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segunda-feira, janeiro 31, 2005

Auto-retrato


Parmigianino. Self-Portrait. 1524
H. W. and Anthony Janson write,
The first phase of Mannerism was replaced by one less overtly anticlassical, less laden with subjective emotion, but equally far removed [as early Mannerism] from the confident, stable world of the High Renaissance. The Self-Portrait by Parmigianino (Girolamo Francesco Maria Mazzuoli, 1503-1540) suggests no psychological turmoil. The artist's appearance is bland and well groomed. The features, painted with Raphael's smooth perfection, are veiled by a delicate Leonardesque sfumato. The distortions, too, are objective, not arbitrary, for the picture records what Parmigianino saw as he gazed at his reflection in a convex mirror. Why was he so fascinated by this view "through the looking glass"? Earlier painters who used the mirror as an aid to observation had "filtered out" the distortions, except when the mirror image was contrasted with a direct view of the same scene [as with Jan van Eyck's Arnolfini Portrait (1434)]. But Parmigianino substitutes his painting for the mirror itself, even employing a specially prepared convex panel. Perhaps he wanted to demonstrate that there is no single "correct" reality, that distortion is as natural as the normal appearance of things. The painting bespeaks an interest in magic as well: the convex mirror was valued in the Renaissance for its visionary effects, which seemed to reveal the future, as well as hidden aspects of the past and present.

Melancolia


Franz Schubert (1797-1828) B-flat Piano Trio, D. 898
My grandfather used to say, ‘Learn to like art, music and literature deeply and passionately. They will be your friends when things are bad.’

Paul Johnson (link)

A noite competente de Vanessa


É o que se chama um "avião"
Há as minhas músicas, há as músicas dela e há as nossas músicas. Quando vamos a concertos, privilegiamos esta última categoria.

domingo, janeiro 30, 2005

Tarde demais


Rir para não chorar
Wilson Simonal inocentado pela OAB
Marco Antonio Barbosa 02/10/2003
Ordem dos Advogados do Brasil considerou que o cantor não teve culpa nas acusações de delação que lhe imputaram na década de 70
Em uma decisão anunciada na semana passada (e de caráter completamente simbólico) a Ordem dos Advogados do Brasil absolveu o cantor Wilson Simonal (1939-2000) da acusação de delação. A Comissão de Direitos Humanos da OAB examinou documentos (do SNI e da Polícia Federal, registrados na época do regime militar), depoimentos de pessoas que conviveram com Simonal e material jornalístico do começo dos anos 70 para afirmar que não procede a pecha de dedo-duro que foi colada ao cantor. Em 1972, Wilson Simonal foi acusado tomar participação em um seqüestro e de ter delatado aos órgãos repressores do governo militar uma série de pessoas ligadas ao meio musical; mesmo tendo negado tudo isso e sem ter sido julgado pelos supostos crimes, Simonal viu sua carreira decair a partir do incidente.

Shall we dance?


Richard Gere e Jennifer Lopez: para todas as idades
Porque estou certo de ser o único fã dos The Magnetic Fields a ter visto esta pessegada de Peter Chelsom, queria informar a blogosfera de que a história termina ao som de uma versão de The book of love, interpretada por Peter Gabriel (with strings), que é só um pouquinho melhor do que o filme. Só um pouquinho.

sábado, janeiro 29, 2005

A ESQUERDA, PELA DIREITA João Pereira Coutinho

Ri-te, ri-te Expresso 29 Jan 05
Já leram o programa do PS? Em 160 páginas, temos duas horas de gargalhada garantida. Mas convém não ser injusto: algumas medidas – o levantamento do sigilo bancário, a introdução de círculos uninominais, uma nova lei das rendas – merecem o nosso sincero aplauso. O pior é que o PSD diz igual – e o consenso não aquece nem arrefece. A gargalhada só emerge quando lemos o resto. Primeiro aviso: é um erro perguntar o que consta do programa do PS. A pergunta é outra: o que não consta do programa do PS. Difícil. Leio e releio as mil e oitenta e cinco promessas (palavra de honra) e não encontro um único domínio da vida nacional que o eng. Sócrates não pretenda tocar e melhorar com as suas conhecidas terapias de choque. A coisa oscila entre «aldrabices mínimas» e «aldrabices máximas», sem esquecer, naturalmente, «as aldrabices médias». As «aldrabices mínimas» são retórica simpática e obviamente nula: sim, o PS deseja uma ordem internacional assente na ONU e no diálogo com o sr. Bush. Mas quem, honestamente, não o deseja? E quem não olha para a ONU como um baluarte de virtudes morais, apesar da evidência em contrário?
A coisa só aquece no terreno das «aldrabices médias». O PS deseja um défice igual a 3%, sem recurso a receitas extraordinárias. Perfeito. Como perfeita é a redução de 75 mil funcionários públicos. Mas como processar estes milagres? E por que motivo o PS não avança directamente para um défice de 2% e uma redução de 100 mil funcionários? Não sabemos. As bases destes fabulosos cálculos não pertencem ao mundo dos vivos.
E entramos nas «aldrabices máximas», marcadas pela total arbitrariedade. Com um governo PS, teremos 150 mil postos de trabalho (ou 200 mil, ou nenhum: vocês escolhem). Com o PS, haverá um crescimento de 3% do PIB (ou 5%, ou nenhum). Com o PS, um curso de gestão estará entre os 100 melhores cursos do mundo (o Terceiro Mundo, entenda-se). E com o PS, o insucesso escolar desce para metade: crianças preguiçosas serão obrigadas a ouvir todos os discursos do dr. Sampaio. Aliás, não apenas o insucesso: o PS é tão amigo que também promete reduzir para metade o número de mortos nas estradas. Alguns riem com tamanha omnipotência. Não sei porquê. Basta, para tanto, que se elimine metade dos condutores. E, pensando bem, metade das estradas.

Vai morrer longe


José Airosa: tão só um excelente actor
Uma ida minha ao teatro já é só por si um acontecimento. Vou pouco ao teatro e quando o faço é normal arrepender-me: o mal é do texto, o mal é da encenação, o mal é meu, o mal é de todos, enfim, sou um mau espectador de teatro. Mas gostei da peça que vi ontem, Tão só o fim do mundo, de Jean-Luc Lagarce, encenada por Alberto Seixas Santos para a companhia Artistas Unidos que reside temporariamente no Teatro Taborda.
O texto é muito bom (muito palavroso: pouco diz pelo que dá a sentir) e foca os ressentimentos acumulados numa família onde as identidades se construíram em oposição umas às outras (isto é particularmente sensível no caso dos dois irmãos... e da irmã), para que no momento do regresso de um dos filhos que está a morrer tenha lugar um conjunto de desabafos em catadupa que mostram como a vida pode ser uma oportunidade perdida, ou uma mera perda de tempo.
O texto, já disse, é muito bom; a encenação de Seixas Santos é austera pois investe tudo no ritmo da palavra (nos monólogos feitos de frases que se repetem e se chocam) e numa sonoplastia discreta mas inquietante que traduz os instantes de evasão do protagonista enquanto os outros falam (para quem?); e alguns actores são magníficos, sobretudo Joana Bárcia numa jovem mulher demasiado azeda e José Airosa, um quase fantasma que terá de ir morrer longe dali. Tão só o fim do mundo não é propriamente a forma mais auspiciosa de começar o fim-de-semana mas é, coisa rara, um bom programa de teatro.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Ossessione (ainda o derby, perdoem a insistência...)


3. Num jogo em que os ataques foram quase sempre melhores que as defesas, o empate no final do prolongamento era um resultado justo, mas quem esteve mais perto de ganhar até aí foi o Sporting. E jogando, como já tinha acontecido no "derby" de Alvalade, em inferioridade numérica durante vários minutos (Peseiro esteve então bem ao mandar recuar Sá Pinto), o que não abona a favor da capacidade do Benfica. Este ganhou um jogo importante, vai com certeza aproveitar para somar algum capital de confiança que pode ser importante para disfarçar as limitações. Mas estas são grandes e continuam lá.

4. António Costa é hoje um árbitro experiente, mas nem isso chega para o tornar num bom árbitro. Mas mais grave do que a quantidade de erros graves foi o facto de eles terem prejudicado sempre a mesma equipa - o Sporting. Os dois primeiros golos do Benfica nasceram de faltas que não existiram, Bruno Aguiar devia ter sido expulso (entrou por trás e só procurou as pernas de Liedson) e o "vermelho" a Hugo Viana foi um exagero. Não merecia ter ficado com este jogo no seu currículo.
Público, 5ª feira 27 de Janeiro de 2005

O meu tipo (de amor)


You have to understand. I'm jealous of everything that moves. I'm jealous of the rain!
Memorable Quotes from The End of the Affair

Filme de sonho


The end of the affair (1999)
É um filme perfeito. Que apetece rever sempre. O MacGuffin está coberto de razão.

Mulher de sonho


Jane Greer
Uns amigos contaram-me que certa noite, em Madrid, foram abordados por uma mulher próximo de um night-club, que disse a um deles: "A mulher da sua vida está na sua casa, mas a mulher dos seus sonhos somos nós que a temos." Out of the past, O Arrependido é um filme sobre o que acontece quando um homem (Jeff Bailey, Robert Mitchum) troca a mulher da sua vida (Ann Miller, Virginia Huston) pela dos seus sonhos (Kathie Moffett, Jane Greer). O arrependimento, nestas alturas, chega sempre tarde demais. E ainda dizem que não se aprende nada no cinema…

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Out of the past (O Arrependido)


Hoje com o Público. Tenho dito.

A imparcialidade é uma coisa bonita


António Costa (nota 0)
Muitos erros num jogo em que ainda por cima contou com o "fair play" dos jogadores. As faltas de Enakarhire e Polga que originaram os livres do 1-0 e do 2-2 não existiram; Liedson estava fora-de-jogo no lance do 1-2 (embora aqui seja admissível o erro); não teve coragem para expulsar Bruno Aguiar; foi no teatro de João Pereira e expulsou mal Hugo Viana; esqueceu-se de um cartão (no mínimo amarelo) a Garcia. Assim...
fonte: jornal Record, pág. 5

Sir Alex Ferguson e o cálice d'ouro


A equipa de Mourinho venceu bem um jogo fraquinho que terminou às "2h30 da manhã". Consta que o treinador português terá levado um Barca Velha para se redimir de uma outra pomada bebida na companhia de Ferguson que tinha sido reprovada pelo treinador do United, um especialista também nesta matéria. A cada um a taça que merece.

O maior espectáculo sobre a relva


não consegui capa à altura
É um Benfica-Sporting ou um Sporting-Benfica.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

SSPPOOOOOOOOOOOOORRRTTTTIIIIIINNNNNGGGG!


Miguel Garcia (alguém tinha que falhar...)
O futebol é injusto. O resultado foi injusto. O Sporting controlou toda a primeira parte e o Benfica fez dois golos de ressalto que tiveram origem em duas bolas paradas de execução primorosa. A segunda parte - o Benfica começou melhor, o Sporting, mesmo com dez, acabou mais forte - foi equilibrada: Carlitos e Rochembach que o digam... E depois, Paíto e Simão voltaram a fazer magia (Tiago estava adiantado e foi mal batido). Os homens do jogo foram, no entanto, Polga, Viana (enquanto esteve em campo) e Liedson. No Benfica, Simão e Giovanni. Mas os primeiros nada puderam fazer contra o determinismo dos penaltis, a forma mais inglória de se perder um jogo. Para concluir, só um apontamento: João Pereira, METES NOJO!

Vanessa me mata


Sáb 30 22h00 Fórum Lisboa

Essa boneca tem manual!

Deixem-me sonhar

Nos filmes tudo se pode decidir até ao último plano. Alguns filmes decidem-se dentro de nós até depois de terem já terminado. Muito tempo depois. Finding neverland, À procura da terra do nunca concentra todo o seu poder emocional nas últimas cenas – na representação da peça “Peter Pan”, de J.M. Barrie, primeiro no teatro, depois na casa da família Llewelyn Davies. É nesses momentos que assistimos a uma leitura original da história do rapaz que não queria crescer, que é afinal a história do poder da imaginação que nos pode ajudar a suportar a passagem do tempo e a morte daqueles que amamos.
Não vou dizer que o filme de Marc Forster me impressionou por aí além. Gostei do final mas de resto é demasiado conformista. Ajuda ter Johnny Depp a defender um personagem que facilmente poder-se-ia tornar patético; ajuda ter Kate Winslet a fazer de musa inspiradora enferma e oferecer-lhe uma belíssima despedida; ajuda ter um conjunto de crianças desconhecido e enternecedor. Mas ainda assim, Neverland chega tarde demais e o filme de Marc Forster demora-se, como se demora, com os pés enfiados num academismo previsível e até enfadonho. E nós imaginamos o que Tim Burton, por exemplo, faria com este mesmo material. Deixem sonhar este espectador...

terça-feira, janeiro 25, 2005

E os nomeados são...



MELHOR FILME
“The Aviator”
“Finding Neverland”
“Million Dollar Baby”
“Ray”
“Sideways”

MELHOR REALIZADOR
Martin Scorsese, “The Aviator”
Clint Eastwood, “Million Dollar Baby”
Taylor Hackford, “Ray”
Alexander Payne, “Sideways”
Mike Leigh, “Vera Drake”

MELHOR ACTOR
Don Cheadle, “Hotel Rwanda”
Johnny Depp, “Finding Neverland”
Leonardo DiCaprio, “The Aviator”
Clint Eastwood, “Million Dollar Baby”
Jamie Foxx, “Ray.”

MELHOR ACTRIZ
Annette Bening, “Being Julia”
Catalina Sandino Moreno, “Maria Full of Grace”
Imelda Staunton, “Vera Drake”
Hilary Swank, “Million Dollar Baby”
Kate Winslet, “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Alan Alda, “The Aviator”
Jamie Foxx, “Collateral”
Morgan Freeman, “Million Dollar Baby”
Thomas Haden Church, “Sideways”
Clive Owen, “Closer”

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Cate Blanchett, “The Aviator”
Laura Linney, “Kinsey”
Virginia Madsen, “Sideways”
Sophie Okonedo, “Hotel Rwanda”
Natalie Portman, “Closer”

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
Richard Linklater, Julie Delpy and Ethan Hawke, “Before Sunset”
David Magee, “Finding Neverland”
Paul Haggis, “Million Dollar Baby”
Jose Rivera, “The Motorcycle Diaries”
Alexander Payne and Jim Taylor, “Sideways”

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
John Logan, “The Aviator”
Charlie Kaufman, Michel Gondry and Pierre Bismuth, “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”
Brad Bird, “The Incredibles”
Mike Leigh, “Vera Drake”

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
“As It Is In Heaven” (Sweden)
“The Chorus (Les Choristes)”(France)
“Downfall” (Germany)
“The Sea Inside” (Spain)
“Yesterday” (South Africa)

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
“The Incredibles”
“Shark Tale”
“Shrek 2”

LISTA COMPLETA
Aqui.

PÓDIO INICIAL
“The Aviator”: 11 nomeações
“Finding Neverland”: 7 nomeações
“Million Dollar Baby”: 7 nomeações

FAVORITO PESSOAL


EM PERSPECTIVA... UMA GRANDE NOITE!

Direito de resposta, sempre. Direito a abortar, nem sempre.

«A criação da vida é uma responsabilidade e experiência inteiramente pessoal. Ninguém, e provavelmente ainda menos quem a vive, pode tolerar ser tratado com este desprezo infinito da acusação de homicídio pela sua opinião sobre uma lei. A vida não se discute e o que está em causa na política portuguesa é outra questão: é exclusivamente saber se a mulher deve ter o direito de fazer uma escolha sobre a sua maternidade ou se deve ser presa se abortar.»

«Mais ainda, o debate de hoje não se trata de um mero remake do passado, porque o argumento do "direito da vida" implica forçosamente que as actuais excepções da lei viessem a ser anuladas se a direita para tal tivesse maioria e muitos dos seus dirigentes já nem o escondem. Essa é claramente a posição de vários candidatos a deputados pelo PP e pelo PSD: a mulher violada que recorra ao aborto deve ser punida nos termos da lei com os mesmos 3 anos de prisão. É ainda notório que deputadas e deputados do PSD comprometidos com um novo referendo e com a descriminalização do aborto foram afastados das listas.»

O esclarecimento de Francisco Louçã, Bem-vindas as críticas (Público, 25 Jan. 05), nada faz por melhorar a impressão deixada aquando da sua intervenção infeliz, já aqui comentada, no final do debate com Paulo Portas. A lei portuguesa criminaliza o aborto, salvo em casos de violação, mal formação do feto ou perigo de vida ou lesão para a saúde física ou psíquica da mulher. É uma lei que me parece justa e tolerante. Que história é essa do direito à "criação da vida" quando a vida já existe, quando o feto já está em formação? As pessoas, homens e mulheres, adultos, devem ser responsabilizados em tão delicada matéria. Não há lugar a arrependimentos de efeito retroactivo, ninguém pode alegar desconhecimento em relação aos métodos de contracepção. Já não vivemos propriamente na idade da pedra, embora certo tipo de argumentação nos leve por vezes a pensar o contrário (e não vale colocar a minha argumentação ao nível do Paleolítico - eu disse-o primeiro!).
Sr. Francisco Louçã, sei que as causas pelas quais o Bloco de Esquerda se bate já não são muitas e que muitas delas nem são particularmente mobilizadoras da generalidade do eleitorado, uma vez que dizem respeito a questões excepcionais embora nalguns casos importantes. Mas a bandeira da despenalização total do aborto parece-me tingida pelas cores da mais pura e cega demagogia – quem acredita que a direita portuguesa quer condenar mulheres que tenham procurado "abortar em consequência de violação"????? A alterar alguma coisa na actual lei, que se responsabilize também o “pai” da criança (desconheço o que a lei diz, se é que diz alguma coisa sobre esta questão…) que representa, sempre ou em parte, – excepto nos casos de violação ou de prática sexual “consentida” e aberrante, entre pais e filhos, ou entre irmãos – metade do problema e metade da solução. É preciso procurar estar à altura do que acontece e do que nos acontece.

Faíscas (aforismo)


In my adult life, the time I have actually lived inside the present moment would amount to no more than a single day. If only I could have lived it as a single day; it would have thrown its light into all the others, like a brazier in a dark arcade. Instead I find my way by sparks, and what they briefly make visible. (The book of shadows, Don Paterson, pág. 25)

... com um pedido de licença ao grande MacGuffin.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Deus com uma nódoa


O clube do imperador, The emperor’s club terá sido subvalorizado pelas semelhanças que nele se encontram com O clube dos poetas mortos, Dead poet’s society, mas é uma injustiça. Este filme de Michael Hoffman tem uma complexidade que se estende pela vida adulta fora, pois afinal trata-se da história de um professor de História da Antiguidade Clássica, William Hundert (uma vez mais magnífico Kevin Kline) que, substituindo-se ao papel de Deus, procura escrever certo por linhas tortas para constatar o resultado inglório da sua opção, 25 anos mais tarde. O clube do imperador é um filme sobre princípios e sobre virtude. É um filme sobre aquilo que desprezamos quando adolescentes e que mais tarde valorizamos já na idade adulta – uma boa educação, completa e formadora. E é um filme capaz da grandeza do perdão face ao momento de fraqueza do emérito professor. O filme de Hoffman comove pela capacidade de perdoar a única nódoa académica do professor Hundert, mostrando que se alguns alunos nunca mudam, outros porém mostram uma capacidade de ultrapassar a injustiça, tornando-se homens dignos do orgulho da instituição que os educou. Na zona de sombra deste filme de Michael Hoffman é onde a estatura dos homens deixa marca bem impressa. A de um discreto mas importante filme.

Quero este DVD!


Quando penso na absoluta musicalidade do povo brasileiro, não penso em Caetano (demasiado óbvio), não penso em Tom Zé (demasiado afreakalhado), mas penso em Ed Motta, o gourmet/gourmand melómano e discófilo (existe?) que faz o que quer da sua voz de barítono e com excessivo belíssimo gosto. Ed Motta lançou agora um DVD que traça uma retrospectiva da sua obra funk-soul-jazz que, aposto, deve ser bom pra car****! Ed Motta é a própria música encarnada em tamanho XXXXL. Tão irresistível como uma posta alta de bacalhau com grão e batatas, regada com o mais encorpado e saboroso dos azeites. Manjam?

Que bela e merecida esfrega!


... e isto também não é um caixote do lixo.
Homens do lixo destruíram uma escultura em Frankfurt
«Três alemães que trabalham na recolha do lixo em Frankfurt foram "condenados" a frequentar um curso de Apreciação de Arte, depois de acidentalmente destruírem e incinerarem uma escultura de Michael Beutler, instalada numa rotunda daquela cidade.
Com dez metros de largura e 2,5 metros de altura, a peça - intitulada Nicht Innen Sondern Aussen-Nicht Drinnen Sondern Draussen (Não Interior mas Exterior-Não Dentro mas Fora) - era feita de vulgar plástico amarelo usado na construção civil, dobrado e cortado pelo artista. E era uma das dez obras incluídas numa exposição ao ar livre, espalhada por vários locais de Frankfurt. Ou melhor, das oito que restavam, pois duas das ins- talações já tinham desaparecido.
"Está entre a abstracção e algo figurativo", explicou à bbc.news o escultor, acrescentando que a sua obra "tinha qualquer coisa de parque infantil público, podia ver-se nela uma espécie de cobra ou assim". Segundo Michael Beutler - nascido em 1976, em Oldenburgo, e com formação na Städelschule de Frankfurt (Alemanha) e na Glasgow School of Art (Escócia) -, o objectivo era criar uma coisa de tal forma real que não parecesse uma obra de arte.
Os funcionários municipais que apenas viram detritos naquela estranha estrutura amarela vão agora frequentar a escola onde estudou o jovem artista (que, diga-se de passagem, alcançou grande projecção mediática graças a este caso insólito).
ANTECEDENTES. Esta não é a primeira (nem será a última) vez que uma obra de arte acaba no lixo. Em Dezembro, desapareceram do Centro de Arte e Espectáculos da Figueira da Foz os 17 pedaços de um lavatório de cerâmica a que Jimmie Durham chamou As Frases. Os cacos foram partidos em 1995, durante uma performance na galeria Módulo do artista norte- -americano de origem Cherokee, e a peça, no valor de milhares de euros, pertencia à colecção do Instituto das Artes. Mas acabou no contentor, porque a empregada de limpeza achou que se tratava de lixo de alguma obra a decorrer no centro.
Em Junho de 2004, um episódio semelhante ocorrido na Tate Britain deu grande brado na imprensa. Um zeloso funcionário de limpeza da galeria londrina deitou fora aquilo que lhe pareceu ser um saco de plástico com papéis e pedaços de cartão, que se encontrava junto a uma mesa. Tratava-se de parte da instalação Recreation of the First Public Demonstration of Auto-Destructive Art, do artista alemão Gustav Metzger. O saco seria entretanto recuperado.
Também em Londres, em 2001, o excesso de zelo destruiu uma obra do britânico Damien Hirst, patente na galeria Eyestorm as latas de cerveja vazias, as chávenas de café, os maços de tabaco e cinzeiros atulhados de beatas, reunidos com o intuito de representar o caos do estúdio do artista, foram parar ao caixote do lixo. E nos anos 80, na Alemanha, a banheira imunda que fazia parte de uma instalação de Joseph Beuys foi esfregada até ficar limpa.» (DN 24 Jan. 05)

domingo, janeiro 23, 2005

Valeu-nos Sá Pinto (dois golos FABULOSOS)


E Ricardo, e João Moutinho, e Barbosa e Liedson. O Sporting foi uma equipa mais intranquila do que o resultado pode deixar transparecer. Viana, Beto e Rui Jorge lesionaram-se. O Gil deu "porrada" que se fartou. E tirou partido do enfraquecimento do miolo leonino e da aflição no corredor esquerdo nas duas partes. Com a inexperiência de Paíto, a incapacidade de recuperar de Rui Jorge (muitos Kms têm aquelas pernas...) e a promessa Tello em quem ninguém já acredita, que se compre um homem para fortalecer a zona mais débil da nossa equipa. E depois vamos acreditar nos triunfos que hão-de vir. Viva o Sporting Clube de Portugal. Viva!

A excepção deve-se à regra


Comprei o Record e o Sporting nem sequer jogou ontem...

Aborto de esquerda

«Falava-se da despenalização do aborto e o diálogo foi assim: “Não me fale da vida, não tem direito a falar de vida”, disse Louçã. “Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?”, protestou Portas, levando Louçã a responder: “O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança.”» (o link não está disponível)

Não assisti ao “momento abortivo” do debate entre Francisco Louçã e Paulo Portas, pelo que remeto para o editorial de ontem do Público assinado por Eduardo Dâmaso. As afirmações de Louçã são de uma profunda infelicidade, mais baixa aliás do que o estatuto do homem Louçã que não creio ser tão ignóbil. É de lamentar que o jogo político leve os mais infelizes a proferirem comentários desta pequenez preconceituosa. O Bloco de Esquerda ainda envergando as fraldas da sua relevância política, já se permite, na pessoa do seu líder, proferir tamanhas barbaridades. Pergunto-me ainda se sabendo Louçã o que vale o sorriso de uma criança como pode bater-se, a não ser por hipocrisia, por referendar uma lei que permitiria pelas mais diversas razões - do desespero à leviandade - que o sorriso de muitas outras crianças nunca viesse a existir? (as crianças, invariavelmente, todas sorriem, porque olham o mundo de modo espontâneo e deslumbrado). E mais não escrevo pois tenho presente o risco que é alinhar pelo registo demagógico, arrogante, moralista, populista e reaccionário do dr. Louçã.


sábado, janeiro 22, 2005

TEM "ALGO MAIS"


É aqui que apresento a minha rendição à voz e ao talento interpretativo de Wilson Simonal. E ainda só ouvi o primeiro CD...

Regresso a Bright young things

O aspecto menos conseguido do filme de Stephen Fry tem a ver com a tentativa de dar o retrato de grupo, de geração, que sacrifica a individualidade de cada personagem. Acabam todos transformados em cartoons. Cor sem carne. Irreverência sem psicologia. Manchete sem conteúdo. Fry acaba dando a superficialidade pelo superficial. Mas o seu investimento é notório e Bright young things tem um virtuosismo raro no cinema britânico, como se sabe, pouco dado a excessos de qualquer ordem.

Azul sobre azul



Como se diz nos filmes, I'll treasure it with my heart.

Estamos sempre a ouvir e a aprender...


OBRIGADO! OBRIGADO! OBRIGADO!
«Wilson Simonal é protagonista da história mais cheia de simbolismos, de força, de beleza romântica jamais desenrolada no Brasil. É a história do moleque negro que saiu do subúrbio carioca para embasbacar Quincy Jones e Sarah Vaughan, do filho da cozinheira que regeu "o maior coral do mundo" no Maracanãzinho, do homem de voz privilegiada que sofreu as radiações gama do megaestrelato. É a história da manifestação pura e brutal da musicalidade do brasileiro, da encarnação do mito de que talento e persistência transpõem obstáculos e, ao mesmo tempo, a velha e triste história de um país que não convive bem com seu próprio triunfo.»
WILSON SIMONAL NA ODEON (1961-1971)

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Waugh on film


Never, never such scenes been witnessed in high society. That uneasy alliance between bright young things and old survivors. Perhaps this was the defining moment of our epoch of speed and syncopation. This so-called 20th century of angst, neurosis and panic. Reader, be glad that you have nothing to do with this world, its glamour is a delusion, its speed a snare, its music a scream of fear. Faster and faster they swirl, sickening themselves with every turn. The faster the ride, the greater the nausea, the terror and the shame. Stop. (diálogo do filme)

Dinner music


Este é um belo disco. Pelo menos 3/4 das canções são magníficas. Who cares about the rest?

Coming my way...



Clássico


Os grandes filmes não falam daquilo que somos mas de como gostaríamos de ser.
Este é um deles. Está à venda na próxima 5ª feira com o jornal Público. Respondam-me: qual o homem que não gostaria de ser Mitchum, Robert Mitchum? O deste filme! O de qualquer outro!

As 10 escolhas de Martin Scorsese


Não resisto a reproduzir esta nota do Y de hoje:
«Na emissão do programa televisivo do crítico Roger Ebert, Martin Scorsese tornou pública a sua lista dos 10 melhores filmes dos anos 90. Ei-la:
"O Ladrão de Cavalos", de Tian Zhuang-Zhuang (1986);
"The Thin Red Line", de Terrence Malick (1999);
"A Borrowed Life", de Wu Nien-Jen (1994);
"Eyes Wide Shut", de Stanley Kubrick (1999);
"Polícia sem Lei", de Abel Ferrara (1993);
"Ondas de Paixão", de Lars von Trier (1996);
"Bottle Rocket", de Wes Anderson (1996);
"Crash", de David Cronenberg (1996);
"Fargo", de Joel e Ethan Coen (1996);
"Heat", de Michael Mann (1996);
"Malcolm X", de Spike Lee (1993).»

Verdade e consequência

É um filme falhado mas com interesse. É falhado enquanto filme porque a sua fórmula encontra-se demasiado exposta – no jogo (traições: verdades e consequências), nas coincidências, na marcação das cenas, no brilho dos diálogos sexualmente explícitos, na imagem dos actores que quase nunca deixa ver personagens –, o que faz de Closer, Perto demais (que parte da peça de Patrick Marber, encarregado de a adaptar ao cinema) um exercício sofisticado e artificial em torno da imaturidade dos afectos e da impossibilidade de recuperar as primeiras emoções: quando não conseguimos tirar os olhos daquela ou daquele que desejamos (ou que amamos).
Uma das personagens chama-se Anna (Julia Roberts) e é fotógrafa. Anna vive com Larry (Clive Owen, muito elogiado embora não mais que uma cópia tosca de Nicolas Cage) mas está apaixonada por Dan (Jude Law) que vive com Alice (Natalie Portman, esta sim, uma revelação!). Na noite da inauguração da exposição de Anna, Larry conversa com Alice que se encontra representada numa das enormes fotografias, perguntando-lhe a opinião sobre o trabalho de Anna. Alice responde que as fotos são muito belas, que estão muito bem iluminadas mas que são uma mentira uma vez que não passam nada do que as pessoas estariam a sentir no momento em que foram retratadas.
Não sei se isto é necessariamente mau (se é uma verdade ou uma consequência?), mas é esta precisamente a minha opinião sobre o filme de Mike Nichols. É bonito, é esperto, é competente, mas tem uma relação com a vida demasiado estilizada. Como peça de teatro acredito que resulte e também resultaria enquanto objecto televisivo, só que do cinema habituei-me a esperar sempre mais: uma grandeza humana mesmo nas pequenas coisas, pelo menos um sopro de vida. Closer, Perto demais apresenta-nos a vida encerrada numa caixa. Pode ser o palco (são vários), pode ser um aquário (referência retirada do próprio filme), que ao sopro de vida substitui-se sempre a respiração artificial.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Indiscutivelmente, o MAIOR


Paul Johnson: culto, polémico, antigo.

Why not stop abusing Prince Harry and start thinking?
Paul Johnson
‘We know no spectacle so ridiculous as the British public in one of its periodical fits of morality.’ Macaulay’s famous castigation of humbug, apropos of Moore’s Life of Lord Byron, applies perfectly to the sententious huffing and phoney indignation heaped upon the silly head of Prince Harry for wearing Nazi uniform at a fancy-dress party. Ye gods! Are we never going to be allowed to consign Hitler and the Nazis to history, where they belong? In April it will be 60 years since Hitler’s final defeat and death. How long do we have to wait before those dreadful times can be seen in a cool perspective unclouded by emotions, especially false ones whipped up by newspapers like the Sun, a media pachyderm with the brains of a shrivelled pea? It is said that Harry’s offence was even more rank and smelling to heaven because of the approaching anniversary of the liberation of Auschwitz. But there is some kind of anniversary of Auschwitz every year and there is no possibility of the public ever being in danger of forgetting it. Moreover, when are we going to have any anniversary of the Gulag, a horror-system which actually killed four times as many people? Elements of the Gulag were still operating as recently as the 1980s, with people dying of starvation there. The wounds are still fresh. (continue a ler aqui)

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Silhueta


... desenho de perfil; o perfil desenhado, especialmente segundo a sombra projectada.

Autobiografia


Evelyn Arthur St John Waugh (1903-1966)

«Bron [Auberon Waugh] was proud that his father struck terror into the heart of Dix [Francis Dix: director do colégio All Hallows], even though later in life he recognised that his father's awesome personality was the cause of much of his apparent unhappiness:

My father was a small man, scarcely five foot in his socks, and only a writer after all, but I have seen generals and chancellors of the exchequer, six foot six and exuding self-importance from every pore, quail in front of him. When he laughed, everyone laughed, when he was downcast, everyone tiptoed around trying to make as little noise as possible. It was not wealth or power which created this effect, merely the force of his personality. I do not see how he can have been pleased by the effect he produced on other people. In fact he spent his life seeking out men and women who were not frightened of him. Even then, he usually ended up getting drunk with them, as a way out of the abominable problem of human relations.

During term-time Evelyn put in occasional appearances at All Hallows. He agreed one year to present the school prizes but embarrassed Bron by wearing a flashy bowler hat and following with exaggerated, theatrical attention Dix’s every movement as he performed a set of conjuring tricks. Evelyn must have remembered how embarrassed he had been at Arthur’s [Arthur Waugh: pai de Evelyn, avô de Auberon] 'incorrigibly theatrical' Dickens readings in his childhood yet he, too, was an 'incorrigibly theatrical' father to his children. Curiously, as the years rolled by, he became more and more like his father. Bron, on the other hand, moved in the opposite direction, and became less and less like Evelyn as he grew older.»

Fathers and Sons – The Autobiography of a Family, pág. 296

Para além das proezas da história e da franqueza do estilo, o que mais impressiona em Fathers and Sons, de Alexander Waugh, é percebermos constantemente, página após página, como a figura e a personalidade dos pais (homens) condiciona a identidade dos filhos (homens também), constituída em totais identificação ou oposição. Como se o percurso de vida de um homem fosse constantemente o de uma atracção ou de uma fuga ao abismo da figura paterna.

Magnífico João Ferreira Rosa


Se isto não é um homem...

Ontem pus a cozinha a meia luz, improvisei um ambiente de casa de fados, abri com optimismo uma segunda garrafa de vinho, lembrei-me dos queijos de Niza que tinham sobrado doutra ocasião, e fiquei na penumbra a ouvir o magnífico João Ferreira Rosa na gravação recentemente editada a partir dos serões no Wonder Bar do Casino Estoril.
Os fados de João Ferreira Rosa falam de uma Lisboa que já não existe a não ser na memória dos que a viveram; falam do marialvismo que relacionamos com a devoção ao Rei, com as touradas, copos e guitarradas, e desse imaginário só me atrai para falar verdade a parte da boémia: touros e coroas não me dizem nada. Mas Ferreira Rosa é das três maiores vozes masculinas vivas do fado: as outras são Carlos do Carmo e Camané. É genuíno até ao caruncho dos ossos e tem um timbre inconfundível. É macho até dizer basta. É um samurai do fado que tem uma atitude de grande respeito para com a tradição e que impõe a quem o escuta um maior respeito ainda. Fadistas como este nunca mais voltarão a existir. Magnífico João Ferreira Rosa.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Projecto Paulo Francis (Letra M)


Que horas são, sr. Francis?
MÚSICA: No fim de Sabbath's Theatre, Philip Roth escreve: "Não podia morrer. Como deixar tudo aquilo? Como ir embora? Tudo que ele odiava estava no mundo". Numa entrevista a Christopher Hitchens em Vanity Fair, Gore Vidal diz: "Nunca me sinto entediado ou anômico. Quanto a suicídio, cometeria primeiro assassinato. Sou tudo que tenho". O mal desses escritores é que não ouvem música. Scott Fitzgerald escreveu que "Na noite negra da alma são sempre duas horas da manhã". Não se você ouvir todo dia Mozart, Beethoven, Wagner. Agora mesmo, quando bato estas mal traçadas, ouço um CD de Georg Solti com o terceiro ato de Siegfried. Esvazia qualquer angústia. É melhor do que Prozac. Misantropia não tem cura, porque é conclusão e não doença. Mas toda alma precisa de feriados. (O Estado de S. Paulo, 19/10/95)

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Gosto! quando apanhas o cabelo para mim


Closer, de Mike Nichols, tem muito! para ser um filme belo. Estreia esta 5ª feira.

Uma questão central

Para a próxima lembrem-se deste rapaz...

... e uma vez que o Polga está fora, não esqueçam que temos este também.

Muito agradecido.

Acompanhar a vida dele em discos


O Carlos, do Contra a Corrente, iniciou uma daquelas rubricas que fazem o maior sentido nos blogues. E o gosto do Carlos é irrepreensível.

The golden couple


Os Globos foram entregues no fim-de-semana. E prevê-se que os Óscares venham a ter uma das edições mais interessantes dos últimos largos anos. Basta não mexer nas nomeações, certo? E já agora não fazer nada de muito diferente com os prémios propriamente ditos.

domingo, janeiro 16, 2005

Adriano também resolve

Ou como por vezes a decisão de não comprar um jogador é o que sai mais caro.
O Sporting é um clube dado a este tipo de "galos": emprestámos o Silva ao Guimarães e o "pistoleiro" aviou-nos dois balázios - felizmente marcámos quatro golos que valeram a vitória. Hoje foi Adriano - dado como certo no SCP antes do início da época - que fez questão de obrigar-nos a partilhar a liderança do campeonato, no preciso momento em que termina a 1ª volta, com o Porto e o Benfica. Começar de novo é o mote para a metade complementar. No próximo Domingo outro "galo" cantará: e não será o de Barcelos...

A última vez é quando dói mais


Ozon (François) não acredita no casamento. Não acredita que a convenção, o ritual, resista à rotina diária. Como gay assumido que nunca ocultou (nem promoveu) a sua orientação sexual, parece partilhar da opinião que também nos afectos a natureza humana é diletante, que anda sempre em busca das primeiras emoções, do desejo, da paixão carnal. 5X2 encontra-se alinhado do fim para o início: do divórcio para a origem do amor. É interessante que Ozon filme a natural monstruosidade dos seus personagens masculinos, heterossexuais, como seres que se deixam enredar numa teia de convenções que acaba por sufocá-los: tornam-se seres esquivos, frios, evasivos. E as mulheres são vitimas destes. Aí tem lugar a identificação dos homossexuais com as mulheres: têm um inimigo comum – o macho, muito pouco homem aliás...
Gostei do filme 5X2 de François Ozon porque apesar de se encontrar sempre à beira do cliché, acho que tem a ver com a minha vida – acho que muita gente tenderá a identificar-se com algumas das fases da vida daquele casal. Ozon reserva a subtileza do seu filme para os pormenores e aí 5X2 tem pequenas maravilhas – como a cena final que, recorde-se, corresponde ao princípio do amor. Acho que uma das coisas que podemos perceber neste filme é que as relações chegam ao fim quando alguém deixa de dizer que ama, ou quando esse ou outro alguém deixa de acreditar quando ouve dizer que a(o) amam. É o desgaste do tempo, é a tragédia da indiferença. É o princípio do fim.
François Ozon, repito, não acredita no casamento – isso é lá com ele. Não acredita na masculinidade: apresenta uma versão de homem perfeito, sonhada(?), que é mais uma idealização homossexual do que outra coisa qualquer (refiro-me ao americano que surge no final da noite do casamento de Gilles e Marion). Mas tem uma compreensão profunda da psicologia humana. É cruel porque a vida é assim. E tem também a capacidade de embora apresentando os sentimentos como factos condenados, dar a ver a sua origem como algo de mágico e belo – como algo que é natural e que eternamente se renova.

sábado, janeiro 15, 2005

Gymnós (traduz-se por "nuzinho da silva")


DR Greg Gorman

Ooh boy, En Vogue
«Ooh, my body starts to shake And I shiver, earthquake Ooh, boy, mmm, yeah I said ooh, so sexy, so freaky Straight up, so good, so sweet Ooh, boy, ooh»

Ooh boy, Real McCoy
«Ooh Boy, never-never-never, ooh boy, ooh ooh,ooh boy, never-never-never, ooh boy, ooh ooh, some of the sun shines Saturdays, you better watch out girl, cuz I'm on my way to put a piece of my love in your heart, in other words, I'm looking for a real love.»

Carla Hilário Quevedo, a nossa Bomba Inteligente, traduz na sua crónica da Única/ Expresso de hoje uma letra de Eminem com imprecisão de sentido. É assim: «ooh boy, just touch my body, I mean girl, just touch my body» que a Carla traduz por «miúdo, toca-me, ai, não, espera, o que quero dizer é rapariga, toca-me».
Eu, pelo contrário, acho que Eminem brinca com o duplo sentido da expressão "Ooh boy" e dou dois exemplos (En Vogue e Real McCoy) de outras músicas, para que se perceba ao que me refiro. É que há um sentido literal (ó rapaz!, ó miúdo!) e o sentido corrente, onomatopaico, que tem a ver com o modo abstracto de exprimir a sensação de surpresa, prazer, arrebatamento, excitação, que é independente do género sexual do objecto "boy" ou "girl" - é mais um "it".
Com as devidas vénias, para a Carla e para o rapper norte-americano, há que não menosprezar o valor da descarga hormonal e não menosprezar também o sentido da sua orientação, mais indeterminado do que a Carla faz supor.
Assina um heterossexual convicto que também sabe apreciar a beleza masculina.

O melhor Top da melhor Loja

Ananana Top 40
1) Animal Collective «Sung Tongs» (Fat Cat)
2) Devendra Banhart «Rejoicing In The Hands» (XL)
3) Joanna Newsom «The Milk-Eyed Mender» (Drag City)
4) cLOUDDEAD «Ten» (Big Dada)
5) Fennesz «Venice» (Touch)
6) DNA «DNA on DNA» (No More)
7) Devendra Banhart «Niño Rojo» (XL)
8) Spektrum «Enter The... Spektrum» (Playhouse)
9) Arthur Russell «Calling Out Of Context» (Soul Jazz)
10) Vários «Anticon Label Sampler: 1999-2004» (Anticon)
11) Múm «Summer Make Good» (Fat Cat)
12) CocoRosie «La Maison De Mon Rêve» (Touch & Go)
13) Einstürzende Neubauten «Perpetuum Mobile (CD+DVD)» (Mute)
14) Deerhoof «Milk Man» (All Tomorrow's Parties)
15) Tortoise «It's All Around You» (Thrill Jockey)
16) Claudia Heuermann «A Bookshelf On Top Of The Sky - 12 Stories About John Zorn (DVD)» (Tzadik)
17) Virginia Astley «From Gardens Where We Feel Secure» (Rough Trade)
18) Black Dice «Creature Comforts» (Fat Cat)
19) Animal Collective «Spirit They're Gone Spirit They've Vanished/Danse Manatee (2CD)» (Fat Cat)
20) David Sylvian «Blemish» (Samadhi)
21) Arthur Russell «The World Of Arthur Russell» (Soul Jazz)
22) Can «Tago-Mago (Edição Remasterizada SACD)» (Spoon)
23) Vladislav Delay «Demo(n) Tracks» (Huume)
24) Black Dice «Beaches & Canyons» (Fat Cat)
25) OOIOO «Kila Kila Kila» (Thrill Jockey)
26) Albert Ayler «Holy Ghost (Caixa 10CD+Livro)» (Revenant)
27) Mars «Mars LP (The Complete Studio Recordings NYC 1977-1978)» (G3G)
28) Skalpel «Skalpel» (Ninja Tune)
29) Radian «Juxtaposition» (Thrill Jockey)
30) John Fahey «Red Cross (Edição Limitada)» (Revenant)
31) Electric Masada «John Zorn 50th Birthday Celebration: Vol. 4» (Tzadik)
32) Biosphere «Autour De La Lune» (Touch)
33) The Necks «Drive By» (ReR)
34) Ricardo Villalobos «Thé Au Harem D'Archimède» (Perlon)
35) Lali Puna «Faking The Books» (Morr)
36) Faun Fables «Family Album» (Drag City)
37) Can «Can DVD (Caixa 2DVD+CD)» (Spoon)
38) Niobe «Voodooluba» (Sonig)
39) Brian Wilson «Smile» (Nonesuch)
40) Post Industrial Boys «Post Industrial Boys» (Max Ernst)

Confiram as vossas listas de compras!

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Spectator Spectator Spectator


www.spectator.co.uk
Escalas:
«We are asked to draw transcendental conclusions from this event because of its scale. But the scale, in terms of the magnitude of the world and its inhabitants, is puny, almost insignificant.»
Paul Johnson

Palavras:
«In those four words, he confessed that everything that I thought was true, and that I was not merely a prejudiced bourgeois: that he knew that such behaviour was not only wicked and selfish, but that it would result in both a social disaster and personal catastrophe for his own children.»
Theodore Dalrymple

Inimigos:
«So who’s the enemy there? Take your pick. Saddamite remnants, Iranian theocrats, Syrian Baathists, ad hoc insurgents, a Jordanian terrorist commander; states, non-state actors, Islamic fundamentalists, secular dictatorships, wily opportunists — you name it, Colonel Yasseen’s plugged into it.»
Mark Steyn

Verde


O de 12 anos é ainda melhor!

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Por falar em perfeição...


Esta é June Tabor, a mais bela voz feminina que existe. A melhor intérprete. A mulher possuidora da mais imaculada discografia que conheço. Uma presença e uma voz estarrecedoras que já tive a felicidade de comprovar ao vivo.
Há coisas que nunca mudam. A minha devoção por June Tabor, mesmo quando passam largos meses sem que eu "toque" um dos seus discos, é para a vida inteira. Na música, sou casado com ela e volto a dizer SIM! a tudo.

Topic note: A QUIET EYE, ALEYN e AQABA são os meus eleitos do catálogo da Topic. Mas convém não esquecer AGAINST THE STREAMS e ANGEL TIGER, obras-primas.

Contra ventos e marés, a perfeição


posso servir o whisky, Martin?
Tenho uma teoria em relação aos discos perfeitos: são aqueles que independentemente do nível a que a música seja escutada, esta nunca deixa de ser magnífica.
Hoje jantei tarde e sozinho. Corrijo: jantei tarde na companhia de Martin Carthy que cantou para mim, baixinho, todas as músicas do seu último disco, Waiting for angels. Alguns temas eram instrumentais (Martin é um guitarrista extraordinário!), mas nem por isso abaixo do nível das músicas com letra - canções que me falam de tempos em que nem sequer era nascido (talvez já existisse, mas numa outra encarnação...). Who cares (?), é a interpretação de Martin Carthy, que nem sequer foi agraciado com uma voz excepcional, que transmite um carácter de eternidade a tudo o que canta. Coisa que se sente, embora quando cantada baixinho como Martin teve a amabilidade de o fazer para mim, muitas das palavras tombem no terreno da ininteligibilidade. Waiting for angels é um disco perfeito. O próximo whisky é por minha conta. Canta-me um pouco mais, dear Martin!

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Que maravilha!


No Solar dos Duques, o melhor restaurante de Lisboa porque eu assim acho, a alheira de caça acompanha com:
1) batata caseira, frita, cortada às rodelas (que maravilha!);
2) um ovo estrelado (que maravilha!);
3) grelos salteados (que maravilha!);
4) cenoura ralada (que maravilha!);
QUE MARAVILHA!

Sr. & Sra. Balestrero


Somos todos culpados!

Tinha uma memória de O falso culpado, The wrong man relacionada com a ideia de que o filme de Hitchcock passa para o espectador a impressão de que vivemos angustiados devido a uma espécie de culpa ontológica que nos persegue a todos – somos inevitavelmente culpados de qualquer coisa, uma culpa que provavelmente já terá nascido connosco.
O falso culpado baseia-se na história verídica de Manny Balestrero (magnífico Henry Fonda), um pacato músico de jazz que um dia é confundido com um assaltante e que passa a ver a sua vida transformada num pesadelo – é julgado, condenado e preso e a sua mulher acaba internada numa instituição psiquiátrica após ter sofrido o que o filme de Hitchcock descreve como um “desabamento de medo e de culpa”. Manny, talvez por ter sido agraciado com uma certa ingenuidade e espírito de sacrifício, sobrevive a todo o processo que irá culminar num final feliz. De certo modo, Hitchcock furta-se a mostrar-nos o mesmo final feliz que é narrado apenas através das legendas finais. O final em imagens é tocado por um certo tom de tragédia, de impotência, de suspenso, mais característico das grandes obras do Mestre - as derradeiras imagens mostram-nos aliás Manny saindo da clínica depois de se despedir da mulher que não reage à notícia da sua absolvição (o modo neurótico e resignado como esta atravessa o drama do marido, diz bem da relação que Hitcocock "não" tinha como o sexo oposto).
O falso culpado é ainda e também interessante pela forma como o velho Hitch filma alguns momentos do calvário de Manny com um despojamento que se diria quase bressoniano. Esta obra corresponde ao período platinado da filmografia do inglês, que na mesma década de cinquenta e sempre na companhia dos seus fiéis colaboradores – gente de puro génio como o compositor Bernard Herrmann e o director de fotografia Robert Burks – viria a assinar alguns dos mais fascinantes filmes da história do cinema: Vertigo, North by northwest e Rear window.
O que talvez faça de O falso culpado um caso de excepção (embora no conjunto os seus méritos não consigam fazê-lo rivalizar com as obras-primas de Hitchcock) é o facto de sabermos, nomeadamente pelo recurso às famosas entrevistas de Truffaut, que provavelmente o maior medo de Hitchcock (e o homem tinha muitos...) era o de ser preso e condenado por um crime que não cometera. O mesmo sentimento que por vezes nos assalta em “sonhos” e que está na origem de pelo menos uma outra grande obra, numa outra grande arte, que é O Processo, de Franz Kafka.


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