"Somos todos desaparecidos"por Rodrigues da SilvaA sinopse nada diz. Ou diz, mas o essencial não o poderia dizer porque o essencial deste filme está na imagem. Como em todos dir-se-ia. Sim, mas ele há filmes que se podem contar e, face à banalidade da sua escrita, nem é preciso vê-los. Alice, primeira longa-metragem de Marco Martins, escapa (em absoluto) a tal vulgaridade. E desejável seria que dele se falasse de outro modo que não o da história de um pai à procura da filha desaparecida. É este, de facto, o seu leitmotiv, mas tal desaparecimento (sem causa, nem explicação) é, por assim dizer, o menos. O mais é o resto.
Que resto? As imagens, a sua escrita – já disse. Já disse, mas insisto, porque é muito raro o cinema português conseguir filmar tão bem um homem na multidão. Um homem tão perdido, afinal, quanto a própria filha que, obsessivamente, procura. Explico-me: quando o filme começa, já Alice, de 3 anos, filha do jovem casal suburbano (Mário/Nuno Lopes e Luísa/Beatriz Batarda), desapareceu. Para, logo após, vermos o pai a distribuir folhetos com a cara dela. Explico-me mais: o filme não leva ainda cinco minutos de duração e já, pelas duas sequências iniciais, percebemos que estamos perante Cinema, cinema com C grande e do melhor. O modo como a câmara capta o despertar dos pais e como, depois, filma aquele homem, cansado e lento, entre os carros na estrada – esse modo não engana.
Tudo (ou quase tudo) o que veremos a seguir confirma esta excelente mão para o cinema. Ao qual, é sabido, Marco Martins (n. 1972) chegou via publicidade, e o que Alice, desde logo, testemunha é a inteligência de um realizador que soube adaptar essa sua experiência à ficção, transfigurando-a. Porque, se não é frequente o cinema português dar-nos a ver o homem anónimo perdido na cidade, mais raro é ainda ver como esta cidade é, simultaneamente, um espaço sob vigilância e uma terra de ninguém. E como isso acaba por transformar a selva urbana numa identidade abstracta, feita de múltiplas solidões.
Não há palavras. Sobre isto não há discurso. Alice é feito de muitos silêncios, talvez porque (publicidade ensina) as imagens bastam, decerto porque, neste caso, melhor assim se capta a ausência, e este é um filme em que a suposta protagonista jamais se vê. O que sobretudo se vê é o pai, na busca incessante da filha, para o que, com a anuência e cumplicidade de amigos vários, instala câmaras de vídeo no alto de uma série de prédios. Vemo-lo nessa faina diária, refazendo o percurso da filha no dia em que desapareceu, e vemo-lo a recolher as cassetes e a visioná-las depois. Em vão.
E é então que a cidade, vista do alto e assim perscrutada, nos surge como espaço privilegiado de mil e um anonimatos. Nas ruas, nos cais do Metro, nos autocarros, nas estações dos comboios, no suburbano Cacém, no aeroporto, no tráfego das estradas, por todo o lado, enfim, é sempre o mesmo cenário. Ossos, de Pedro Costa (lembram-se?), vem à memória. De novo com multidão a rimar com solidão. E de tal modo que quase apetece dizer que, neste filme sobre uma filha desaparecida, o verdadeiro desaparecimento é o do seu pai no labirinto da cidade. Porque só nós o vemos e ao seu drama íntimo, mais ninguém. Nem sequer aqueles vagos amigos a quem recorre, e é um fresco de outros tantos seres, ensimesmados nos seus casulos, aquilo que nos é dado ver. Sente-se, no entanto, que Marco Martins está menos à vontade a filmar esta proximidade, e arrisco dizer até que o filme teria algo a ganhar se, neste particular, fosse mais depurado e rigoroso.
Não importa, ou importa pouco, porque, a despeito de tal senão, Alice é uma obra notável. Até pela interpretação, com secundários seguros (destaque, mais uma vez, para Miguel Guilherme – para quando um primeiro papel para este extraordinário actor?) e um Nuno Lopes de fabulosa contenção dramática. Tanto quanto Beatriz Batarda (no filme relegada para um segundo plano, mas brilhante quando aparece) é, como mãe, a imagem da maternidade dilacerada. Não se pense, porém, que Alice é um melodrama. Não é. Também não é um thriller. Porque, sublinhado pela belíssima música de Bernardo Sassetti, Alice é, no fundo, o rosto invisível desta cidade. Desta cidade cada vez mais igual aos seus subúrbios; desta cidade à chuva, envolta num azul de bruma. Desta cidade sob vigilância, pela qual, todos nós, quais robots, vagueamos no vazio. Como desaparecidos.