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quinta-feira, março 31, 2005

Chama-se Atlântico*

É uma nova revista que saiu hoje, grátis (mas só desta vez), com o Público. Depois terá existência autónoma, segundo me disseram. Promete, só de ler os nomes das pessoas envolvidas. Certamente não para todos os gostos.

* post com limite de validade.

Elas dispensam "quotas" (e eu não as dispenso)

Se fizesse hoje um Top 10 dos meus blogues de eleição, este, este e mais este tinham entrada merecida: pela sensibilidade, pela simpatia, pela singularidade. E ainda que fosse só um Top 5...

Grande loja

Admito que posts longos não têm grande futuro comigo. A excepção da semana vai para "a bitola valente" da Grande Loja do Queijo Limiano. Muito, muito bom.

quarta-feira, março 30, 2005

Aplauso a Hitch


Torn curtain, Cortina rasgada (1966) marcou à época o segundo fracasso de bilheteira de Hitchcock depois de Marnie - um filme ainda mais estimável do que esse. Tem duas estrelas alheias ao universo do Mestre que não se saem nada mal - embora Paul Newman seja mais credível como agente secreto do que como sumidade das ciências; já Julie Andrews é a simpatia que se lhe reconhece. É também marcado pela ausência dos dois mais preciosos colaboradores de Hitch: o compositor Bernard Herrmann e o director de fotografia Robert Burks.
O filme funciona num registo mais ligeiro - não tem aqueles abismos psicológicos característicos do melhor Hitch (Vertigo, The birds, Marnie, Strangers on a train...) - de que a obra-prima mais representativa é sem dúvida North by northwest, Intriga internacional, com o carismatiquérrimo Cary Grant. Cortina rasgada encontra-se muito bem definido nos seus três actos - a deserção do americano, as razões para a mesma (afinal um caso de patriotismo e coragem...), e a fuga de regresso ao mundo livre. Tem pelo menos duas belíssimas sequências - o assassínio do espião Gromek, silencioso e demorado (à facada, à pazada e à "gazada"); e a sequência no espectáculo de ballet que é Hitchcock típico e vintage ("Fire!!!!").
Conclusão: um Hitch médio chega e sobra para uma fatia grossa da concorrência. E ainda não referi meia-dúzia de outros pormenores deliciosos...

Classificação: (6/10)


Vincent van Google

terça-feira, março 29, 2005

Aquilo que faz um bom colunista (15º e 16º parágrafos)

All the same, be yourself. An impersonal column is a contradiction in terms, like a discreet diary. For your column to be a success, the reader must like you, and in order to like you he must know you. So peep out from your puppet-box from time to time. People who regularly pay good money for newspapers and magazines positively want to develop personal relationships with them – love-hate ones, mostly, punctuated by grumbling, exasperation and actual violence. I have seen Rupert Murdoch pick up a copy of one of his own newspapers, the Sunday Times – and my copy as it happened – recoil from it with fury, scrumple it up and hurl it with impressive force into the fireplace. This emotional relationship between paper and reader is at its most intense when the columnists are under scrutiny. So if you write a column, you are in the front line, less than a stone’s-throw from the reader’s trenches. Put your tin hat on a stick and wave it – let him know you are there.
One last point. Life is sad for most people. It is doubtless sad for you too. But, like Pagliacci, you must not let it show: on with the motley! By all means use your column to criticize the great, and right abuses and shake governments and bring low the proud. But make the point, from time to time, that we live in an infinitely beautiful world, surprisingly full of fascinating people, and heart-warming happenings, and laughter, and that God is in his heaven.

Paul Johnson, The Art of Writing a Column

segunda-feira, março 28, 2005

Que filme/DVD gostava de ver editado na Zona 2? IV(Quatro)


Clint Eastwood à conversa com "Charlie Parker" e "Dizzy Gillespie": só mesmo por intermédio do cinema! A propósito, o nome do filme é Bird.

Que filme/DVD gostava de ver editado na Zona 2? III(Três)


Teve distribuição comercial e foi ainda editado por cá em VHS. Mas o VHS não é eterno, ao contrário desta obra de estreia do mais subvalorizado talento da nova geração de cineastas independentes norte-americanos. James Gray é cinéfilo e grande apreciador do cinema americano dos anos 70. Aposto que gosta também do melhor Visconti, em particular de Rocco e os seus Irmãos. Este Little Odessa é percorrido por uma toada fúnebre acentuada pelos cânticos ortodoxos russos que estão sempre em fundo, na banda-sonora. O som é apenas um dos seus muitos méritos (então e aquele implacável Tim Roth...?). Como Gray já não filma desde 2000 (fez um dos meus preferidos desse ano, The Yards, com Mark Wahlberg, Joaquin Phoenix e James Cann), começo a ficar preocupado.

Que filme/DVD gostava de ver editado na Zona 2? II(Dois)


Mais um com o Mitchum. Pelo menos de estatura equivalente ao The Misfits do Huston. É dos meus Ray's preferidos. Fala, se bem me recordo, daquilo de que os homens têm realmente medo. Faz ainda parte daquele conjunto numeroso de filmes que ficaram na sombra (agora que penso nisso, acho que ficaram todos os títulos deste realizador à excepção do Fúria de Viver, Rebel Without a Cause porque tinha o Dean - e a Natalie Wood).

Que filme/DVD gostava de ver editado na Zona 2? I(Um)


ESTE, antes de qualquer outro. Para simplificar: onde Kill Bill é eufórico, The Yakuza é melancólico. E é também uma das mais belas histórias de amizade masculina que o cinema mostrou. Homens para valer: Robert Mitchum e Takakura Ken. Criados por argumentistas valiosos: Paul Schrader e Robert Towne.

Aquilo que faz um bom colunista (14º parágrafo)

On rare occasions it is just permissible to use your column to promote a personal cause or come to the rescue of a friend in distress or memorialize someone you knew who will otherwise receive no mention. But these topics should be broached entirely on their intrinsic merits, never because of their connection with yourself. Assume there is something inherently tiresome about your own personality or radically defective about your judgment where your personal interests are involved – or, better still, get yourself a wife with the courage to point these things out to you. (It is a fact that confirmed bachelors rarely make good columnists for long – and even Bernard Levin, the great exception, would have been a better one under regular wifely supervision.) And this brings me to the next, and most important point: never exploit your power as a columnist for personal ends. No doubt the traffic cop was quite mistaken to stop you for speeding/careless driving, and his language was inexcusable. But the readers do not want to hear about it. Nor are they interested in the reasons why the council refused you planning permission for an extension, or your appalling experience with BA/Virgin Airways, or the impudent behavior of the ticket-inspector on the 4.30 from Paddington to Oxford, or the exasperating way in which John Lewis/Peter Jones laid your new drawing-room carpet. Having trouble getting your washing machine repaired? Forget it – so is everyone else. I suppose you are really seriously mugged, it might just be worth a mention. But nobody, except your local police – who have no alternative – wants to hear your blow-by-blow account. Your fog story, your airport delay story, your story of being swindled/overcharged/cheeked/abused, etc by the insurance/British Gas/the check-out-girl at Safeways/the Inland Revenue are – I stress the point – of absolutely no interest whatever. This is what your family is for, to listen to them, just as you are there just to listen to theirs. The reader has nothing to do with it. Mark well: you are not doing him/her a favor – he is paying you, to be entertained. So he does not want to be told that the nurses at St Mary’s, where you went for a hip-replacement, were absolutely splendid and it has quite changed your opinion about the NHS, etc. Nor she will be spellbound if you tell her about going to Buckingham Palace to receive your OBE, and what a surprisingly beautiful skin the Queen has got, and how efficiently the car-parking arrangements are managed. Be your age: no one is interested in the fact that you are a minor – celebrity, except yourself. So do not write about your dog, except perhaps twice a year, or your children (once) or your wife (ever). (…) a continuar…

Paul Johnson, The Art of Writing a Column

domingo, março 27, 2005

Bottle Rocket


Wes Anderson atingiu logo com a sua obra inaugural um tom singular, burlesco, entre a banalidade e alguma ausência de sentido. Bottle Rocket (96) é por essa razão um filme dificílimo de classificar num primeiro visionamento - é o caso! É preciso merecer aqueles personagens, ao mesmo tempo tão desprotegidos. É que os anti-heróis de Anderson dispensam que os achemos engraçados. Eles habitam um universo só deles. O mesmo que se reproduziria nos filmes seguintes de Wes Anderson: Rushmore (98), The Royal Tenenbaums (01) e The Life Aquatic with Steve Zissou (04).

Nota (a título de curiosidade): Martin Scorsese placed Bottle Rocket on his list of the ten best films of the 1990s, which gives some indication of the respect accorded to this little-seen film.

Elmer Gantry


Humano, demasiado humano. E cheio de amor para dar. Muito bom filme de Richard Brooks e excelentes réplicas entre Elmer (Burt Lancaster) e o jornalista Jim Lefferts (Arthur Kennedy) - o seu maior crítico e o único que aceita as "fraquezas" de Elmer Gantry. As de todos nós: dinheiro, mulheres e bebida. (8/10)

sexta-feira, março 25, 2005

Travis e a cidade


‘The whole conviction of my life now rests upon the belief that loneliness, far from being a rare and curious phenomenon, is the central and inevitable fact of human existence’

Thomas Wolfe, God’s Lonely Man

Paul Schrader escolheu esta frase de um ensaio de Thomas Wolfe para servir de epígrafe ao seu argumento para Taxi Driver. O filme de Scorsese continua tão perturbador e fascinante hoje como em 1976. Há alguns anos que não o revia e tinha a memória de que o mesmo se concluia num banho de sangue, nada mais. Estranhei por isso o epílogo que nos mostra Travis Bickle de novo ao volante do táxi, aparentemente restabelecido do seu estado de progressiva alienação e demência. Custou-me a acreditar que alguém pudesse regressar à normalidade depois do percurso que o vimos fazer, mas o texto de Pauline Kael escrito à altura para a New Yorker coloca esta questão sobre outra perspectiva. Vale a pena citá-la e acompanhar-lhe o raciocínio. Até porque se trata de um dos melhores filmes da história do cinema.

‘The violence in this movie is so threatening precisely because it’s cathartic for Travis. I imagine that some people who are angered by the film will say that it advocates violence as a cure for frustration. But to acknowledge that when a psychopath’s blood boils over he may cool down is not the same as justifying the eruption. This film doesn’t operate on the level of moral judgement of what Travis does. Rather, by drawing us into its vortex it makes us understand the psychic discharge of the quiet boys who go berserk. And it’s a real slap in the face for us when we see Travis at the end looking pacified. He’s got the rage out of his system – for the moment, at least – and he’s back at work, picking up passengers in the front of the St. Regis. It’s not that he’s cured but that the city is crazier than he is.’

Pauline Kael, For Keeps – 30 Years at the Movies págs. 684/85

quinta-feira, março 24, 2005

(a juventude da arte) Não fez o meu género...


Acabei hoje de despachar o último romance de García Márquez que é mais uma novela. Já não lia nada deste autor desde a adolescência - a minha, pois a avaliar por Memórias das minhas putas tristes, o autor colombiano ainda por lá se mantém... Uma mensagem de sms que recebi noutro dia a propósito de outro escritor descreve aquilo que penso deste livro: good but not great.

Ora bolas!


De um lado estão as estrelas dos críticos - para o caso, as bolas pretas de Eurico de Barros (DN), João Miguel Tavares (DN) e Mário Jorge Torres (Público) -; do outro a informação de que se trata de um filme do Miguel Gomes com, entre outros, RICARDO GROSS no seu primeiro papel "falado". Em quem é que vocês vão confiar?

Bicke é Bickle


Não precisei de ir além do trailer do filme de Niels Mueller, que hoje estreia, para perceber que o modelo para Sam Bicke (Sean Penn) foi Travis Bickle (Robert De Niro). Isto também serve para mostrar que Penn é que é de facto o herdeiro do actor-fetiche de Scorsese - talvez por isso nunca (que me lembre...) tenham trabalhado juntos. O realizador tem preferido ceder ao charme do box-office que representa ter Leonardo DiCaprio na ficha artística.
Bem, tudo isto para dizer que pretendo ver o filme O Assassínio de Richard Nixon não esquecendo de rever também o ORIGINAL. As obras-primas revisitam-se sempre e com um prazer sempre maior.

quarta-feira, março 23, 2005

O melhor dos dois mundos

E o meu coração balança, entre...


o senador conservador


e a bicha louca

Classificação: (6/10)

terça-feira, março 22, 2005

O "segredo" é a alma do negócio


Um japonês, uma chinesa e um chinês de Hong-Kong

Mais ou menos por alturas do sucesso de Crouching tiger, hidden dragon, filme menor atendendo ao resto da obra de Ang Lee, o cineasta chinês (da 5ª geração) Zhang Yimou decidiu transitar para o género de filmes de kung-fu para o qual trouxe todo o seu aprumo artístico e a sua sensibilidade romântica. Primeiro surgiu Hero, O Herói filme que assentava nos códigos de honra guerreiros e que era uma fantasia multicolor livre sobre os cânones de Akira Kurosawa. Agora com House of flying daggers, O segredo dos punhais voadores dir-se-ia que Yimou visou principalmente um publico feminino, trazendo para primeiro plano a história hiper-romântica do trio Mei (Zhang Ziyi), Leo (Andy Lau) e Jin (Takeshi Kaneshiro): respectivamente uma estrela do cinema chinês, outra de Hong-Kong e finalmente uma do Japão. O produto final é visualmente menos deslumbrante do que Herói. É também uma história mais juvenil, cheia de reviravoltas que contribuem para uma certa descrença que vai na direcção oposta do que se pretende com o confronto final – semelhante ao "duelo" de King Vidor com a neve em vez do sol.
A história é também mais linear do que a da obra anterior contada ao jeito do Rashomon de Kurosawa. Mas sobretudo é alguma incoerência que se apodera do espectador que compromete o envolvimento deste com o filme de Zhang Yimou. Um exemplo: existe um personagem chamado Nia, chefe do clã dos punhais, uma figura omnipresente que a certa altura permite que Mei e Leo se reencontrem três anos depois na floresta de bambu. Ele percebe que Mei se apaixonara por Jin e força-se sobre a rapariga. A cena é interrompida por Nia que castiga Leo com uma "punhalada" que ele deverá carregar para que não se esqueça do que fizera. Pouco depois, a mesma Nia encarrega Mei de matar Jin (um soldado que intentava contra a seita da Casa dos Punhais Voadores), mas esta opta por fazer amor com ele sem que Nia intervenha em qualquer instante. Que diabo! E que conveniente apatia face ao inimigo e à traição da subordinada. E isto é apenas um exemplo, porque se formos pensando no que vimos antes, mais motivos encontramos para justificar a nossa incredulidade face a esta aventura.
A bilheteira, por certo, falará de modo diferente: O segredo dos punhais voadores é um objecto nitidamente formatado para um universo de público que não se restringe ao continente asiático, que sacrifica a componente mitológica e ritualizada de Herói em favor de lágrimas e suspiros que se compadecem com as exigências daquele que é o seu alvo principal: este é um filme em que as mulheres assumem o maior protagonismo para gaudio do público feminino que tem a maior palavra a dizer no cinema que se vai consumindo por esse planeta fora. A Zhang Yimou podem até chamar de oportunista, parvo é que ele não é.

Classificação: (4/10)

Esse tipo

(...) seu desempenho foi uma lástima, pela incompetência administrativa e pela determinação de fazer qualquer coisa a seu alcance para se reeleger, mesmo contra os interesses da cidade e as tradições de seu partido. (...) tem a audácia dos intuitivos desprovidos de autocensura. Esse tipo tende a fazer sucesso nas urnas de tempos em tempos. (...) é impermeável às evidências que lhe são contrárias. (...) Acha que o candidato do (...) será aquele que garantir mais votos para a reeleição de (...) Os intuitivos audazes sem-censura podem fazer carreiras políticas meteóricas. Costumam terminar como figuras folclóricas.

Tales Alvarenga sobre a ex-prefeita Marta Suplicy na Veja de 23 Março 2005

A noite escura do cinema


Nosferatu, F.W. Murnau (1922)

Cinema de manhã? Impossível. Impensável. Cinema é escuro. Escuro na sala e escuro na rua. Escuro para ver a luz. Escuro para sublinhar a luz. Cinema é noite e noite escura, noite dentro, madrugada.
O meu modo de encarar o cinema mudou quando comecei a frequentar as sessões da meia-noite. Foi como se o cinema ganhasse outra aura. Se vemos um filme de tarde, saímos da sala e regressamos ao bulício, ao rame-rame, à normalidade. Mas sair de uma sala às duas da manhã e não ver ninguém na rua, regressar em silêncio a casa num escuro que perpetua o escuro, isso é outra coisa. É como que outro filme.
Desde Janeiro, tenho visto alguns filmes de manhã. Os chamados "visionamentos". Só por obrigação consigo ver filmes às 10 da manhã (e por vezes não consigo mesmo). É quase agressivo assistirmos a um filme quando ainda não estamos totalmente dentro do mundo. Para quem, como eu, é um noctívago impenitente, o cinema matutino é um esforço. Mais que um esforço uma experiência estranha. Não se vai do escuro da noite para o escuro da sala, do escuro da sala para o escuro da noite e daí para o escuro do sono. Agora, o percurso é do escuro do sono para a flagrante claridade da manhã, para o escuro da sala, para a luz do fim da manhã. Chamem-me fotossensível, mas esta ordem diferente da luz e do percurso da luz faz toda a diferença.
São, se quiserem, formas opostas do "efeito de alienação". Ir ao cinema à noitinha transforma tudo em cinema, o silêncio é maior, a concentração é maior, o filme reverbera no escuro que nos acompanha a casa. Ir ao cinema de manhã (para um noctívago) é como quando me dizem um número de telefone e não tenho uma caneta sou confrontado com a existência concreta num momento em que não estou sóbrio, desperto, preparado. Creio que a experiência é tão diferente que pode mesmo mudar a nossa impressão de um filme.
Estou convencido (como escrevi nesta coluna) que grande parte das razões para gostarmos ou não de um filme são pessoais e subjectivas. Se calhar, podemos gostar ou não de um filme apenas porque o vimos de manhã ou porque o vimos de noite.

O Ministério da Cultura do Pedro Mexia fez-me mudar de diário de referência. E ainda não me arrependi.

segunda-feira, março 21, 2005

Onze contra nove

É uma chatice que as vitórias mais difíceis - ou desnecessariamente mais difíceis - sejam as que sabem melhor. O triunfo do Sporting, esta noite, sobre o Porto, por 2-0, quase que me ficou com a voz. Coisa que aqui não se nota e que por isso refiro com enorme alegria. Sppoooooooooorrting!

P.S. Este post tem o alto patrocínio das pastilhas Fisherman's Friend sabor extra-forte.

Mestra em cerimónia


Antes de existirem D'Angelo, Erykah Badu, Maxwell, Jill Scott, India.Arie ou Alicia Keys já Meshell (Ndegeocello) Suhaila Bashir-Shakur gravara discos incríveis como Plantation Lullabies e Peace Beyond Passion que ajudaram a criar e projectar o conceito de neo-soul, ou nu-soul. Meshell é filha de um músico de jazz e aprendeu por conta própria a tocar baixo, guitarra, teclas e bateria. O resto da sua inatacável discografia já se aproximou da folk (em Bitter), do hip-hop (em Cookie...), da soul mais progressiva (em Comfort Woman) e agora do jazz like never before... Nenhum dos seus discos se perfila na pureza de qualquer género, todos são híbridos onde impera acima de tudo a musicalidade - que rima assumidamente com espiritualidade.
A um nível puramente musical, o novo The Spirit Music Jamia: Dance of the Infidel é dos registos mais impressionantes de Meshell Bashir-Shakur (ou apenas Bashir-Shakur tal como assina hoje as suas composições livres e orgânicas). A respeitabilidade de que Meshell goza junto da comunidade jazzística norte-americana – nada com contornos tão definidos como possamos supor... – permite-lhe trazer para este projecto gente como Oliver Lake, Gene Lake, Michael Cain, Mino Cinelu, Kenny Garrett (notabilíssimo em todas as intervenções), Brandon Ross, Cassandra Wilson, Wallace Roney, Jack DeJohnette, Don Byron... e ninguém se poupa a esforços no processo de traduzir o desejo de uma qualquer transcendência de ...Dance of the Infidel.
A enorme estima que nutro por Meshell leva-me a vê-la em termos artísticos como uma espécie de filha de Prince e de Joni Mitchell, apadrinhada por Miles Davis. Nunca produziu até hoje nada de desinteressante e este novo disco arrisca-se a adquirir uma importância na história da música afro-americana recente comparável a Voodoo de D’Angelo - bitola altíssima como se vê... A comunhão liderada por Meshell atingiu aqui, posso assegurar-vos, patamares estratosféricos.

Classificação: (8/10)

Aquilo que faz um bom colunista (12º e 13º parágrafos)

It is fatal to appear to condescend to your readers, just as it is impolitic to suck up to them, or hector them, or try to jolly them along. Remember, it is the easiest thing in the world for them to stop reading your article after the first paragraph, or half-way through, or at any stage. They do not even need to take a conscious decision. Their eye simply slips off the page. Or the piece is put down because the phone rings, and never taken up again. And if your column is not finished one week, it may not even be begun the next. Remember: you are always the suppliant, it is the reader who is the haughty beloved. Woo him or her, in every paragraph, in every sentence, in every word – and, hardest thing of all, never seem to do so. Never grab him by the lapels or thrust an importunate hand up a tightly gathered skirt or bellow into an indifferent ear. Love, but do not let your anxiety to be loved in return be evident. If you know how to stalk red deer, stalk. If you know what tickling trout is, tickle. But forget your shotgun: it does not work with this kind of game.
The reader will notice that I used the word “I” a dozen times in the paragraph before last. [ver 11º parágrafo, alguns posts atrás…] Then I realized what I was doing and switched the tone. All good columns are about humanity and human nature, and they are personal. But they should never be egotistical. Vanity is the cardinal sin of the columnist. Next to that in heinousness is omniscience, vanity’s younger brother. A know-all manner is a repellant. So is undue stress on insider knowledge. Never use phrases like ‘I asked the Prime Minister’ or ‘a member of the Cabinet told me’. The personality of the columnist should always be present but it should rarely break out openly in the text. A good columnist is a submarine, prowling just below the surface of his prose, periscope but inconspicuous. (…) a continuar…

Paul Johnson, The Art of Writing a Column

De excepção


Um blogue que assina McGuffin.

Dois anos de Contra a Corrente. Parabéns pá!

domingo, março 20, 2005

Dignidade


Bardem, como de costume, é magnífico.

Dignidade, ou a falta dela, é a justificação dada por Ramón Sampedro (Javier Bardem) para querer pôr fim à sua vida. Dignidade é um bom programa e Alejandro Amenábar até vai conseguindo manter Mar Adentro num equilibro algo precário entre a dignidade e uma certa chantagem emocional: Mar Adentro é filmado sempre com a lágrima ao canto do olho.
O pior vem no final, quando o realizador não nos poupa à morte do protagonista “em directo”. Nesses momentos, quando a vida de Ramón se desvanece, também não sobra dignidade alguma.

Classificação: (4/10)

sábado, março 19, 2005

O “gesto” (não) faz o filme


Falso pai (Bill Murray) e filho falso (Owen Wilson)

É o vosso falso filme perfeito para o Dia do Pai - para quem viu hoje. A maior extravagância de Wes Anderson até ao momento. Imaginem os documentários de Jacques Cousteau filmados por Ed Wood com a máquina de Hollywood por trás. É claro que este humor é todo ele afectado, muito autoconsciente, a fazer de conta... Tem um charme próximo dos outros filmes de Anderson – Rushmore (ainda o meu favorito!), The Royal Tenenbaums – mas não tanto. O que importa é o “gesto”, a estética offbeat (retro with cash), as partes gagas que fazem o todo que é a “arca” de Steve Zissou, o oceanógrafo egocêntrico e clownesco que manipula tudo à sua volta.
The Life Aquatic With Steve Zissou, Um Peixe Fora de Água é filme sério para não levar a sério. Um capricho a várias vozes (o elenco é de luxo!), conduzidas pelo maestro Anderson. É um milagre que a indústria de cinema americana também se permita parir objectos como este. Mas não chega para integrar a minha lista de melhores do ano. No entanto suspeito que um segundo visionamento possa fazer-me mudar de opinião.

Classificação: (6/10)

sexta-feira, março 18, 2005

Getting medieval with my ear drums


«Graceful, sorrowful hymns are draped with swathes of haunting, echoing noise, like hearing funeral music carried with the wind through a storm.»

Estou assombrado. Também, o caso não é para menos...

Inclassificável!?

You can say that again, "Big" Sam!


"MANAGER" DO BOLTON DEFENDE PORTUGUÊS
Sam Allardyce: «Mourinho é apenas um actor»

Sam Allardyce, um dos bons técnicos da Premier League e do futebol britânico, é fortemente respeitado pela clarividência das suas opiniões, normalmente bem consubstanciadas. Na análise ao trajecto recente de Mourinho, o “manager” do Bolton admite a sua admiração pelo desempenho do português.
“Mourinho não é o homem que vemos. Aquilo que observamos é uma fachada, ele é um actor que trabalha muitíssimo para manter a mesma postura. Em privado, tem muito mais humildade e compaixão do que se possa pensar”, inicia Allardyce, completando: “Se um avançado marca um golo como Drogba o fez, encorajando o técnico a saltar do banco, isso é prova do elo que Mourinho conseguiu estabelecer com os jogadores, em circunstâncias desfavoráveis. Sem esse elo, nada se ganha. Acho que é uma fachada muito bem ensaiada. Mourinho é muito astuto e esperto. Quer que todos saibam que ele é o melhor, e é esse o seu estilo. Mas é perigoso optar por essa via: quando se começa a falhar, pode-se tentar encontrar um ombro no qual chorar e ele não estar lá. Não tem problemas em expressar as suas opiniões, mas essas estão envolvidas em grande emoção. Penso que ele é um homem muito emocional, que tenta disfarçar essa emotividade.”

FRISK
No que toca à recente polémica em torno do (ex-)árbitro sueco, Anders Frisk, Allardyce defende “Jose”: “O que Mourinho afirmou não é diferente daquilo que outros técnicos têm dito ao longo dos anos. Se é para dar uma opinião legítima, porque não deve ser autorizado a fazê-lo? Estou solidário com ele.”

Autor: V.V. Data: Sexta-Feira, 18 de Marco de 2005 02:30:00

Lucidez


Já comprei. Sobraram dois. Talvez apenas um...

114 páginas de brancura


Não resisti à estreiteza do último Gabriel García Márquez. O pequeno livro ficou pelo preço de um bom dentífrico e de um bom elixir. E não vai livrar-se de apanhar umas belas mordidelas nos próximos dias. Até que o termine.

Quando observamos na rua pessoas desdentadas ou com ou dentes careados, devemos moderar os primeiros pensamentos de desprezo. Há decisões que se impõem ao longo da vida. E os leitores compulsivos merecem-nos respeito. Excepto os que não tendo que optar negligenciam cuidados básicos de higiene e saúde.

quinta-feira, março 17, 2005

Contenção (é de futebol e do Sporting)

Tivemos de novo um Sporting à imagem do seu treinador – a equipa cumpre e se alguma coisa lhe há que apontar, as responsabilidades devem ser pedidas a Peseiro. Cumprir, esta noite, passou por arriscar muito pouco e por tentar conter as iniciativas atacantes do Boro – neste aspecto Enakarhire voltou a estar insuperável. Beto recuou para o centro da defesa quando Peseiro trocou Hugo por Douala. Decisão correctíssima que veio dar outra acutilância ao nosso ataque. Mas Liedson estava desinspirado, assim como Hugo Viana, Sá Pinto (este, no entanto, muito batalhador), Barbosa (até aos 89 minutos...), os homens de quem se esperava um remate mais certeiro, uma entrada fulgurante, enfim, o golo tranquilizador. Com um pé nos quartos de final, o Sporting deu ideia de ter metade do cérebro já a pensar no jogo da próxima 2ª feira com o Porto. Algum desleixo competitivo contribuiu ainda para os brindes que o Boro, muito convenientemente, desperdiçou – e não foram poucos (Ricardo que o diga...) Notou-se a falta que fazem Custódio, Rochembach e Carlos Martins, principais vectores do futebol espectáculo que o Sporting praticou esta época em Portugal e no estrangeiro. Rui Jorge foi voluntarioso, Beto foi robusto, Rogério notou-se que vinha de recente e indesejada gripe. Enak, repito, esteve soberano: e neste momento, a par de Liedson (que esta noite não se encontrou), é o elemento mais valioso do nosso plantel. No meio-campo, descontando os ocasionais brilharetes de Barbosa (marcou no fim de contas o golo da vitória por 1-0), Moutinho foi o mais regular – muita bola roubou o miúdo. E por último uma nota meritória para o perdulário Boro, mais veloz e melhor a defender do que na primeira mão, mas sem cometer a veleidade de assustar de facto um Sporting demasiado adormecido. Se eles têm feito um golo, só “Deus” sabe o que seria não é Sr. Peseiro?

O homem que falava demais


Classificação: (7/10)
Não vou revelar pormenores da história porque isso seria estragar o prazer de ser surpreendido pelo mirabolante Oldboy, Velho amigo, do sul-coreano Park Chan-wook. Oldboy é um filme onde a representação da violência está um grau abaixo da explicitude, e em que o sentido de perversão está um grau acima da nossa imaginação.
A obra de Park Chan-wook premiada pelo júri de Cannes presidido por Quentin Tarantino é formalmente sôfrega e insaciável, assim como infinita é a sede de vingança que está no seu núcleo. É movida por um sentido trágico de uma amoralidade luciferina. Derruba com requintes de paroxismo os principais tabus da sexualidade. Mas não é chocante – há um fluxo contínuo de inverosimilhança que nos permite amortecer com o cérebro aquilo que de mais perturbador observamos na história de Oh Dae-Su, um homem encarcerado num quatro durante 15 anos sem motivo aparente (o motivo está subentendido no título deste post, mas mais não digo...).
A moral de Oldboy resume-se a duas frases: “Ri-te e o mundo rir-se-á contigo. Chora e ficarás a chorar sozinho.” A vingança é diabólica e em contra-relógio (dois movimentos vingativos com durações distintas que finalmente embatem um contra o outro) e o filme de Park Chan-wook é selvagem. Não voltaremos a ver nada assim este ano.

De gajo


O que pareço eu com um DN, um Record e a nova FHM portuguesa debaixo do braço? Pareço um gajo.

quarta-feira, março 16, 2005

Vamos lá falar de coisas sérias...


Um peixe fora de água
Amanhã estreia.

terça-feira, março 15, 2005

Aquilo que faz um bom colunista (11º parágrafo)

The fourth point to be borne in mind is that your natural news-sense should take account of the need for variety. Most columns should never be too far from the events of the day, be they political, social or cultural. But, while being topical, the columnist should dodge about between these, and other, fields. I try never to write on domestic politics, or geopolitics, two weeks running, unless the news leaves me no choice. And if there is a big political news story, which rivets the attention of all writers, I am careful to consult with the editor about how he is handling it. If his coverage is comprehensive, I am often inclined to give the subject a miss and write on something completely different, even lightweight – that is, if he will let me. Or he may warn me off in the first place. If I write on painting, a subject which preoccupies me more and more, I will then leave it alone for at least six weeks, however great the temptation. I avoid discussing TV if possible – it is to easy and obvious. I try not to write about religion more than four times a year, and never at Christmas or Easter, when everyone else is doing so. On the other hand, I never write less than four pieces a year with God in them. I do not write a foreign piece two weeks running. If I travel, I sometimes use my experiences for a column, but not often, and only when they merit it. Everyone travels nowadays, frequently, all over the world – or it is sensible to assume they do. No place is truly exotic any more, unless you are on the inside track there; and then you must beware of snobbery or in-grouping. (…) a continuar…

Paul Johnson, The Art of Writing a Column

Pessoal e transmissível


Não consigo imaginar mas no entanto penso no que teria sido a reacção a este disco caso tivesse marcado a estreia da editora de David Sylvian em vez do mais austero blemish, que afinal partilha do código genético de the good son vs the only daughter (the blemish remixes) a que me refiro.
A originalidade da proposta começa logo no facto de ter sido o próprio Sylvian a encomendar pessoalmente a reconfiguração de sete dos oito originais de blemish – o tema-título blemish e the only daughter são alvo de duas remisturas. O resultando surpreende porque as várias direcções para as quais estas remisturas apontam seriam caminhos que imaginaríamos que Sylvian viesse a trilhar em função da crescente afinidade que o músico vem revelando com vários artistas da electrónica ambiente e espectral.
A remistura de Burnt Friedman para blemish e a transformação operada por Tatsuhiko Asano no tema how little we need to be happy encontram-se por seu lado em perfeita sintonia com o repertório de dead bees on a cake, o último álbum de originais de David Sylvian na Virgin. O resto identifica-se mais com o que veio depois – nomeadamente as colaborações de Sylvian com Readymade e Fennesz.
Se blemish era já na sua esquelética de voz, guitarras e electrónica digamos que um bom disco para um número reduzido de ocasiões, neste caso, com the good son vs the only daughter (the blemish remixes), estamos na presença de um registo que supera a matriz, que leva a experimentação a um conjunto mais vasto de paisagens sonoras, e que finalmente – o que na verdade mais interessa! – apetece escutar um maior número de vezes: com destaque particular para a criatividade das molduras sonoras de Ryoji Ikeda (the only daughter, faixa #1), de Jan Bang e Erik Honoré c/ Nils Petter Molvaer (novamente the only daughter, faixa #8) e de Akira Rabelais (blemish, faixa #9).

Classificação: (8/10)

A condição humana


Marc Chagall "loneliness" (1933)

A condição humana é a solidão. E o sonho.

O preferido


Hoje comprei um livro sobre o pintor de que mais gosto para poder um dia perceber melhor as razões da minha preferência.

segunda-feira, março 14, 2005

Elogio do homem a discos

O Homem a dias passou a dar-nos óptima música. Quando chegar a casa vou ouvir.

Elogio do homem caseiro

Pedro Mexia dá-nos o melhor post da semana datado de ontem. Embora eu goste de ser visto (com bons olhos).

VER E SER VISTO
Acho graça quando alguém critica os socialites por irem a festas para «verem e serem vistos». As festas existem precisamente para as pessoas «verem» e serem «vistas». Eu iria a todas as festas possíveis e imaginárias se numa festa a gente só «visse». Mas a parte de «ser visto» faz de mim um homem caseiro. [P.M.]

Estreia dia 24 "em todo o país"


Coboi (Francisco/ José Airosa) e anjo (Marta/ Gracinda Nave)

Leituras II

Amor à primeira vista
João Pereira Coutinho (Expresso)
Giuliana Sgrena, jornalista italiana, foi raptada no Iraque pelos criminosos do costume. Ao contrário do seu compatriota Fabrizio Quattrochi, que ao ser decapitado ainda gritou «agora vão ver como morre um italiano», Giuliana acabou por ser libertada em circunstâncias dúbias e, a caminho do aeroporto (estrada conhecida por ataques suicidas regulares), o carro foi violentamente atingido pelas tropas americanas. Saldo: Nicola Calipari, agente dos serviços secretos italianos, morreu na operação quando procurava salvar e proteger Giuliana.
Fim de história? «Un attimo, per favore»: na verdade, Giuliana chegou a casa e tratou logo de explicar a sua versão dos factos. Sim, ela tinha sido raptada (um pormenor ridículo e, para o caso, perfeitamente dispensável). Mas só os americanos a tentaram verdadeiramente matar. O episódio não foi, como se imagina, um trágico acidente, típico de um país em chamas, que merece investigação apurada e racional. Foi, pelo contrário, uma emboscada. Washington, já se sabe, despreza Berlusconi, despreza os aliados e não admite eventuais negociações com terroristas.
As palavras de Giuliana não merecem grande comentário. São uma mistura de trauma e antiamericanismo primário – e nem o primeiro conseguiu dissolver e apagar o segundo. Mas o melhor veio depois: numa estranha sintonia com as palavras de Giuliana, apareceram os próprios raptores que, em comunicado televisivo, suportaram a tese da raptada.
Eu não pretendo fazer doutrina sobre esta espantosa comunhão entre vítima e carrasco. Mas, por via das dúvidas, devolvia Giuliana ao calor das Arábias. Chamem-me romântico. Mas desconfio que estamos na presença de um caso de amor à primeira vista.

Leituras I

Propaganda
Helena Matos
Para começar desfaça-se duma vez por todas o paradoxo do comprometimento e das causas dos jornalistas. O jornalismo de causas é uma fraude que serviu e serve para que se editem, sob a forma de notícia, conteúdos de propaganda. Os jornalistas não têm, nem devem de estar comprometidos com nada a não ser com a qualidade e o rigor do seu trabalho. Isto não invalida que pessoalmente tenham as suas causas, mas ajuda a que não coloquem as notícias ao serviço do seu ideário. Não só não mostrar as imagens dum atentado não faz qualquer sentido do ponto de vista jornalístico, como o pedido de Zapatero tem implicações políticas muito mais amplas. Ao pretender apagar as imagens do atentado, Zapatero pretende fazer sobressair outras: as das ruas cheias de gente com cartazes onde se associava Aznar a Bin Laden, Bush a Hitler e onde se fazia equivaler a paz à retirada do Iraque.

ooops, três anos


A Periférica Nº12 acaba de sair. Vou já comprá-la mais daqui a pouco.

domingo, março 13, 2005

No assalto ao 2º lugar o Sporting disse adeus ao campeonato...

Sem reacção e com alguma infelicidade. Nem sequer tivemos direito ao golito de honra.

AVISO prá próxima 5ª feira: como esta noite ficou amargamente provado, é possivel vencer em Alvalade por 0-2.

Terceira idade


O meu pai faz hoje 65 anos. No restaurante onde almoçámos encontrava-se o glorioso Humberto Coelho, também em família. Não resisti e fui-lhe pedir um autógrafo para o meu pai. Hoje sou sportinguista mas tempos houve em que acompanhava os treinos dos lampiões e que era o meu pai a incentivar-me a preencher as cadernetas de cromos com a respectiva assinatura. Soube bem esta inversão de papéis e ainda por cima o grande "capitão" é uma simpatia.

Novos contos da montanha



Dave Douglas (trompete);
Rubin Kodehli (violoncelo);
Michael Moore (sopros);
Marcus Rojas (tuba);
Tyshawn Sorey (bateria).

Esta pandilha proporcionou ontem à noite no pequeno auditório do CCB um excelente momento musical. Elegíaco, swingado, muito bem disposto. O público correspondeu com demoradas ovações e aí foi a vez dos músicos se renderem a nós. Memorável.

O romanesco em farrapos


O extraordinário Gilbert Melki (Nathan)

Depardieu e Deneuve são muito bons mas extraordinário é Gilbert Melki, a revelação do último Téchiné. Grande personagem - o médico marroquino casado com Deneuve ao qual as atribulações dos "modernos" causam perplexidade - para um actor estupendo. Pelo menos para mim.

Classificação: (6/10)

sexta-feira, março 11, 2005

Très Debussy, very Sakamoto, completely Budd............................................................................


O testamento musical de Harold Budd é muito muito muito muito muito mesmo muito bonito. É como se eu tivesse morrido e ido para o Céu. Nunca lá estive embora me ocorra pensar que seja assim: tão simples and yet tão completo. Deixo-me ir com ele............................................................................................................desde que não me diga para onde vamos................................................................."enquanto conseguir suster a respiração"..........

(…) delicate piano improvisations, lush string arrangements and warm electronic drones.

(…) intimacy, warmth, meditative ecstasy, such moods, which are certainly present in Budd’s work, are never allowed to last too long…

Avalon Sutra brings to a conclusion thirty years of sustained musical activity. (…) Budd says only that he feels that he has said what he has to say. With characteristic humility, he concludes, I don’t mind disappearing!

Classificação: (10/10)

quinta-feira, março 10, 2005

Idolatrar-te-ei até te matar


Amadeus, de Milos Forman, é essa coisa notável e rara que é um filme de muito forte apelo popular que ao mesmo tempo é uma obra de enorme valor artístico. Adapta uma peça da Broadway (o apelo popular passa seguramente por aqui) pelo próprio dramaturgo Peter Shaffer. Tem magníficas direcção artística (Patrizia von Brandenstein) e fotográfica (Miroslav Ondricek). Acabou muito justamente coroado com oito estatuetas da Academia.
Mais importante do que tudo isto é o que se encontra no coração da sua dramaturgia servido pelas interpretações superlativas de F. Murray Abraham (Salieri) e Tom Hulce (Mozart). Amadeus coloca em confronto, de forma muito original, estes dois homens, ambos compositores: o primeiro, Salieri, que devotou a Deus toda a sua Arte para ver-se preterido no papel de génio que coube ao extravagante Mozart. Salieri, o casto, compositor do seu tempo. Mozart, o hedonista, compositor para a eternidade.
A grande ironia é que o génio de Mozart, segundo o filme, só foi reconhecido por Salieri, aquele que mais o idolatrava e mais o invejava. O seu principal admirador e o seu mais terrível inimigo. Salieri vingar-se-á de Mozart pelo facto do espírito de Deus – a inspiração divina! – não ter entrado no seu corpo mas no do pequeno génio de riso estridente. Um corpo que se guardou a vida toda para servir a música. Ao mesmo tempo que o corpo de Mozart se entregava a todos os prazeres da vida, a música incluida.
Amadeus é construído em torno da confissão do crime de Salieri, o homem que matou o seu rival com trabalho – com a encomenda da missa de Requiem numa altura em que Mozart começava a mostrar os primeiros sinais da doença que o vitimaria (tuberculose ou uma febre de qualquer espécie). Salieri está num asilo e conta a história da sua rivalidade com Mozart a um padre jovem que o escuta incrédulo. Seguramente também fascinado, pois este é um filme deslumbrante. O padre acompanhará connosco a via sacra de Mozart até à vala comum onde o corpo deste será depositado. Suprema ironia para um músico de génio.
Há ainda uma outra figura masculina na vida de Mozart que embora secundarizada é também bastante importante: a do seu pai Leopold Mozart. Em análise derradeira a figura de quem Mozart (filho) sempre aguardou todo o reconhecimento (o pai era também compositor) que nunca chegou. Leopold é um fantasma castrador na vida de Mozart. Alguém que reprovará sempre a sua conduta. E, nova ironia, alguém cujo filme de Forman a certa altura substitui por Salieri quando este auxilia Mozart – não com a mais nobre das intenções, embora Mozart disso não se aperceba – a (quase) concluir a escrita do Requiem numa das mais belas cenas do filme – quando imagem e música se fundem uma outra vez de forma sublime.
É esta obra-prima que poderão encontrar por aí a preço irrisório, numa edição dupla de luxo, que apresenta a versão do realizador (tem cerca de mais 20 minutos) que na prática prolonga para nosso deleite as cenas de Ópera coreografadas por Twyla Tharp. Amadeus é um filme que ilumina os seus muitos mistérios. O grande cinema popular é assim. Uma permanente festa.

A vitória fora por 3-2 só é um excelente resultado para quem não viu o jogo


Riverside Stadium - a casa do Boro

Primeiro há que dizer que o triunfo do Sporting começou num trabalho quase perfeito da dupla de centrais. Enakarhire e Hugo mantiveram uma entreajuda notável, manchada apenas pela apatia no lance do primeiro golo do Middlesbrough que aliás se estendia ao resto da equipa do Sporting.
A primeira parte teve pouca história. O Sporting secou o ataque do Boro com grandes exibições também de Rogério – muito esforçado nesta altura - e de Rui Jorge – na melhor exibição que se lhe viu este ano. Na primeira parte o Sporting teve no entanto dificuldade em fazer chegar a bola aos atacantes mas depois, logo no recomeço do jogo, duas assistências de morte ditaram o vencedor: 0-1 por Pedro Barbosa (outro elemento em destaque) e Liedson fez o 0-2 pouco depois num magnífico golpe de cabeça. Douala marcaria ainda o 0-3 num daqueles golos que só se obtêm frente a uma equipa destroçada.
Mas a tal desconcentração que se apoderou do Sporting depois de ter conseguido tão folgada vantagem quase que estragava o brilho da noite. Do 1º golo do Boro já falei – resultou de um espectacular movimento acrobático do camaronês Désiré Job. E o 2-3 de uma acrobacia tosca de Ricardo que já havia dado duas ou três fifias à maneira dele, no meio de outras tantas magníficas defesas. Aqui as coisas complicaram-se e o Sporting terminou o jogo entre a tentativa de manter a posse de bola – coisa que fez tão bem durante 70 minutos – e o salve-nos quem puder.
Tiveram na mão um resultado histórico. Ficaram com um resultado excelente – apenas para quem não viu o jogo...

Aquilo que faz um bom colunista (9º e 10º parágrafos)

The third key to column-writing is news-sense. A columnist may be a historian, as I am, or a playwright, like Keith Waterhouse, or a novelist, like Robert Harris. But he ought never to forget that, for this purpose, he his foremost a journalist. He should keep a fine nose for the news, and sniff it inquiringly before settling to his task. The reader’s mind hankers after novelty, always. The best column is one which responds to novelty, links it to the past, carries it forward to the future and invests the topic with wit, wisdom and elegance. The novelty can be anything: geopolitics, home affairs, science, literature, fashion, art, the drama, society, religion. Its gravity is immaterial; what it must be is new, not some hackneyed theme which has been chewed over for weeks. A good columnist will spot some emergent topic just as it comes to the forefront of the news, and fire his guns before the battlefield is trampled over and lost in smoke. Just occasionally it is good tactics to take last week’s theme and upend it, but only if you have something good and valid to say which runs counter to the conventional wisdom.
My method is to make three out of four columns topical in one way or another. In the fourth I please myself, and write about what I think matters, irrespective of what is in the papers, or will be. I write about the weather or the season or something I have done or seen or heard. These personal columns are the real test of whether you know how to do the thing. You have to marshal all your literary skills and make absolutely sure you can carry your readers with you to the end of the last paragraph. If you are not sure, beat a hasty retreat and stick to topicality. On the other hand, if you can pull it off, these eye-witness or autobiographical pieces are, I find, the ones that most delight the reader, stick in his or her mind, and find their way into the anthologies. One word of caution: beware braggadocio or triumphalism. Such personal pieces should be seasoned with modesty, should be humble or if needs be ironic about one’s claims to importance, and stress incompetence and failure – or discomfiture – rather than personal accomplishment. The reader is more likely to sympathise and identify with one who cheerfully endures misfortunes, than with one who effortlessly surmounts them. In the battle for life, the good columnist is a natural loser, albeit a perennially optimistic one. (…)
a continuar…

Paul Johnson, The Art of Writing a Column

Nota: Tenham paciência que faltam só mais seis parágrafos.

quarta-feira, março 09, 2005

Já não me recordo da última vez que desejei rever um filme em sala e que o fiz de facto


Algumas das coisas mais bonitas de Million dollar baby acontecem depois do acidente de Maggie (Hilary Swank). Quando falo de beleza falo de emoções que os personagens nos transmitem. Million dollar baby, não sendo um filme sentimental, é dos mais emocionantes que vi na vida. No hospital, Maggie tem medo de ter desiludido o seu treinador Frankie (Clint Eastwood) pois não conseguira “proteger-se” como ele pedira que o fizesse – sempre! Por outro lado, Frankie quer que Maggie não deixe de acreditar que tomará sempre conta dela – uma vez que também ele falhara ao não ter conseguido “protegê-la” desse combate fatal. Million dollar baby não é definitivamente um filme sobre boxe. Ambos os protagonistas tem um coração grande demais para que assim seja: recordem-se, um pugilista não deve ter demasiado coração. É sim uma lindíssima narrativa de amor e compaixão entre duas pessoas que só se têm uma à outra. A história de um amor e de uma compaixão profundos como o rosto e a voz de Morgan Freeman (Scrap) – a voz deste, aliás, parece conduzir o olhar de Clint Eastwwod (realizador). É ela que dá o ritmo a Million dollar baby. O de um drama sombrio e pungente.

Leiam o livro que vão perceber

O Carlos perguntava há dias se alguém tinha encontrado a História Oral? Eu encontreia-a e já agora cada vez mais me convenço disso. Está aqui.
(leiam antes a brilhante análise ao Chelsea-Barcelona de que só vi os golos mas não tem importância)

Motivos musicais (in)finitos


Classificação: (4/10)

Desde que o som do Pat Metheny Group se abriu "ao universo" em 1984 com «First Circle», que as propostas deste combo extraordinário se resumem, em linhas gerais, à reciclagem e aprofundamento de motivos musicais que parecem ter atingido hoje a sua finitude. «The Way Up» é um disco que em termos de virtuosismo nada deve a qualquer outro registo do PMG, só que desta vez a montanha russa de sons não suscita quase nenhuma emoção. Os músicos poderão ficar impressionados com a escrita ultra-dinâmica de Metheny e Lyle Mays, todos poderemos invejar a parafernália de instrumentos (de guitarras, sobretudo) de que este disco se socorre, mas quando não existem ideias verdadeiramente excitantes (e aqui não me refiro a uma excitação puramente intelectual, porque isso imagino que esta música possa ainda provocar...), quando não existem motivos musicais novos ou apresentados com uma nova cara que remetam para a nossa vivência de apreciadores de música, quando o virtuosismo nos parece estéril pois não faz subir um cabelinho que seja em todo o nosso corpo, então a coisa fica comprometida.
O Pat Metheny Group até pode fazer aproximações a «First Circle», digressões junto de «Still Life (Talking)», de «Letter From Home», pode até citar «Electric Counterpoint» (quando Metheny tocou a música de Steve Reich), traçar tangentes a «Secret Story» ou a «Imaginary Day», que já ouvimos tudo isto menos disperso, mais concentrado em termos emocionais, melhor conseguido a nível melódico embora nunca tão bem tocado como agora. A dissidência parecer-vos-á radical, mas prefiro pensar que nem esta música já está fora de mim, nem que eu deixei de conseguir entrar nela. Fico num impasse. Acontece com os melhores. Aconteceu com o Pat Metheny Group.

Nota: Adorei o último disco de Metheny a solo («One Quiet Night») e gosto muito de todos os discos em trio – os de estúdio e o “ao vivo” – com Larry Grenadier e Bill Stewart. O homem ainda é para mim o melhor guitarrista jazz da actualidade.

Sorry Development

Oprah, anyone?

In Sydney today, where they are celebrating Australia Day at the height of their glorious summer, they will also be launching the idea of a National Sorry Day, to be observed on May 26. Australians will be asked to sign “Sorry Books” apologizing for their treatment of the Aborigines over the years. These will then be handed to the various Aborigine community groups and everyone will feel a lot happier.
It would be sad to have to decide that this magnificent young country is already beginning to go soft at the edges. Sentimentality is an unattractive self-indulgence among individuals. I often feel, with sentimental people, that their sentimentality is the exact measure of their inability to experience genuine feeling. Under popular democracy, whole countries, adopt it as their chief claim to morality and self-respect.
It is most particularly an American disease, and will spread wherever American television is allowed to be shown, American magazines are allowed to be read. One sees it in Tony Blair’s nauseating readiness to apologise for the Irish potato famine and anything else he can think of.
The most recent example comes from New York, where Hallmark, the greetings card firm, is to market a “suicide” card to send to those who have recently lost a child, spouse, brother, sister or “loved one” through suicide. These suicide cards will be available in Britain within a few months.
The first card, we are told, will show a sailing boat with a message about someone fleeing from life and the impossibility of understanding their pain. For its combination of sentimentality, commercialism and gross insensitivity, it might epitomize the popular culture of America which threatens to take over the world.
I would like to think that in Britain these suicide cards will sent only as a bad-taste joke to people who are not bereaved but who have annoyed the sender in some way. I would dearly love to think this will be so.

Auberon Waugh, 26 January 1998

terça-feira, março 08, 2005

Dia Internacional da Mulher



segunda-feira, março 07, 2005

À moda antiga


Eastwood gosta de ‘Sideways’ mas de MTV... nem vê-la

Do you think your movies hark back to older movies? Well, I’d like that. That would be a compliment if they did. But you do it because that’s the way you see it. And I suppose another person might see it differently; a younger director would maybe approach it differently. But then there’s Alexander Payne [director of Sideways and About Schmidt], who’s a young man but has a scope to his movies that’s sort of old-fashioned.

It’s interesting that you bring up Payne’s work because it really is much closer to your work in scale than anybody else’s that you’re competing with in this year’s Oscars. Yeah, he tells a small story with a certain size. It would be easy for a story like that to be almost in head shots. But he makes it feel like a movie and not something you could see on TV. It isn’t just MTV drivel. And not there’s anything wrong with MTV. I guess… well, there is to me because I think that stuff is fatiguing to the brain. If we’re going to have a pop culture that’s just going to be a lot of flash images, we’re never going to get a chance to look at anything.

Richard Schickel entrevista Clint Eastwood, Time 7 Março 2005

O outro "Eu"


O outro "Eu" de Maria João Pires chama-se neste disco - «Résonance de l'Originaire» - Ricardo Castro. As qualidade interpretativa dos dois músicos confunde-se (sem se misturar) até mesmo nas peças a solo - as sonatas D 664 (lindíssima) e D 784. A pianista portuguesa e o seu congénere brasileiro terão criado a tal unidade ambicionada: óptimo para eles e para nós que escutamos com grande prazer.
O registo do(s) piano(s) terá por sua vez ambicionado uma certa pureza do som. Não procurem aqui um som cheio pois cada instrumento só ocupa o espaço que lhe é devido. A grandiosidade da música de Schubert faz o resto.

dave douglas


Bom disco em escuta - mountain passages: classificação: (7/10) - e bom concerto em perspectiva para o próximo Sábado às 21h no CCB.

Aquilo que faz um bom colunista (7º e 8º parágrafos)


Paul Johnson: Mr. 12,000 volumes and counting...

The second function of wide reading is to produce ideas. I am a great browser of shelves, an assiduous dipper into volumes. I thumb a book through, read a page or two, then replace it. I do this in bookshops and libraries, and among my own shelves. At present I own (I think) about 12,000 volumes. Sometimes I have had more, sometimes less. Every few years, a shortage of shelf-space dictates a huge and painful purge, when meretricious or duplicate or disappointing works are weeded out. Then, all too quickly, fresh arrivals fill up the vacant spaces, and overflow them, and a new crisis develops. I receive many new books for review, or publishers send them to me, hoping for a mention. Most of these volumes go, speedily, to what I call the knacker’s yard, which in my case is an admirable establishment near my house, called Nothing Hill Books, run by that great and learned lady Sheila Ramage and her lovely assistant Pamela. However, Sheila also sells books, chiefly on art, at much reduced prices, so I usually emerge from her shop with many more volumes than I take in. The urge to buy books is a chronic disease, which is cured only by bodily annihilation. In my case, the consequences of the disease are dealt with by dividing my books into two libraries. Most are kept in my London house, into every cranny of which they have spread. But about 2,000 books on the history of art, the majority large quartos or folios, have been consigned to my Somerset house, where special shelves have been built to accommodate them. As a result, the book I particularly want at any one time is always 250 miles away. However, I can see no other solution.
I do not claim to have read all or even most of the books I own. Some I read many years after purchase, others never. But I’ve looked into all of them. I know what they contain. All are for potential use, as well as pleasure. Many are for reference or checking, and it is gratifying how often I refer to them. The advantage of having so many books, on all the topics that interest me, but chiefly history, literature, the world, travel, philosophy, politics and religion, is that they are there for a rainy day. By this I mean a deadline-day when I have not yet found a subject for a column. I peer along the shelves, hoping for inspiration. This is a dangerous procedure, for I may pick up a volume, become absorbed by it, and find at the end when I look at the clock, that it is not to my purpose, and meanwhile precious hours have flown. On the other hand, it has saved my journalistic bacon many a time. Besides, having so many books at hand often means that I can flesh out an existing idea, but a rather thin one, with a certain amount of scholarship, real or spurious. (…) a continuar…

Paul Johnson, The Art of Writing a Column

Partido do "Eu"

«No princípio dos anos 30, com a Crise», prosseguiu, «muita gente da Village começou a interessar-se pelo marxismo e tornaram-se radicais. De um momento para o outro, a maior parte dos poetas do sítio passaram a poetas proletários, a maior parte dos romancistas passaram a romancistas proletários e os pintores tornaram-se pintores proletários. Conheço uma mulher casada com um médico rico, coleccionador de arte, que tem uma filha bailarina, e um dia encontrei-a na rua e ela informou-me muito orgulhosa que a filha era agora uma dançarina proletária. O problema é que quanto mais radicais se tornavam, essas pessoas mais sabe-tudo se tornavam. E mais convencidas. E mais contentes consigo próprias. Iam aos mesmos poisos da Village onde costumavam ir quando não eram mais do que simples boémios e punham-se a falar como sempre, só que agora não era sobre arte, sexo ou copos que falavam, mas sim sobre a revolução iminente, o materialismo dialéctico, a ditadura do proletariado, e o que Lenine queria dizer quando disse isto, e o que Trotsky queria dizer quando disse aquilo, e agiam como se alguma das conclusões a que chegavam pudesse importar para o futuro do mundo inteiro. Por outras palavras, perderam completamente o sentido de humor. Pelo modo como falavam do proletariado dava a impressão de que eram todos filhos e filhas de metalúrgicos, quando a verdade é que um número surpreendente deles vinha de famílias da classe média ou alta, bem desafogadas ou mesmo bastante ricas. Com o andar do tempo, comecei a sentir-me um estranho no meio deles. Não era tanto a política que me chateava, embora eu ache todo o tipo de política uma boa chatice; era o ar convencido com que falavam de política. Era sobretudo aquela maneira de dizer “nós”. Em vez de “eu penso isto” ou “eu penso aquilo”, era sempre “nós pensamos assim” ou “nós pensamos assado”. Nunca me habituei àquele “nós”. Comecei a sentir-me intimidado com aquilo. Uma vez, para dizer uma piada e aligeirar o ambiente, atirei a um deles que pertencia a um partido que só tinha um membro, que se chamava Partido Joe Gould. Respondeu-me que ao dizer coisas desse género e ao brincar com assuntos sérios estava a mostrar quem era eu na verdade. “A nós não nos enganas, tu e os do teu género”, disse ele. “Quando te pões com essas palhaçadas é só para esconder que és um reaccionário. Para sermos rigorosos”, continuou, “devíamos classificar-te como um parasita, um parasita reaccionário. E quanto à História Oral”, disse ele, “o que estás a fazer é a recolher o lixo verbal da burguesia.”

Joseph Mitchell, O Segredo de Joe Gold, págs. 70/72

negritos meus

Pelo que ouvi

Belenenses 1 - Sporting 0. Agora acredito que vamos trazer um bom resultado de Inglaterra.

domingo, março 06, 2005

Sessão da tarde


O filme é escrito e realizado por Billy Ray, alegadamente um argumentista requisitado em Hollywood. Vê-se que se trata de um objecto muito investido. Grande concentração espacial, tal como no teatro. Diálogos, diálogos, diálogos. E depois o trabalho com os personagens, sobretudo com os dois principais: do lado da verdade o jovem editor Chuck Lane (Peter Sarsgaard); do lado da mentira o redactor prodígio Stephen Glass (Hayden Christensen).
A acção desenrola-se quase na totalidade no interior da redacção da New Republic, publicação de culto entre a elite conservadora norte-americana. O cast que inclui ainda Chloë Sevigny e Hank Azaria é forte. Mas a opacidade de Glass (quite a paradox!) é o único factor surpreendente deste filme que tem méritos de algum cinema americano dos anos 70, como o de Lumet e Pakula. Nada mau.

Classificação: (6/10)

sábado, março 05, 2005

Dilemas morais


Os dilemas morais - Deus, o amor, o sexo e outras complicações (meta)físicas - apresentados pelo cinema de Woody Allen constituem o elemento mais interessante dos seus melhores filmes. Ana e as suas irmãs, Hannah and her sisters (1986) faz parte de um período em que Allen era não só um extraordinário argumentista como também um realizador inspirado. Graças ao notável trabalho de câmara de Carlo di Palma este filme é ainda um regalo para a vista: Nova Iorque a cores será sempre mais fascinante do que num preto-e-branco geométrico, que me desculpem os adeptos de Manhattan.
Ana e as suas irmãs é um excelente filme mas em matéria de dilemas morais reconheço que Woody Allen nunca foi tão longe como na sua obra-prima Crimes e escapadelas, Crimes and misdemeanors (1989) - ver imagem abaixo.

sexta-feira, março 04, 2005

O motim sereno


Motian, Lovano, Frisell: o mesmo Trio há nove anos atrás

The spontaneous interplay between the musicians is just phenomenal. Motian’s drums deal with texture and colour, and he’s often hinting at rhythms which are way off centre, but somehow place an authoritative stamp on the music. Frisell’s guitar chimes with admirable restraint, and he never resorts to that somewhat turgid electric guitar style he’s best known for. Meanwhile, Lovano’s sax snakes around the melodies with luxurious ease. Since the 1950s Motian has played on key sessions with, among others, Bill Evans, Keith Jarrett and Geri Allen. I Have The Room Above Her capitalises on this legacy, while developing an entirely new voice. A brilliant record.
Richard Wolfson, Daily Telegraph


Classificação: (8/10)

Paul Motian é um histórico do jazz e ainda um dos melhores bateristas em actividade. A sua musicalidade é tal que suportaria até mesmo um disco a solo, o que no caso de um baterista seria facto quase inédito (Max Roach, pelo menos, creio que já gravou um assim...). Como compositor Motian é também muito interessante se bem que as suas peças corram sempre o risco de se tornarem demasiado abstractas. Mas quem não corre riscos também no que à música diz respeito, arrisca-se a perder o lugar na enciclopédia (isto é, a não ficar para a História). Motian reúne-se aqui de novo com Joe Lovano e Bill Frisell, músicos fascinantes e muito bem representados na discoteca "lá de casa". Frisell e Lovano ajudam a trazer as composições de Motian para um plano de maior concretude: o som cheio e sinuoso de Lovano e o dedilhado impressionista e bucólico de Frisell. I have the room above her é um disco gravado por gente com cabelos brancos cuja audição se revela estimulante quer no plano distanciado do mero observador quer no plano mais próximo de quem introduz já notas de comentário sobre aquilo que ouve e vê (deixem-me ser também um pouco abstracto se me dão licença...). I have the room above her ensina-nos a ouvir a música que faz: primeiro escutamos os três músicos algo indistintamente para depois isolarmos o plano de intervenção da bateria, da guitarra e do saxofone e aumentarmos o espectro da nossa fruição. Tanta música e tão pouco barulho.


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