Arquivos . Lugares


quinta-feira, junho 30, 2005

Só no outro lado se existe (neste desiste-se)

Da primeira vez que vi À flor do mar, embora investido de toda a disponibilidade que caracteriza um aluno da Escola e da História do Cinema, rejeitei o filme quase por completo. A medo, doseei o regresso a ele em três partes e ainda assim deu para perceber que se trata de um objecto que colide com o meu metabolismo. À flor do mar é um impasse tão obstinado quanto a recusa da sua protagonista, Laura (Morante), em deixar-se envolver pelo misterioso Robert, um homem trazido pelo mar e que o mesmo mar levará no final para longe dela.
É um filme parado. No tempo. Desconexo na filmografia de César Monteiro. Encerrado numa casa magnífica “à flor do mar”, onde tudo é ameno, desde o clima que parece perfeito para deitar conversa fora noite dentro, até à musicalidade repetitiva das cigarras que muito contribui para dar a ideia de um filme suspenso. De um filme que flutua. E essa mesma deriva no impasse por certo contribuirá para frustrar uma relação com algo cujo sentido continuamente nos foge. Nunca um filme parado terá sido tão esquivo quanto este.
E depois há ainda a fotografia luminosa, diria quase miraculosa, de Acácio de Almeida; também a voz perfeita para embalar miúdos e graúdos de Philip Spinelli (Robert) e uma desconcertante intimidade criada quase sempre à volta da mesa... Pausas de uma melancolia de exilados cujas razões o filme insiste em manter desconhecidas. Uma vez que não podemos ver À flor do mar de outra forma, a alternativa é pensar o que seria viver dentro dele. É, pela parte que me toca, onde gostaria de estar. Do outro lado. Onde o que se vê provavelmente existiu.

Classificação: (6/10)

quarta-feira, junho 29, 2005

Putinhas de Manaus

«Chocado, delegado Ramos? Isto não é a Europa. Eu conheci um deputado federal do Acre que mandava serrar suas vítimas. Duas delas foram cortadas aos pedaços mas ainda vivas, com uma serra a motor, das que cortam florestas. Era deputado. Estas mulheres foram poupadas à serra.»
«Já sabe o que se passou?»
«Está apurado, sim. Estava pensando, quando chegou, que devia deixar o espetáculo durando mais um pouco, até chegarem as cameras da televisão. É bom que eles vejam e ponham o retrato em cadeia nacional. Essas mulheres eram prostitutas de Manaus e foram contratadas para uma viagem de barco com alguns convidados que estavam de visita. Deputados, médicos, uma convenção sobre o futuro da Amazônia. Algumas dessas garotas estão marcadas a golpes de faca. Hoje em dia, há gente que só consegue foder depois de um filme desses. A tragédia é que o barco que veio recolhê-las, um desses barcos de porte médio, naufragou de madrugada, era muita gente. O barco dos convidados tinha partido e não voltou atrás. Elas não sabiam nadar e morreram.»
«Naufragou?»
«É o que ficará escrito.»
«Mas não foi isso que aconteceu?»
«Provavelmente não. O barco em que elas vinham pode ter sido assaltado, por exemplo, elas foram esfaqueadas, se resistiram, afundaram o barco. Mas há explicações para ambas as ocorrências, a do acidente e a do assalto. Temos de estar preparados para os dois cenários.»
«Sabe quem são os do outro barco?»
«Os clientes?. Ah, delegado Ramos. Sabe quantos aviões partiram hoje de Manaus, pela manhã, bem cedo? São Paulo, Brasília, Belém. E ligações a partir daí. Para Goiânia, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre. Sem falar dos que foram para Petrolina e Saquarema, Vitória ou Pindamonhangaba. Acha que eu posso ir buscá-los a todos?»
«A alguns.»
«Não posso. São doze putinhas de rua. Nem a um bordel pertencem. Estão ali, mortas. Algumas pessoas de família vieram reconhecer uma ou outra, mas queriam saber se tinham dinheiro com elas, em algum lado, numa bolsa, numa mochila, na calcinha, no sapato. Mais nada. São putinhas de Manaus.»

em Longe de Manaus (Asa), de Francisco José Viegas, págs. 271/272

Considere-se, insisto, pronto para filmar!

Oh sensatez!


terça-feira, junho 28, 2005

Camané popstar*



Hora e meia de festa. Sala do Coliseu cheia e eu também a bater palmas. As músicas iguais ao disco. As surpresas todas boas. Na próxima semana os Humanos "já eram" a coisa mais feliz que aconteceu à música popular portuguesa em anos recentes.

* edição DVD em 2006 para os que ficaram em casa

segunda-feira, junho 27, 2005

Mais olhos...


Rita Durão (Joana de Deus)

O prato de cozido a transbordar no almoço oferecido pela Madre Bernarda (Manuela de Freitas) a João de Deus (César Monteiro), é boa metáfora para os filmes finais do realizador. O cinema permite mais do que a vida. Permite, por exemplo, ter mais olhos que barriga. Embora seja preciso ter estômago também para assistir a algumas das diabruras do barão nestas Bodas de Deus.

Nota: por capricho de leitura interrompi o visionamento de À flor do mar para ver do princípio ao fim As bodas de Deus.

Classificação: (7/10)

domingo, junho 26, 2005

À flor do malte



A primeira parte de à flor do mar, de João César Monteiro, tem cerca de 56 minutos e termina com o descanso do náufrago Robert Jordan (Philip Spinelli). Não sem antes o mesmo ter bebido, tal como eu, um reconfortante whisky que fez questão de perguntar se era escocês... (o cavalheiro é suiço mas não é parvo!) Ao contrário do posterior Recordações da casa amarela que se inicia com um plano da terra vista do mar, à flor do mar começa com um plano do mar, de um barco, visto de terra. Este é com certeza o filme mais atípico na filmografia do realizador português. É em grande parte falado em italiano (Laura Morante protagoniza) e inglês. O assassínio do ex-líder da OLP Issam Sartawi - em Montechoro, no decorrer de um congresso da Internacional Socialista em 1983 - que o filme constantemente refere, situa-o próximo do ano em que foi produzido, 1986, mas o espaço físico predominante é o de uma geografia sem tempo e identidade precisas. Algures no mediterrâneo. Um refúgio onde é possível estar como se fizéssemos parte integrante de um livro. De um tempo que vai além do nosso tempo. O mistério está criado, falta ver como o realizador conseguirá manter o interesse na hora e meia que resta... (to be continued)

Sinceramente teu

Sinceramente tuyo

No escojas sólo un parte,
tómame como me doy,
entero y tal como soy,
no vayas a equivocarte.

Soy sinceramente tuyo,
pero no quiero, mi amor,
ir por tu vida de visita,
vestido para la ocasión.
Preferiría con el tiempo
reconocerme sin rubor.

Cuéntale a tu corazón
que existe siempre una razón
escondida en cada gesto.
Del derecho y del revés
uno sólo es lo que es
y anda siempre con lo puesto.
Nunca es triste la verdad,
lo que no tiene es remedio.

Y no es prudente ir camuflado
eternamente por ahí,
ni por estar junto a ti
ni para ir a ningún lado.

No me pidas que no piense
en voz alta por mi bien,
ni que me suba a un taburete,
si quieres, probaré a crecer.
Es insufrible ver que lloras
y yo no tengo nada que hacer.

Cuéntale a tu corazón
que existe siempre una razón
escondida en cada gesto.
Del derecho y del revés,
uno sólo es lo que es
y anda siempre con lo puesto.
Nunca es triste la verdad
lo que no tiene es remedio.

Letra e música de J.M. Serrat



Escutando o segundo volume que um conjunto de artistas espanhóis dedica a Joan Manuel Serrat - Serrat ... eres único! vol. 2 - percebemos ainda mais até que ponto o cantautor é inatingível na sua arte de escrever e interpretar as suas próprias canções. O tributo resultou num disco interessante, talvez até mais conseguido que o volume anterior, mas só uma versão verdadeiramente se destaca pelo seu carácter excepcional - a mais serratiana de todas, Sinceramente tuyo, que Pasión Vega transforma muito naturalmente em Sinceramente tuya. A canção havia sido gravada por Serrat no disco de 83, Cada loco con su tema, com arranjos muito próximos dos que Victor Reyes fez agora para Pasión Vega.
Ouvi esta nova versão vezes sem conta e subindo sempre o volume - do 10 até ao... 25. Imaginei entretanto um dueto entre Vega e Serrat esquecido de que o catalão gravara posteriormente, em 86, esta mesma canção num disco menor, Sinceramente teu, onde convidava músicos brasileiros, no caso Maria Bethânia. A versão de Bethânia, em português e castelhano, fica longe de convencer como a de Pasión Vega. Há que refazer o dueto o mais rápido possível. E há também que voltar a agradecer, agora publicamente, ao casal amigo que me trouxe Serrat ...eres único! vol. 2 de Barcelona. Muchas gracias!

Alcochete viu Camané



Passou pouco mais de um ano sem que tivesse voltado a escutar Camané ao vivo. O artista pergunta-nos no final que tal correu? Regras da boa educação obrigam a dizer que correu muito bem, mas preferi exagerar e dizer que correu melhor que isso. É verdade. Várias vezes chegou a ser perfeito. O que se passa é que a nossa opinião é condicionada pela forma como olhamos e escutamos. O espectador também pode ficar destreinado e não conseguir despertar em si as emoções que a música convoca. Ah, mas quando Camané cantou os versos "... adivinhaste é a vida", tornei a fechar os olhos, como sempre fiz, e a abri-los de novo para ouvir as últimas palavras, "...a escada sem corrimão".

sábado, junho 25, 2005

Batman recomeça



Batman begins, Batman (o início) começa ou antes recomeça. Após o desaire que representam os terceiro e quarto episódios filmados por Joel Schumacher, que tinha um entendimento quase camp do universo deste super-herói, é bom assistir a um objecto menos teatral, menos carnavalesco. Que se vulgariza ainda assim nalguns clichés do filme espectacular para todas as idades: a utilização abusiva da música musculada de Hans Zimmer, algumas tentativas de incutir humor que saem ao lado e outras facilidades do cinema catástrofe como o recurso à criança de serviço que olha embevecida para o herói das trevas. Katie Holmes, o par romântico que não o chega a ser, também não é mais apimentada que a pobre criancinha.
O que ao fim ao cabo mantém o filme de Christopher Nolan à tona da nossa paciência passa pela história que é uma óbvia mas não previsível metáfora de um dos mais recentes fantasmas da América. A saber, a ameaça de um terrorismo niilista que ataca com armas químicas para criar o pânico generalizado e para aniquilar uma civilização que ele acredita ser culpada de toda a espécie de corrupções morais. Apesar da música, e do resto, há medida que Batman, o início se liberta dos flashbacks explicativos da psicologia de Bruce Wayne (julgo que dispensa apresentações!) e que o espectáculo é posto em movimento acelerado na Gotham City mais gótica do que em anteriores versões, temos assegurado espectáculo mediano (e para todas as idades).

Classificação: (5/10)

À espera do momento "magnólia"



A diferença entre habilidade e talento reside na inteligência. Magnólia, de Paul Thomas Anderson, é filme que revela talento, ao passo que Crash, Colisão, de Paul Haggis, é apenas uma obra hábil. Colisão é um mosaico onde se cruza a vida de um conjunto de cidadãos de L.A. à beira de um colapso nervoso. A amostra é tão abrangente – everybody hurts, não é o que cantam os REM?! – que é legítimo concluir que o mesmo se passa com a generalidade dos habitantes daquela cidade. A estrutura, o tal mosaico, é a de uma sucessão ininterrupta de climaxes onde esperamos que a qualquer momento irrompa a tragédia. Ela acontecerá, embora não com tanta frequência... O que de início é interessante torna-se forçado. O filme regista um dia na vida da cidade californiana em constante desatino, não exagero! E no final temos direito ao momento "magnólia", um apontamento musical que suspende e faz o ponto de situação da vida de todos os personagens. A música só não é cantada por Aimee Mann, ainda que a citação dificilmente pudesse ser mais óbvia. E retomamos o argumento do início. O que falta no filme de Paul Haggis são nuances dramáticas e mais moderação no número de coincidências convocadas pelo gesto poético. Se houvesse mais talento, a obra seria menos denunciada. Mas longe de mim fazer qualquer julgamento sobre a inteligência de Haggis. Refiro apenas o filme, porque apenas sobre ele posso dizer alguma coisa.

Classificação: (5/10)

sexta-feira, junho 24, 2005

Com fundo


Alexander Lonquich, Plainte calme

Messiaen, Ravel, Fauré. No fundo o que gosto é de música de fundo.

quinta-feira, junho 23, 2005

O esplendor de Portugal



Será Recordações da casa amarela o filme mais memorável de João César Monteiro? Complicada questão, difícil muito difícil resposta... Não participei da produção do filme, nunca conheci pessoalmente o realizador, mas a avaliar por aquilo que o filme é enquanto resultado último fica a sensação de uma desencantada harmonia, de uma absoluta coerência na representação de uma existência caótica. Fernando Lopes, também realizador, refere-se num dos extras deste DVD a um processo de imolação de João César Monteiro através dos seus filmes. A pontos de em Vai e vem, palavras novamente de Lopes, se ter tornado como que uma figura evanescente.
Se em vida de César, suspeitarmos que essa imolação possa ter começado ainda antes das obras por ele realizadas, há que reconhecer que Recordações da casa amarela assinala o princípio do fim desse mesmo périplo no cinema. César Monteiro filmava muito além da autobiografia num território fantástico onde a mais pura essência se inscreve no mais desconcertante artifício. Aliás, o último plano do filme mostra-nos João de Deus (figura encarnada pelo autor) surgido dos esgotos de Lisboa, qual Nosferatu, qual Fénix renascida. Recordações da casa amarela é o mais belo pesadelo do cinema português, de onde não apetece sair. Ou melhor, despertar.

Classificação: (10/10)



«Acordo por volta das sete no Inverno: o meu despertador é uma gralha alpina – um bicho grande, lustroso e preto com um grande bico amarelo – que visita a varanda e emite um riso casquinado dos mais melodiosos. Durante algum tempo fico deitado na cama, a rever e a planear coisas. Cerca das oito: barba, pequeno-almoço, meditação no trono e banho, por esta ordem. Depois trabalho até ao almoço no meu escritório, saindo para um curto passeio com a minha mulher ao longo do lago. Praticamente todos os escritores russos do sécculo XIX deambularam por aqui num momento ou noutro. Jukovskii, Gogol, Dostoevskii, Tolstoi – que cortejava as criadas do hotel em detrimento da saúde – e muitos poetas russos. Mas então, podia dizer-se o mesmo de Nice ou Roma. Almoçamos por volta da uma da tarde, e estou de volta à minha secretária pela uma e meia e trabalho sem pausas até às seis e meia. Depois, uma ida até ao quiosque pelos jornais ingleses e jantar às sete. Depois do jantar não trabalho. E cama, por volta das nove. Leio até às onze e meia e depois luto com a insónia até à uma da madrugada. Mais ou menos duas vezes por semana tenho um bom e longo pesadelo com personagens desagradáveis importados de sonhos anteriores, que aparecem em cenários mais ou menos repetitivos – arranjos caleidoscópicos de impressões desconjuntadas, fragmentos de pensamentos diurnos e imagens mecânicas irresponsáveis, absolutamente sem nenhuma implicação ou explicação freudiana possível, mas singularmente parentes do cortejo de figuras variáveis que habitualmente vemos no ecrã na parte de dentro das pálpebras quando fechamos os olhos cansados.»

[Vladimir Nabokov respondendo à pergunta Entretanto mantém-se retirado... e algo sedentário, ao que dizem... na sua suite de hotel. Como passa o tempo? em "Opiniões Fortes" (Assírio & Alvim) págs. 48/49 trad. Carlos Leite]

quarta-feira, junho 22, 2005

Radianzzzzzzzzzzzzzzzz








«se queres provar do mel, então aguenta as abelhas» adágio popular

Primeiro o disco chegou às minhas mãos. Radiance. Sucederam-se as audições, nenhuma suficientemente cuidada mas eu gosto mais assim. Sem pressões. Ouvia os dois CDs enquanto fazia outras coisas. Ler o texto introdutório que explica a sério verificou-se ser incontornável. Há dias saiu também uma nova revista de jazz - a jazz.pt, disponível na loja do Trem Azul e nas casas de revistas da Tema - (onde colaboro e) onde consta um texto sobre este novo Jarrett - 10/10, o Rui Duarte não fez por menos a coisa da crítica. Mas talvez não exagere. A última faixa do segundo CD - que corresponde ao final do concerto registado na íntegra (menos a tal dita faixa) no primeiro, abriu-me definitivamente as portas da apreciação. Entusiasmei-me! De tal modo que resolvi alinhar em imagens uma cronologia do que considero serem os discos-chave do repertório de piano solo de Keith Jarrett na ECM. Tudo obras magníficas, e singulares, como este Radiance. Nunca surgidas contudo do mesmo risco do improviso que só sabe o que vem a seguir quando já está dentro dele. Tê-las à distância de uma divisão da casa dá sentido à nossa loucura de nunca parar de comprar discos. Quando uns poucos CDs justificam todos os outros que igualmente transbordam das prateleiras.

Classificação: qualquer uma entre 8 e 10

Discografia essencial a solo: Facing you (1971), The Köln concert (1975), The melody at night with you (1998), Radiance (2002). Datas referentes aos anos de gravação.

terça-feira, junho 21, 2005

Spoiler


época 4/ episódio 47

Não tenho dúvidas de que o episódio de ontem de Six feet under, Sete palmos de terra foi dos melhores que alguma vez vi. A crueza com que foram expostas as fraquezas e as neuroses de grande parte dos personagens acabou com qualquer esperança de manter um clima no resto da noite - and I don't mean the weather... São os chamados bens que vêm por mal.

A primeira vez


"sex is everywhere"

O que veio primeiro, o álcool ou o cinismo? E será que misturando partes correctas de mentira e sarcasmo conseguimos um cocktail de misoginia que nos permita escapar ilesos da auto-humilhação? Perguntas simples como estas são respondidas pelo filme de Dylan Kidd ao longo de uma noite longa que põe em cheque a verborreia lógico-filosófia de Roger “Dodger” (significa “matreiro") Swanson, o protagonista – interpretado pelo nunca antes tão fabuloso Campbell Scott. Rodger Dodger deveria ser aconselhado para todas as idades pois afinal o ser humano tem a capacidade de esquecer os piores momentos da vida. E, já agora, os melhores também. Varia consoante sejamos homens ou mulheres: os homens só recordam a primeira vez se esta for ainda a última. Estarei a ser cínico ou simplesmente mentiroso?

Classificação: (8/10)

Imitação do fado


Por alturas de Garras dos sentidos (ver discografia completa aqui) reparei em Mísia que gravara nesse ano um dos meus discos portugueses favoritos – o ano de Na linha da vida, de Camané! Mísia era das figuras do fado por mim particularmente acarinhadas. Ainda hoje considero-a uma mulher inteligente e sensual, e agrada-me também o seu registo de “cortar os pulsos” ou de “rasgar as cordas vocais”, o que para efeitos de estilo vai dar no mesmo.
Paixões diagonais sucedeu-se a Garras dos sentidos e os resultados ficaram ligeiramente abaixo – as letras ou os poemas, como lhes queiram chamar, eram menos bons e Mísia ensaiava com o piano de Maria João Pires uma roupagem distinta para as suas canções quase fado, para os seus fados quase chanson. Ritual, disco que veio de seguida, era fado puro e duro acompanhado apenas à guitarra e à viola. As imperfeições da voz de Mísia estavam mais expostas, recompensando-nos com a entrega da intérprete sempre seriíssima. Depois surgiu Canto, disco de conceito mais exposto. Disco também onde era sensível o facto da música de Carlos Paredes resistir a ser cantada. O primeiro disco, por assim dizer, falhado de Mísia.
Porque agora há um segundo que não convence por inteiro... E logo aquele em que Mísia exerce maior controlo autorístico num tributo à sua mãe, artista e pessoa que a terá influenciado mais do que qualquer outra. Drama box tem boleros na abertura, demora-se no fado e termina com tangos. Tem interlúdios e um postlúdio em que actrizes famosas e de nacionalidades várias lêem o poema Fogo preso de Vasco Graça Moura, figura cujas letras dominam o disco. Se exceptuarmos as interpretações da canção tradicional argentina que Mísia não acerta uma (em três), o que sobra do disco, a sua fatia maior, é atravessada pela sofisticação que lhe reconhecemos. Mas não consigo deixar de apontar à receita mostras de algum cansaço – pelo menos observáveis por parte deste que escuta. E também vê. Para o caso a capa do CD em que Mísia parece uma cópia da espanhola Martirio. A dispersão das imagens no interior do livrete – onde a fotografia de Sophie Calle parece figurar apenas por efeito de assinatura arty de prestígio (acuso o pleonasmo!). O mesmo efeito que se desprende das participações vocais de Maria de Medeiros, Carmen Maura, Ute Lemper, Fanny Ardant e Miranda Richardson.
Não consigo evitar a associação da palavra dispersão a este disco cujo conceito talvez aspirasse a outra coerência? Talvez... Lamento igualmente que Mísia recupere pela segunda ou terceira vez a melodia do fado bailado (lindíssima, sem dúvida) e outras duas de Mário Pacheco (muito bonitas também) que parecem andar para lá e para cá nos repertórios de Mísia e de Ana Sofia Varela e com letras de qualidade desigual, embora provenientes do mesmo bardo Graça Moura. E depois é o abrir portas à escrita de Saramago, Rosa Lobato de Faria, Natália Correia, José Luís Peixoto, Paulo José Miranda, letras de sensibilidades muito distintas, mais ou menos apropriadas ao canto, que contribuem para a qualidade desigual do disco. A estratégia tinha dado excelentes resultados em Garras dos sentidos mas o baú vai ficando vazio e os convites muitas vezes impõem cedências que se revelam amargas. Se calhar o que lamento é que este disco me pareça demasiado preso a um estatuto de qualidade literária que não me permite sentí-lo tão visceralmente como os melhores CDs de Mísia. Uma obra cerebral embrulhada mais em profissionalismo do que em inspiração. O fado está lá, só que é mais a imitação do fado (e do tango e do bolero) que a imitação da própria vida.

Classificação: (6/10)

segunda-feira, junho 20, 2005

O paradigma



Lembras-te d’Os amigos de Alex? (a pergunta só faz sentido para a actual geração de trintões e gerações anteriores) Hã? Aquele filme em que uma mulher pede ao marido para engravidar a sua melhor amiga. Ah! Pois é, rever Os amigos de Alex, The big chill década(s) depois é confrontarmo-nos com a preponderância que o mais pitoresco fait-divers adquiriu sobre todo o resto nesta obra de Lawrence Kasdan. O filme envelheceu um pouco; nós logicamente que envelhecemos também e o cinismo depositado sobre os nossos ombros antecipa o tal “big chill” do título original. É e será daqui em diante o maior entrave à adesão a este simpático filme – Os amigos de Alex é mesmo o mais simpático dos filmes simpáticos. E revelou uma geração de actores cujos melhores de entre eles ainda por aí andam: refiro-me a Kevin Kline, William Hurt e Jeff Goldblum. O resto é fasquia que diariamente vemos ultrapassada por qualquer boa sitcom. Adeus amigos!

Classificação: (6/10)

Gosto do rock que me leva a sério



2003 - A way to bleed your lover

2005 - The night before and a new day

Os rapazes

A música do piano

Onde se atesta a qualidade do disco de estreia de Preto (João Roquette, o nosso Madlib versão Yesterday's New Quintet).
Chega de inquietude, os "tempos" são outros - e têm edição da meifumado.

Classificação: (8/10)

É desta!



Se não estavam avisados* de que o Público vende hoje o DVD do último filme de Bergman, não se preocupem que eu também não. Mas corram a comprá-lo! Iniciativa rara, inesperada, louvável, quase desconcertante.

* o próprio site não faz qualquer referência ao facto...

domingo, junho 19, 2005

Qual é a tua "dona-de-casa" preferida?



James Denton aka Mike Delfino (ainda mais a partir do final do episódio de hoje...)

Santos e populares



Petit, Jorge Andrade e um patusco da família, fazem karaoke desastroso no casamento do primeiro em cima de êxito recente de Quim Barreiros. A SIC registou e difundiu...

"tiro o carro ponho o carro, à hora que eu quiser
que garagem apertadinha, que doçura de mulher
tiro cedo, ponho à noite e às vezes à tardinha,
chego até a mudar o óleo na garagem da vizinha"

Muito, muito bom!

quinta-feira, junho 16, 2005

Paris 1968



Bernardo Bertolucci nasceu em 1940. Quando filmou O último tango em Paris tinha 32 anos. Regressou à mesma cidade trinta anos depois para fazer Os sonhadores, The dreamers cuja acção tem lugar em 1968. Bertolucci não esconde um culto muito particular pela juventude. Pela descoberta que implica. Pelas grandes emoções. Pela beleza física dos corpos intactos. Nesse tempo os cineastas da nouvelle vague filmavam a partir de um ponto de vista da liberdade total, do deliberado confronto com as regras. O cinema afirmava-se como o prolongamento de uma utopia (amorosa, política, social, estética), também um factor de resistência aos compromissos da vida adulta. Depois, a manter-se a fantasia, esta só podia existir à frente das câmaras. Os bons cineastas, generalizo, são os que souberam envelhecer e que conseguiram tratar nos filmes esse mesmo processo de afastamento (nalguns casos, passagem de testemunho) em relação ao sentimento de absoluto experimentado na juventude. Curioso que o processo com Bertolucci passe por uma espécie de inversão que se verifica acabar por não o ser... A história de O último tango em Paris reflecte a agonia de um homem de meia-idade atormentado com mágoas do passado (pronto! com misoginia recalcada) que opta por se refugiar numa casa enorme, e com uma mulher mais jovem, para recuperar a utopia de um derradeiro recomeço do zero próximo de ser confundido com um processo de auto-destruição. Bertolucci tinha, recordo, 32 anos e filmava Marlon Brando 16 anos de facto mais velho do que ele. Agora, com Os sonhadores, é como se o Bertolucci mais velho do que o Brando do “último tango” se colocasse fora da ficção (ou quase...), mas ainda no interior de quatro sumptuosas paredes, para melhor recuperar, uma última vez, o espírito (e a carne também) da idade onde tudo é possível. Curioso que o realizador italiano deixe no entanto escapar um elemento de maior ponderação na caracterização da figura do jovem americano (Matthew/ Michael Pitt) apaixonado por cinema, por Paris e por uma rapariga (Isabelle/ Eva Green) tão desejável quanto problemática, que é a projecção possível de Bertolucci no filme. Neste cruzamento de idades, de olhares, de vivências mais ou menos autobiográficas (pelo menos autobiográficas naquilo que é a vida do realizador enquanto ele próprio um cinéfilo), da atracção por histórias de grande intensidade psicológica, apraz-me destacar outras duas coisas: Bertolucci continua a ser dos realizadores que melhor filma a nudez e a intimidade, porque o faz de modo despudorado e explícito apenas o suficiente; e que este filme torna-se tão mais estimulante quanto consigamos aproximar o fascínio que representam no mesmo a descoberta do cinema e da sexualidade, primeiro enquanto experiências pessoais, depois no sentido de partilha com uma ou mais pessoas, passando daí em diante a incluir a possibilidade de dor e de desilusão nossas conhecidas. Ao contrário dos filmes, as complicações da vida real sabemos não terminarem com o último fotograma (antes com o derradeiro suspiro). Coisa que Bertolucci decidiu sublinhar em Os sonhadores sob a forma da imagem que se imobiliza num final em aberto.

Classificação: (7/10)

quarta-feira, junho 15, 2005

Uma outra perspectiva 2

De para .

Pulp mais pulp não há



Sin city, primeiro de Frank Miller apenas, agora do mesmo autor junto com Robert Rodriguez, existe onde intersectam os códigos do film noir e dos comics, entre nós ditas novelas gráficas. Sin city é uma abstracção de Nova Iorque, cidade perdida no tempo, sempre debaixo de chuva e condenada a uma noite que dura 24 horas. Ali as mulheres são fatais, os heróis quase indestructíveis e os vilões demoníacos. A cultura popular tranfigura-se em coisa mental...
Dos livros de Frank Miller conheço apenas o primeiro volume editado pela Devir, e também estou a milhas de me considerar um expert em BD. Mas gosto das pranchas de Miller, da técnica expressionista dos seus borrões. Das imagens que ajudamos a dar significação com os nossos próprios fantasmas. Já no filme de Miller e Rodriguez, as 24 imagens por segundo mostram já tudo o que há para ver. É a pulp fiction que não permite subentendidos. Não sobra leitura e muito menos tempo a perder.
O que se sacrifica então? Sin city é um trabalho competentíssimo, fidelíssimo ao universo da banda-desenhada que está na sua origem, a cópia chega a ser arrepiante, mas falta vida onde sobra o virtuosismo do digital. Porque a vida somos nós que colocamos lá e o filme de Frank Miller e Robert Rodriguez não dá espaço de entrada, não dá acesso. O seu purismo obsessivo e incansável – presente, por exemplo, nos inúmeros monólogos interiores – reduzem o filme a um objecto plano onde o mistério, a decisiva terceira dimensão, se perdeu: chamemos-lhe o inconsciente do espectador.

Classificação: (5/10)

O Casmurro


«Outside of a dog, a book is a man's best friend; inside of a dog, it's too dark to read.» Groucho Marx

Manuel Portela, Pedro Serra, Osvaldo M. Silvestre, Abel Barros Baptista, Fernando Matos Oliveira, Luís Quintais, Gustavo Rubim. Não é um blogue. É um super blogue.

terça-feira, junho 14, 2005

Jaako Antero Lujanen


O homem sem passado (2002)

Jaako Antero Lujanen (Markku Peitola) é o herói (sic) deste filme de Aki Kaurismäki. O realizador finlandês é um óbvio seguidor da gramática do mudo e fá-lo descaradamente como se décadas e décadas de história do cinema não fizessem sentido. É assim mesmo, na sua pureza mais radical o cinema reduz-se a um plano seguido de outro plano que produz um terceiro sentido (o tal efeito Kuleshov que se aprende na escola).
Kaurismäki consegue dar origem à maior comoção com o máximo de inexpressividade (e aparente menor esforço, diga-se de passagem...). Não esquecer que é dele a máxima lúcida que afirma que se com 90 minutos não consegues contar a tua história, não é com mais tempo que conseguirás dizer o que queres dizer. O cineasta tem tendência para filmar pessoas que no seu mundo "de cinema" constituem as margens da sociedade finlandesa.
Fá-lo no entanto sem pieguice. Aliás, lágrimas é coisa que não existe na filmografia de Aki Kaurismäki. Ele reserva isso para o espectador. Não o fiel seguidor da sua obra, entenda-se: esse ri-se, para não chorar.

Classificação: (8/10)

Uma outra perspectiva



Fartei-me de procurar a imagem que pudesse rivalizar com o Bruno Sena Martins na tradução da infinita fotogenia de Monica Bellucci. Fiquei-me por uma interpretação mais artistica que pelo facto de apresentar outra perspectiva se torna um elogio extensível à beleza feminina "nu" abstracto. Mas esta beleza tem nome. Sublimes formas, sublime abstracção.

abstracção, s.f. Acto de abstrair. Êxtase.

abstrair, v.t. Fazer abstracção de, separar, apartar. V.i. Considerar no objecto apenas um atributo. V. r. Alhear-se.

segunda-feira, junho 13, 2005

Algumas ideias incendiárias de Karamallah


Cossery: uma linha por semana, um livro de oito em oito anos.

sobre consagrar tempo à reflexão:

(...) Pensava ter aprendido alguma coisa de uma gravidade excepcional, sem saber ao certo o quê, mas do que tinha a certeza era de que a sua visão do mundo tinha mudado para sempre. Depois, ao cabo de alguns momentos, acrescentou: era como no dia seguinte a uma revolução, quando o tirano está morto e as pessoas nos sorriem sem nos conhecer porque se sentem felizes. Karamallah, esse, sabia que a morte do tirano não significava o fim da tirania, mas para não desesperar a jovem renunciou a demolir essa ingénua imagem da revolução.
– Agora vou-me embora – disse Nahed. – Já abusei do teu tempo precioso.
– Não te aflijas com isso. Não sou daqueles que se entregam a trabalhos muitas vezes inúteis, julgando cumprir a sua parte de um ritual obrigatório. O único tempo precioso, minha querida Nahed, é o que o homem consagra à reflexão. (...)
[pág. 101]

sobre o julgar-se respeitável:

(...) Qualquer reverência em relação à sua pessoa era por ele sentida como um insulto disfarçado. No fundo, não via nada nem ninguém que merecesse a menor veneração. Neste cemitério, invadido e degradado pela miséria dos vivos, só os mortos, discretos e silenciosos, tinham direito ao seu respeito.
– Nahed, minha filha, não me deves nenhum respeito. Toda a gente se julga respeitável ou aspira a sê-lo. Faz-me o favor de não me confundir com essa massa de tarados. (...)
[pág. 106]

sobre o verdadeiro valor da honra:

(...) Fica sabendo que a honra é uma noção abstracta, inventada como sempre pela casta dos dominadores para que o mais pobre dos pobres possa orgulhar-se de possuí-la. Trata-se de um haver fantasma que não custa nada a ninguém. (...) – Pois bem – explicou Nimr -, muitas vezes tenho ouvido as pessoas dizer que a sua honra não estava à venda. Pensava que mais dia menos dia alguém viria propor-me que lhe vendesse a minha honra. Acabas de privar-me da mais rentável transação da minha vida.
– Não fiques preocupado. Podes sempre vender a tua honra. Nem toda a gente está ao corrente do verdadeiro valor da honra. Somos poucos a sabê-lo. Fica tranquilo. (...)
[pág. 119]

Albert Cossery, “As cores da infâmia” (Antígona), trad. de Ernesto Sampaio.

Em escuta



Keith Jarrett explica:

(...) Most listeners of my past solo concerts will be momentarily (at least) shocked at the initial absence of melodic – or even motivic – content, the material seemingly un-motivated by any concept at all. This is not an accident (or it was a planned one). I didn’t want any premature resolutions. (…) The listener has to bear with me here. The whole thing is risky, but I’ve taken you places before and I’m not aiming to disappoint. (…)

do livrete de “Radiance”, duplo CD sem dúvida arriscado.

(receita) para um arroz de bacalhau melancólico

(...) Ele chegara a casa de Jaime Ramos um pouco antes do jantar, um arroz de bacalhau prometido à muito. Jaime Ramos tinha acabado de fazer em lascas o bacalhau apenas escaldado e arrefecido de seguida no parapeito da janela. A água onde fervera durante três minutos o bacalhau fora acrescentada ao refogado de cebola, alhos, tomate, meio pimento verde e meio pimento vermelho. Quando chegou a hora de acrescentar o arroz ao caldo, juntamente com o bacalhau desfeito em lascas, procurou o resto dos pimentos, um molho de salsa, duas malaguetas douradas, uma folha de louro – e olhou para o tacho com melancolia, tapando-o. (...)
[pág. 198]

Coisas que se aprendem lendo o excelente “Longe de Manaus” (Asa), de Francisco José Viegas.

Apanhados (sobre um vídeo que não vi)

(...) Objectivamente, se a estrela daquele vídeo fossem as criancinhas menores de Pedro Santana Lopes, ou Cinha Jardim, se ainda vivesse com ele, haveria mais vozes acusatórias. Ao contrário de Carrilho, Santana Lopes é, para a ‘intelligentsia’ portuguesa, o ceguinho. Mas nestas, como noutras coisas, a ‘intelligentsia’ só se mantém com cabeça fria.
O uso que Carrilho faz da imprensa do coração não começou agora. A venda do exclusivo do casamento ao Expresso e à Caras foi um marco elucidativo. Esquecendo que quando se abre a porta da casa, ela nunca se fecha, Carrilho tentou depois impedir que o filho recém-nascido fosse fotografado à porta da maternidade.
Agora, a estratégia era interessante: o vídeo de propaganda mais terceiro-mundista a seguir ao “menino-guerreiro” serviria direitinho para captar espaço na imprensa do coração; o “projecto”, só anunciado e não explicado (como é que se retira metade dos automóveis em Lisboa em quatro anos?) iria para a chamada “imprensa de referência”.
Acontece que, felizmente, a imprensa de “referência” não é parva: o recurso a estratégias Evita Péron deve ser desmontado (e não ocultado). Reduzi-lo a um fait-divers é fazer um favor a Manuel Maria Carrilho e aos seus apoiantes Eduardo Prado Coelho e Daniel Sampaio, mas é contribuir pouco para o debate sobre as mutações na forma de fazer política em Portugal. (...)


[“Bárbara, Manel e Dinis Maria Carrilho”, por Ana Sá Lopes, “Pão & Rosas”, Público, dom. 12 Jun. 2005]

Sporting à lupa

Dois textos (este + este) que olham o clube por dentro e que - estejam mais ou menos correctos na análise que fazem - são de leitura obrigatória para todos os sportinguistas.

Um post por domingo


Um post por sábado


Um post por sexta-feira


quarta-feira, junho 08, 2005

Rendimento mínimo

Pelo jogo efectuado contra a Estónia (0-1), era esta a manchete que a selecção nacional merecia que figurasse amanhã num qualquer jornal desportivo. Cede-se sem custos os direitos de autoria.

Ainda os casos Rui Jorge e Barbosa

Mas, por outro lado, não é o caso das decisões (corajosas) que se tomam, ou dos riscos que se correm, antes sim a forma como são anunciadas as decisões e os riscos inerentes. Não havia condições, por exemplo, para marcar uma conferência de imprensa que pusesse um ponto final digno nos compromissos do Sporting com os dois jogadores? E em momento oportuno, quem sabe, até uma festa que manifestasse o reconhecimento do clube para com os históricos atletas?

Capitão sai



Era artista quando queria e agora diz que não fica por não se identificar com as pessoas que dirigem o futebol do Sporting. A decisão de Barbosa, ou a decisão que outros terão tomado por ele, faz aumentar o peso da responsabilidade sobre Dias da Cunha, Paulo de Andrade e José Peseiro. Para o ano há centenário e eleições. Muitos sportinguistas não terão clemência caso as opções de risco tomadas pelos três dêem para o torto. Entretanto, obrigado Barbosa por uma década de leão ao peito. Bem-vindo ao lado de cá.

Jonah Lomu


1.95m/ 125kg

O colosso está de volta e promete trabalhar em busca da melhor forma de sempre. Mais detalhes sobre o emocionante regresso de Lomu aqui.

terça-feira, junho 07, 2005

Old school


Jarmusch e Whitaker: Ghost Dog em rodagem

A cena tem lugar já próximo do fim do filme. Ghost Dog (Forest Whitaker) acabara de despachar as principais cabeças do gang mafioso e está de volta ao subúrbio. Na estrada encontra um par de caçadores que mataram um urso - de uma espécie quase extinta. O animal jaz amarrado sobre o alcatrão. Ghost Dog sai do carro, como sempre, aparentemente imperturbável.

Ghost Dog – “You know, in ancient cultures bears were considered equal with men."

Caçador – “This ain’t no ancient culture here mister.”

Ghost Dog – “Sometimes it is.”

O resto quase que se adivinha... O filme de Jim Jarmusch é ao mesmo tempo uma homenagem à maneira antiga de fazer as coisas e também a constatação de que os tempos mudaram e de que as pessoas que se regiam pelos códigos antigos se encontram em vias de extinção. Isto é particularmente importante no que respeita ao cinema porque é disso que se trata. O cinema forma-nos e é responsabilidade de quem resiste ao modelo acéfalo dominante, tentar passar o testemunho antes que seja tarde demais. Jarmusch faz por isso e o seu filme desliza a um ritmo absolutamente cool e old school.

Classificação: (9/10)

A & etc só faz primeiras edições

Não foi caro e ainda acabará valorizado.



Parece que foi bonito. É bem feito!

O começo de um livro: «A multidão humana que deambulava ao ritmo descuidado de um vaguear estival pelos passeios intransitáveis da cidade milenária Al Qahira, parecia acomodar-se com serenidade, e até um certo cinismo, à degradação incessante e irreversível que a rodeava.»

[Albert Cossery, As cores da infâmia, Antígona, ed. 2000, trad. Ernesto Sampaio]

segunda-feira, junho 06, 2005

The Royal Anderson



Não existe suporte ideal para ver os filmes de Wes Anderson. Tudo devia começar com uma visita guiada pelo próprio realizador. A construção de cada cena é tão detalhada, a atenção dada à disposição dos elementos nos enquadramentos tem tal cuidado com os pormenores que os filmes resultam numa espécie de storyboards de luxo e animados – como brincar aos ‘indios e cowboys” num cenário criado pelos melhores profissionais de hollywood para não deixar de parecer cenário. E isto é falar apenas da imagem, porque o registo de humor das suas comédias de “cara de pau” (com tão bem classificou Eurico de Barros no DN) também é algo que nos troca os olhos constantemente. Uma vez que é assim, se virmos os filmes num ecrã de cinema a dimensão da imagem permite uma relação menos obsessiva com os inúmeros detalhes do obsessivo Anderson. Por outro lado, o DVD permite-nos dispor do pause e do rewind para ir buscar o que vai ficando pelo caminho... Mas também não é perfeito. Quem gosta do universo púbere e quase surrealista do norte-americano Wes Anderson, está condenado a ver e ouvir os filmes vezes sem conta. Uma trabalheira recompensada com o mais tímido sorriso.

A identidade catalã


en directo (1984)

Invejo um casal amigo que passa estes dias em Barcelona. Talvez por isso tenha finalmente decidido ver A residência espanhola que tem lugar na capital catalã. Numa das cenas iniciais deste simpático filme, um gambiano, um catalão e um francês (o protagonista) conversam sobre a identidade de cada um e o que esta pode conter - nalguns casos até mais do que uma identidade. Diz o catalão:

- Tu és francês... tu és marciano... Não. Tu és francês e manténs a tua identidade de francês. "Identité". Compreendes? A tua identidade... Astérix! Françoise Hardy! "Le fromage"... E eu dou-te o meu "pan tumaca"... "Pan", pão... pão e tomate. Joan Manuel Serrat... o cantor... Dou-te o meu Dali.

Eu também dou o meu Serrat a quem o quiser escutar. A minha identidade catalã. Que inveja!!

sábado, junho 04, 2005

My lady story is one of fine housekeeping



Faz-se o melhor que se pode!

Longe de Manaus


Ela levantou-se mais cedo, deixara-o dormir, enroscado na almofada que lhe roubara. A princípio, quando ela se limitava a dormir, voltada para a parede, ele julgada que Fátima não se interessava mais por sexo. Por sexo com ele. «Estou cansada», ela dizia. Ele conhecia aquele cansaço, a voz rouca de sono, os olhos que se fechavam à mais leve pausa na conversa.
«Eu toco-te e tu foges. Basta chegar-me a ti.»
«Estou cansada.»
Estava. Corsário imaginava os homens no bar. Fátima circulando entre as mesas, alguém a apalpava, alguém queria foder com ela, alguém se aproximava, o hálito de álcool, o fumo dos cigarros, Fátima a dormir naquela cama ao seu lado. Levantando-se para cozinhar, ela prometia a melhor cachupa que uma angolana podia fazer. Corsário gostava muito desses dias em que Fátima não ia trabalhar e cozinhava para ele. Mas tinha medo disso: que Fátima não quisesse ter sexo com ele, nunca mais. Que tivesse medo, que não quisesse, que isso fosse um castigo.

Francisco José Viegas, Longe de Manaus, págs. 192/193

Obs. A imaginação dos homens é mesmo assim. Ficção? Eu chamaria antes de realidades.

Sombras



John Cassavetes (Victor P. Franko) e Ben Carruthers (Glenn Gilpin) fazem parte dos "doze indomáveis patifes" no filme de Robert Aldrich de 1967. Oito anos antes, Cassavetes havia dirigido Carruthers na sua obra de estreia, Shadows (1959). Um ano após ter concluido o filme de Aldrich, Cassavetes apresentaria Faces (1968), a obra que se seguiu a Shadows. A sua primeira obra maior. É do conhecimento geral que Cassavetes só participava nos filmes de outros para conseguir dinheiro para o seu próprio cinema.

Nunca filmaram juntos




Lee Marvin, Jim Jarmusch.




Jim Jarmusch, Lee Marvin.

Lee Marvin, PFC, US Marine Corps



Lee Marvin was born on February 19, 1924, he served with the Marine Corps during World War II in the Pacific and was awarded a Purple Heart for a wound that he received there.
On his return, he became a movie actor and starred in a number of motion pictures until his death in Arizona on August 29, 1987.

fonte

quinta-feira, junho 02, 2005

És ou não és homem?



Seguir o Major até à morte. I'd might just do that.

Colheita de 2001



Quanto anos têm de passar para que um disco seja considerado intemporal?

(descobri hoje que quatro anos é tempo suficiente)


Arquivos

Novembro 2003 . Dezembro 2003 . Janeiro 2004 . Fevereiro 2004 . Março 2004 . Abril 2004 . Maio 2004 . Junho 2004 . Julho 2004 . Agosto 2004 . Setembro 2004 . Outubro 2004 . Novembro 2004 . Dezembro 2004 . Janeiro 2005 . Fevereiro 2005 . Março 2005 . Abril 2005 . Maio 2005 . Junho 2005 . Julho 2005 . Agosto 2005 . Setembro 2005 . Outubro 2005 . Novembro 2005 . Dezembro 2005 . Janeiro 2006 . Fevereiro 2006 . Março 2006 . Abril 2006 . Maio 2006 .



Lugares

ABC . Alexandre Soares Silva . Aos 35 . Aranhas, As . Atlântico . Avatares de um Desejo . Bomba Inteligente . Caravaggio Montecarlo . Casa Encantada, A . Contra a Corrente . Da Literatura . Deus me livre de ter um blogue! . E Deus Criou a Mulher . Educação Sentimental . Esplanar . Estado Civil . Homem a Dias . Invenção de Morel, A . Jazz e Arredores . Lugar Comum . Manchas . Memória Inventada, A . Mundo Perfeito, O . Origem das Espécies, A . Papagaio Morto . Porque . Praia, A . Regresso a Veneza, O . Rua da Judiaria . Seta Despedida . Sexta Coluna, A . Sound + Vision . Tradução Simultânea . Tristes Tópicos . Vício de Forma . Vidro Duplo . Voz do Deserto .




Powered by Blogger