pai

Comunicado escrito e lido por Paulo Bento:

«Provavelmente o momento mais difícil na vida de um futebolista é quando chega o dia de dizer adeus, mas como em tudo na vida... nada é eterno. É evidente que custa, para mais quando se tem a consciência, como é o meu caso, de que sempre fui um profissional que cumpriu com todos os mandamentos, mas não posso deixar de confessar que me fui preparando para o adeus - Embora tivesse a possibilidade de continuar a jogar pelo menos mais uma época -. E assim sofre-se menos com o abandono. De qualquer modo poderá alguém, especialmente eu, ficar insensível a 15 anos de profissional sempre ao mais alto nível? É evidente que não.

Sinto já alguma nostalgia pela partida, embora vá continuar ligado ao futebol como sempre desejei, sendo esta uma boa altura para recordar todos os clubes onde pude expressar aquilo que sempre mais gostei de fazer. Jamais poderia esquecer os primeiros passos no Académico de Alvalade, mais as passagens por Palmense e Futebol Benfica, clubes que me forneceram o essencial para concretizar o primeiro grande objectivo, ingressar no profissionalismo. No Estrela da Amadora cresci como homem e futebolista, aí vivi raros momentos de felicidade com a conquista da Taça de Portugal e depois, desculpem-me a imodéstia, foi sempre a somar: Vitória de Guimarães, Benfica, Oviedo - clube e cidade onde passei quatro anos maravilhosos e que marcam de forma significativa a minha carreira, mais por terem sido vividos fora do meu ambiente natural -, Sporting, onde ajudei a ganhar tudo o que havia para ganhar a nível nacional, e Selecção Nacional, o clube de todos os portugueses tendo tido a satisfação de vestir a sua camisola em 35 ocasiões e participado num Campeonato da Europa e num Campeonato do Mundo. Portanto, a minha carreira chegou ao fim por opção.

Sou um homem feliz mas como sempre perspectivei o futebol para mim continua, agora como treinador. Enquanto jogador fui absorvendo muito do que vi e aprendi com os muitos treinadores que se cruzaram comigo. Convencido de que podia dar o meu modesto contributo nesta actividade sempre tão controversa. Mas para passar à prática as minhas ideias necessitava de uma oportunidade. O Sporting acreditou em mim e abriu-me a porta que tanto desejava, possibilitando-me começar pelos escalões de formação que era no fundo aquilo que desejava para início de carreira. Estou pois muitíssimo agradecido ao clube onde terminei uma carreira e começo outra, convencido de que não o defraudarei na aposta.

Gostaria igualmente de deixar palavras de apreço a algumas pessoas que sempre me apoiaram ao longo de todos estes anos, começando pela Comunicação Social em geral, com quem sempre tive as melhores relações profissionais, à minha família, que com o seu amor, carinho e compreensão soube superar as minhas constantes ausências, aos meus companheiros em todos os clubes por onde passei, por me terem ajudado a ser melhor jogador e cidadão, e a todos os treinadores, especialmente João Alves a quem estarei eternamente grato pelo muito em que me ajudou em todos os aspectos, não esquecendo também aqueles que se convenceram de que a minha carreira chegaria mais cedo ao fim.

Finalmente, não posso deixar de recordar neste momento, aquele que foi, é e será sempre o meu maior ídolo e que infelizmente não pode estar aqui para ouvir o meu agradecimento, mas onde quer que esteja sabe quantas saudades tenho dele: o meu pai.

Paulo Jorge Gomes Bento»

MUITAS FELICIDADES, MEU CARO PAULO BENTO!

Da ignorância e da indiferença

Por que não me pronunciei antes sobre as mortes de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Marlon Brando? Porque da poeta possuo apenas a Menina do Mar que aliás, lá em casa, até existe em duplicado (por mero acaso do destino), e nunca fui nas minhas leituras além dos poemas surgidos de outros contextos: discos de fado, crítica literária, apenas isso. Quanto ao sr. Marlon, desde que há anos atrás me olhei no espelho envergando uma t-shirt branca colada ao corpo que a sua bestialidade deixou de me impressionar. A minha onda, quero dizer, o meu desejo, é mais passar a trabalhar para que aos setenta consiga ter o tronco do Clint Eastwood n’As Pontes de Madison County, com as peles pouco caídas e as veias destacadas. Já em relação a Brando, considero-o um ícone datado da masculinidade, senão mesmo sobrevalorizado. A sua cara de bebé chorão não vale meia olheira etilizada de Robert Mitchum ou Frank Sinatra. Ou a bacia quebrada de John Wayne.

Junte-se à mesa

Esplanar. Onde debaixo de um guarda-sol encontramos, à conversa, o Alexandre Borges, o Filipe Nunes, o João Pedro George, o Nuno Costa Santos e o Rui Branco. Primeiro link da primeira fonte.


quinta-feira, julho 08, 2004

Douala

Exmos. srs. SADicos:
Importam-se de explicar de que nos serve ter o Abel Xavier dos pobres?
Só para ficarmos descansados.
Obrigado.

quarta-feira, julho 07, 2004

Sabedoria, sagacidade e sátira

Quando esta manhã cheguei à agência, tinha à minha espera um exemplar quase novo de The Quotable Paul Johnson, subtítulo, preparem-se, «A Topical Compilation of His Wit, Wisdom and Satire». Pronto, ficam avisados.

terça-feira, julho 06, 2004

Lamentação leonina

Meu querido Sporting Clube de Portugal:

Apresto-me até final da semana para largar 250 euricos por mais uma época de cativo. Todos os dias, a todas as horas, percorro sofregamente os principais sites desportivos em busca de boas notícias. E que leio eu? Trapattoni no Benfica; Quaresma no Porto, descontando já os outros todos (da trapalhada com o Assumção o melhor é esquecer); Elpídeo “pólvora seca” no Guimarães; Deco no Barcelona; e o Ricardo Oliveira cada vez mais distante de nós (e, longe vá o agouro, perto do Futebol Clube Pinto da Costa); do Marek Heinz nem sinal; o Dudu algures entre o Ceará e Tóquio (e o Dragão? fosga-se), e a conversa é engordada com a retenção, com o orçamento apertado ou ajustado que vai dar no mesmo, isto é, em nada. Que objectivos estabeleceram para o sr. Peseiro? Já inscreveram o nosso clube adorado na taça InterToto (é assim que se escreve?).

A malta não pede muito. A malta não exige quase nada: um ponta-de-lança e um centrocampista, será que dá? É que a malta dá e não é pouco. 50 contos multiplicados por todos nós há-de dar para qualquer coisa que não seja duas coisas quaisquer.

Saudações leoninas,

Ricardo Gross
Sócio 85419

A música arde até ao fim

Os discos de que mais gosto são aqueles que consigo por em loop e ouvi-los inúmeras vezes seguidas, apercebendo-me da presença da música, concentrando-me totalmente nela, ou remetendo-a para uma área mais remota da minha atenção. Os discos que permitem ser ouvidos de todas estas maneiras são raros, mas em The Blue Notebooks, de Max Richter, encontrei um exemplar que justifica a regra. Foi a música de frente e de fundo do cair da tarde de Sábado passado que ajudou a tornar memorável.
Richter é um compositor ainda abaixo dos 40 anos, que se mudou com a família da Alemanha para a Inglaterra, vindo mais tarde a estudar piano e composição, primeiro em Edimburgo, e depois com Luciano Berio em Florença. Lucky bastard! Criou mais tarde um ensemble pouco ortodoxo, o Piano Circus, que tocava peças de compositores cuja influência ainda hoje é sensível na música de Richter. A saber: Arvo Pärt, Philip Glass, Brian Eno, Steve Reich, com o recurso ao uso da samplagem ao vivo. Colaborou ainda com os proto-electrónicos Future Sound of London e editou um CD que desconheço (mas que penso encomendar), Memoryhouse, fortemente inspirado na música para filmes de gente como Glass, Preisner e Kilar. O novo «The Blue Notebooks» sai já na Fat Cat, a casa dos Animal Collective, Múm e Sigur Rós. Richter faz figura de excepção nesta editora excepcional, prosseguindo o seu trabalho sobre atmosferas de intensidade dramática continuada, apontamentos de minimalismo rigoroso, afagos de electrónica, que resulta numa musica belíssima que evolui ao ritmo da luz, do calor e do fumo que se desprende de uma vela em combustão. Devagar. Até ao fim.

Rumo a Tbilisi (com os Post Industrial Boys)

[...] Dez canções electrónicas melancólicas, onde encontramos ritmos tranquilos e fluentes, microrganismos digitais, orquestrações, risos, assobios de esperança, gritos de dor, teclados analógicos, ritmos minimalistas e uma apurada sensibilidade pop. PÚBLICO

Uma citação de uma citação – cheguei a esta frase do Público que diz tudo, via Ananana – porque, citando de novo, a música dos Post Industrial Boys parece-me uma hipótese sugestiva de tradução do “spleen do século”. Este é também para mim o melhor CD de pop electrónica desde os Fischerspooner. É como refere o Público um disco tocado por aquela melancolia (daqui em diante a ilação é minha) característica da música originária das cidades portuárias, como nos casos do fado e do tango. A questão é sabermos como encaixar a electrónica em Tbilisi (Geórgia) enquanto tradição, e averiguarmos se a mesma cidade se encontra ou não junto do mar? Ao iniciar a pesquisa, dei de imediato com o endereço www.gaytbilisi.com. Fiquei esclarecido em relação a suspeitas sobre a geografia de que estes “post boys” sentir-se-ão próximos. É, faz sentido. Mas a cidade tem mar (é mais rio: o Mtkvari), indústria de maquinaria, produção de papel, produção têxtil e de cognac (gosto desta), monumentos históricos e beleza natural... montanhas – embora sobre as georgianas, niet. Tbilisi é também um importante centro cultural e universitário. VAMOS LÁ.

Liverpool

Toma lá Ricardo. Passa para cá Baros ou Owen ou Smicer ou Gerrard. Negócio fechado.

segunda-feira, julho 05, 2004

Problemas com a leitura, aqui, dos textos mais longos? Cliquem na data mais recente dos ARQUIVOS. Obrigado.

Problema de nascença

Happy Days, por Jeffrey Bernard
«I’ve just spent two days sitting on the floor surrounded by remorse-inducing memorabilia. Backache and boredom propelled me from my sick bed to clear up boxes and drawers full of old letters and papers, but it was the postcards and snaps, evidence of holidays and seemingly happier times past that ended up at grey Heathrow or with the slamming of a door – front and then car – that had me rooted to the carpet wondering for the millionth time what could or might have been. If you have tears, prepare to jerk them now. No, don’t. It’s been quite a laugh. I found an old divorce petition actually complaining that I was morose, sullen, non-communicative and shunning any social contact when I was not drinking; but what surprised me was the expression on the faces of those ladies in the holiday pics. You’re standing there, a Mediterranean Jack the Lad under a palm tree with a long drink in one hand, peeling shoulders and self-conscious grin, and she, in spite of her sunny smile, has that look in her eyes, almost smouldering, denoting that all the while she can count the bills dropping on the door mat at home. Fill in the balloon over her head and it would read, “Why am I with this idiot?”
Pictures in which she or they are actually looking at you and not the camera are even bigger giveaway. But what breaks my heart are the snaps that were taken at the time or just after you first met. Actually, they don’t break my heart at all, they just make me cringe with embarrassment. There’s that awful look of pride in new ownership that reminds me of a salesman with a new car or a child with a new dog. You’re both sunny side up then and you think the process of hard-boiling is going to take a hundred years. But, sitting there on the carpet, pushing the snapshots to one side for a minute and dipping into the old letters, the tale unfolds itself. “Miss you terribly.” “So looking forward to next weekend.” “We must try harder.” “We can’t go on like this.” “I must have been mad to think it could work.” “I think we should say goodbye.” Yes, your dinner might not be in the oven but, by Christ, your letters and snapshots are in old drawers and scrapbooks.
Almost as sad is the sight of those old friends. There’s Fred on the beach pulling a silly face, Jim pissed in a night club and Bob waving frantically from the balcony of his room. If you see Fred now – bump into him in a pub – he looks a little embarrassed. He assesses the situation, peering into your pocket with his X-ray eyes and asks, “What are you doing now?” “Oh, the same old thing, “ you reply, resisting the temptation to remind him of the time he you aside with tears in his eyes to tell you that Maggie was leaving him and that life was no longer worth living. “Still scribbling?” he asks, adding, “No, no. This one’s on me.” The largesse is so offhand and who’d think the four of you once squabbled over a restaurant bill in Paris?
With luck and in the two or three weeks’ time I’m off to get a breath of sun-drenched hot air into the offending lung. Alone. But I shall still take a camera. Three years ago I got a Russian soldier in Red Square to take a picture of me standing outside the Kremlin. It’s deeply moving. I look like another alcoholic defector. But however awful one looks the memory banks and scrapbooks need to be kept stoked up. The holiday show must go on. This time I’ll get a snap with the local barman. We’ll have our arms around each other’s shoulders and if you look carefully and closely into his eyes you’ll see that he’s thinking, “God, how I loathe this boring, drunken, peseta-less tourists.” The only trouble is that I may not be drunk. At the moment I can keep one down, so you’ll forgive me I hope if I remain yours, morose, sullen, non-communicative and shunning any social contact. That wife was quite right about not drinking. It’s disaster. If you’re born two or three drinks under par you just end up with your old snaps snapping at people.»


Escrever-Pensar-Escrever

Enquanto que uns pensam que escrevem (como eu), outros escrevem o que pensam. Como o João Pereira Coutinho.

Sigamos o sapo?, in Expresso 03.07.04
«Consta que o dr. Salazar impediu Eusébio de jogar no estrangeiro. O homem era um símbolo nacional e, como acontece nas ditaduras paternalistas, os símbolos não se exportam: exploram-se. Passaram cinquenta anos. A conversa do “símbolo” continua a fazer estragos nas nossas cabeças e o país persiste no abuso de nacionalizar feitos individuais. Saramago venceu o Nobel? Não. Portugal ganhou o Nobel e, com ele, a língua portuguesa, a lusofonia e qualquer escrevinhador reles que tenha por hábito dedicar poemas à criada. Durão é convidado para presidir à Comissão Europeia? Não. O país é reconhecido e agraciado pela Europa ou, coisa bem pior, dramaticamente amputado pela escolha pessoal e até legítima do primeiro-ministro. Não vale a pena insistir nesta histeria saloia, excepto para afirmar o óbvio: o convite a Durão Barroso não constitui uma vitória nem uma derrota para Portugal. Quando muito, é uma vitória para Barroso, mas até isso é discutível: o futuro da União Europeia é negro e a escolha do homem, tipicamente sacada de um filme siciliano, apresenta critérios pouco lisonjeiros para as capacidades do nosso Zé Manel. Sobra o país. Deve o Presidente da República convocar eleições para resolver o caso? Conheço a Constituição. Mas, com a devida vénia, a Constituição não basta: a política não se faz apenas com gélidos formalismos. Faz-se com pessoas reais e projectos reais. O Governo eleito em 2002, para todos os efeitos, acabou. Santana é o sapo a engolir? Sem eleições, erro crasso. Depois do cherne, não existe qualquer legitimidade para que sigamos o sapo.»

ABSOLUTAMENTE DE ACORDO.

O elogio de Pacheco

José Pacheco Pereira é um caso excepcional de isenção e imparcialidade no panorama político e televisivo português. A sua intervenção na Quadratura do Círculo deste fim-de-semana é mais uma vez, para mim, exemplar: Pacheco Pereira não confunde pessoas com ideias, políticos com programas, políticas com outros aspectos da vida social, com amizades etc. A sua ética de analista/ comentador/ político/ intelectual coloca-se acima de jogadas comezinhas (chamem-lhe egocêntrico que eu abençoo-lhe o egocentrismo), de entradas por trás, de traições. Ele joga frontal, claro, recto. Dispara por vezes sobre o seu próprio exército - será que ele tem um exército que não seja aquele formado por um só soldado, JPP?
A todos quantos se desgostam do carácter mais alinhado, previsível e populista da polítca feita em Portugal, a existência de uma pessoa como Pacheco Pereira chega a ser comovente de tão rara. Agora vamos perdê-lo. Agora vai para a Unesco. Agora Portugal vai ver empobrecido o seu pecúlio de ideias. Que é tão pobre, pobres de nós. E Pacheco na Net não é a mesma coisa, porque são (é) muitas outras coisas também.

Pensamento do dia seguinte

Hoje só gregos ou masoquistas compram jornais desportivos - AH, mas o Trapattoni vai para o Benfica!

Consolo: Que grande meio-jogo fez Rui Costa na sua despedida da Selecção Nacional.

sexta-feira, julho 02, 2004

O melhor disco que descobri esta semana

Chama-se «Peace Beyond Passion». Data de 1996. O único CD de Me’shell (Ndegéocello) que ainda não constava da minha discoteca de milhares. Um dos melhores de Me’shell que tem a melhor discografia da música funk/ soul/ hip hop dos últimos 20 anos. Todos os seus discos são valiosos porque esta mulher que escreve, toca e canta é um poço de talento do qual não se avista ainda o fundo. Síntese no feminino do groove da dupla George Duke/ Stanley Clarke, com o speech talent de Isaac Hayes, a contundência verbal de Gil Scott-Heron, a carnalidade de Marvin Gaye, a polivalência instrumental e a androginia de Prince, por vezes mais sweet, por vezes mais bitter, sem a qual não existiriam seguramente a Badu, a Jill Scott, a Rucker, cantoras-poetisas do songbook de asfalto afro-americano que aprendemos a venerar.
Da geração mais recente, Me'shell abriu caminho a todas as outras: experimentando aproximações a territórios folk encimados por Joni Mitchell, traçando tangentes ao território do hip hop de hegemonia masculina, surpreendendo sempre com a palavra insinuante e a sedução do ritmo. Me’shell apodera-se com extrema eficácia do cérebro e do corpo de quem a escuta: o seu discurso é inebriante como o sexo e visa também uma qualquer espécie de transcendência (a Bíblia e outras mitologias são referências constantes). «Peace Beyond Passion», intensamente! Onde se diz que “nós somos a verdade que na verdade procuramos”. Adorável Me’shell, que traduzes a paixão, o amor e o sexo para os teus discos! Para as nossas vidas.

quinta-feira, julho 01, 2004

Isto é cinema!

A forma como estão montados no último disco de Rodrigo Leão os temas «Uma História Simples», um instrumental, e «Happiness», uma canção interpretada por Sónia Tavares dos The Gift, é de uma sensibilidade rara na música feita em qualquer parte do mundo. No que toca ao resto, do pouco que ouvi até agora, parece-me francamente positiva a opção por vozes de anjos em queda. «cinema» diz respeito a uma arte bem mais próxima de nós. Com uma espessura definitivamente nada a ver com a do papel de parede musical. Leão mudou-se para o celulóide e fez ele muito bem!

Figo, Miguel, Valente, Maniche e os outros todos

Com uma ponta de mérito, com uma ponta de génio, com uma ponta de sorte, com uma ponta de sufoco, estamos na final. E estamos casados com o feiticeiro Scolari até ao Mundial de 2006. Agora que já se fez história, Portugal! Da boa. E festa, euforia, delírio. Espectáculo televisionado. Foi aqui que recolhi aos meus aposentos.



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