Dias antes dos espectáculos em Portugal da Tournée “Speaking of Now”,
Pat Metheny concedeu à All jazz uma entrevista por e-mail que talvez não tivesse ocorrido caso o músico norte-americano soubesse de antemão o número de questões que lhe iriam ser colocadas. O seu comentário inicial foi “isto são imensas perguntas… mas vou tentar responder a todas”. Assim fez, por vezes de forma quase telegráfica, mas nunca de modo desinteressado. Em jeito de retribuição à acessibilidade e ao profissionalismo de Pat Metheny, aqui fica a entrevista, sem cortes, assumindo inclusive uns quantos equívocos…
Se a música do Pat Metheny Group (PMG) tivesse palavras, o que é que diria sobre o “agora”/”now”?
Felizmente para todos nós, ela fala por si própria através da música dentro de uma linguagem estritamente musical.
Na sua opinião, quais são os maiores benefícios de ter o Richard Bona, o Cuong Vu e o António Sanchez na banda?
Todos eles são únicos, extremamente talentosos, possuindo capacidades específicas que nos abrem o campo das possibilidades. São também gente excelente, gente muito divertida com quem se pode estar, e isso conta bastante.
Para além dos Estados Unidos, com que outros países sente uma ligação mais profunda?
Itália, Japão, Alemanha, Espanha, Portugal, Brasil, Argentina e muitos outros têm sido sempre fantásticos ao longo dos anos. Nós temos a sorte de encontrar um público excelente em todo o mundo. E é sempre uma surpresa termos uma ideia predefinida sobre o que determinado público pode vir a ser, e depararmo-nos com uma realidade totalmente distinta da ocasião anterior.
Quais são os próximos projectos da Metheny Group Productions?
Neste momento limito-me a desfrutar do facto de estar em tournée.
O que é que o fez a si e ao grupo trocar a Geffen Records pela Warner Music?
A Metheny Group Productions foi formada em 1985. É para ela que gravo. Fomos estabelecendo acordos de distribuição ao longo dos anos com diferentes companhias – embora permanecendo autónomos.
Ainda sente uma ligação forte com o cinema? Tem surgido alguma proposta para escrever música para filmes?
Eu gosto de o fazer. Parece que de cinco em cinco anos, mais coisa menos coisa, surge algo de interessante que intersecta com uma fase em que não estou, ou em tournée, ou em estúdio, de modo que aceito.
O que lhe interessa mais na música feita hoje em dia?
Existe tanta música por aí que eu não ouvi – não posso dar uma opinião justa pelo simples facto de que o meu contacto com essa mesma música ter sido diminuto.
As fotografias que têm sidas para promover este “Speaking of Now”, mostram-nos um Pat Metheny com uma expressão mais séria, o cabelo menos claro, sob uma iluminação também ela mais escura. Qual é a intenção subjacente a essas imagens?
Não houve qualquer premeditação em relação a isso.
O som do PMG ainda soa bastante jovem. Tem consciência disso? Acha que isso se pode alterar um dia?
Nós limitamo-nos a tocar o que gostamos e a ir em busca das notas certas – tão simples quanto isso.
Acha justo dizer-se que você atingiu o auge da técnica enquanto guitarrista – quer dizer, na rapidez e na beleza das suas frases musicais – no final dos anos 80, através de discos como “Still Life (Talking)”, de 87, e “Letter From Home”, de 89, e que a partir desse momento se terá tornado de algum modo impossível de superar a fasquia?
Não.
Quais são as maiores recompensas a retirar de uma tournée?
É já tão bom por si só poder tocar todas as noites. Na realidade é até difícil de explicar o prazer dessa experiência. Considero a possibilidade de ir em digressão pelo mundo com um conjunto de bons músicos um privilégio absoluto.
Você é provavelmente o guitarrista jazz mais influente das últimas décadas. Qual é a sua opinião sobre este facto, e será que você pensa que o som do PMG consegue ainda atrair as gerações mais novas?
É-me extremamente difícil ter uma opinião sobre isso – uma vez mais, nós apenas procuramos descobrir os sons de que gostamos.
Tem outros interesses pessoais, fora do contexto da música, que pudesse partilhar connosco?
De tudo o que qualquer outra pessoa possa gostar, eu também gosto.
É apreciador de futebol? Tem seguido os resultados da equipa norte-americana no Campeonato do Mundo [Coreia 2002]?
Sim, estamos muito orgulhosos por a rapaziada estar desta vez a dar tão boa conta de si.
O que é que procura em projectos como “Zero Tolerance for Silence” (92), ou em colaborações com pessoas como Derek Bailey da cena free jazz?
Som e alma.
Você não tem filhos e nunca foi casado. Ainda assim, não deixa de ser alguém que privilegia e muito a companhia dos seus familiares. Sente de algum modo que o seu total compromisso com a música o possa ter impedido de criar a sua própria família?
Eu tenho dois filhos maravilhosos, o Nicolas e o Jeff. Vivo com a mãe deles, Latifa, há já muito tempo e ela é fantástica. E os meus pais e o meu irmão estão óptimos. Nesse sentido sou um felizardo.
Sendo possuidor de um som tão identificável, podemos também afirmar que ninguém copia verdadeiramente o seu estilo de compor e tocar. Por que acha que isso acontece?
Na realidade, acho que nunca ouvi ninguém ser bem sucedido copiando o estilo de outro. Acho que tal não pode ser feito.
Diga-nos, por favor, qual a sua opinião sobre a cena jazzística mundial? Vê algum músico que hoje em dia dê indícios de poder vir a tornar-se numa figura principal de um futuro próximo?
Existe muita gente a tocar fantasticamente. No interior desta cultura mais vasta em que todos funcionamos, acho até provável que surja alguém a tocar a melhor música jamais tocada e ainda assim ninguém lhe prestar a mínima atenção.
Com que frequência alinha em jam-sessions pelo simples prazer que proporcionam?
Tantas vezes quantas a oportunidade se me apresenta.
Até que ponto o PMG é vítima da pirataria que se obtém através da Internet?
O mundo encontra-se em mudança, especialmente no que respeita a este assunto. Acho que o suporte através do qual as pessoas recebem a música (e os livros, e os livros) vai-se alterando e irá alterar-se ainda mais. Mas teremos sempre a possibilidade de dar concertos – isso é algo que não vai mudar concerteza.
O que é que o faria deixar a música por qualquer outra coisa?
Eu podia deixar de tocar amanhã, que ficaria bem. Tudo é música para mim.
O que é que se imagina a fazer daqui a vinte anos?
Não me preocupo com isso.
Já alguma vez escreveu um concerto para guitarra e orquestra?
Talvez.
Qual é o músico que mais admira de todos os tempos?
São demasiados para os estar a nomear.
Como identificaria a beleza com a música?
A beleza é difícil de definir – tal como a música.