
Por alturas de
Garras dos sentidos (ver discografia completa
aqui) reparei em Mísia que gravara nesse ano um dos meus discos portugueses favoritos – o ano de
Na linha da vida, de Camané! Mísia era das figuras do fado por mim particularmente acarinhadas. Ainda hoje considero-a uma mulher inteligente e sensual, e agrada-me também o seu registo de “cortar os pulsos” ou de “rasgar as cordas vocais”, o que para efeitos de estilo vai dar no mesmo.
Paixões diagonais sucedeu-se a
Garras dos sentidos e os resultados ficaram ligeiramente abaixo – as letras ou os poemas, como lhes queiram chamar, eram menos bons e Mísia ensaiava com o piano de Maria João Pires uma roupagem distinta para as suas canções quase fado, para os seus fados quase
chanson.
Ritual, disco que veio de seguida, era fado puro e duro acompanhado apenas à guitarra e à viola. As imperfeições da voz de Mísia estavam mais expostas, recompensando-nos com a entrega da intérprete sempre seriíssima. Depois surgiu
Canto, disco de conceito mais exposto. Disco também onde era sensível o facto da música de Carlos Paredes resistir a ser cantada. O primeiro disco, por assim dizer, falhado de Mísia.
Porque agora há um segundo que não convence por inteiro... E logo aquele em que Mísia exerce maior controlo autorístico num tributo à sua mãe, artista e pessoa que a terá influenciado mais do que qualquer outra.
Drama box tem boleros na abertura, demora-se no fado e termina com tangos. Tem interlúdios e um postlúdio em que actrizes famosas e de nacionalidades várias lêem o poema
Fogo preso de Vasco Graça Moura, figura cujas letras dominam o disco. Se exceptuarmos as interpretações da canção tradicional argentina que Mísia não acerta uma (em três), o que sobra do disco, a sua fatia maior, é atravessada pela sofisticação que lhe reconhecemos. Mas não consigo deixar de apontar à receita mostras de algum cansaço – pelo menos observáveis por parte deste que escuta. E também vê. Para o caso a capa do CD em que Mísia parece uma cópia da espanhola
Martirio. A dispersão das imagens no interior do livrete – onde a fotografia de Sophie Calle parece figurar apenas por efeito de assinatura
arty de prestígio (acuso o pleonasmo!). O mesmo efeito que se desprende das participações vocais de Maria de Medeiros, Carmen Maura, Ute Lemper, Fanny Ardant e Miranda Richardson.
Não consigo evitar a associação da palavra dispersão a este disco cujo conceito talvez aspirasse a outra coerência? Talvez... Lamento igualmente que Mísia recupere pela segunda ou terceira vez a melodia do
fado bailado (lindíssima, sem dúvida) e outras duas de Mário Pacheco (muito bonitas também) que parecem andar para lá e para cá nos repertórios de Mísia e de Ana Sofia Varela e com letras de qualidade desigual, embora provenientes do mesmo bardo Graça Moura. E depois é o abrir portas à escrita de Saramago, Rosa Lobato de Faria, Natália Correia, José Luís Peixoto, Paulo José Miranda, letras de sensibilidades muito distintas, mais ou menos apropriadas ao canto, que contribuem para a qualidade desigual do disco. A estratégia tinha dado excelentes resultados em
Garras dos sentidos mas o baú vai ficando vazio e os convites muitas vezes impõem cedências que se revelam amargas. Se calhar o que lamento é que este disco me pareça demasiado preso a um estatuto de qualidade literária que não me permite sentí-lo tão visceralmente como os melhores CDs de Mísia. Uma obra cerebral embrulhada mais em profissionalismo do que em inspiração. O fado está lá, só que é mais a imitação do fado (e do tango e do bolero) que a imitação da própria vida.
Classificação: (6/10)