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terça-feira, maio 31, 2005

Leitura desaconselhável a idiotas como eu (mas se insistirem sugiro que imprimam primeiro)


PERFIL DO IDIOTA, por Ernesto Sampaio (1935-2001)

O idiota é geralmente competente, moralmente irrepreensível e socialmente necessário. Faz o que tem a fazer sem dúvidas ou hesitações, respeita as hierarquias, toma sempre o partido do bem e acredita religiosamente nas grandes ficções sociais.
A incapacidade de relacionar as coisas, as ideias e as sensações transforma-a ele em força, e como lhe escapam as causas e os fins do que lhe mandaram fazer, fá-lo com prontidão e limpeza, sem introspecções inúteis. Do mesmo modo, como vê no destino o único regulador da vida, acha que se uns dão ordens e outros obedecem é porque todos cumprem misteriosas injunções da providência, as quais é não só inútil, mas criminoso sondar.
O idiota só pode ser bom. Para o mal, precisa-se de imaginação, inteligência descriminativa, espírito científico. Como também não dispõe de virtualidades poéticas e é, portanto, incapaz de se criar a si próprio, idolatra quem o criou: Deus em primeiro de tudo, e depois os pais.
O idiota é um bom cidadão. Sem ele, a sociedade entraria em curto-circuito, incendiada entre os polos do dever heróico e da desobediência revolucionária. Dado ser-lhe vedado apreender o nexo que liga a evolução dos meios de produção à transformação das relações de propriedade, acredita de facto que o corolário das novas tecnologias é o reforço da iniciativa privada, da livre empresa e do livre mercado. É o único que acredita nisso e ainda bem. Se ninguém acreditasse, esta sociedade parava. O idiota é todo liberdades.
A idiotia também faz bem às artes, principalmente às audiovisuais. A concentração do idiota numa ideia fixa, torna-o especialmente receptivo às músicas de ritmo simples e batida forte, o que facilita extraordinariamente o comércio discográfico, com todas as vantagens que daí advêm para producers e performers, enfim, para o tecido social. No que diz respeito às artes plásticas, tudo é mais fecundo se não houver interferências entre os olhos e as mãos. As ideias perturbam, turvam o olhar, atrapalham o gesto e, nos casos de ideologite aguda, daltonizam as cores. Sem imagens, uma cabeça vazia endoidece.
Embora para um idiota seja uma desvantagem não saber que o é, normalmente ninguém lho diz: segundo Brecht, «tornar-se-ia vingativo como todos os idiotas». Aliás, o mesmo Brecht diz que ser idiota não é grave: «É assim que você poderá chegar aos 80 anos. Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem. E então na política!»
O idiota puro é o idiota jovem. Com o tempo, torna-se cínico, adquire hábitos esquisitos, sempre à procura do que lhe serve ou lhe rende, em busca de técnicas para obter sucesso e se sentir bem, sereno, de boa saúde e belo aspecto: cristianismo, ioga, dieta macrobiótica, drogas, parapsicologia, psicanálise, etc.
Para o idiota, os sentimentos e as emoções são «uma boa», constituindo dados manipuláveis. Em si mesmos, não lhes acha qualquer sentido ou valor, mas de qualquer modo são coisas que lhe podem trazer vantagens ou desvantagens: é preciso, portanto, avaliar-lhes as implicações e consequências. Ao lidar com sentimentos e emoções, os próprios e os alheios, o problema, para o idiota, consiste em controlá-los, guiá-los, desfrutá-los, e isso implica trabalho, cálculos complicados e a aprendizagem de técnicas nem sempre fáceis.
Impossível, realmente, para o idiota, é a espontaneidade criativa. É algo que lhe surge como uma perspectiva insegura e assustadora. À criação, prefere os sucedâneos que se aprendem nos «workshops» e nas escolas. É uma vida dura, a do idiota: de curso em curso, de colóquio em colóquio, de ciclo em ciclo. Se tem dinheiro, o idiota não se priva de ir ao sexologista e ao psicanalista aprender a libertar os apetites e fantasias sexuais e sentimentais. Com o tempo, tudo se torna para ele aprendizagem e contabilidade: do prazer, da espontaneidade, da criatividade. Cautelosa, como a contabilidade do dinheiro. Ao idiota, repugnam os ímpetos passionais, poéticos e místicos: procura prazeres seguros, previsíveis, e afasta tudo o que possa perturbá-lo.
No plano do consumo e da vida social, o idiota português aprecia as coisas cómodas, os pequenos e grandes privilégios, planeando com minúcia o modo de obtê-los. Sejam quais forem as suas petições de princípio políticas, no fundo é um céptico, despreza o «povinho», vive fechado para os outros. Aos generosos e altruístas, considera-os parvos ou hipócritas. O idiota circula à volta do sucesso como a borboleta em redor da chama, agarrando-se como lapa ou mexilhão a quem o alcança. Espertalhão, agrada-lhe receber, mas dá o menos possível, e arranja sempre qualquer explicação ética para justificar este comportamento. Na realidade, a sua lógica, elementar como as suas poucas ideias e imagens, consiste sempre em receber mais do que dá.
Na actividade económica, não existe em Portugal correspondência entre o surto idiotista e o crescimento empresarial. Em muitos cavaleiros da phinança idiotófila prevalece ainda um conceito patrimonial da riqueza. Uma bela casa no campo é ainda o sinal mais espaventoso de bem-estar e opulência.
Entre os idiotas, também começa a manifestar-se, se bem que de modo caricatural, algo que recorda o hedonismo e o utilitarismo da aristocracia de outrora: o gosto de ser servido, de se distinguir do «vulgar». Como única crítica a filmes, espectáculos, livros, etc., é frequente ouvi-los dizer: «Mas que mau gosto!»
Os idiotas andam sempre juntos: consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos locais, lêem os mesmos livros e jornais, e têm uma habilidade notável para descobrir e evitar quem não é idiota. Graças a Deus! A política, porém, unifica o conjunto da sociedade sob o signo da idiotia: pessoas estimáveis, notáveis até nos diversos domínios do saber e da cultura, quando chegam à política tornam-se idiotas. Triunfam, quer-se dizer. Tornam-se, enfim, públicas.


[Publicado no Diário de Lisboa, de 12/6/87.]

in Ideias Lebres (Fenda, 1999)

Avós e netos


Bugsy (Beatty) "solarizado" por Allen Daviau A.S.C.

Vi Bugsy pela primeira vez ao estrear as salas do CascaiShopping que na altura eram as mais bem equipadas do país e que introduziram o hábito, que não faço meu, de acompanhar filmes com pipocas. Revi o filme anos mais tarde, incompleto, no Cabo, e fiquei ainda mais preso às imagens que anunciavam o fim trágico de Benny Siegel (Warren Beatty). Pedi à avó J. o DVD pelo Natal que revi finalmente na íntegra. Bela narrativa sobre um charmoso mafioso temperamental que punha as mulheres em primeiro lugar e o dinheiro em último. Ao contrário do Aviador de Scorsese, tem um homem, Beatty, no papel de um adulto e não uma estrela imberbe envelhecida precocemente pela caracterização. Adoro o detalhe de na maior parte dos planos Bugsy Siegel surgir como que iluminado pelo foco de um solário – ele era dado a esse tipo de cuidados, como o filme de Barry Levinson não se cansa de mostrar. E o assassínio no final remete para o climax de Bonnie and Clyde, de Arthur Penn, protagonizado pelo mesmo Warren Beatty.

Classificação: (8/10)


Vou oferecer Pessoas como nós, de Margarida Rebelo Pinto. Depois de 94 páginas lidas (o que corresponde a pouco mais de 7 capítulos), vou oferecer o meu livro à avó K. Um presente "radical" para uma senhora de quase 80 anos que espero não se venha a escandalizar com o uso recorrente das palavras “gaja” e “queca”. Daqui a 50 anos, se ainda for vivo, e se tiver netos igualmente maldosos, também receberei o best-seller da altura para testar o meu poder de encaixe. Chamar-se-á, provavelmente, Extra-terrestres como nós.

segunda-feira, maio 30, 2005

O inesperado

O inesperado desenvolvimento do episódio de Sete palmos de terra que acaba de terminar faz o filme Colateral (que é um bom filme!) parecer uma brincadeira de cinema.

domingo, maio 29, 2005

Verde e basta!


Benfica cabeça de melão

Rachão deu a provar ao Benfica do mesmo sabor amargo que Mourinho teve que gramar de Camacho. Quem muito festeja, acaba cabeçudo.Vitória! Vitória!

Laços de ternura disfarçada de raiva


Joan Allen num papel talhado para o Óscar

Mike Binder surpreende numa comédia dramática à James L. Brooks que recupera o carisma de Kevin Costner, versão Bull Durham envelhecido em grades de Budweiser, e apresenta Joan Allen numa composição espantosa de "mùlher sob influência" que, mesmo que não sendo essa a intenção, remete para a mítica Gena Rowlands nos filmes de Cassavetes. Investe ainda melhor em ideias de escrita do que de realização, o que dentro do género vai sempre em benefício do resultado final. Upside of anger, O lado bom da fúria é filme que merece a pena ver.

Classificação: (6/10)

Beleza sem surpresa


Nitin Sawhney

Tive oportunidade de escutar com atenção o último CD de Nitin Sawhney, Philtre, e devo confessar que as primeiras impressões são enganadoras. A explicação de tal equívoco encontra-se no próprio título do disco. Aquilo que distingue o som Nitin Sawhney, construído a partir da confluência de ritmos do mundo inteiro, é o apuro da produção e da fusão dessas mesmas sonoridades. Nitin não tem cerimónias em misturar, por exemplo, o canto flamenco com escalas de música tradicional indiana e batidas quase techno. Como faz aquilo que faz há muitos anos, os resultados garantem sempre os mínimos do bom gosto. Sem surpresas, no entanto. Até a predominância da música indiana que me pareceu maior nas primeiras audições, revela-se afinal com quota idêntica aos discos anteriores do músico - Human e Prophesy. O "filtro" Sawhney é factor de homogeneização que garante a qualidade do produto mas também lhe rouba o risco. O imprevisto. Philtre ouve-se como um best of de originais. Não se distingue ligação entre os diferentes temas. Parece obra de encomenda embrulhada no toque do midas Sawhney. É uma música que se acomodou à exibição dos seus pergaminhos universalizantes. Mais do mesmo. A uniformização da heterogeneidade.

Classificação: (6/10)

sábado, maio 28, 2005

Amizade

O Sporting acabou de ganhar a Taça Amizade, vencendo o Hertha de Berlim quase à Liverpool... Dois igual no fim do tempo regulamentar, depois de estar a perder por 2-0, e triunfo na marcação de grande penalidades - o Sporting marcou as cinco, o Hertha falhou uma. O observador atento registou algumas impressões que deixa para a posteridade: na defesa, nota positiva para as subidas de Mário Sérgio (no entanto, a emprestar); Santamaria jogou com raça (talvez a manter...); Polga (classe, gostava que ficasse) e Paíto (ou joga mais à frente, ou emprestar também). No meio-campo menos a dizer. Moutinho brilhou a espaços e fechou a contagem (nos penáltis); Viana não vale o que pedem por ele. Já na frente, Niculae e Mota são para deixar ir (com pena minha no primeiro caso, pois o romeno nunca mais foi o jogador que o Sporting contratou um dia...); Douala merece a oportunidade de uma segunda época (oscila entre o precioso desequilibrio e a inconsequência do drible) e Sá Pinto tem pulmão de leão e de capitão pelo menos para mais uma época. O resto da miudagem teve pouco tempo para mostrar o que quer que fosse. Fica prá próxima, depois das férias.

sexta-feira, maio 27, 2005

Hipocrisia


The sweet hereafter, O futuro radioso, de Atom Egoyan (1997)

Um filme lapidar e um diálogo que o não é menos:

Mitchell - Enough rage and helplessness and your love turns to something else.

Allison - What does it turn to?

Mitchell - It turns to steaming piss.

The sweet hereafter continua a ser o melhor Egoyan até hoje. Tratado de grande complexidade moral, filmado com um rigor que expõe as fraquezas e fragilidades dos habitantes de uma comunidade na ressaca de um trágico acidente. A moral não cede a facilitismos. Há os que manipulam e os que são manipulados. E há a tendência hipócrita generalizada para interpretar aquilo que acontece, uma tragédia colectiva, à luz da história individual. Mas o filme de Egoyan é mais inteligente do que isso. A punição das crianças não vai de acordo com a conduta mais e menos condenável dos pais. O filme cita a fábula da "flauta mágica" representada no poema The pied piper of Hamelin com a consciência de que o destino dos homens é mais caprichoso e injusto. Nalguns casos, a suprema injustiça é a de que a vida continua. Depende do modo como aceitamos aquilo que ela nos reserva. Ser pessimista é uma defesa. Este é um grande filme pessimista sobre gente desesperada. Ian Holm (o advogado Mitchell Stephens), então, é extraordinário na composição de um ser vingativo que exerce a sua profissão buscando nos outros o modo de vingar o fracasso da sua história pessoal. Este filme não teve edição DVD nacional. Vinguem-se vocês também na Net!

Classificação: (9/10)

quinta-feira, maio 26, 2005

let's jazz em Público


Buddy De Franco

Primeiro CD, grátis, saiu ontem com o jornal apresentando selecção irrepreensível. O cartão convidando a futuras visitas semanais não podia estar melhor recheado. Poder até podia, só que o Kind of blue (que é da Sony/ CBS) não consta dos catálogos Blue Note e Verve que servem para ilustrar uma possível história do jazz. Esta. Mas há "Cannonball" Adderley, Oliver Nelson, John Coltrane, entre outros, (que a minutagem é generosa!) em gravações de referência. E a revelação que constituiu para mim o tema Buddy's blues do clarinetista Buddy De Franco. Parabéns ao José Duarte e aos sérios aficionados do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro.

E o dia que esteve?


Tamariz

«Sim, detesto praia, porque praia é a encarnação terrena do inferno: povo, vendedores ambulantes, crianças gritando, jogando, correndo. Bichos marinhos. Afogamentos. E nudistas, sobretudo senhores de cinquenta ou sessenta anos que gostam de ostentar orgulhosamente os seus pênis mirrados. O açougue em forma humana. E toda a gente fazendo de conta que é natural: "não olha, querido, é apenas um pênis passeando pela brisa da manhã". Bom, natural é: como terremotos, furacões e outras desgraças.»

... por acaso, logo hoje, li este texto do João Pereira Coutinho (completo aqui) e vi nos telejornais as imagens do "formigueiro litoral" em que o país se transformou.



Desafinado rima com feriado.

quarta-feira, maio 25, 2005

Há quanto tempo não pegavas no livro das sombras?

Always an error to make someone profess what they will not volunteer - especially in love, where the spontaneity of its declaration is all the language ever holds of it.

Don Paterson, The book of shadows, pág. 100

Um adeus português


Só "Os bravos não têm descanso"



É um OVNI, não haja dúvida. Um filme punk-western-noir-rural-onírico. A sua rebeldia consiste em impossibilitar-nos de perceber de quem e do que falam os personagens. Tem uma fotografia de cores exuberantes, assinada por Antoine Heberlé, que remete para o cinema de Nick Ray - sobretudo Johnny guitar. Há ainda uma lógica de jogo em que é suposto morrer caso adormeçamos. Experimentei dormir, despertar, adormecer novamente e fiquei na mesma. Tal como o filme de Alain Guiraudie, aliás. Caso para dizer que o culto em torno do realizador tem razões que a minha razão adormecem. Não sou um "bravo"! Por isso ofereço pouca resistência e durmo na sala de cinema.

Classificação: (2/10)

terça-feira, maio 24, 2005

The end of an other affair

Jack (Robert Redford) – I met this woman. I Know her 72 hours. And… I don’t know.

Professor (Richard Farnsworth) – You stick with her. Take the advice of an old man. There’s nothing like a woman, or two. They love men. Even jerks. The biggest jerk you ever knew somewhere somehow has a woman that’s nuts over him. Women are perfect. The rest is bullshit.

in Havana, de Sydney Pollack (1990)


revolta, tristeza, raiva no olhar da actriz Lena Olin

Mas Jack, no final, não ficará com Bobby (Lena Olin) por uma questão de “nobility”*. “Nobility”, aí está uma qualidade que o cinema actual raramente promove e de que sinto falta que o fizesse.

*nobility: nobreza de espírito, grandeza moral, dignidade. "The rest is bullshit".

Classificação: (7/10)

Ai, as torções as torções...



Perna de trás bem esticada. Não seja batoteira(o). Tem a eternidade toda para fazer ronha.

segunda-feira, maio 23, 2005

Faz muita diferença

A diferença entre ler o mesmo texto num livro (ou revista) ou num blogue, é que no primeiro caso estamos a ler uma página e no outro estamos a ler uma imagem.

Também eu vou lá pelo cheiro a caril...



Primeiras audições levam-me a suspeitar de que Philtre possa ser o melhor disco de Nitin Sawhney desde Beyond skin (98). O segredo parece-me ser a maior predominância de sons, vozes e ritmos indianos. Aquilo que Sawhney e também Talvin Singh souberam trazer para a música de dança melhor do que quaisquer outros. Nitin Sawhney junta-lhe ainda um sentido melódico que resulta frequentemente em boas canções. Mas nunca tão boas como as suas composições puramente instrumentais ouvidas em Kaash, uma colaboração de Sawhney com o coreógrafo Akram Khan e o designer/videasta Anish Kapoor que por cá se viu no saudoso festival Danças na Cidade - ainda mexe...? Outras danças, portanto.

Beleza americana



Uma loura, outra morena. Uma ruiva, outra latina. Gostei do que vi.

domingo, maio 22, 2005

O único consolo de uma semana negra é que também chega ao fim

Parabéns ao Benfica, aos amigos e conhecidos benfiquistas. A "nação" está na rua.

É sempre a mesma história



Este senhor, que a avaliar pelo que se escreveu, terá apresentado o melhor filme em competição em Cannes, saiu sem prémio. Ficamos a aguardar pela estreia, ansiosamente, para confirmar tamanha injustiça.

P.S. Parabéns ao João Pedro Rodrigues e ao Marco Martins, cujos filmes receberam, respectivamente, os prémios Menção Especial dos Cinemas de Pesquisa e o Prémio Olhares. (ver palmarés completo)

sábado, maio 21, 2005

Comprem!

Muito bom o CD (€4,90) que hoje acompanha o Expresso e que se reporta à obra do compositor espanhol Enrique Granados. Interpretações históricas tocadas por gente como Pau Casals e Andres Segovia. Mais importante que isto, a música: belíssima.
Sugestão imparcial, pois da colecção não fui além deste volume.

Uma resposta reveladora



Uma pergunta provocadora: o que é que diria se eu classificasse a sua obra como «auto-ajuda high-brow»?
A palavra «auto-ajuda» é, tal como a sua pergunta sugere, «low-brow». É, de facto, um género «low-brow». Os livros de auto-ajuda muitas vezes têm capas e conteúdos cor-de-rosa e títulos como «Felizmente Felizes para Sempre». E são frequentemente escritos por americanos pirosos. Claro que tais obras são ridículas... No entanto, creio que há uma boa ideia por trás da própria ideia de auto-ajuda: ou seja, a noção de que um livro pode iluminar o caminho e concorrer para que ultrapassemos uma dificuldade dolorosa e concreta, ainda que eventualmente de natureza espiritual. Na verdade, é uma ideia antiga: podemos alinhar naquela perspectiva escritores como Platão, Séneca ou Montaigne, que escreveram obras sérias, densas e profundas e ao mesmo tempo se preocuparam, de algum modo, em ajudar os leitores a superarem as vicissitudes.

Alain de Botton em entrevista a Paulo Nogueira no suplemento Actual do Expresso. E um livro a que tenho de regressar.

Serralves, algures em Junho



Maher Shalal Hash Baz. Para não esquecer.

A política do sorvete



«Contra a trapaça universal – os gelados enregelados –, o meu gelado que leva em si toda a energia calórica do mundo, uma palavra amiga, uma prova de amor, rigor e fantasia. O último luxo soberano de um homem livre, que teve a suprema ousadia de no país dos gatos pingados exaltar a vida. Não tenho receitas, fórmulas mágicas. Cada gelado que fabrico tem um perfume que lhe é próprio, o seu perfume. Nunca é semelhante ao anterior, nunca será igual ao que lhe sucede. Cada um tem no entanto algo para recordar: uma viagem, um passeio, um ente querido, a mulher amada. O meu sonho, talvez irrealizável, é criar um perfume que concentre em si todos os perfumes. Harmoniosamente chegar-me a Deus, à quintessência dos perfumes. Não atraiçoem nunca os sonhos da vossa infância. Se abrirdes os vossos corações, talvez possamos provar o glorioso gelado final.»
João de Deus in A Comédia de Deus

O requinte da linguagem cinematográfica de João César Monteiro – entre o sublime e o patético - começa no uso que é dado à própria língua: o sorvete lambe-se; o português escreve-se e fala-se.

Classificação: (9/10)

sexta-feira, maio 20, 2005

Revista Sábado aumenta tiragem



Alberto, estou a ver a ideia. Assim passa a ser dois livros: o dele e o teu. Topas?

(imagem: Solar Bragançano)

Todos a Alvalade

No próximo domingo não fiques em casa. Mesmo estando fora de todas as corridas, impõe-se que terminemos a época em festa: com uma orelhinha nas Antas e outra no Bessa.

quarta-feira, maio 18, 2005

Outro dia



No céu que é Bach tudo se relativiza.

Nem de propósito


Uma vigarice que se supera


Lívio (Luís Miguel Cintra), o acagaçado

Em 1970, João César Monteiro fez o seu segundo filme com dinheiro da Gulbenkian. Chamou-lhe Quem espera por sapatos de defunto morre descalço – um provérbio cinematográfico. Tem a duração de 33 minutos. É uma vigarice muito inspirada no cinema da nouvelle vague, sobretudo em Jean-Luc Godard. A certa altura, lê-se no caderno do protagonista (Lívio, Luís Miguel Cintra trés Belmondo!) a seguinte frase: “O cinema é uma vigarice (Godard), mas essa vigarice deve (palavra rasurada, substituída por) pode ser superada.” Quem espera... muitas vezes se supera, principalmente à custa de frases e réplicas tão deliciosas quanto esta: “Precisava de sacar algum em grande, para começar não sei quê não sei como. Uma cómica viagem não sei onde nem porquê.” Ou esta: “O morto tinha os pés maiores que uma língua de sapo.” Ou esta ainda, a caminho do prego: “- Quanto é que pensas que vão dar?
- Pouco. É preciso cumprir o regime de austeridade.”
A curta trata de uma relação que não anda nem desanda como reflexo de um país estagnado. Lívio parece gostar de Mónica (Paula Ferreira), até se mete em pequenos golpes para arranjar dinheiro para levá-la a jantar fora. À porta da casa de uma senhora recentemente enviuvada, combina com um amigo a melhor forma de lhe sacar umas roupas do morto para pôr a penhorar. De novo, os diálogos são magníficos. Ora leiam: “- Não seria melhor uma carta? Qualquer coisa do género... Dois estudantes pobres e em desespero de causa, tendo tomado conhecimento do falecimento do esposo de vossa excelência, o valoroso almirante Saladas, vêm por este modo manifestar as suas sinceras e sentidas condolências...
- ... por tão irremediavel perda...
- ... e apelar para o bondoso coração...
- ... piedoso coração...
- ... certos de que o condoer-se com a dor alheia mitigará a própria dor. Imploramos que nos ceda alguns agasalhos do defunto para suportar os rigores da invernia.”
O filme é experimental. Som e imagem andam frequentemente desencontrados. Os diálogos são não raro anti-naturalistas (e literários). E proliferam os monólogos interiores também. Estados de alma que gozam com a desgraça própria e alheia. Da estranheza geral, uma cena intrigou-me em particular. Passa-se à porta de um quarto, Lívio está à porta desse mesmo quarto balouçando-se numa cadeira e assistindo a uma cena íntima entre uma mulher que está deitada a ler revistas e um homem que chega, que se descalça e que se põe a falar com ela. A cena parece sugerir naquelas figuras os pais de Lívio, pois sobreposta à imagem ouve-se esta conversa entre ele e Mónica, como se os dois fossem eles próprios também projecções de Seberg e Belmondo n’ O Acossado, que neste caso rebaptizaria para O Acagaçado para ir de encontro à conduta hesitante do protagonista: “- A que horas costumas jantar?
- Varia muito. Agrada-me jantar como os pássaros, aqui e ali.
- Gosto de vida livre, mas com os pais é inútil, são uns chatos. Os teus pais não dizem nada quando não estás a horas?
- O meu pai era um tipo melancólico. Caçava moscas e lia Camilo. Morreu. A minha mãe olha-me com desgosto, sem razão. Parece-me, não sei. Digamos que hesito entre o mundo grave e a gravidade do mundo. Não podes perceber. Talvez enlouqueça o suficiente para gritar ai, ai. Um dia destes vou-me embora: Paris, Roma, Milano, London town, Florença a bela, Cesário Verde, São Petesburgo, o mundo. Afinal os crimes são coisas que se repetem. Afinal os crimes são coisas que se repetem. Afinal os crimes são coisas que se repetem. Afinal os crimes são coisas que se repetem.
Especulações de lado, é o próprio realizador que no pré-genérico de Quem espera por sapatos de defunto morre descalço oferece o melhor acesso à compreensão deste fime. Deixo-vos com a mesma e retiro-me de cena: “Nesse tempo vivíamos extremamente mal. Pensávamos fazer filmes. Regressados há pouco de Londres, com a nossa má cabeça devidamente iludida, éramos bem a imagem do entusiasta. Estávamos em 1965 e muitas inocências iriam entretanto ser violadas. Este país, senhores, é um poço onde se cai, um cu donde se não sai. De qualquer modo, um filme mesmo informe, inacabado como um nado-morto, é o prenúncio da nossa própria história, a projecção silenciosa dos nossos fantasmas. É tudo. Passemos adiante sem lamentações.”

Classificação: (7/10)

From Russia with Love



Fizemos uma grande primeira parte, marcámos um golo. Fizeram uma boa segunda parte, marcaram três golos. A decisão do jogo deu-se quando Rogério mandou uma bola à base do poste direito do guarda-redes russo que logo repôs a esfera para o 1-3 de Wagner Love.
Viva a imigração! Viva o Sporting! No domingo lá estarei para a despedida do campeonato com o Nacional. 2005/ 2006 será o nosso ano.

Cute & paste


AMBIÇÃO!



Força Sporting. Vence por nós.

terça-feira, maio 17, 2005

FM

Morreu o Fernando Magalhães. Jornalista de tarimba, crítico musical do Público. Tinha 49 anos. Coisa de coração, disseram. Recordo a sua cara de miúdo, a cabeça toda branca. Lia-o de forma não religiosa. O Fernando escrevia sobre fado, músicas do mundo, jazz (substituiu com competência a saída de António Curvelo e mantinha as duas últimas páginas do Mil Folhas), electrónica ambiental e rock progressivo (aprendi com ele que existira um género denominado de kraut rock). Dava 10/10 aos CDs do Robert Wyatt e aos Waterson/ Carthy. Passava muitas vezes na Fnac para levar emprestados discos que ninguém sabia existirem. Os seus textos eram delirantes, as suas crónicas apaixonadas. Se uma mulher da música fosse ao mesmo tempo bela e talentosa, o Fernando perdia a cabeça. E não escondia esse facto dos seus leitores. Era, à nossa pequena escala, um excêntrico. Podem substituí-lo que o Fernando Magalhães continuará a ser insubstituível.



Ricardo Gross gosta de Christopher Cross.

segunda-feira, maio 16, 2005

Eu faço o teu vinho melhor do que tu



A velha Europa e a jovem América são colocadas em confronto no documentário de Jonathan Nossiter. Nossiter enquadra de forma tendenciosa os seus interlocutores – a tendência vai de acordo com as simpatias do documentarista: maiores para os produtores residuais que levam a vivência do fazer vinho como uma forma de artesanato, mais cuba de inox menos cuba de inox e para os aristocratas da Borgonha livres-pensadores que fazem vinho – como alguns cineastas fazem filmes – para ser apreciado muitos anos mais tarde. Já os nobres de Florença e a família italo-americana dos Mondavi que domina o mundo dos vinhos caros a partir de Napa Valley é filmada com frieza como que a denunciar que são eles os culpados pela uniformização do gosto, eles e as super-estrelas da enofilia e da crítica especializada que fazem e desfazem mitos de acordo com os humores das suas papilas gustativas.
É estranho e até um pouco contraditório que se por um lado o material humano (e canino) de Mondovino - aquele com o qual o realizador dispende menos tempo - seja o que de mais universal existe neste documentário e já as intrigas que nos transportam aos quatro cantos do globo à simples menção de um nome sejam despoletadas por referências do universo enófilo que muito provavelmente não passarão frente ao nariz da grande maioria dos espectadores do documentário de Jonathan Nossiter – Mondavis e Chateauxs muito acima das posses de quem faz do prazer do vinho um hábito de todos os dias.
Nossiter é um especialista – creio que fora escanção antes de se mudar para o cinema – e tem aqui a oportunidade de flirtar com aqueles que de ambos os lados do Atlântico, em circunstâncias outras, não lhe dispensariam tempo algum. É que ninguém resiste a ser filmado, sobretudo esta gente famosa (no seu mundo) que faz da produção do vinho um modo de se eternizar no espaço e no tempo. Conclusão: quando a política, monótona, chega ao vinho, o vinho azeda.

Classificação: (5/10)

Para Iris com amor



Iris, de Richard Eyre, é um pouco mais do que a nossa biografia de prestígio de matriz britânica. As nomeações para os Oscars que o filme recebeu destacam aquilo que salta mais à vista: as interpretações tecnicamente irrepreensíveis de (dame) Judi Dench, Jim Broadbent e Kate Winslet. Do que gostei mais passa no entanto pela extrema concisão dramaturgica dos seus 87 minutos e pela montagem de atracções entre elementos do passado e presente que de certa forma alivia a tragédia de assistirmos à doença de Iris Murdoch, que interfere com a liberdade no uso das palavras e da linguagem, não mais permitindo ela ser quem era. Destaco por último a partitura de James Horner abrilhantada pelo jovem e violinista extraordinário Joshua Bell.

Classificação: (6/10)

Breves apontamentos de um entusiasmo que se adivinha longo

Comecei a ouvir estes discos e estou a gostar. Muito.


Iron and Wine - Our endless numbered days*


Aimee Mann - The forgotten arm**

Mais informações sobre os mesmos, aqui e aqui.

* pensem Kings of Convenience (musicalmente, digo)

** parece anunciar "brevemente num cinema perto de si"

domingo, maio 15, 2005

Cannes 2005 (de olhos bem abertos!)



Qualquer semelhança entre o episódio Sophie Marceau (ver filmezinho aqui) e o descuido de Janet Jackson é pura falta de gosto. A Marceau elogia-se tudo. Toda.

Velha raposa agradece o frango obrigado

Após o golo do Benfica, entre substituições para queimar tempo e o vulgar pontapé de qualquer forma para qualquer lado, o jogo passou de pobre a inexistente. E a decisão do Campeonato mudou-se de Lisboa para o Porto: que me dizem à UEFA para o Sporting, a SuperLiga para o Porto e a Taça de Portugal para o Benfica?

sexta-feira, maio 13, 2005

Bloggar devia ser só sobre aquilo de que se gosta



Costello até poderá não ser o cantor dos sonhos de muita gente, mas compensa a idiossincrasia da sua voz com uma qualidade literária que poucos têm como ele - por acaso até não me estou a lembrar de ninguém no momento... E para encontrarmos discos musicalmente tão apurados quanto este, temos de ir falar com outro senhor aqui mais abaixo (o que será feito dele, e deles). Sabem quando a música dá a sensação de que não cabemos em nós... de... não cabermos em nós.


Scarlett à vista (e a dobrar)


maquilhada e não deixando ver a mini-saia (In good company)

Filme com o nome Scarlett Johansson no cartaz eu já quero ver. Se o filme for mau posso sempre fechar os olhos e ouvir a voz dela. A voz rouca de Scarlett é das coisas mais excitantes que o cinema do mundo inteiro tem para oferecer a homens de sensibilidade apurada. Também gosto dos seus lábios carnudos e do peito grande mas muito redondinho. Scarlett é uma guloseima de actriz que para nosso deleite tem aparecido em filmes ou muito bons (Ghost world e Lost in Translation) ou apenas bons (os recém-estreados In good company, Uma boa companhia e A love song for Bobby Long, Uma canção de amor). O primeiro é uma comédia inteligente de Paul Weitz que trata daquilo de mais importante que tem a vida: as escolhas que fazemos serem feitas com convicção – da mulher que connosco vive até à profissão que preenche um terço quando não mais até dos nossos dias. Weitz não é um iluminado da câmera de filmar mas em contrapartida sabe escrever bons diálogos e percebe-se que gosta de música pop (Iron & Wine saltou para a minha lista de prioridades). O filme também coloca em confronto duas gerações e duas gerações de actores: e tanto Dennis Quaid como Topher Grace são trunfos altos, em particular o velho Quaid que parece rejuvenescido depois da sua separação de Meg Ryan. In good company aborda por último a crueldade do meio empresarial caracterizado por take-overs (entenda-se anexações) e let-downs (entenda-se despedimentos) sem o cabotinismo de oferecer uma moral de resistência. Weitz percebe-se que prefere o mundo dos homens ao dos “fatos” mas não faz disso panfleto, antes matéria para divertida comédia humana onde controlamos todos mais do que supomos à partida.


perfeita com o vestido da mãezinha dela (A love song for Bobby Long)

O segundo filme, A love song for Bobby Long, apresenta-nos Scarlett Johansson em versão “um eléctrico chamado Purslane” – de Purslane Hominy Will, o nome da menina aqui a verter sensualidade por todos os poros que os trapinhos deixam entrever. A história passa-se na Nova Orleães actual e está cheia de música folk e de referências literárias que romantizam figuras inadaptadas de que o filme de Shainee Gabel é também composto. Desiquilibrios dramáticos à parte (sensíveis mais para o final...), reconheça-se que além do tesão Johansson o filme tem outros méritos: começando numa interpretação de vida de John Travolta (o Bobby Long do título) na figura de um ex-professor universitário tornado alcoólico merecedor de condecoração da ordem das almas penadas de Tennessee Williams, e terminando na excelente fotografia de Elliott Davis (que já passou pelo cinema de Spike Lee e Steven Soderbergh) que capta na perfeição as cores fortes e a viscosidade do Louisiana onde as pessoas destilam ao sol como lagartos de duas patas. Gostei de A love song for Bobby Long porque consegue estabelecer de facto uma ligação íntima entre o espectador e os personagens, qualidade que faz dele o equivalente da boa literatura. E não é um filme literário. Não há alfabeto que aguente a tenra Johansson, imagina quem nunca provou... a Scarlett. A não ser com a vista.

Classificação/ ambos: (7/10)

Bacharach (só mais esta... não resisto)


Easy Listening Bacharach (Columbia 485125 2 1996)

WIVES AND LOVERS (B. Bacharach/ H. David)

Hey, little girl, comb your hair, fix your make-up, soon he will open the door,
Don't think because there's a ring on your finger, you needn't try any more.
For wives should always be lovers too,
Run to his arms the moment that he comes home to you.
I'm warning you,
Day after day, there are girls at the office and the men will always be men,
Don't stand him up, with your hair still in curlers, you may not see him again.
Wives should always be lovers too,
Run to his arms the moment he comes home to you.
He's almost here, hey, little girl, better wear something pretty,
Something you wear to go to the city,
Dim all the lights, pour the wine, start the music, time to get ready for love.
Time to get ready for love, yes it's time to get ready for love,
It's time to get ready, kick your shoes off, baby....,

Na voz hiper-masculina de Andy Williams, o cantor favorito do Presidente Reagan e grande paixão cá de casa também.

Bacharach & David


Burt Bacharach (música) e Hal David (letras)

O Biography Channel apresentou ontem um documentário sobre a vida de Burt Bacharach um dos maiores compositores de música popular, também extraordinário arranjador e maestro. Com Hal David constituiu uma cintilante dupla criativa ao nível dos clássicos anteriores Lerner & Lowe e Rogers & Hammerstein por exemplo. O documentário era pouco mais do que interessante mas sempre continha informação curiosa - Bacharach foi director musical de Marlene Dietrich quando esta encetou carreira nos palcos depois do cinema; e casou entre outras com Angie Dickinson (actriz) e Carol Bayer Seger (letrista) - segmentos de música maravilhosa, a lucidez do olhar para trás de Bacharach que ainda mexe e que "recentemente", em 1998, gravou o excelente Painted from memory com Elvis Costello. E, mérito maior que todos os outros, me fez tirar os CDs de Bacharach da prateleira e pôr a tocar de novo estas canções sempre jovens "at heart": I just don't know what to do with myself/ Don't know just what to do with myself/ I'm so used to doing everything with you/ Planning everything for two/ And now that we're through/ I just don't know what to do with my time/ I'm so lonesome for you it's a crime/ Going to the movie only makes me sad/ Parties make me feel as bad/ When I'm not with you/ I just don't know what to do...................... (I just don't know what to do with myself)

quinta-feira, maio 12, 2005

Berenice

Esta Berenice tem origem numa tradução esplendorosa de Vasco Graça Moura. Por que digo isto, eu que nem conheço o texto original? Porque o mesmo parece ter sido escrito na nossa língua e esse é o melhor elogio que qualquer tradução pode receber. A métrica de Berenice condiciona toda a encenação: esta serve sobretudo o texto e só muito depois os actores.
Gosto ainda do peso opressor da estrutura enorme de latão escovado; do modo como as nuvens no ecrã ao fundo assinalam a passagem do tempo (indiferente); e da música belíssima de Mário Laginha que abre e encerra a peça. A tragédia quase surda de Berenice é a de o amor não ser afinal a coisa primordial na vida dos homens (incluo também aqui as mulheres).
A tragédia pode ser surda mas os actores - Grosso, Batarda, Airosa e secundários - fazem-se ouvir correctamente: hirtos, resignados com raras pontuações de visceralidade, de nervo, quase só no final, quase só para a incrédula Berenice trocada pela força de outras circunstâncias.
É uma peça que exige disciplina de olhar e concentração dos dois lados do palco. Coisa séria que vale a pena ver até dia 22 deste mês.

quarta-feira, maio 11, 2005

"... aquele que faz da sua vida amorosa um espectáculo, um espectáculo através das palavras"

A "grande entrevista de vida" com Luiz Pacheco leva-nos mais ou menos uma hora de leitura. O suporte dificulta, mas o mérito (e a paixão) do JPG e a graça do sujeito em muito que compensam o turvo da vista e a dormência das nalgas. Venha de lá agora esse "Diário Remendado" que a D. Quixote editará por alturas da Feira do Livro (acho...)

terça-feira, maio 10, 2005

Pessoas como nós


Margarida Rebelo Pinto, escritora


Aimee Mann, escritora (de canções)

Fisicamente acho-as parecidas. E mais não digo porque as semelhanças acabam aí. Margarida tem livro novo - Pessoas como nós (Oficina do Livro); Aimee tem disco novo - The forgotten arm (Edel). Penso em Margarida, ex-publicitária, pessoa de conceitos, e no título do romance: muito mais interessante - embora não original (um pouco Alçada há que convir...) - pensar nos nós que as pessoas dão nas suas próprias vidas e na vida de outros, do que em pessoas no sentido de eu e você (ou tu)... Terá Margarida pensado nisto? Será que a construção do livro vai ao encontro da pergunta? Apetece-me comprá-lo nem que seja para assinalar a perspicácia que esta mulher mostra ao promover o seu trabalho. Aquela ideia de distribuir o 1º capítulo no metro, com o Metro, é de atirar ao best-seller. O CD vou comprá-lo de certeza!

... há uma dimensão frágil do que é humano que me fascina quando leio um blogue e que me afasta da leitura do bloguista Pacheco

Pedro Mexia, "fora do mundo" mas dentro do bloguista. Daí a ausência nos links abaixo.

Mondovino


João Portugal Ramos

Este senhor é responsável por alguns dos melhores vinhos que por cá se fazem cujo preço é ainda acessível a bolsas nem tão desanuviadas quanto isso. O Syrah que almocei hoje está um néctar de se deixar escorrer veludo pelo gargalo abaixo. E custa menos de 10 Euros.

Preto


o Porgy não é este mas para o efeito serve

Se os meus gatos fizessem parte do júri, o disco do ano, para já, seria Goodbye, dos Czars. O Porgy, então, nem se mexe...

segunda-feira, maio 09, 2005

Percentagem



Eles não têm o Nuno Gomes e nós ficámos sem o Liedson. Assim não há desculpas: terá que ser outro a resolver. Ou então, um empate que até é capaz de (nos) servir ;-)

Um tipo estranho


Stefan Zweig

Sou um tipo estranho, bem sei. A vida é feita de opções mesmo para aqueles que parecem de nada prescindir. O meu cativo para a final da UEFA representaria um gasto de 60 Euros de que abdiquei, diria que por impulso. Vou ver ao estádio o Guimarães e o Nacional da Madeira, mas já o CSKA está reservado para uma tribuna acima de VIP, de guardanapo de pano no colo. E que dista menos de 50m lá de casa. Lições de sportinguismo, AVISO, não me farão voltar atrás...
Diz-me como investes o teu dinheiro e dir-te-ei quem és... ? Os sessenta "dele" foram para livros (foi um pouco mais, coisa irrelevante): O mundo de ontem, de Stefan Zweig (Assírio), Conhecimento do inferno (ne varietur), de António Lobo Antunes (é a quarta oportunidade que lhe/me dou para ir além do enguiço das primeiras 100 páginas) e Quase memória, de Carlos Heitor Cony que quase marca a estreia de uma nova editora, a Palavra - mais importante do que isso, que trata da descoberta do pai Cony pelo filho.
Sou um tipo estranho, bem sei, mas a única coisa de que sofro são as minhas alergias.

sábado, maio 07, 2005

Aforismos meus de ocasião


... a páginas de um abismo chamado Schopenhauer

Concluir que a felicidade não existe é o primeiro passo para conceber que as coisas podem melhorar.

Se estiveres de ressaca não foi por beber demasiado mas por não teres comido o suficiente.

Caetanear para ele é natural



E desse modo o discreto Celso Fonseca vai deixando de ser um segredo que a música brasileira insistia em guardar para ela. A sua bossa não é nova (o seu samba também não) mas encontrou a medida exacta de sofisticação: nem de mais, nem de menos. Belíssimo disco, como os melhores, que anuncia a chegada do Verão.

restante discografia de Celso Fonseca

Classificação: (8/10)

O monstro precisa de amigos



VERDADE: Os jovens de Mean creek, Uma pequena vingança comportam-se de forma adulta face a uma situação que tratada pelo cinema poderia muito bem dar azo a um desenvolvimento disparatado - questão de "estilo"...

CONSEQUÊNCIA: É um filme bem comportado sem nada que o torne memorável mas um cartão de visita ainda assim para... como é mesmo o nome do realizador?

Classificação: (5/10)

quinta-feira, maio 05, 2005

Esforço, dedicação, devoção e GLÓRIA



AZ Alkmaar 49% SPORTING 51%

O treinador holandês enganou-se na previsão. Agora, NA FINAL, é para GANHAR.

E DEUS CRIOU A MULHER

Palavras para quê?

(obrigado pelaS descobertaS alexandre soares silva)

Regresso ao futuro em colete de forças


Keira Knightley (para quem gosta)

Há uma tendência que não é de agora de reduzir todo o cinema comercial a uma fórmula onde alguns filmes se deixam encurralar mais do que outros. É o caso deste The jacket, Colete de forças, do inglês John Maybury, que se havia estreado anteriormente com Love is the devil sobre o pintor Francis Bacon, e que retoma aqui pretensões de artista exclusivamente para a sua pessoa. A fórmula a que me refiro corresponde ao psicadelismo no cinema que fez a glória ou a desgraça – fica ao gosto de cada um – de “autores” como Adrian Lyne (o de Jaccob’s ladder, BZ – Viagem alucinante, com Tim Robbins), Terry Gilliam* (o de Twelve monkeys, 12 macacos, com Bruce Willis) ou Alan Parker (o de Birdy, Asas de liberdade com Matthew Modine e Nicolas Cage), exemplos do que de mais histérico o cinema nos deu nos anos 80 e 90 e que fez escola – John Maybury que o diga.
Reconheça-se que Truffaut tinha razão quando há muito tempo atrás, anos 60, por aí, em jeito de provocação, disse que cinema e Inglaterra não eram feitos um para o outro. Vou-vos dar este exemplo: imaginem, não é fácil, um soldado americano no Iraque 1991, Jack Straw (Adrien Brody correndo sérios riscos de ficar catalogado com papéis de mártrir), que um tiro na cabeça deixa às portas da morte. Quando recupera, de regresso a casa, apanha boleia de um criminoso que mata um polícia na sua frente e que depois põe-se em fuga, acabando Jack por ser incriminado e sentenciado a passar o resto da (segunda) vida num hospital de loucos. Aí é submetido a uma série de experiências envolvendo medicação pesada, coletes de forças (daí o título do filme, The jacket) e noites passadas em claro enfiado numa gaveta da morgue. É nessa altura que o pobre Jack se começa a passar a valer. E a viajar no tempo (atenção! vida terceira) tal como o faziam (bem, mais ou menos...) Michael J. Fox nos filmes de Zemeckis e Arnold Schwarzenegger nos filmes de James Cameron. As viagens são uma trip no puro estilo das referências citadas mais atrás: Lyne, Gilliam e Parker. E as cenas no asilo alinham pela mesma bitola, encabeçada pelo maquiavélico Dr. Becker (Kris Kristoferson).
Para que Jack saia de uma vez deste pingue pongue alucinante terá de corrigir no futuro os eventos do presente, aproveitando para ajudar uma criança com problemas mentais a sério e uma mãe à deriva que tem uma filha adorável por quem Jack se apaixona vinte anos mais tarde (Keira Knightley, a modelo que Maybury quer fazer passar por actriz recorda-me a despropósito que Robert Bresson, por outro lado, tratava os seus actores como "modelos"). Acho que chega de contar a história, senão desato-vos o nó que John Maybury se encarrega de desfazer por nós todos com requintes de final feliz. Resta acrescentar que The jacket, Colete de forças tem figuras ilustres na ficha técnica que não apenas os actores, casos de Brian Eno (banda-sonora) e Peter Deming (o director de fotografia dos últimos David Lynch). A fórmula implica todas as referências que citei e podem crer que nos meandros artísticos do cinema comercial é onde a mesma se sente de modo mais denunciado. Boa viagem!

* americano de nascimento, inglês de adopção

Classificação: (3/10)

quarta-feira, maio 04, 2005

"Havana" - 1ª hora, 1º whisky



Ele não acreditava em política mas em mulheres bonitas. E ele também não.

Os do balão


O balão sobe muito mas o filme mantém-se cá por baixo...

Não só o amor como também o cinema pode ser um fardo. É o caso do filme de Roger Michell, Enduring love, O fardo do amor que adapta um romance de Ian McEwan (que não li mas cujo universo reconheço de outro livro que li, The cement garden, e de outra adaptação ao cinema que vi, The comfort of stangers, filme realizado por Paul Schrader) que talvez ao tentar agarrar os muitos temas do livro deixa-se enredar numa confusão que aborrece, ainda para mais reforçada por todos os maneirismos de câmara de Michell que leva demasiado à letra o registo dominante de cada cena.
O filme abre com um acidente de balão testemunhado por várias pessoas que acaba em tragédia que afinal não será única, uma vez que a história entra depois num registo de obsessão amorosa de contornos patológicos entre dois homens: um indivíduo aparentemente normal (Joe, Daniel Craig) e outro tipo, Jed (Ryhs Ifans), que com ele cria (mas apenas na sua cabeça) uma identificação que de início parece ter motivos religiosos antes deste confessar uma paixão pela qual está disposto a lutar até às últimas consequências.
Até aqui tudo claro, um thrillerzinho de dominante homo, para variar, mas eis que a questão nuclear de O fardo do amor é afinal outra e que o realizador Roger Michell enrola e enrola e enrola até chegar lá. E qual é a questão central? A resposta obriga-nos a regressar ao local do acidente do balão e ao homem que morreu nessa ocasião. Alguém cuja existência o filme resumirá a um acto de bravura, movido por uma irracionalidade que será a antítese do caminho seguido por Joe face ao seu dilema em relação aos sentimentos que nutre por Claire (Samantha Morton) - ao amor que torna-se para ele um fardo difícil de carregar.
O que imagino que o romance de Ian McEwan nos quererá dizer de forma mais atingível do que este indeciso filme de Roger Michell, é que no amor não devemos ser demasiado racionais, não devemos questionar a toda a hora aquilo que sentimos, devemo sim segurar a relação com todas as forças e deixar a mesma seguir o trajecto que terá de seguir. Se as coisas terminarem em desastre, pelo menos estaremos a salvo do martírio das dúvidas e dos remorsos que atacam nos momentos em que pensamos que haveria mais qualquer coisa que poderíamos ter feito. Se isto vos parece interessante, arrisco sugerir, comprem antes o livro.

Classificação: (3/10)

terça-feira, maio 03, 2005

Três de seguida

*



Uma curta, muito curta mensagem - "novidades?" - despertou-me para a necessidade de pôr em dia a leitura da Folha de S. Paulo: aqui (Anjos e demônios), aqui (God save the King) e aqui (Vamos salvar o Toby?). Três de seguida.

* depois de Pinilla só João!


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