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terça-feira, novembro 30, 2004

Do bloguista com febre ao blog do colunista

A trabalhar, doente, descubro o blog de Ricardo Noblat. Como disse o colega que me passou o endereço, é 99% política brasileira. O Noblat, passe a imodéstia, vai estagiar para a coluna do lado.

Hoje também gostei muito de ler o que tem escrito o Bruno no Desesperada Esperança.

E é tudo. As forças não dão para mais.

domingo, novembro 28, 2004

Tchau Moreirense!

Só para dizer que estive lá de novo esta noite. O Sporting jogou quando quis e quis sobretudo poupar-se. Pinilla marcou um "pinigolaço" e Carlos Martins imitou-o pouco tempo depois. O Sporting apanhou uns sustos quando o Moreirense diminuiu a vantagem mas logo as coisas voltaram ao eixos. Mais dois golos: um de Viana outro de Liedson. 4-1 para quem se estava a poupar pode parecer excessivo? Enganam-se! O Moreirense foi talvez a pior equipa a jogar connosco este ano. Mais lastimável do que o desacerto da rapaziada de Moreira de Cónegos só Rochemback, que se arrastou penosamente durante a 2ª parte e uma fationa ainda do 1º tempo. O Roca não anda nada bem...

Projecto Paulo Francis (Letra K)

KUBRICK, STANLEY:
A única cena humana de Nascido para matar, Full metal jacket, é quando a prostituta vietnamita se recusa a dar o traseiro para o negro americano, alegando possível e excessiva dor no ato. (Folha de S. Paulo, 26/1/89)

Kissinger, Von Braun (um nazista que os americanos importaram para fabricar foguetes) e Herman Kahn foram os inspiradores do dr. Strangelove. Até hoje é o filme máximo de Stanley Kubrick e, se alguém não viu, deve correr rápido ao videoclube da esquina. (Folha de S. Paulo, Revista d’, 25/2/90)

O filme mais simpático de Kubrick é Spartacus, menos antipúblico, e superior, a meu ver, a 2001, 2001, a space odissey, Barry Lyndon e Nascido para matar, que são modernistas e hostis ao espectador. É um filme à antiga, espetáculo grandioso, e uma história com princípio, meio e fim. A grande contribuição de Kubrick é a disposição das legiões romanas na batalha final contra Espártaco. É muito bonita a sequência. (O Estado de S. Paulo, 16/5/91)

Amigos meus militares garantem que Kubrick é um estrategista frustrado. Nos deslumbrou em Glória feita de sangue, Paths of glory, com o roteiro de vida e morte das trincheiras da Primeira Guerra. Nos levou em viagem antropológica às táticas do exército romano em Spartacus. E em Nascido para matar nos faz sentir vivos no Vietnã, num clima de fim de mundo. Neste filme, as cenas com que Kubrick leva a ironia de uma menina subdesenvolvida a dizimar a tropa de elite dos EUA são de uma expressividade e rigor estético provavelmente fora do alcance de qualquer outro diretor vivo. (O Estado de S. Paulo, 6/2/94)

Esta semana comprei os DVD's de Dr. Strangelove e Spartacus. Entre o "máximo" e a "simpatia", acho que hoje opto pelo segundo.

Gone for good

Eu acho que para evitar o risco de acabar esquecido nos inevitáveis balanços das próximas semanas, o novo Tom Waits, Real gone, devia fazer-se convidado para todas as listas dos melhores discos do ano. A quinquilharia sonora do velho Tom continua tão surpreendente quanto antes, isto apenas porque ele lá vai produzindo ao seu ritmo discos excelentes, uns atrás dos outros: lembrem-se de que os três anteriores foram os simultâneos Blood money e Alice antecedidos de Mule variations. Na quinta das excentricidades, Tom Waits é Rei.

sábado, novembro 27, 2004

O grande peixe

Levei uma semana para ver Anatomy of a murder (59), uma boa sugestão do grande Carlos/ McGuffin. O filme de Preminger tem 154 min. o que não serve de desculpa. Só fiquei verdadeiramente preso ao anzol do crime quando o dito entrou no Tribunal. A este respeito parece-me justo reconhecer que Anatomy of a murder é uma espécie de paradigma do courtroom drama a que todos os outros deviam ser comparados. É aí que os personagens definitivamente se revelam... e mentem, descaradamente. A figura que mais me impressionou foi a do advogado de acusação, interpretado com frieza obstinada pelo enorme George C. Scott. E também me impressionou - já estava à espera! - a partitura original de Duke Ellington (ele também surge no filme) que conhecia apenas superficialmente.
Anatomy of a murder é na sua duração e minúcia o que podemos chamar de um grande peixe. Um peixe que vai progressivamente revelando o seu estado de putrefacção, porque a natureza humana provavelmente já nos terá sido inculcada fora da validade. Ninguém é perfeito, concordo, logo somos todos seres imperfeitos. É por isso que em muitas situações da vida, a vida fede. Mas não há outro remédio para a vida que ir comendo o peixe, se possível escolhendo a melhor posta: de Anatomy of a murder, a posta de que mais gostei foi a do rabo: no tribunal, quando o esquema da violação e do crime começou de facto a ser escamado...

África dela

O filme tem um arranque muito interessante – do genérico inicial com a canção de Simone até às primeiras noites de Evita (Beatriz Batarda) em Moçambique - a nudez a que o calor obrigava -, logo após ter-se casado com Luís (Filipe Duarte). A costa dos murmúrios prende-nos pelo mistério de uma “reconstituição” impecável. Depois os homens partem para a guerra. A guerra que ficará sempre fora de campo. E o tempo na cidade costeira ainda mais se imobiliza. Com esta imobilidade mais e mais angustiante, Margarida Cardoso (a realizadora) fica com uma tarefa árdua nas suas mãos. E o que pode fazer Margarida Cardoso com os murmúrios do sufoco existencial das mulheres que esperam? Tricô ensimesmado (para o qual muito contribui o registo pesaroso de Mónica Calle), justamente aquilo que Evita recusa fazer quando parte à descoberta do que existe para lá da clausura.
A costa dos murmúrios dilui-se assim de uma interessante abordagem inicial, quase documental, num registo de câmara na intimidade feminina que lamenta que nessa mesma intimidade os homens se limitem a dar “uns tirinhos”. Decididamente, as realizadoras portuguesas não têm a nossa masculinidade em grande conta. Já o trabalho dos actores principais – Batarda, Duarte e Adriano Luz – e a excelência da direcção fotográfica (made in germany) são tudo menos pólvora seca.

sexta-feira, novembro 26, 2004

A star is born

É bom saber que a Sara sabe quem eu sou.

quinta-feira, novembro 25, 2004

Esta mulher é um assombro

Anne Sofie von Otter grava The Benny Andersson Songbook.
Ou, em alternativa, Anne Sofie Sings Abba.

Ouviste Alberto? Ou melhor, leste?

Pediram-me para divulgar

A música é boa. A causa é a causa:

O Grupo de Acção Comunitária – IPSS – irá organizar um espectáculo de Solidariedade pela Saúde Mental no próximo dia 26 de Novembro, no Fórum Lisboa, às 22h. O concerto terá a actuação dos grupos Sétima Legião, Gaiteiros de Lisboa e Rodrigo Leão. A instituição GAC dedica-se à reabilitação de pessoas com doenças psiquiátricas, promovendo os cuidados na comunidade, bem como a desinstitucionalização destes pacientes. O concerto tem o Alto Patrocinio da Presidência da República.

Bilhetes na FNAC, Ticket Line e no Fórum Lisboa.

Wong Kar-wai e o feminino eterno

Em 2046 os andróides sonham com histórias de amor ao retardador, quem sabe, para retardar a dor? Pena que um filme belo não tenha de ser necessariamente um belo filme. O milagre da coincidência deu-se no cinema de Wong Kar-wai, em 1991, com Days of being wild - talvez o DVD por mim mais ansiado? O milagre não mais se repetiu...

"Liedshow!"

Dinamo Tbilissi 0 Sporting 4. O pessoal do "timão"* estava coberto de razão. Disso já sabíamos.

* Corinthians

Ao intervalo

Dínamo Tbilissi 0 Sporting 2 (Liedson, 5' e 28') Minuto a minuto...

Disseram-me hoje que é o melhor disco de música portuguesa em muito, muito tempo...

O nome do projecto é Humanos. Cantam Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca. Os restantes músicos são ou membros dos Clã ou "assessores" do Sérgio Godinho. As canções têm origem em inéditos que António Variações deixara em maqueta. Sai no próximo dia 6 com selo EMI-VC.

O Sporting vai jogar com o seu equipamento tradicional, enquanto o Dínamo joga todo de azul

Hoje vou acompanhar o Sporting ao minuto a partir daqui. Nunca antes experimentei. Oxalá dê bom resultado.

Prato cuspido por Mainardi tem outro sabor


Francisco Weffort foi substituído por Gilberto Gil
Ainda bem que eu tinha uma pulseirinha vip. Dava acesso à área vip. É singular que um espetáculo numa favela possa dispor de uma área vip. Principalmente se a estrela do espetáculo é Gilberto Gil, o novo ministro da Cultura de um governo eleito com a promessa de diminuir as disparidades sociais. O espetáculo foi na garagem de ônibus da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Nós, vips, fomos acomodados no pátio do Ciep, vinte metros acima da garagem, convenientemente separados dos favelados por um intransponível muro de cimento. Estávamos na favela, mas longe dos favelados, que pareciam ter sido postos ali apenas para dar uma cor local. A pulseirinha vip garantia outros privilégios. Como naquela noite caía um violento temporal, nós, vips, fomos alojados em tendas, enquanto os favelados se ensopavam na platéia ao ar livre. Para eles, o ingresso custava 5 reais. Para nós, era de graça. Em todas as circunstâncias da vida, eu gostaria de ter uma pulseirinha vip, que me assegurasse abrigo contra intempéries, distância do povo e alguém para pagar minhas contas.
O espetáculo de Gil era beneficente. Tinha o propósito de arrecadar fundos para a Casa da Cultura da Rocinha. Considerando que só os favelados eram obrigados a pagar ingresso, Gil inaugurou um novo modelo de redistribuição de renda, em que todas as despesas recaem sobre os pobres, em benefício dos ricos. Não deu muito certo, porém. Favelados podem ser pobres, mas não são tontos. A idéia de assistir a um espetáculo de Gil, debaixo de chuva, e, ainda por cima, pagar por isso, pareceu-lhes demais. O público era tão pequeno que os organizadores do evento desistiram de cobrar ingresso, abrindo os portões para quem quisesse entrar. Mesmo assim, a platéia ficou deserta. Gil não gostou. Por punição, começou a cantar com duas horas e meia de atraso, deixando os favelados na chuva. Por melhores que fossem as intenções do novo ministro, não consigo entender a lógica de um espetáculo beneficente que arrecada infinitamente menos do que seu próprio custo. Não teria sido melhor reverter o dinheiro público diretamente para a Casa da Cultura da Rocinha, em vez de gastá-lo na montagem do espetáculo? Confirma o que eu disse recentemente: o melhor serviço que Gil pode prestar à cultura brasileira é parar de cantar. Aliás, nem sei se vale a pena financiar uma Casa da Cultura na Rocinha, com suas imagens de Iemanjás e Exus. O Brasil deveria desistir dessa bobagem de querer ter uma cultura. Ninguém ia notar a falta.

A tapas e pontapés, de Diogo Mainardi (2004), págs. 20/22

este é para o Pedro Lomba, a primeira pessoa que suscitou a minha atenção para o colunista da Veja. Vê lá se voltas ao blogue, pá!

Media

O Mídia sem Máscara é do Brasil. Já linkei para tirar depois as minhas conclusões. Mais um site entre blogs. Um sítio entre blogues.

Olhar de frente

By curbing free speech and political parties, and demonising those who fight for gay rights and against domestic violence, the Left is telling the world that multiculturalism is incompatible with liberal democracy. The Left’s loss of faith in liberal democracy is a result of its naive belief in human nature. The creators of multicultural societies believe they can abolish tribal feelings of belonging based on shared values, history and culture. Just as communism could only be upheld by totalitarianism, so multiculturalism is being upheld by curbs on free speech and democracy. The lesson of the Netherlands is that there is only so much you can do to change human nature, and the more you shut off the valves of debate and democracy, the more human nature — in all its ugliness — will assert itself, often violently.

Este é apenas o último parágrafo de excelente texto Speak your mind, lose your life, de Anthony Browne, na Spectator (where else?) Não há dispensas para a leitura integral do mesmo, portanto façam o favor de clicar na mancha em itálico: ambas servem.

Fraqueza intelectual

A hora central de Anatomia de um Crime, alguns sketches do DVD do Gato Fedorento, a Quadratura do Círculo incompleta, cama. Com franqueza.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Ligeiramente comovido

A Alexandra encontra sempre uma forma mais especial de dizer as coisas. Aos demais, agradeço igualmente sem personalizar.

Talento

Richard Dawkins, Germaine Greer, Amartya Sen, Eric Hobsbawm, Jonathan Miller, Timothy Garton Ash, Simon Schama, Michael Ignatieff, Melvyn Bragg, Niall Ferguson, George Monbiot, Mary Warnock, Michael Frayn, Tom Stoppard, Roger Scruton, Rowan Williams, Christopher Hitchens, George Steiner, Will Hutton, AC Grayling, Susan Greenfield, John Gray, Seamus Heaney, Anthony Giddens, Gordon Brown, Tariq Ali, Karen Armstrong, Salman Rushdie, Jonathan Sacks, VS Naipaul, James Lovelock, Robert Winston, AS Byatt, Brian Eno, Frank Kermode, Philip Pullman, Matt Ridley, Terry Eagleton, Mary Midgeley, Melanie Phillips, Anatole Kaletsky, Colin Blakemore, Martin Amis, David Willetts, Martin Rees, Neil MacGregor, Peter Hennessey, Onora O'Neill, Robert Skidelsky, David Hare, James Wood, Perry Anderson, Ziauddin Sardar, Fred Halliday, Lisa Jardine, Quentin Skinner, Gitta Sereny, Martin Wolf, Richard Rogers, Jeanette Winterson, Robert Cooper, Steven Rose, Ian Buruma, John Carey, Bernard Crick, David Starkey, Linda Colley, Adam Phillips, Ian McEwan, Lewis Wolpert, Samuel Brittan, Lawrence Freedman, Philip Bobbitt, Richard Layard, Noel Malcolm, Bhikhu Parekh, Mervyn King, David Cannadine, David Marquand, John Kay, WG Runciman, Michael Howard, Paul Gilroy, Richard Holmes, Robert May, Julian Le Grand, Peter Maxwell-Davies, Charles Jencks, Geoff Mulgan, Charles Grant, David Pannick, Thomas Kirkwood, Matthew D'Ancona, Raymond Tallis, Adair Turner, David Green, Michael Craig-Martin, David Elstein, Tom Nairn, Malise Ruthven.

Caso tenham curiosidade em saber, são estas as 100 personalidades que Paul Johnson menospreza no seu mais recente texto para a Spectator, pela quase total ausência de verdadeiro talento no conjunto. Aceitem a provocação de Paul Johnson que merece ser lida. Uma vez que não é possível concluir quem faz figura de excepção para o velho Paul, optei pela lista completa em representação da regra.

terça-feira, novembro 23, 2004

Isto não é um charuto!

Eles nunca fizeram discos maus, mas este é dos melhores que fizeram. Manuel "Guajiro" Mirabal e compadres prestam homenagem ao compositor Arsenio Rodríguez (pena que o site da World Circuit esteja em baixo). A Amazon ganha de novo porque está sempre em cima. Ou "em riba" como diz o pessoal aqui à volta.

Um pai assim

Dear boy, what you really must take to your soul is the truth that no man can live to himself alone. Your dreams of life have hitherto been too self-centered. I blame myself greatly. I have lived entirely in your career, feeding my fatherly pride. I should have been much wiser, no doubt, not to let all the world know – and you among them – how engrossed I am in you. But I can only love one way, and I have to pay for it. But the punishment will be too hard – harder surely than I deserve – if, at seventeen, with life before you (as we hope), you throw up the struggle and protest that you have lost confidence in life.
All the world is in fetters now and you have at least for consolation the entire devotion of your father. But for all of us who are worthy of the name of man, the road must wind uphill all the way, the crown of roses must be thrown aside, and the crown of thorns must tear the brow. ‘Is it nothing to you all ye that pass by? Behold and see, if there be any sorrow, like unto my sorrow.’ … For the world can only be conquered by love, by submission, by discipline. Some of that discipline you are getting now, in bitter form enough, but it may be the golden time for you if only you will not turn aside from the voice of Wisdom and close your ears to good advice. Be confident; be courageous; be steadfast. I see already a great change in you for the better… You seem to have softened again and, what is more, to have changed to a better man than you ever were before. You are once more the beloved son who walked the Sherborne slopes with me, before the coming of evil, happy, expectant, confident in life, filling me every morning with thanksgiving that I should be alive and the father of such a son. Here I believe is a proof that the discipline of life, however bitter, is what every nature needs: here I see the messenger of love, bringing its own in its hand.
Do not for a moment lose confidence in life. ‘Though he slay me, yet will I trust in Him.’ It is a pagan confession of faith, but I have often said it to myself in hours of suffering and doubt. ‘Though he slay me…’ but if he let me live, then after all these tribulations my life, my art, my everything I love shall be devoted to the cause of gratitude … ‘Thank God for life! Thank God for you!’

Ever, Dearest Boy,
In hope infallible, Your devoted Father


Carta de Arthur Waugh para o seu filho Alec que cumpria o serviço militar e estava em risco de ser enviado para a Primeira Grande Guerra.

in Fathers and Sons – The Autobiography of a Family, págs. 104/105, de Alexander Waugh [sobrinho-neto de Alec]

Discografia conservadora

Não há nada mais profundamente americano do que a voz e as canções de James Taylor. E este é o seu melhor disco. Muito confortável de ouvir mas decididamente não para todos os gostos. Eu gosto muito: sozinho ou em boa companhia. Blame me!

segunda-feira, novembro 22, 2004

Mau feitio, bom efeito de opinião

José Pacheco Pereira, João Pereira Coutinho, António Barreto, Miguel Sousa Tavares, Eduardo Cintra Torres, Alberto Gonçalves, Helena Matos, João Cândido da Silva, Vasco Pulido Valente. Quem diz mal - "digam mal, digam o pior possível!" - tem logo garantido metade do meu capital de interesse. Como fazem quase todos parte do mesmo jornal, facilita mais as coisas.

Crônicas: Quando cheguei ao trabalho tinha à espera um presente especial e até inesperado. Fica apontado que o Natal este ano para mim teve início a 22 de Novembro. E não envolveu os Correios.

domingo, novembro 21, 2004

Um ano, acima da média

O Babugem "celebrou" há dias - mais precisamente a 17 de Novembro - o seu primeiro ano de existência. A TODOS quantos fizeram questão de não assinalar (à data!) esta data tão pouco significativa, o meu muito obrigado. O Babugem é afinal um blogue diferente da média. Está acima dela, é só.

sábado, novembro 20, 2004

Linhas tortas

Porto Sporting 3-0
Sporting Boavista 6-1
Porto Boavista 0-1
Beira Mar Sporting 2-2

Porque é que tem sempre que ser tão difícil?
(Ricardo de novo mal batido no golo do empate já em tempo de descontos... PORRA)

Fado bailado

Luz de Lisboa, de Helder Moutinho, é dos discos de fado mais fado que alguma vez escutei. Agora que o fado virou "moda" e que se descobrem fadistas como quem acabou de dar um pontapé numa pedra da calçada ("é pá, olha aqui mais um fadista!"), sabe muito bem ouvir um disco assim onde tudo se decide no que é essencial: numa vivência (a tal antiguidade que é posto), em imagens que se dão naturalmente com o imaginário do fado, nalguns fados tradicionais, tudo muito purista, tudo muito sentido (para dentro).
O Helder fez um dos melhores discos de fado de sempre, e eu fico orgulhoso porque entre as pessoas que conheci no fado o Helder foi dos que mais me ensinou. Como todos os fadistas, o Helder é um bocadinho vaidoso mas, que diabo!, ele tem motivos para o ser. Eu é que não imaginava que um dia o Helder Moutinho ia conseguir pôr a sua vida toda num disco seu. É ele quem escreve a quase totalidade das letras. No entanto, concluirei o meu elogio a este Luz de Lisboa com os últimos versos de um fado lindíssimo que o Helder canta (e vive) nas palavras de Henrique Rêgo e na música de Alfredo Duarte (Fado Bailado). Termina assim:

E a folhagem ressequida
Baila envolvida em poeira
E com a razão perdida
Há quem leve a vida inteira
A bailar com a própria vida

Só se pode cantar estes versos como o Helder os canta (o respeitinho no fado faz ainda mais sentido), depois de percebermos que a vida é um conjunto de oportunidades ganhas e de tantas outras... perdidas. O Helder ganhou aqui uma das suas, imagino!, maiores oportunidades, cantando primorosamente as vidas de outros e também a sua própria vida.
O resto é fantochada como alguma coisa do que para aí se ouve a cantar, a fingir. Se querem fado a sério, fado de verdade, comprem este disco.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Uau!

A grandiosa American Chesterton Society. Muito que ler.

Veio do outro mundo

Será que o Tiago já conhece este?

quinta-feira, novembro 18, 2004

Porque a preocupação dos meus amigos vale pela baixa lisboeta toda iluminada

Carlos, não passará deste fim-de-semana. Eu depois escrevo.

A falar sozinho

É no Metro que observamos Lisboa cada vez mais misteriosa, cheia de figuras interessantes.

Indies do it better

She's getting into pop, while Bale's getting into op. Kate Beckinsale looks great. Alessandro Nivola is just great. Watch out for some great lines as well. And that's the lovely american independent cinema for you.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Amor e vida

A violação da mulher na presença do marido e dos filhos – situação tantas vezes relatada, agora a partir do que se tem vivido na Costa do Marfim – deve ser dos crimes mais repugnantes à face da Terra. Nenhum homem pode dizer, sentir, sequer imaginar, o que faria se confrontado com tamanha humilhação (não apenas do homem, bem entendido), mas embora reconhecendo essa mesma impossibilidade, julgo que preferia morrer resistindo do que sobreviver ao trauma: um arrepio percorre-me de novo a espinha só de pensar nisso. Momentos como estes devem suscitar tal ódio e tal raiva que temos dificuldade em conceber a possibilidade de viver, uma vez tendo assistido a tão ignóbil crueldade. Deve dar vontade de morrer e se possível carregar connosco alguns dos carrascos para esse destino irreversível.

Mão pelo pêlo

Na Fnac ou em qualquer outra loja da especialidade (veterinária), pode ser já adquirido o duplo-DVD do Gato Fedorento. Passem-lhe a mão pelo pêlo e paguem depois na Caixa. Porque não vi grande parte dos sketches, recomendo a sua compra ainda mais!!

terça-feira, novembro 16, 2004

Italians make it better

Provavelmente desconhecerão ao que sabe uma sangria de espumante com pedaços de morango? Também eu, até há dias atrás, não imaginava o que tinha a perder. Façam então o favor de entrar!

Vice-versa

Ela é uma espécie de improvável intersecção entre Cole Porter e Eminem. Boa voz, destreza no piano e uma escrita cheia de "wit" - espirituosa, ágil, esperta. Acabei por encomendar o disco da norte-americana Nellie McKay, Get away from me, contrariando o desejo da moça e antes que uma opinião mais definitiva se instalasse. A descoberta, que agradeço, devo-a a dois senhores: ao Nuno, o primeiro a escrever sobre ela, depois ao Alberto que me apresentou às canções propriamente ditas, enquanto guiava atrás de um "comboio impossível". Obrigado.

segunda-feira, novembro 15, 2004

A melhor coluna na semana

Guterres. Outra Vez?
Por ANTÓNIO BARRETO
Domingo, 14 de Novembro de 2004

Congresso da Democracia, organizado em Lisboa pela Associação 25 de Abril, serviu de palco adequado para o regresso de António Guterres à política nacional. Atentamente observado por um sorridente José Sócrates, colocou-se aquele acima das querelas do dia e tentou a pose de Estado e de reserva. Usou da contenção necessária para evitar qualquer precipitação, mas deixou os recados suficientes. Mencionou a urgência da criação de um "projecto nacional" e garantiu que sabia existir uma "alternativa mobilizadora para reconciliar os cidadãos com a vida política democrática". Ele sabia que toda a gente só pensava numa coisa: o seu regresso significava que estava dado o primeiro passo para uma eventual candidatura à presidência da República. Ninguém ficou a saber qual era a sua decisão, mas esse era exactamente o objectivo do exercício. Daqui para a frente, vão suceder-se os silêncios entremeados de frases e aparições, ao mesmo tempo que grupos de "notáveis" começam a organizar-se espontaneamente e a elaborar cartas e abaixo-assinados. Surgirão, aqui e ali, pequenas e médias vagas, à espera da outra, a de fundo. Especialistas de comércio e publicidade preparam o seu calendário e as agendas deles. Do Brasil, de Espanha e alhures virão técnicos de campanhas eleitorais. Toda a gente, a começar pelo próprio, observa as sondagens, analisa as probabilidades, estuda os rivais potenciais e persegue Cavaco Silva, não se esquecendo de olhar de lado, por cima do ombro, para Soares, Ferro e Alegre. Criar-se-ão oportunidades para Guterres se mostrar ubiquamente com crianças e idosos, católicos e laicos, a boa gente do interior e os empreendedores de sucesso. Não faltarão as referências internacionais a Zapatero, Lula e Arafat. Mostrar-se-á à vontade com computadores e laboratórios sofisticados, tanto quanto com vinho do produtor e barrigas de freira. Despreocupado, será visto com cineastas e actores. Interessado, passará por acaso em livrarias. Comovido, não faltará a eventos de solidariedade social. Os excluídos terão posição alta nas suas prioridades. Talvez já haja mesmo quem prepare uma biografia, de preferência sob a forma de entrevista, mais fácil e menos comprometedora. Nunca as televisões deixarão de ser informadas dos seus passos. Muito tempo passará antes que se saiba se é ou não candidato e tudo leva a crer que nem o próprio, apesar de o desejar, saiba já qual é o sentido da sua escolha. Mas o circo está montado.
Não deixa de ser curioso que, na sua contribuição para o dito congresso, tenha escolhido o tema da imagem, da política espectáculo e das televisões. Denunciou a transformação da política em "reality show", ele que é sem dúvida um dos grandes oficiais da arte. Vituperou contra a crescente "promiscuidade entre a política e os media", ele que é responsável pela estatização de um dos maiores grupos de imprensa, comunicações e "media", dado que foi com o seu governo que a PT comprou a Lusomundo, alargando e consolidando a presença do Estado no sector. Alertou para as relações cúmplices entre os políticos, os magistrados e os "media", ele que tão bem soube juntar esses ingredientes e acrescentar-lhes os interesses dos grupos económicos.
É verdade que não foi o único. Os publicitários de Freitas do Amaral (nas presidenciais de 1986), de Cavaco Silva (que pouco parecia precisar deles, mas que os usava), de Durão Barroso (insignificantes) e de Santana Lopes (pletóricos) deram também o seu contributo. Tanto para a propaganda e a encenação, como para a famosa promiscuidade. E os socialistas, por sua vez, não renunciaram a tais práticas. Soares, por exemplo, tratava minuciosamente das suas influências na imprensa. Umas vezes com doçura, outras à bruta. Mas era um artesão. Acreditava nos seus talentos e no seu encanto. Ora, com Guterres, no partido ou no governo, o estilo foi completamente diferente. É ele o responsável pela profissionalização da imagem, pela organização meticulosa da sua aparição na televisão, pela sistematização dos seus contactos com os jornalistas e pela generalização de organismos de propaganda disfarçados de gabinetes de imprensa e de relações públicas. Foi ele que, mais do que ninguém no Partido Socialista e na esquerda, recorreu a serviços de empresas privadas especializadas na venda de imagem e na construção de personalidades. Verdadeiro profissional, deve-se-lhe um dos maiores contributos para aquilo que agora, com beata inocência, denuncia.
Embora inesquecíveis (se é que em política há alguma coisa inesquecível...), estes factos e estas circunstâncias são menores. Não é por essa via que deve ser feita a principal avaliação do antigo Primeiro Ministro e eventual futuro candidato. Nem sequer talvez pela sua folha de serviços no governo, onde abriu as portas ao recrutamento de massas de funcionários (o que, aliás, não é um mau trunfo eleitoral), gastou o que tinha e não tinha, negociou tudo com toda a gente, cedeu quanto pôde e não pôde, adiou reformas, deixou agravar a crise financeira e alimentou a demagogia. Dado que a Presidência da Republica, em Portugal, é o que é, não serão esses os principais argumentos. O cargo não exige experiência política de governo.
Há, todavia, um facto que merece toda a atenção. Numa noite de há quase três anos, assistimos a um gesto inédito na Europa e talvez no mundo. Em directo, diante das televisões, o Primeiro Ministro Guterres fazia a sua declaração política relativa às eleições autárquicas que acabavam de se realizar e nas quais o Partido Socialista tinha registado algumas derrotas significativas. Para estupefacção de toda a gente, a começar pela dos socialistas, anunciou a sua demissão. Apenas tinha cumprido metade da legislatura que, aliás, se anunciava difícil. Nunca explicou de modo satisfatório a sua decisão. Deixou o partido e o governo em estado catatónico. Entregou à direita e aos seus adversários o governo e as eleições legislativas que se seguiram. Abandonou funções num momento em que começava um período de dificuldades para os portugueses. Não teve força para resistir, nem carácter para lutar. Numa palavra: fugiu. Esse, o facto relevante do seu currículo. Essa, a medida da sua candidatura.

É DE HOMEM!

domingo, novembro 14, 2004

"Ele" dá com a outra

Saíram furados os planos de regresso. Comboios lotados, "observador" imprevidente e lá se foi o jogo. Acabei viajando para Lisboa à hora do Sporting-Boavista. E que jogo foi, ainda que seguido pela rádio! O marcador parecia avançar à velocidade do conta-kilómetros (marcava 160 Km/h caso tenham curiosidade de saber?) Três golos em cada parte, o fim do l-o-n-g-o jejum de Pinilla e, suprema ironia, eu a passar ao largo do José Alvalade, ainda aceso, com as luzes brilhantes e os cachecóis orgulhosos nos carros à volta.
"Deus meu!" que me privaste desta noite gloriosa, encarrega-te pelo menos agora de garantir que seja o F.C. Porto a pagar, na próxima jornada, a factura de tão pesada derrota para os axadrezados. Douala, Custódio, Viana a dobrar, Liedson e Pinilla, muito obri6ados.

Os TSD

Os TSD são os tarados sociais democratas. São aqueles que continuam a ler da cábula para uma plateia vazia, na segunda madrugada do Congresso do partido deles. São basicamente jovens da social democracia que vão-se revezando e que se aplaudem uns aos outros. A alternativa sendo, por outro obtuso lado, um conjunto excêntrico de gente que apela à preservação do dialecto barranquenho ou que se apresenta trajando como aquele senhor padre que organiza a feira dos bruxedos em Vilar de Perdizes. São estes os TSD: os tarados sociais democratas. Se eles não existem de verdade, então tenho vindo a sofrer nas últimas horas de hilariantes alucinações consecutivas.

Série zombie

Às três da manhã, com o dia de Congresso longe de estar terminado, a única área não totalmente moribunda do recinto é precisamente o cibercafé. No espaço em frente entrou-se na fase dramática em que todos os cromos do partido, desde que inscritos, têm direito a discursar (sobre quê?) durante 3 minutos, para ninguém... Na assistência, uns dormem, outros conversam entre si e os pobres papagaios a perorarem para o fumo insuportável da sala. Palmas esparsas marcam a toada surreal das participações. A coisa ameaça prolongar-se por mais algumas horas. Horas risíveis, horas sofridas, para os que não tiverem entretanto sucumbido ao sono, ou entrado numa espécie de delírio que contrai a palavra "verdade" para a palavra "cama". Ou ainda, para os que como eu se agarram à Internet (é o que está à mão), continuando a escrever com o risco do disparate à distância de um súbito bater de pálpebras...

Pura cafeína

Pedro Santana Lopes terminou há instantes um discurso que não estava no programa e que deixou o pavilhão de Barcelos ao rubro. É impossível recusar recolhecer-lhe uma eloquência exímia que em termos discursivos poderá não traduzir aquilo que os críticos de Santana Lopes quereriam ouvir, mas que é de uma capacidade mobilizadora sem paralelo no partido. Santana foi ainda extremamente habilidoso na forma como falou dos elementos do PSD que mais contestam a sua liderança, referindo-se à falta que fazem apenas aqueles que marcaram presença neste Congresso. A sua posição de líder sai muito reforçada. No entanto, seria benéfico para o PSD e para o país que se fizesse ouvir uma outra voz no interior do partido que funcionasse como contraponto ao espectáculo de Santana Lopes. Neste momento, só Marcelo e Durão poderiam investir com igual conteúdo um capital já de si mediático que é decisivo para o combate político dos tempos correntes: acontece que um disputa agora a "liga dos campeões" e que o outro remete-se, até ver, a um silêncio sobre o qual muito se especula para o pouco que se adivinha. Assim, o palco é todo ele neste momento de Santana Lopes - que desde logo avisa: não venham maldizer mais tarde, todos os que agora se mantiveram em silêncio quanto ao rumo que o PPD/ PSD e Portugal deverão tomar no imediato. Atenção, muita atenção que ele sabe, como se vê, melhor do que ninguém, como preenchê-lo: ao palco que produz fascínio. Santana começou este Congresso destemido e acaba reforçado na sua confiança. As suas palavras suscitam a euforia e depois tudo parece demasiado insignificante quando comparado com o carisma que também se lhe reconhece. O Presidente do PPD/ PSD pode estar a pedalar sozinho, mas quem terá depois legitimidade para reclamar a "camisola laranja" por ele desde logo conquistada neste XXVI Congresso?

sábado, novembro 13, 2004

Última sessão

Amanhã cedo parto de Barcelos. O Congresso tem sido morno. Não creio que surjam novidades até final. Tudo fará cumprir a frase que se tem aplicado aos dois primeiros dias de trabalho: críticas para os ausentes (nunca nomeados, como convém), elogios para os presentes e apoio incondicional ao líder Pedro Santana Lopes. Uma fogueira de vaidades que deixa um desagradável cheiro a cigarro agarrado à roupa. É uma festa: de que estava eu à espera de diferente?

De volta ao cibercafé (o robalo que não é Santana)

Depois do almoço, a sala do Congresso está de novo praticamente cheia. Muitos esperam pelo discurso de Marques Mendes, provavelmente a primeira meia-dose de contestação à auto-celebração do partido, do líder, que tem sido uma constante do evento: PSD, PSD, PSD...! É isso ou então temas tão laterais quanto o elogio do queijo da serra ou o habitual número de quem ambiciona um outro protagonismo na existência política do partido. Têm todos demasiado a aprender com Santana Lopes, que deu ontem um espectáculo do que é fazer das fraquezas forças, com um discurso longo (demasiado longo) que teve emoção a compensar pela menor clareza das ideias, e a que todos quantos têm vindo a apresentar moções, quase sem excepção, se vêm depois referindo. Se não for Marques Mendes, o Congresso ficará como agora é comum dizer-se desprovido de contraditório...
Vamos ao que interessa. Ao momento alto destes dois primeiros dias de agenda. Nota de elogio para o robalo da Adega do Forno, em Apúlia (julgo que é assim que se chama a povoação), que foi dos melhores peixes que comi na vida. Ah, como esta gente do PSD podia aprender com a leveza do bicho. Com a suculência dos seus lombos. Com a forma como o miolo se soltava do que era acessório: da espinha. Em suma, não me limitaria a dar umas aulas de eloquência à maior parte dos oradores presentes. Para o caso, uma lição de gastronomia podia fazer mais pelas moções apresentadas do que várias lições de professores que ensinam o proveito a tirar do nosso diafragma. O robalo, já agora, vinha distribuído por duas travessas que se estendiam por seis palmos dos meus. Palmas para ele.

Está a falar o Alberto João. Time to say goodbye.

sexta-feira, novembro 12, 2004

De Barcelos para Madrid (uma declaração de amor)

Pois bem, continuo a bloggar a partir do cibercafé... vocês já sabem o resto. Isto faz bem à saúde, porque sendo a função exercida de pé sempre ajuda à digestão de um jantar comido com a fome de seis ou nove horas. De vez em quando, passam nas minhas costas uns sujeitos que olham mas não devem entender peva destas "modernices". Finjo que os ignoro tal como o faço em relação à necessidade de estar para aqui a escrever umas coisas enquanto o resto da comitiva não chega e enquanto o bife não desce.
Mas há uma coisa importante a dizer, isto é, a escrever: uma declaração de amor para a mais especial das pessoas que neste momento deve estar a sentir tanto frio quanto eu, algures na cidade de Madrid. Sabes como gosto de ti e como este aparato alaranjado fica tão pequenino perto das coisas que realmente importam na vida. Adoro-te M. e queria que a solidão que sinto neste momento acendesse um qualquer néon aí onde tu estás e que essa imagem fosse a última coisa que visses antes de dormir.

Observador em Barcelos

Estou a bloggar a partir do cibercafé do XXVI Congresso do PSD, em Barcelos. Isto é muito excitante: o instante, não o Congresso! Quantos outros bloggers estarão aqui a fazer o mesmo que eu nesta altura? ZERO, aposto. E o que tenho mais a acrescentar neste momento tão particular? Que eles falam, falam, falam e que os outros escutam, escutam, escutam e ninguém pareceu lembrar-se que a hora do jantar ia já demasiado adiantada. Uns parecem alimentar-se de palavras; eu é mais bifes com molho de três pimentas se é que entendem o meu drama... Não mais esfomeado, antes enfartado e com a perspectiva de uma digestão muito lenta pela frente. Consta que esta gente (os congressistas em Congresso) pouco comem e pouco dormem.

quinta-feira, novembro 11, 2004

Ao espelho

Bastou-me olhar de soslaio para a capa da nova The Economist (que irei ler mais tarde) para perceber de imediato uma coisa: a expressão algo idiota que temos na frente, será mais a tradução do desconcerto da publicação face ao resultado das eleições norte-americanas do que a reincidência na caricatura do sujeito que os próprios não resistiram anteriormente a expôr ao ridículo.
A intenção, reconheço, poderá ter sido outra, mas resultou em espelho...

Sempre malte

- O gajo gosta tanto mas tanto daquilo, que foi ao ponto de descobrir umas bolachas óptimas recheadas com malte de cevada.

Slough's Xmas

Tudo fica bem quando acaba bem. The Office encontra também o seu final feliz... previsível. Misericórdia para David. Brent, no segundo episódio do período suplementar, tem o que merece: o que todos merecemos. Uma nova oportunidade. Não profissional, yeah?

Não vou ter saudades de David Brent... MENTIRA. Posso sempre voltar a ver os 14 episódios (6+6+2) e viver tudo "aquilo" outra vez. Na maré baixa.

quarta-feira, novembro 10, 2004

Demme desmascarado

“(…) Qualquer semelhança entre o filme do diretor Jonathan Demme e a imagem corrente da administração George W. Bush não é mera coincidência, claro – e esta refilmagem do cult homônimo de 1962 range sob o peso de sua agenda política ao mesmo tempo histérica e ingênua. (…) o filme de Demme não passa de uma peça de campanha, tanto quanto FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO de Michael Moore: foi lançado no dia seguinte ao final da Convenção do Partido Democrata que elegeu John Kerry seu candidato, com a ambição (como já se sabe, falida) de trabalhar contra a reeleição de Bush. O preço que Demme paga ao trocar uma visão autoral por um programa politico é alto. De um lado, a direção e as atuações resultam genéricas e impessoais. De outro, Demme não só usa o recurso ao medo e às ameaças apocalípticas, que são as armas do inimigo, como falha no seu diagnóstico. O assustador não é tanto que haja forças empenhadas em reprogramar os cidadãos – é que tantos deles se submetam ao procedimento voluntariamente.”

Isabela Boscov, na revista Veja, viu O CANDIDATO DA VERDADE como eu vi. Numa edição (a 1879 de 10 Nov.) onde também elogia o último Almodóvar. Vou continuar atento ao que escreve esta senhora.

Cinderelo

O que têm a ver os mistérios e os tormentos da devoção na música de ANTONY AND THE JOHNSONS, com a introdução de factores de correcção no tecido social e económico da cidade de Lisboa? Apenas a minha tarde de trabalho, uma vez que me recuso a assistir de pé a concertos que ainda por cima têm lugar depois da meia-noite.

www.patmethenygroup.com

GOOD NEWS...

“THE WAY UP” - NEW PAT METHENY GROUP RECORD - COMING JANUARY 2005!!!

The new record by the Pat Metheny Group is called “The Way Up”.

“ The Way Up” is a single continuous 68 minute composition written by guitarist Metheny and longtime collaborator/pianist Lyle Mays to feature the latest PMG lineup;

Pat Metheny - acoustic, electric, synth and slide guitars
Lyle Mays - acoustic piano, keyboards
Steve Rodby - acoustic and electric bass, cello
Cuong Vu - trumpet, voice
Gregoire Maret - harmonica
Antonio Sanchez - drums

Says Metheny “This is our most ambitious undertaking ever as a group - and we have never been so excited about a project. This record takes every aspect of the band to a new level.”

The new record by the Pat Metheny Group will be released on January 11, 2005 by Nonesuch Records with a world tour to immediately follow.


... & BAD NEWS

MARK LEDFORD PASSES
We are sad to announce the passing of longtime PMG associate Mark Ledford, Mark’s presence on “Stlll Life (talking)”, “We Live Here” and “Imaginary Day” with the PMG and his contribution to Pat’s “Secret Story” recording and tour made him an important part of this music. Pat and everyone associatied with the Group and the touring organization send their condolences to all of Mark’s friends and family. We will all miss “Led” and the incredible spirit that he brought to the music and the bandstand.

Projecto Paulo Francis (Letra J)

JAMES, HENRY: Aproveito este período de hibernação compulsória para ler as novelas curtas de Henry James. Realmente, não mereço tanto, não ter lido obras-primas como The Aspern papers, The beast in the jungle, The spoils of Poynton, ou reler The turn of the screw. Cometi um erro com James. Li as obras finas, mais difíceis, como The golden bowl, The wings of the dove e The ambassadors, em que James começou a ditar e perdeu, a meu ver, seu senso do concreto, do palpável. É possível dizer que as palavras de The golden bowl significam precisamente o oposto do que pretendem. O que é cansativo e sem o charme melodramático dessas obras menores que citei. (O Estado de S. Paulo, 24/1/91)

Tudo o que James escreveu tem sabor de invenção, de novidade, porque pouco sabia da vida real, solteirão virgem, protegido por uma renda que o tornava independente e deixava sua imaginação correr, criando literalmente um mundo novo em cada ficção. Henry James é um dos prazeres da vida. (O Estado de S. Paulo, 1/4/93)

A Oficina começa prá semana!

APRENDER A LER - OFICINAS DE ESCRITA E DE LEITURA CRÍTICA
na Livraria Ler Devagar
Com ABEL BARROS BAPTISTA
INÍCIO: 15 DE NOVEMBRO DE 2004
TOTAL DE 6 SESSÕES SEGUNDAS-FEIRAS ENTRE AS 18H 30M E AS 20H 30 M ( SESSÕES DIAS 15, 22 E 29 DE NOVEMBRO, 6, 13 e 20* DE DEZEMBRO)
PROPINA ÚNICA: 100 EUROS
Definição e Objectivos: desenvolvimento da capacidade de leitura literária, ao mesmo tempo elucidação de problemas teóricos e exercício de leitura minuciosa através da análise da novela de Henry James The Figure in the Carpet.
Destinatários: todos os interessados.

As pré-inscrições deverão ser feitas enviando um e-mail para ficcoes@ficcoes.net

* sujeito a confirmação

mais informações aqui.

terça-feira, novembro 09, 2004

Vai subir?

Comprei como compro sempre o Record no dia seguinte aos jogos do Sporting, só que, desta vez... às duas da tarde. Ao entrar pouco depois (ainda sob o efeito da manchete) no elevador, fui assaltado por uma terrível visão: Fábio Rochemback trajando de azul e branco já na época de 2005/2006. "ROCA NO PORTO!", passou-me assim de atropelo enquanto aquilo não parava para eu sair no 3º Andar. Por troca, o Roca, com Maniche que faria assim companhia ao Deco no Barcelona - mas este pormenor já não tem importância.

segunda-feira, novembro 08, 2004

Redundant

Aqui em casa, a 2ª época de The Office chegou ao fim: há ainda os episódios extra, de Natal, para ver mais tarde. David Brent acaba despedido, de joelhos, em lágrimas. A suprema humilhação para este homem que se julgava no topo do (SEU) mundo. The Office é uma série magnífica! Magnífica, ouviram bem? Não esperem pela edição nacional. Optem pelas legendas em inglês e sofram com a inevitabilidade de amar um ser que devia merecer todo o nosso desprezo. yeah... yeah...?

Pelo que ouvi... o que é nacional é que foi bom

O Sporting jogou encolhido: é como jogamos quase sempre, quando o adversário chama-se Futebol Clube do Porto. Costinha e Maniche meteram no bolso todo o meio-campo leonino. Carlos Martins, que não esteve em campo sequer meia-hora, fez à sua conta mais remates do que o resto da equipa no resto da partida. O Porto dominou o jogo: e como dominou! A magia de Diego, pelo que ouvi, fez o resto... O resultado, que ameaçou ser escasso, acaba com um 3-0 castigador. Acho que é forçoso para o Sporting reconhecer que não é candidato ao título. Pelo menos não este ano.

Projecto Paulo Francis (Letra I)

IMPOSTURA: Meu desprezo pela humanidade nada tem de solene. É sadio e franco. Acho chato ouvir gente chata falar. Acho agradável todo tipo de pessoa que não pretenda ser aquilo que não é. O orgânico, o verdadeiro, sempre encantam. A impostura é que me entedia.
(entrevista a Folha de S. Paulo, 22/3/79)

Este homem

A principal novidade introduzida na 2ª temporada da série THE OFFICE, é a concentração do mecanismo de tortura sobre David Brent, o gerente, cada vez mais acossado e exposto ao ridículo. Sabendo-se que Brent, criado por Ricky Gervais, é interpretado pelo mesmo, percebemos que a série, cada vez mais trágica, atinge de episódio em episódio novos e impensáveis patamares de masoquismo televisivo.
THE OFFICE é uma comédia tornada genial pela intromissão de elementos trágicos que fazem com que assistamos ao quotidiano daqueles personagens com um nó na garganta e um sorriso congelado: David Brent é uma criança em corpo de homem ridículo, pronto a abater. Só ontem, despachei os primeiros 5 de 6 episódios. Masoquismo é bom e vicia!

domingo, novembro 07, 2004

Helena Matos

«Na vitória de Bush existem dados que de modo algum podem ser ignorados e um deles é a derrota do unanimismo. Do pensamento único. Do politicamente correcto. Ou de como se quiser chamar a essa arrogância que tem levado milhões de almas a considerarem que apenas os estúpidos, os ignorantes, os intelectualmente intoxicados e, claro, os que representam obscurantissimos interesses discordam das suas teses. (...)

Nas democracias, os continuadores desta gente de convicções sólidas sobre o QI e o carácter dos outros, são os zelosos arautos do politicamente correcto. E estes arautos instituíram Bush como o inimigo. Logo ao mesmo tempo que o depreciavam intelectualmente, apresentavam-no como isolado do mundo da cultura. Listas de cantores, realizadores de cinema, jornalistas, escritores... foram-se declarando anti-Bush e essa tomada de posição era apresentada como um acto de resistência pese ser absolutamente consensual no mundo de que provinham essas pessoas. O aval dos intelectuais e dos artistas a determinados líderes e a sua rejeição a outros funciona não apenas em termos obvia e directamente mediáticos mas também de forma muito mais profunda apelando a que haja uma identificação entre o líder apoiado e a inteligência. O líder rejeitado, antes pelo contrário, é apresentado como anti-cultura, anti-inteligência. No mundo do pensamento único está instituído que Bush é estúpido pois Michael Moore - tão culto e que tem tido tantos prémios de cinema - provou que ele é estúpido. (...)

A este subestimar constante dos adversários - note-se que nunca se subestima a sua força, antes se exagera porque o pensamento único precisa de inimigos apenas se subestimam as suas capacidades intelectuais e o seu perfil moral - junta-se o culto dos líderes do pensameto único. Os baús da História estão cheios de fotografias retocadas, biografias amputadas ou pura e simplesmente inventadas. (A quem quiser contemplar este exercício numa versão praticamente extinta recomendo o site da Coreia do Norte http://www.korea-dpr.com ou o jornal cubano Granma na sua versão digital http://www.granma.cu ). Na versão mais corrente e próxima temos já não a criação de personalidades exemplares de Chefes, Queridos Líderes, Grandes Timoneiros, Generalíssimos... mas sim títulos como "John Kerry, aristocrate de gauche" ( jornal "Le Monde" de 26 de Julho) que revelam não só um profundo desconhecimento quer do programa quer da biografia de John Kerry como uma enorme e inquietante disponibilidade para sobrevalorizar um homem, no caso Kerry, em detrimento de outro, no caso Bush.

Independentemente do candidato que se tenha apoiado, as eleições norte-americanas acabaram por ilustrar a cegueira a que conduzem os consensos inquestionáveis e os unanimismos. Contudo no nosso dia a dia, eles estão aí, às vezes tão absurdamente evidentes que já não nos espantam nem indignam. Veja-se, por exemplo, a forma como, esta semana, foi relatado o assassínio do realizador Theo van Gogh: "O realizador holandês da curta-metragem Submissão, Theo van Gogh, foi ontem assassinado, em pleno dia numa rua de Amesterdão. O controverso cineasta acabara de realizar um filme sobre o assassínio do político populista e de ultradireita Pim Fortuyn, morto em Maio de 2002. O suspeito, de 26 anos, foi descrito como tendo barba comprida e estar vestido como um muçulmano." Ou seja, segundo esta notícia do jornal "A Capital", igual nos seus preconceitos a tantas outras que relataram esta morte, o assassino é o único que tem direito a um tratamento isento: apesar de estar vestido como muçulmano e de mais à frente se ter acrescentado que possuía nacionalidade marroquina ninguém o adjectiva de nada. Não é controverso, não é fundamentalista islâmico, não é racista, não é anti-ocidental.

Imaginemos que Theo van Gogh em vez de fazer um filme sobre a violência a que o Islão submete as mulheres ou sobre o "político populista e de ultradireita Pim Fortuyn" tinha optado por tratar a vida de Chico Mendes, o líder dos seringueiros brasileiros assassinado em 1988 e que o homem que o matara tinha nacionalidade brasileira. Então esta notícia seria mais ou menos assim: "O cineasta conhecido pelas suas corajosas posições de apoio à luta dos povos da Amazónia acabara de realizar um filme sobre o assassínio do carismático líder seringueiro Chico Mendes, barbaramente assassinado no final de 1988 por homens a soldo dos grandes fazendeiros do estado do Acre. A possível ligação do assassino de Theo van Gogh aos responsáveis pela morte de Chico Mendes parece ser inevitável." Como Theo Van Gogh não escolheu os temas certos é um assassinado "controverso".

Moral da História: no pensamento único nada se perde, tudo se transforma.»

(Na escolinha do pensamento único, Público 6 Nov.)

sábado, novembro 06, 2004

E Bush também tem um chip enfiado na cabeça

Tendo em conta os pergaminhos de Jonathan Demme (há algum tempo afastado da ribalta, é certo...), The Manchurian candidate, O Candidato da verdade não merece outro título que o de pastelão. Percebo o intuito de desafiar a percepção que temos da (ainda!) actual governação norte-americana, só que as metáforas são tão estafadas que a certa altura perguntei-me a mim próprio se este filme não seria assinado por Alan Parker em vez do bom velho Demme - o de Wild thing, Married to the mob, Silence of the lambs.

Denzel Washington, Meryl Streep, Jeffrey Wright, Jon Voight, Miguel Ferrer, Bruno Ganz, Paul Lazar, Roger Corman: talento não falta, falta é talento!

Para assistir a thrillers políticos previsíveis e aborrecidos como este, dêem-me antes séries de TV, sff.

A miar este fds no Tivoli

Os gatos gajos do "fedorento" têm muita piada. A disritmia do espectáculo é quase perfeita: o intervalo é a única coisa que está a mais. Ah! servem-se línguas do "dito" para quem não tiver tempo de jantar. Sexta, sábado e domingo, sempre às 21h30.

sexta-feira, novembro 05, 2004

...insegurança a minha!

Quando hoje folheei pela primeira vez a nova Op (visões da matéria), procurei primeiro textos sobre discos que já tenho. E li-os como quem espera pela confirmação de ter feito as compras acertadas. Só depois me lembrei que com uma revista como a Op, tal diligência não faz sentido. A Op só fala das músicas que gosta - esta é uma publicação desprovida de contraditório... Donde, disco que apareça na Op tem garantidamente o aval do(s) colaborador(es) da revista. Exemplos: "Watercolours - Swedish songs", de Anne Sofie von Otter; "Music for home - vol. 2", de Rob Ellis; "Resistir é vencer", de José Mário Branco; "High water", de EL-P; "Komorebi", de Yuichiro Fujimoto ou "Waltz of a ghetto fly", de Amp Fiddler. Sons para todos os gostos que cabem na crença da nova Op.

Banco do lado

Os balcões da Caixa Geral de Depósitos estão para o Portugal que ainda somos, como o atendimento do Millennium BCP está para o País que já somos. Conclusão: a publicidade anda sempre mais depressa do que o funcionalismo público. E quando vamos a um Banco não é para perder tempo.

Familiar

Ontem, desesperado por iniciar de vez a leitura de FATHERS AND SONS: THE AUTOBIOGRAPHY OF A FAMILY, de Alexander Waugh (filho de Auberon, neto de Evelyn), carreguei o livro comigo para a casa de banho, pouco antes do jantar, por lá ficando até deixar de sentir o corpo abaixo da cintura.
Foi um começo em grande. O acolhimento perfeito no seio de uma família plena de gente virtuosa.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Coitado do Panionios

O Sporting ainda fez quatro golos, mas o resultado pouca relação tem com a qualidade irregular do jogo. O Panionios é daquelas equipas que só servem para atrapalhar.

Need I say more?

THE SECOND TIME AROUND
(Cahn/van Heusen)

Love is lovelier, the second time around
Just as wonderful, with both feet on the ground
It's that second time you hear your love song sung
Makes you think perhaps that love, like youth, is wasted on the young
Love's more comfortable the second time you fall
Like a friendly home the second time you call
Who can say, what brought us to this miracle we've found
There are those who'd bet
Love comes but once - and yet
I'm oh so glad we met
The second time around

quarta-feira, novembro 03, 2004

Nunca se sabe...

Agora que os apitos de todos os comboios, de todos os países, do mundo inteiro, deixarão de apitar histericamente como se fossem todos anunciadores do trajecto para a razão e para a verdade e para o paraíso, das não mais inconciliáveis diferenças entre os homens de bem e os homens de mal, nada melhor do que um serão na companhia do pragmatismo hawksiano presente no insuperável RIO BRAVO: um western onde até as mulheres "cospem" chumbo grosso.

O republicano do dia (benditos headphones!)

As minhas duas boas acções republicanas do dia foram:
1) A pedido do meu pai - independentemente do resultado das eleições americanas (disse-me ele!) - ter-me disponibilizado para lhe comprar o DVD do FAHRENHEIT 9/11 que veio com o Expresso. Tê-lo feito e sentir prazer (agora sem ironia) em o ter feito. Mas da cobrança dos 8,90 euros não se livra ele...
2) Reconhecer que LOVE SONGS FOR PATRIOTS assinala o regresso "assinalável" dos American Music Club que já não gravavam juntos há dez anos. Se é para escarnecer do patriotismo americano; se é para olhar para a política dos Estados Unidos como quem assiste a um show de striptease; se é, por outro lado, para não encontrar melhor consolo nos braços do amor, então que essa mesma raiva seja destilada por um trovador do calibre de Mark Eitzel, acompanhado dos músicos de quem ele nunca deveria ter-se separado. LOVE SONGS FOR PATRIOTS é como aquelas coisas que sabemos que podem fazer-nos mal mas a que é impossível resistir. Ouçam-no bem alto na privacidade do vosso próprio teatrinho de fantasmas.

Livra

Pouco a pouco (ou como se diz por lá, "little by little"), até o funcionamento dos meus intestinos vai regressando à normalidade.

Ora cantem pianinho...

PRESIDENTE BUSH (Zonzé)

"Se você já sabe
Quem venceu
As eleições no faroeste,
Desembuche:
Eu desconfio que foi o Bush.

Foi o Bush,
Foi o Bush,
Foi o Bush.

Não haverá recurso
Para dar um bom repuxo
No presidente Bush? (coro) NÃÃOO!!!!
Quem falou alicate
Que cale esse dislate
Pois deve estar confuso.

Talvez o parafuso
Que dizem faltar nele
Tenha perdido o uso.
O chip desligou-se
O mundo então calou-se,
Lamentando o abuso."

(silêncio!) BUSH GANHA...

... E ESTE SR. FICA. É o cenário mais provável: os leitores de Mark Steyn - no caso, os que não são eleitores da América - agradecem!

MORE: Não se acreditando que Michael Moore exploda de raiva, prevêm-se mais quatro anos na ribalta da demagogia para o "documentarista" norte-americano. O "oscar" e a "palma" não foram suficientes, chuack... chuack... chuack.

segunda-feira, novembro 01, 2004

Os melhores

O MELHOR TEXTO NA BLOGOSFERA:

Um desabafo e "Até quando, Possidónio Cachapa?"

Há mais de um ano, mais precisamente no nº 4 da revista Periférica (Inverno de 2003), publiquei um texto sobre António Mega Ferreira, Possidónio Cachapa e Inês Pedrosa. Ontem, por causa da capa com o António Lobo Antunes e de uma chamada para a página 44 – Possidónio Cachapa, “Autobiografia” – comprei o Jornal de Letras, Artes e Ideias. Pensei, perguntei-me: será que o jovem Cachapa já está a escrever a sua autobiografia? Será pré-publicação? Mas quantos anos tem o homem? Sessenta? Setenta? Que vida foi a dele? Que episódios, acontecimentos levam o jovem escritor (39 anos) a relatar-nos publicamente a sua vida? Dei o benefício da dúvida, gastei 2 euros e 60 cêntimos, o preço do jornal. Antes de continuar, e em clima de tanta barafunda por causa do Prof. Marcelo e da liberdade de expressão, vou contar-vos uma historieta sobre a relação imprensa/publicidade/(pequeno) poder económico.
Antes de colaborar na Periférica (à borla, não recebo cheta), trabalhava na revista Os meus livros (a sucessora da Livros, que pertencia ao Independente que, por sua vez, pertencia a Paes do Amaral), dirigida pela jornalista Tereza Coelho (onde me pagavam, quando calhava e depois de muitos telefonemas, chatices várias, mal e porcamente). Em conversa com a Tereza, discutindo os livros sobre os quais iria escrever, sugeriu-me e passou-me para a mão três livros de autores portugueses: Amor, de António Mega Ferreira, O Mar por Cima, de Possidónio Cachapa e Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa. Que fizesse um texto maior, duas páginas da revista, sobre. Acrescentando, quando já me ia embora: “é para dizeres mal...” E riu. Eu também ri, cúmplice: conheço-me, sei que tenho uma propensão congénita para o mal-dizer, além disso conhecia a escrita deles, à partida já não gostava, já tinha lido outras coisas, só um milagre me faria mudar de ideias, afinal as pessoas não mudam de escrita de um dia para o outro mas, quem sabe... E fui ler, sublinhei, voltei a reler páginas para atrás, para me certificar, para tentar perceber coisas que à primeira me tinham escapado. Ao fim de uma semana, mais coisa menos coisa, estava feito. E dizia mal, muito mal, pessimamente. Uma merda, para falar depressa e bem. Telefonei à Tereza: olhe que a coisa está forte, gostava que lesse, que se certificasse se há frases insultuosas e mal fundamentadas. Leu, riu-se, ri-me, tudo bem, não está insultuoso, está bem fundamentado, vamos em frente. Fui para casa feliz da vida. Quando voltei à Tereza, para entregar outro texto sobre um outro livro qualquer, perguntei: quando é que sai? Não sai, ou mudas o texto ou não sai. E mais disse: está insultuoso e mal fundamentado!!! Utilizas frases retiradas do contexto e isso não pode ser, não fundamenta opinião nenhuma (que tal citar os livros por inteiro?, respondi, tentando manter a calma, o sangue frio). Escuso-me a relatar quer o que senti, quer a minha reacção. Limitei-me a dizer que assim não, assim batia com a porta. Tudo bem, se é isso que queres, limitou-se a dizer-me. Sem mais cenas, sem pedidos para que reconsiderasse, que a porta estava sempre aberta para quando quisesse voltar (havia uma testemunha: José Prata, o braço direito da Tereza, logo desmentirá a minha versão, é certinho). Fui-me. Não me pagaram o texto, o trabalho, não fiquei com os livros (para oferecer a certos amigos que eu cá sei ou para vender nos alfarrabistas). Não me surpreendeu. A falta de profissionalismo e a incompetência da Tereza são do conhecimento geral: dá os mesmos livros a diferentes colaboradores para escreverem e no final há um dos textos que vai fora, fica na gaveta, porque a senhora se esqueceu, fez confusão, sem um pedido de desculpa, sem o legítimo pagamento; com outros textos, perde-os simplesmente ou diz que não os entregámos; corta textos, subtrai frases, acrescenta outras da sua lavra; troca as assinaturas dos textos dos colaboradores (a mim aconteceu-me). Assim, com grande descontracção, leveza e um encolher de ombros. Estas coisas demoram tempo a perceber, principalmente numa fase das nossas vidas em que escrevemos quase de graça, queremos é ver os nossos textos impressos, sentir essa vaidadezinha, a ilusão que nos lêem. Qual o valor do dinheiro perante isso? Quase nulo. E, no fim de contas, que interesse tem tudo isto? Quase nenhum. É apenas um exemplo de como o poder económico (pequeno, neste caso pequenino) fala mais alto. Um exemplo da pequena censura. A revista arriscar-se-ia a perder a publicidade das editoras do Mega, do Cachapa e da Pedrosa. No dia em que o meu texto deveria ter saído, lá estava a dita publicidade, ainda por cima a um dos livros referidos, o do Possidónio. Além disso, a Inês Pedrosa tinha elogiado, na sua crónica do Expresso, a revista da Tereza (que deve ter pensado: como poderei eu publicar um texto a dizer mal da Pedrosa depois de ela me elogiar publicamente?; eu até não gosto dos livros delas, mas tenho de ter cuidado, ninguém pode saber, o importante é, à boca grande, dar umas palmadinhas nas costas, fazer umas visitas, fazer exercícios de curvatura de espinha; e o Mega, o todo poderoso Mega, ele está em todo o lado, não posso arriscar-me, posso ficar sem a revista, podem mandar-me fechar a loja...). Pessoalmente, tudo isto não passa de um desabafo, depois de quase dois anos decorridos.A parte do texto que escrevi sobre o Possidónio Cachapa (afinal foi ele quem desencadeou estas memórias, esta “autobiografiazinha”) dizia assim:

O Mar por Cima, de Possidónio Cachapa. Uma prosa encaracolada, com planos temporais alternados, não passando de jogos de arquitectura narrativa que até o leitor mais atento sente dificuldade em acompanhar. Não espanta por isso que haja uma confusão de personagens, quase fantasmas, que não têm qualquer espessura psicológica e se esquecem ao virar de cada capítulo. Conseguimos perceber, no entanto, que há a Manuella, de famílias bem, finalista de arquitectura, alvo de assédio sexual no trabalho. O Ruivo, um polícia com problemas mal resolvidos que se apaixona por Manuella. O Xuinga, um delinquente afro-descendente que assalta o Miguelito numa casa-de-banho pública (a cena prolonga-se por quase todo o livro). E pouco mais, além de uma parte da acção decorrer nos Açores, enquanto Manuella e Ruivo vivem na Lapa. Lá pelo meio, sem se perceber muito bem, há sexo, brutalidade policial, ganzas, calão, pedofilia e homossexualidade. Como dizia Jorge de Sena, “não passam de conservas de realidade no azeite dos lugares comuns”.Mas vamos à escrita. Alguém sabe explicar o que é um “abismo preguiçoso” ou um “penhasco vulgar”? E as “masmorras do umbigo”? Repare-se em frases como: “o pé numa poça fria, estava um rapaz pequeno” (p. 45); “corpos lançados à lua, como que a subirem planetas à unha” (p. 58); “quando não se nasce com jeito de mãos, fica-se sempre em estado de emaravilhamento perante o manual criar dos outros (p. 81); só mais esta: “do mar, a terra parece que chega sempre mais depressa do que sim” (p. 213). E depois há foleirices como “curvas de antebraços que se amam”, “sorriso moldado entre maços de tabaco”, “fumadores que fumam o último trago”, parágrafos que começam com “eram oito, as horas, quando…”, imprecisões, como chamar batráquio à osga, quando se trata obviamente de um réptil (p. 88), afirmações enigmáticas como “a meia-idade é o limbo do sexo no coração dos filhos” (p. 95); “fechar com chaves a alegria porque imaginamos que os samurais são mais felizes” (p. 128).As vírgulas são anárquicas, umas vezes entre o sujeito e o verbo, outras tornam a leitura dolorosamente soluçante. Enfim, uma escrita que não cataliza a acção, sem causalidade, onde as insinuações, as ambiguidades e as situações estão mal construídas, com a excepção do capítulo onde Manuella e Ruivo se conhecem. Não é fácil dizer bem.”

Este naco de crítica mereceu uma resposta do escritor: referia-se-me como “um sincero camponês que se assina pelo aristocrático nome de George” e “boy George” (esta gostei, teve piada, há que reconhecê-lo). A minha réplica, no blog da Periférica, terminava com: “para quem se assina pelo Possidónio nome de Cachapa, é preciso ter coragem e estômago de baleia. Há quem lhe chame completa ausência de boa educação e sugira a leitura quotidiana de manuais de urbanidade. Eu chamo-lhe apenas criancice.” A questão ficava arrumada. Ele não me gramava, eu não gramava a escrita dele, dificilmente voltaria a perder tempo a lê-lo. Mas não resisti, não resisto. O texto do JL intitula-se “Começar outra vez”. Aparentemente, não se trata de uma pré-publicação do novo livro, uma autobiografia, do autor de A Materna Doçura. Trata-se de uma crónica, na última página do jornal, onde antes escrevia o não menos inenarrável Jorge Listopad (venha o diabo e escolha). A crónica, desde logo, começa bem, outra vez: “Era Abril e se calhar chovia. O que em Évora não é mau, pois nem tudo era confortável nesse tempo”. E continua, mais à frente: “Cresci entre pradarias improvisadas, cheias de índios, e fornos de cal desactivados que faziam as vezes de gruta. E tinham eco. E tinham eco.” Aquele pradarias seria um jogo de fonética com “padarias”? Fornos de cal?, para cozer pão? Índios?, os padeiros? E aquela repetição – “E tinham eco. E tinham eco” – será o quê? Serve para quê? Logo a seguir, sem mais aquela, à laia de erudição patético-foleira, uma expressão latina: “in illo tempore, crianças caminhavam ao longo das estradas”. É extraordinário. Reparem, estas coisas publicam-se e sem que ninguém diga nada, faça um reparo, chame a atenção. Talvez o mal esteja em mim, masoquista me confesso: é que o Possidónio continua a abusar da minha paciência. Vejam-se só estas frases, expliquem-mas, s.f.f.: “Onde se prova que são prematuros os que morrem mais...” (a frase acaba aí mesmo, as reticências vêm no original). Mais e mais: “com os cabelos molhados de banhos em pedreiras imortais”, “foi aí que rebentou o 25 de Abril e a ordem das coisas se alterou. Podia andar-se pendurado dos braços dos adultos, que lavavam as ruas com gritos de «Fascismo Nunca Mais» ou de «A terra a quem a trabalha!»” Uma maravilha. Andar-se pendurado dos, lavar ruas com gritos. Mas Possidónio, apesar de tudo, revela alguma ciência, dois dedos de testa: “Também é aí que se aprende que se pode escrever com clareza sobre tudo, menos sobre nós, mistério maior do que se traz às costas”. Depois, em jeito de manifesto, lança-nos com isto à cara: “o fracasso das boas ideias [leia-se, as coisas que escreveu, os argumentos, as cenas de teatro e os sketches de televisão] mal explicadas a um país de surdos. A desilusão. A incapacidade de viver entre argolas e setas alaranjadas [atenção Santana!]”. Sobre A Materna Doçura: “a maioria dos leitores recebeu-o como ele tinha de ser recebido: como um documento sobre a busca do amor. Foram precisos vários anos e uma nova edição mais alargada para que o Sistema de Informações e Segurança do Sântano (SIS-S) o metesse no Índex dos livros «potencialmente criminosos», ao lado dos de Thomas Mann ou de André Gide”. É preciso ter lata, ser muito vaidoso. E aquele SIS-S é o quê? Que raio de subtileza é esta? Concretize, homem, tem medo do quê? Não estamos no Estado Novo, as ruas já foram lavadas com gritos... E que Índex é aquele? Percebem alguma coisa? Que autobiografia é esta? Que escritor é este? A gabarolice do Possidónio é de arrancar os cabelos. Ele, que tão indignado ficou com a minha crítica, vem depois armar-se no grande cívico, o alerta consciências, o escritor-sirene: “E as crónicas? Perguntei-me várias vezes, por que diabo as escrevia eu, se tanta gente preferia que me ficasse apenas pela invenção. E só me resta responder «por presunção»; pelo meu lado humano, o de quem está vivo e sonha com um país melhor. A ilusão de contribuir para o debate. Dizer o que se pensa num país em que se pensa no que NÃO se deve dizer, não é muito fácil (nem dá tanta alegria como possa parecer). Mas ainda assim é uma vontade que se instala. Como se fosse a minha vez de estragar as mãos a construir o parque infantil onde os meus filhos brincarão adultos”. Enternecedor, sem dúvida. Mas muito descaramento. Ele que não aceita críticas e goza com o meu nome, não discute sequer ideias, opiniões, limita-se a brincar com o nome que Deus e a minha família me deram. E cagança, muita cagança: “ilusão de contribuir para o debate”, “dizer o que se pensa”. Realmente é preciso ter muita coragem para falar de SIS-S e outras referências sibilinas, não concretizadas, não assumidas. É melhor parar por aqui, apenas uma última referência às fotografias que acompanham este texto miserável: Possidónio com as primas aos 6 anos, Possidónio aos 12 anos, Possidónio na actualidade. Piroso, convencido e, pior, desprovido de todo e qualquer sentido de auto-crítica. Basta! Até quando, Possidónio?

P.S. Peço desculpa pela desproporcionalidade deste texto. A verdade é que tudo isto me irrita e muito. E, bem vistas as coisas, tenho estado ausente deste blog.

João Pedro George in esplanar


O MELHOR TEXTO SOBRE A BLOGOSFERA:

Louvor simplificado dos blogues

«Jantar com a Dulcineide [nome suposto]. Penoso. A relação patina há muito. Fui para me despedir, só queria ver-me dali para fora, em todos os sentidos. Deixei que ela pagasse a conta, passei rapidamente pela Fnac, a comprar o 'Fala com ela' do Almodóvar, e vim para casa. Enquanto ligava o dvd, resolvi escrever isto.»
Eis um exemplo de prosa possível num blogue; talvez caricatural, talvez descritivo, em qualquer caso, «isto» seria um… post. (Para quem nunca viu, post é a designação dada aos textos, datados, de que os blogues se compõem.) Entretanto, interessa menos a prosa do que este traço, típico do blogue: a sorte de Dulcineide estaria legível em São Paulo ou Singapura, Lisboa ou Tóquio, ainda antes que a pobre tivesse terminado a digestão. A velocidade é o elemento importante, claro, aliás importantíssimo se conjugado com este outro: a decisão de difundir a prosa — de a «postar», o que significará a um tempo endereçar e afixar — cabe exclusivamente ao próprio blogueador. Rápido e solitário: acabado o texto, a difusão, que o torna legível em São Paulo ou Singapura, Lisboa ou Tóquio, está ao alcance de um cliquezito, ou pouco mais. Pouquíssimo mais: entre o escrever e o difundir, quase nada se interpõe, ao extremo da ilusão de que a passagem da escrita à reprodução, além de instantânea, nem chega a existir.
Mas existe, e aí está toda a novidade. É sabido que, com a invenção da tipografia, a técnica da escrita e a técnica da reprodução se tornaram heterogéneas. A diferença, que determina todas as prática envolvendo o papel impresso — da filologia ao jornalismo, do ensino à crítica literária, incluindo o comércio editorial com respectivas consequências, extensões e perversões —, não podia ser reduzida pelo desenvolvimento da tipografia. Pelo contrário. O crescimento da capacidade reprodutiva também reforçou os inerentes dispositivos de mediação, de tal modo que o escritor — em sentido muito lato: aquele que escreve — foi definitivamente excluído da esfera da reprodução: as principais decisões, a começar pela decisão inaugural de reproduzir tecnicamente o texto que escreveu, não lhe competem. Esta situação não se alterou com a generalização da Internet, bem menos acessível do que muitos pensam. A reprodução tornou-se, digamos, inconspícua: olha-se para o computador, liga-se o modem, até se pode segurar certo cabo e seguir-lhe o percurso, aliás curto, e não se vê logo por que meios assim se reproduz a primeira página do New York Times em casa de um cosmopolita instalado em Vila Viçosa. Isto impede representações populares, a esse outro extremo da ilusão que induz alguns a suporem a Internet comunicação «desmaterializada». Percebe-se, em qualquer caso, que a eficácia técnica requer equipamento, exige conhecimentos especializados — o que quase sempre se traduz na contratação de especialistas —, tem custos de construção e manutenção, e daí que um site possa acabar mais pesado e mais inerte do que um velho cartapácio.
Agora reparem na novidade do blogue. Surge na Internet, e rápido passa de weblog — espécie de entreposto crítico, mediador que escolhe e comenta a informação disponível na imensa rede — a blog, modo multiforme, aberto, mutante, selvagem. E proliferando. Porquê? Acho que são três as razões. Não requer treino especializado em qualquer campo da informática: quem souber usar o computador para escrever e vaguear pela Internet pode ter o próprio blogue sem precisar de nenhuma formação suplementar. Acresce que o software requerido, além de simples, nem custa dinheiro, e estão disponíveis várias modalidades efectivamente gratuitas de criação e manutenção de todos os blogues que um sujeito ambicione, sem autorização, sem inscrição, muito menos contrato. Em consequência, terceira razão, o blogue escapa ao ordenamento jurídico que regula a produção e circulação de material impresso: os blogueadores não recebem direitos de autor, podem plagiar ou atribuir os próprios textos a outros, difamar ou caluniar, a coberto do anonimato ou assinando com pseudónimos facetos, tal como podem ser espoliados do que escrevem, difamados, caluniados, etc. Não significa, é claro, que tudo isso ocorra em regra: significa a possibilidade de ocorrer sem que os meios regulares de coerção sejam eficazes. A figura do sujeito civil anterior ao escrito e dono dele, responsável e imputável, em que assenta o ordenamento jurídico do impresso, revela-se, com os blogues, aquilo que realmente é: mera presunção. Neste aspecto, a «blogosfera» aproxima-se da ficção romanesca. O blogueador não tem que existir para que o blogue exista: não precisa de identidade civil, nem de domicílio fixo, nem de número fiscal ou cartão de eleitor. Pode ser uma agremiação, um morto ou um fantasma; alguém em nome de alguém, alguém sem nome, alguém dando-se vários nomes, ou então vários nomes fundidos, simultânea ou rotativamente, num só. Curiosamente, esta pulverização do sujeito civil decorre da novidade decisiva: a decisão, final e eficaz, graças à qual o texto entra na esfera da reprodução cabe a quem o escreveu e no momento em que o concluiu, sem intermediários nem diferimento no tempo. O cliquezito envia o texto para o mundo logo após o último ponto final.
Nada admira por isso que os blogues proliferem. Dir-se-ia cumprirem a promessa moderna de fazer de cada leitor um autor. Como nada admira que a reacção da esfera pública tenda a reter a proliferação, sem cuidar de discernir o que ali há de diferente e efectivamente novo. O primeiro efeito é reduzir a «blogosfera» a submundo habitado pelos excluídos do impresso. Ora, nada se ganha em sublinhar que muitos blogues desrespeitam, para dizer o mínimo, as regras e protocolos dos jornais. Com certeza que sim: mas talvez se devesse acrescentar que tal desrespeito entra necessariamente na descrição da sua razão de ser. Há neles uma liberdade de linguagem que não se encontra em nenhum jornal; uma diversidade de assuntos impensável numa revista; sobretudo um privilégio do humor incompatível com a pose sisuda de quem é lembrado da existência de accionistas e anunciantes. Por outro lado, topa-se a cada passo com trivialidades, ingenuidades, descobertas da pólvora; exibicionismo infantil; artistas da palermice; muita vidinha graduada em experiência, muita opinião mascarada de argumento. Nisso, porém, é impossível não perceber que a ampla abertura dos blogues facilita, ou mesmo estimula, o mimetismo da imprensa periódica. Ainda assim, vale sublinhar que, em geral, os blogues portugueses atingiram um nível que, na escrita ou elaboração, na intervenção política ou no debate cultural, supera o da imprensa regular.
O maior problema é a forma. A facilidade e a rapidez sugerem espontaneidade, comunicação imediata, pura expressão; a composição pelo post e a ordenação cronológica precipitam o esquecimento ou mesmo o desaparecimento do que vai ficando para trás: datado, logo perdido. Como dar forma ao que, pelas próprias condições peculiares de produção e reprodução, se constitui avesso à ideia de forma? O problema é novo, a solução começa forçosamente pela recuperação do antigo. O modelo óbvio de configuração formal é o diário, íntimo ou intelectual, mundano ou cultural, tornando-se em sentido preciso um jornal: dia a dia, cada nova entrada sucedendo às anteriores, mas caducando-as. Com o blogue, podemos ler um diário precisamente à medida em que se escreve: mas isso mesmo lhe retira logo o carácter reservado e, sobretudo, o impede de se reconfigurar como um todo, ou seja, nega-lhe a constituição em livro, afinal inerente ao diário. A incompatibilidade do blogue com a forma reduz-se à incompatibilidade com o livro: outro traço necessário da descrição da sua razão de ser, ou outra forma de situar o blogue no processo das técnicas de reprodução.
O livro recente de Pedro Mexia, Fora do Mundo, composto de textos dos blogues que o autor manteve durante cerca de um ano, ilustra estes problemas, ou talvez melhor, ilustra um modo de o blogue sobreviver à liquidação criteriosa daquilo que o define. Os critérios de organização do livro que o autor apresenta no começo correspondem à supressão de outras tantas características distintivas do blogue. O livro, então, não reproduz o blogue; mas, por outro lado, não se justifica nem entende sem o concurso daquilo mesmo que liquidou. O livro sobrevive: conjunto de anotações, ora longas ora brevíssimas, onde se encontra muito, cinema ou literatura, jornalismo ou música pop, maledicência ou discussão política, mas que no seu todo não chega a formar um diário, nem livro de crónicas, nem mera recolha de apontamentos. O livro sobrevive: muito mais como forma de ensaio, múltiplo, divagante, desordenado, como se mimasse no meio antigo a novidade impulsionada pelo meio novo. Na sobrevivência do livro, entretanto, fica a promessa do blogue. Logo se verá.

Abel Barros Baptista in Ler Nº 64


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