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Segunda-feira, Outubro 31, 2005

Aguarda-se sentença do João Lisboa (e avança-se classificação provisória)



Num certo não-sentido é até bom que a música dos Animal Collective seja apenas igual a si própria e diferente de tudo o resto. Estas crias de um improvável cruzamento dos Buthole Surfers com os Hugo Largo são responsáveis pelo OVNI musical de que toda a gente fala: Feels.
O ano passado - à data da edição de Sung Tongs - foram bem menores os ecos sucitados pela bizarria Animal Collective (música que conhece apenas duas velocidades: o slow-motion e o fast-forward) e não estou certo de que Feels seja melhor que o disco anterior. Tenho, aliás, imensas dúvidas. (7/10)

Domingo, Outubro 30, 2005

Na semana em que estreará "The Constant Gardener"



Apetece-me recordar uma recente e muito boa adaptação de John Le Carré ao grande ecrã. O filme de John Boorman já está para lá do desencanto com a visão romantizada do espião: e acaba por ser de suprema ironia ir buscar Pierce "James Bond" Brosnan (excelente, assim como Geoffrey Rush na personagem do "alfaiate") para o papel de um agente do MI6 caído em desgraça e vazio de escrúpulos.
The Tailor of Panama vale o que vale a sua total descrença na espécie humana. Cada um faz o melhor que sabe para se safar o melhor que pode. Se não conhecem o filme, ou ainda que o tenham visto já, impõe-se a revisão da matéria satírica.

The Constant Gardener no IMDB

A palavra dos amigos é Lei


Dylan Walsh (Sean McNamara) e Julian McMahon (Christian Troy) mais corpo feminino

Descobri na Fnac a primeira época de uma série de que apenas tinha ouvido falar por vozes amigas: Nip/ Tuck. O primeiro DVD da caixa foi quanto bastou para nos deixar agarrados. Nip/ Tuck tem a ver com tudo de bom que a ficção americana nos deu em anos recentes - Os Sopranos, Six Feet Under, Donas de Casa Desesperadas - e tem ainda um óbvio interesse pelo corpo humano que remete para o cinema de Cronenberg, só que apresentado com maior grau de explicitude: as cirurgias estéticas de Nip/ Tuck não são, definitivamente, para todos os estômagos.
Nip/ Tuck tem no centro dois cirurgiões plásticos que trabalham juntos e que acabam competindo um com o outro devido às suas diferenças de carácter e de história de vida muitas vezes partilhada. É uma excelente série moderna, cheia de conflitos interiores com que nos identificamos; cheia de contradições que são por vezes as nossas; cheia de uma obsessão com o corpo que mais não é do que o veículo privilegiado da nossa insegurança. Nip/ Tuck promete muito e cumpre já o bastante. E ainda vamos no terceiro episódio...

Do 0-2 ao dois igual

Um Boavistão encostou o Sporting às cordas na maior parte do tempo. O resultado final é sinónimo de "estrelinha": do quê não sei. E o que há a fazer pode implicar futuras contratações. A defesa e o meio-campo são dois sectores a cimentar. Quero dizer, a reforçar.

Um disco feliz



Brian Eno nem precisava de mencionar nas notas que acompanham Another Day On Earth, que o disco foi produto de um trabalho de estúdio marcado pela felicidade. Isso ouve-se em cada uma das suas onze faixas em cujas palavras e sons se equivalem no vasto e abstracto território que é a música: canções marcadas pela leveza (por uma quase total ausência de gravidade como já não se ouvia desde Moon Safari, dos Air), de outro tempo, de outro mundo, de outra Terra. (8/10)

A MOEDA MÁ, por Vasco Pulido Valente (excerto)

«Já se percebeu há quase meio século que não vale a pena “sobre-educar” sociedades com um mercado de emprego semi-arcaico, porque as “competências”, sejam elas quais forem, de facto desnecessárias, desandam para onde as podem usar e, naturalmente, lhes pagam bem. Na prática, o contribuinte português paga hoje a “qualificação” e a “formação” de uma pequena parte dos recursos, que por aí se chamam “humanos”, da América e do Canadá, da Inglaterra e da França, da Espanha e do Brasil. E paga também a “qualificação” e a “formação” de 5.000 pessoas por ano, que o Estado enganou e condenou a uma vida para sempre frustrada.
E a história não acaba aqui.»

[Público, domingo, 30 de Outubro de 2005]

Sábado



Convém dizer que os dois discos abaixo mencionados foram ouvidos cada um em seu turno, várias vezes seguidas, acompanhando a leitura de jornais e revistas do dia. Prazer que se tornou hábito e que prolonga o acto de leitura mais a atenção à música por longas horas seguidas. Hoje terão sido cerca de seis ou sete: 3+4 ou 4+3.

Sábado, Outubro 29, 2005

Outra boa companhia


Uptown Sunday Night Session, por Romare Bearden

Romare Bearden (1911-1988) foi um pintor que buscou inspiração no mundo do jazz para grande parte da sua obra. Branford Marsalis, com o habitual quarteto, com o clã Marsalis, e numa das faixas com o piano de Harry Connick Jr., presta-lhe sentida e inspirada homenagem.
As imagens de Bearden chegaram a figurar nos CD's de Wynton Marsalis, daí o motivo de inclusão de uma brilhante reinterpretação de J Mood agora neste disco de Branford, Romare Bearden Revealed. Um disco com muito blues, bastante jazz, montes de música boa. Que eu desconhecia. Até hoje. (7.5/10)

Uma boa companhia


Jon Hassell

O som de Jon Hassell fascina-me. Acho que ouvi o seu trompete pela primeira vez na estreia a solo de David Sylvian. Mais tarde, muitos anos depois, de novo, numa obra-prima chamada Fascinoma com Ry Cooder e o indiano Ronu Majumbar. Foi demorado reconstituir a partir daqui a discografia de Hassell, do presente para o passado. Mas fui bem sucedido: tenho hoje a maior parte dos seus CD's. Inclusive o que saiu este ano e que se chama Maarifa Street: magic realism 2. O disco parte do registo das actuações ao vivo da banda que Jon Hassell liderava entre 2002 e 2003, e o som captado foi depois aperfeiçoado em estúdio. O resultado final não andará longe da música que Miles Davis produziria caso fosse vivo. Que digo eu... Miles ainda é vivo no instrumento e na música de Jon Hassell que, ao mesmo tempo, não deixa de ser muito personalizada. E fascinante. Muito. (9/10)

Esperar sentado



Esperar sentado é uma virtude. Oxalá não tenha que esperar muito.

A eternidade e um dia


ascent


eternal

Faltam dois meses para 2005 se cumprir, mas dificilmente os melhores discos de jazz, nacional e internacional, poderão ser outros. Na altura que os classifiquei, Sassetti levava mínima vantagem sobre Marsalis. Agora que os reavalio, vejo-me forçado a reconhecer que entre a eternidade de um e o dia de outro, o infinito leva vantagem.

Sexta-feira, Outubro 28, 2005

O bom disco é um disco riscado



Dentro do género electrónica risca-o-disco-toca-o-mesmo, tenho que dizer que já ouvi melhor. Mas acho também provável que um próximo CD de Mitchell Akiyama possa vir a ser tão bom como o melhor Christian Fennesz ou o melhor Tim Hecker. Ou porque não o melhor Four Tet. (7/10)

Íntimo



O conceito de escopofilia, que corresponde ao prazer de olhar (normalmente uma cena íntima; mas que também se aplica ao prazer do cinema e de que maneira...), é muitas vezes confundido com voyeurismo, que pressupõe já que quem esteja a ser observado não saiba do facto.
O exemplo escolhido diz respeito à escopofilia na sua expressão mais pura (a expressão de um rosto) e vale a pena espreitar a free sample mesmo que seja para não repetir. E se não fôr... que seja.

O seu a seu dono


Isaiah Berlin (1909-1997)

João Lobo Antunes, mandatário nacional de Cavaco Silva, citado pelo Público no momento da apresentação do manifesto da candidatura: "Liberdade é liberdade, não é igualdade, não é justiça, não é cultura, não é felicidade humana, não é uma consciência tranquila (...)" [pág 3, edição impressa, sexta-feira 28 Out. 05]

João Lobo Antunes? Espera aí, Lobo Antunes não mas Isaiah Berlin, que eu posso não ler o suficiente mas nunca me esqueço dos amigos.

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

Antioxidantes do mundo, uni-vos!



Duas excelentes entradas no Da Literatura: sobre delírios inofensivos e perigosos. Um único pedido em nome da lucidez: não se pode erradicar este radical livre extremamente reactivo?

Eu cá gosto ainda mais das canções com nome de animais*


Thomas Fersen

"Mon imagination a longtemps été un handicap, car je n'avais pas les pieds sur terre, observe Fersen dans son appartement parisien. Par une inversion bénigne, c'est devenu un avantage. Il y a aussi une lucidité aiguë : je vois des choses que personne ne voit, et je ne vois pas ce que tout le monde voit." Cet imaginaire se ravitaille aussi au café du coin et dans la littérature. "J'ai trouvé le titre, Le Pavillon des fous, dans Moravagine, de Blaise Cendrars, explique-t-il. C'est l'histoire de l'héritier d'un trône d'un pays balte qui en est écarté. Il se retrouve dans un pavillon en Suisse avec d'autres rejetons royaux et des personnages comme on en rencontre chez Francis Scott Fitzgerald. De la fin du XIXe siècle à la première guerre mondiale, il y avait une industrie de l'asile, luxueuse, pour les aristocrates et les grosses fortunes." [Bruno Lesprit, Le Monde, Outubro 2005]

* Exemplo: "Mais en voyant cette blanche/ Et le dessin de ses hanches/ Dans une auréole blonde, / J'ai fait mes adieux au monde, À la lune vagabonde, / Belle comme une femme amoureuse, / À ma raison qui me gronde: / "C'est ta tombe que tu creuses". [#3 Pégase]

Introduzindo quase imperceptíveis variações em relação aos discos anteriores, o novo CD de Thomas Fersen - que por cá não se arranja - volta a ser adoravelmente macabro e muito divertido. Como ele próprio canta, ideal para nos despedirmos do mundo. Todos os dias. Com pompa, dependendo das circunstâncias.

Só meia-dose, please!



Wallace & Gromit é especial, claro está, por causa de Wallace e de Gromit. Agora que já sabíamos quem eles eram graças às divertidíssimas curtas aventuras assinadas por Nick Park, o investimento na caracterização das duas figuras não tinha muito sentido. Em A Maldição do Coelhomem o cuidado dirigiu-se sobretudo para a história, para os gags e para alguns secundários: excelente o caçador Quartermaine na voz de Ralph Fiennes. E o filme consegue ser divertido mas não durante 85 minutos. A cena final que tem lugar na grande feira dos vegetais, ou na feira dos grandes vegetais, é muito bem-vinda pois traz alguma animação que disfarça que a “maldição” devia ter pouco mais de metade da sua duração. O problema da animação em geral passa essencialmente pelo facto de serem poucos os autores que conseguem aplicar eficazmente o formato à longa-duração. E aposto que Tim Burton, pela excepção que confirma a (minha) regra, virá de novo em breve mostrar como tenho razão.

Classificação: (6/10)

Acústico (sem estrelas)



Rock Bottom Riser (Bill Callahan)

I love my mother
I love my father
I love my sisters, too.

I bought this guitar
To pledge my love
To pledge my love to you

I am a rock
Bottom riser
And I owe it all to you

I saw a gold ring
At the bottom of the river
Glinting
At my foolish heart
So my foolish heart
Had to go diving
Diving, diving, diving
Into the murk

And from the bottom of the river
I looked up for the sun
Which had shattered in the water
And pieces were rained down
Like gold rings
That passed through my hands
As I thrashed and I grabbed
I started rising, rising, rising

I left my mother
I left my father
I left my sisters, too
Left them standing on the banks
And they pulled me out
Of this mighty, mighty, mighty river
I am a rock
Bottom riser
And I owe it all to you


(Então e o resto do disco? O resto é igualmente magnífico, do melhor que Smog gravou. A beleza das coisas simples é ouvidente, embora não possa aqui ser escutada dada a minha preguiça tecnológica)

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

A TV do futuro em verdades relativas

A Televisão, Tal Como a Conhecemos, Acabou foi tema inaugural da terceira temporada do "É a Cultura, Estúpido!", no São Luiz. Convidados: Emídio Rangel e João Lopes. Conclusões: quem continuar a ver televisões generalistas pagas pelos anunciantes, merece a TV que tiver; quem estiver disposto a pagar canais temáticos da Cabo ou outros, terá a televisão que merece. Lógica implacável. A televisão do futuro começa hoje.

O amor às 3 da tarde

Ainda que estivesse a trabalhar teria arranjado forma de estar presente no jogo da Taça. A partida foi sofrível e sofrida mas ganhámos. A revolução segue dentro de momentos.

O que é Dinis Machado é bom!



Hoje com o Público, Mão Direita do Diabo (1967), de Dennis McShade. Já comecei a ler e já comecei a gostar. "Se os crimes de Maynard não são obras de arte, a arte é que fica a perder." (pág. 16)

Na paragem de autocarro



- Já aí vem ó chefe.
(olhando melhor...)
- Chefe não, patrão!
(diga-se que eu estava com o meu habitual ar sério...)
- Nem chefe nem patrão, a não ser de mim próprio.

Ácido como o sumo de dois limões em jejum

«‘Do you think that was a very nice thing to say?’
‘I wasn’t trying to be nice.’ Then after a pause: ‘When do you want to go?’
Bernice drew in her breath sharply.
‘Oh!’ It was a little half-cry.
Marjorie looked up in surprise.
‘Didn’t you say you were going?’
‘Yes, but –’
‘Oh, you were only bluffing!’
They stared at each other across the breakfast-table for a moment. Misty waves were passing before Bernice’s eyes, while Marjorie’s face wore that rather hard expression that she used when slightly intoxicated undergraduates were making love to her.
‘So, you were bluffing’, she repeated as if it were what she might have expected.
Bernice admitted it by bursting into tears. Marjorie eyes showed boredom.
‘You’re my cousin,’ sobbed Bernice. ‘I’m v-v-visiting you. I was to stay a month, and if I go home my mother will know and she’ll wah-wonder – ’
Marjorie waited until the shower of broken words collapsed into little sniffles.
‘I’ll give you my month’s allowance,’ she said coldly, and ‘you can spend this last week anywhere you want. There’s a very nice hotel –’
Bernice’s sobs rose to a flute note, and rising of a sudden she fled the room.»

[F. Scott Fitzgerald, Bernice Bobs Her Hair (Penguin), pág. 16]

Terça-feira, Outubro 25, 2005

O mais belo filme do mundo?



Muito do que se tem escrito sobre Aurora dá-o como sendo “o mais belo filme do mundo”. Com pesar reconheço a minha insensibilidade para ver nesta obra de F. W. Murnau algo mais do que um melodrama exemplar sobre o amor que se redimensiona quando toma por perdido o objecto amado. Aurora (1927) requer várias décadas depois demasiadas ingenuidade e fé do espectador e até mesmo ao nível da pura emoção estética arriscaria dizer que este título fica aquém de outros marcos do expressionismo romântico do mesmo autor, como são os casos de Fausto (1926) e Nosferatu (1922).
Lamento, queria muito gostar deste filme que demorei tantos anos para ver uma primeira vez. Acontece que parte nenhuma em mim se emocionou como das vezes que descobri Vertigo (Hitchcock), A Palavra (Dreyer), A Desaparecida (Ford), Bitter Victory ou Lusty Men ou Johnny Guitar (Ray), Some Came Running (Minnelli), A Imperatriz Wang Kwei-fei (Mizoguchi), Tokyo Story (Ozu), Quando uma Mulher Sobe as Escadas (Naruse) ou ainda A Regra do Jogo (Renoir). O que se passou com Aurora foi que todo este tempo depois falta ao filme a capacidade de fazer abrir o meu coração como se terá aberto o do público da época e o de muitas pessoas que hoje persistem em considerá-lo “o mais belo filme do mundo”. Na minha opinião, aquilo que ao fim e ao cabo define um Clássico: uma superior comoção. Ou então era eu que hoje não estava para amar.

Fala-se na "vila"


Christiane Torloni


Fala com o meu Banco!

«Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho. Tinha o instinto das elegâncias, o amor do supérfluo, da boa chira, das belas damas, dos tapetes finos, dos móveis raros, um voluptuoso, e, até certo ponto, um artista, capaz de reger a vila Torloni ou a galeria Hamilton. Mas não tinha dinheiro; nem aptidão ou pachorra de o ganhar; por outro lado, precisava viver. Il faut bien que je vive, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. Je n’en vois pas la nécessité, redargüiu friamente o ministro. Ninguém dava essa resposta ao Custódio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil-reis, e de tais espórtulas é que ele principalmente tirava o albergue e a comida.»

[Machado de Assis, Um Homem Célebre: antologia de contos (Cotovia), pág. 11 “O Empréstimo”]

Booklover



Vasculhando promoções na Barata, descubro que Bernice Bobs Her Hair, canção do primeiro disco oficial dos The Divine Comedy (a que se regressa sempre com prazer), é também título de uma história de F. Scott Fitzgerald. Espanto? Não há espanto, afinal trata-se de Neil Hannon, o artista que logo depois nos daria esse caso extremo da citação aplicada à música que é The Booklovers: " (...) James Joyce: Hello there!/ Virginia Woolf: I'm losing my mind!/ Marcel Proust: Je me'en souviens plus/ F Scott Fitzgerald: baa bababa baa/ Ernest Hemingway: I forgot the..../ Hermann Hesse: Oh es ist alle so häßlich/ Evelyn Waugh: Whoooaarr! (...)".

Segunda-feira, Outubro 24, 2005

a, b, ... symbol

Susumu Yokota tornou-se após a edição de sakura, em 1999, e à escala alargada do ocidente, uma figura de referência da electrónica ambiental e de outras variantes mais dançaveis que não tive curiosidade de explorar. A sua discografia totaliza hoje 25 títulos e remonta a anos anteriores, embora nesse outro tempo o culto se mantivesse mais circunscrito. Yokota é considerado um Mestre por gente a quem muitos de nós aplicaria igual epíteto: Philip Glass, Thom Yorke ou Brian Eno. E só uma desmesurada dose de auto-confiança poderia estar na origem de um disco como symbol. Yokota sampla peças que são verdadeiros ícones da música clássica ocidental (daí talvez o nome do disco, symbol) – daquelas que figuram invariavelmente em compilações do género Classical Experience -, de Beethoven a Tchaikovsky, num corropio de melodias de reconhecimento imediato a que o músico nipónico sobrepõe camadas de sintetizadores, vozes também sampladas a partir de álbuns de Meredith Monk, excertos da composição “four walls” de John Cage, tudo organizado como se o objectivo fosse a superação dos mais elevados níveis de beleza e sofisticação. Disco de escuta fácil que facilmente pode ver-se aprisionado pelo descrédito de ouvidos mais apressados, symbol revela-se um fenómeno de montagem de elementos sonoros organizados de acordo com os caprichos de Susumu Yokota: iconoclasta que não deixa sequer perceber outro tipo de relação com o material samplado que não seja a meramente utilitária. Yokota já se havia aproximado deste tipo de experimentação, mas nunca antes o tinha feito de forma tão descarada. O resultado é pelo menos surpreendente.

Classificação: (7/10)

Discografia recente, recomendada e muito cá de casa: sakura (leaf, skintone 99/00); grinning cat (leaf, skintone 01); the boy and the tree (leaf, skintone 02) e laputa (skintone 03)

May her music never end


Shirley Horn (Maio 1934 - Outubro 2005)


Domingo, Outubro 23, 2005

Pensar (só) em ganhar

Quando Liedson, em Barcelos, repõe a igualdade já em período de descontos, a equipa resolve celebrar junto à linha de fundo perante o inconformismo de Paulo Bento que com toda a legitimidade pensava ainda na vitória. O episódio é bem exemplificativo da mudança de atitude que tem que ser operada no Sporting. Os jogadores pareciam felizes com o empate; a equipa não se pode contentar jamais a não ser com a vitória. Fragilidades defensivas, um meio-campo pouco municiador e um ataque desinspirado pedem de Paulo Bento e de toda a equipa técnica uma verdadeira revolução. Vamos a ela.

Silver Jews


David Berman

Uma feliz conjugação de factores permitiu que o colaborador do Y (Público), João Bonifácio, fizesse uma reportagem com um dos seus heróis musicais, o líder dos Silver Jews, David Berman: o gajo que canta como o JP Simões dos Belle Chase e do Quinteto Tati ou vive-versa. O resultado final surgiu impresso na edição da passada sexta-feira do Y e o mínimo que se pode dizer é que só por si já valia a aquisição do dito suplemento.
À reportagem/ entrevista propriamente bem escrita segue-se um excelente perfil de Berman e a crítica ao novo CD, Tanglewood Numbers, que escuto neste preciso momento - sim, porque também não ando propriamente a dormir em serviço e tinha já três dos quatro discos anteriores dos Jews. E uma vez que insistem, tenho também o muito elogiado livro de poemas de David Berman, Actual Air, que já não pego há algum tempo não sei se por ter sido (o até hoje único livro) alvo da gula dos gatos cá de casa...

Grizzly Man (doclisboa)


homem e urso no mesmo plano (zero efeitos especiais)

Timothy Threadwell é o grande realizador por detrás deste documentário de Werner Herzog. Threadwell é o excêntrico que dá título ao filme, Grizzly Man. Todos os anos, num total de treze, pelo Inverno, punha em prática a sua fantasia regressiva e partia rumo ao Alasca, para uma área protegida habitada por dezenas de ursos grizzly, que o próprio Timothy baptizaria um a um e cuja vivência registaria num total de mais de cem horas de material que só teve fim no dia da sua morte. Timothy Threadwell viveu a fantasia com tal comprometimento que acabou transformado num urso da única forma possível: sendo devorado por um grizzly (ele e a namorada que esporadicamente o acompanhava). Quando referi que Threadwell era "o" grande realizador de Grizzly Man, quis dizer que é o seu material que Herzog usa abundantemente que imprime um cunho tão particular a este filme. O interesse de Herzog pela loucura de Threadwell – pela utopia representada na visão idealizada da natureza como se fosse o prolongamento do imaginário de uma criança que constrói um mundo perfeito quando brinca sozinha – será também o nosso quando assistimos, incrédulos, a diferentes manifestações dos delírios de Timothy Threadwell, sujeito aparentemente normal, mas que a totalidade do material deixado vem a revelar que encontrara um modo muito pessoal e inofensivo de se refugiar da civilização que desprezava, em favor do mundo natural de que tinha uma concepção não menos ingénua. A abordagem de Werner Herzog nunca se propõe expor Threadwell ao ridículo, embora algumas pessoas o vissem como tal. É impossível resistir à ingenuidade do olhar dele (apesar de irmos percebendo o ressentimento e o recalcamento que lhe pré-existem), à insensatez do modo como se aproximava dos ursos que o podiam desfazer num instante, das suas teorias sobre si próprio e a sua bravura e o seu amor pelos animais. O material de Threadwell recorda-nos muitas vezes o conceito de montagem invisível de Bazin: o risco é constante (aqui não há lugar a efeitos especiais) e o material é um registo diário que oscila entre a iminência do perigo de morte e a predisposição da natureza para apresentar imagens de beleza muito além da capacidade humana de encenação (mas há lugar, e bastante, para efeitos naturais). Na irrealidade de Threadwell, o efeito de realidade era total.

Classificação: (7/10)

Sábado, Outubro 22, 2005

O efeito assinatura pronto-a-ouvir



Impossível ser imparcial quando se trata de David Sylvian. Que se dane a imparcialidade. (7.5/10)

Bright Leaves (doclisboa)


Ross McElwee, o homem da câmara-de-filmar

Gosto do narcisismo de McElwee porque é irónico. Ele volta a contar parte da sua história familiar em Bright Leaves, e os McElwee são referidos como alguém que foi ultrapassado na história ilustre da Carolina do Norte. Este Estado confunde-se com tudo o que tenha a ver com tabaco, sua produção e consumo, assim como o nosso Douro remete no imaginário de todos para a produção de vinhos e o que com ela se relaciona. McElwee irá depois procurar compreender como poderão continuar a fumar com a mesma insensatez, aqueles que viram morrer mais gente de cigarro na boca do que de espingarda na mão (na histórica guerra que opôs os do Norte e os do Sul). Ficamos sem resposta pois McElwee não a consegue obter. Afinal o tabaco apresenta-se como um substituto de tanta coisa, quando não o hábito que nasce da razão de ser da própria vida. O documentarista americano arrisca um tom quase moralista mas o fascínio pelo Outro fá-lo ir mais além. Bright Leaves não julga o que vê, limita-se a questionar e a transitar livremente do espaço íntimo ao espaço social, relacionando tudo: cinema, tabaco, história, estórias, vida e morte.

Classificação: (7/10)

O mistério Cobain

Blake em posição fetal: nascimento e morte

Last Days de Gus van Sant é um filme compósito. E existem várias pistas para aquilo que levou à construção da personalidade poética de Blake (Michael Pitt): além do que até nós chegou do que terão sido os últimos tempos de vida de Kurt Cobain em que o filme vagamente se inspira, há ainda a história escutada no filme sobre um rapaz de 14 anos que após ter sido visitado por Cristo iria fundar a Igreja dos Últimos Dias; outra história que um dos personagens conta acerca de um mágico inglês que ao executar um número em que deveria segurar uma bala com os dentes veio a morrer, nunca se averiguando se a causa fora suicídio ou infortúnio; finalmente a letra da música dos Velvet Underground, Venus in Furs, que os amigos de Blake escutam e que fala de cansaço existencial e dominação por entre acordes de guitarra psicadélicos e hipnóticos.
Há também uma cena em que Blake fechado sozinho no estúdio experimenta a sobreposição de sons produzidos por vários instrumentos que resultará numa massa sonora - camada sobre camada - tão abstracta como o é o próprio filme de van Sant. Temos ainda a questão da não presença objectiva da droga que no entanto se sente em cada plano, infiltrada que está na própria corrente do filme. Assim como em Alice - para citar um filme recentemente estreado - nunca vemos a criança cujo desaparecimento contamina todos os planos do filme com o desespero e o luto, também em Last Days a droga que nunca se vê está na prostração dos personagens, zombies desta crónica lo-fi de uma morte anunciada – a de Blake/ Cobain. E esse olhar fascinado do realizador pela figura sonolenta daqueles jovens que se arrastam pelas divisões da casa onde se encerraram numa existência letárgica tem paralelismo com outro filme de van Sant, My Own Private Idaho onde, se nos recordarmos, uma das figuras principais, interpretada pelo prematuramente desaparecido River Phoenix, sofria de ataques de narcolepsia que o punham a dormir de um momento para o outro.
A primeira vez que vemos Blake, ele surge como se se tratasse de uma criatura dos bosques e essa marca de primitivismo, de uma inocência reconciliada apenas com o mundo natural, não mais deixará de se fazer sentir em Last Days. Blake é alguém que observamos a despedir-se aos poucos da vida, que progressivamente se apaga no interior dos próprios planos de onde o vemos assomar, ora remetendo-se a um estado quase preguiçosamente felino, ora fundindo-se com a floresta que o recebe como se ele sempre tivesse dela feito parte, ora elevando-se aos céus qual anjo cujos últimos dias de vida sonhada Gus van Sant recriou com total liberdade poética e respeito absoluto pelo mistério da vida, em parte inspirada no mistério Kurt Cobain.
“Longa e solitária é a viagem do nascimento até à morte”: podia ser o epitáfio de Cobain mas é apenas o refrão de uma canção que o actor Michael Pitt (Blake) escreveu e canta em Last Days. Outra pista para um filme que à semelhança de Elephant não é de chave na mão.

Classificação: (8/10)


Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Nove canções



Tenho muita vontade de falar do novo projecto de David Sylvian com Burnt Friedman e Steve Jansen, Nine Horses. O número de cavalos corresponde ao número de canções: constatação irrelevante. O número de canções corresponde e não corresponde a momentos anteriores da discografia de Sylvian (Dead bees on a cake e mais não dou!). O álbum é mais acessível do que as reacções que antes li fariam supor. Depois de Blemish é um assinalável golpe de rins. Sylvian a experimentar formatos mais reconhecíveis e nós a experimentar novas formas de sedução por ele propostas. Os enquadramentos sonoros são menos surpreendentes do que os de The Only Daughter, The Blemish Remixes. David Sylvian parece fazer hoje questão de estar onde não esperamos por ele. A voz serve sempre de referência e para que não me perca em rodeios vou ouvir melhor este Snow borne sorrow antes de arriscar opinião alinhada ou conformista. É que possuo um grau de exigência muito pessoal para com aquilo que considero muito meu. Toca a canção número nove, The librarian, e o interesse volta a aumentar. A continuar.

Mar adentro



O concerto esgotou, ouvi dizer. Oxalá não enjoem! Quando os Animal Collective entravam rio adentro com as suas tralhas para assinalar o 11º aniversário da ZDB, eu pagava o seu novo disco junto com muita outra música e um bacalhauzinho que por certo não terão pescado os que se prontificaram a ouvir Feels no mar do rio. Desculpando-me com a constipação para mais uma vez não trocar o certo pelo duvidoso. Invejoso.

Parto sem dor


imagem da apresentação de Segundo em São Paulo

Maria Rita herdou uma grande voz por capricho da genética. Por capricho ou não de Maria Rita, as suas interpretações nalguns casos fazem esquecer a própria Elis, especialmente para aqueles que não são fãs da histeria quando era isso que se ouvia. Maria Rita entretanto foi mãe e isso talvez se faça notar mais no seu Segundo disco do que uma escuta desatenta possa supor: onde Maria Rita era exuberância, Segundo é melancolia.
A predominância de temas lentos, auto-reflexivos expõe alguma imaturidade de Maria Rita enquanto intérprete – evidente em Sobre todas as coisas de Chico e Edu. Ela tem uma voz formidável mas ainda não é a cantora extraordinária que muitos apregoam. Cantor extraordinário é Ney Matogrosso, apenas para me ficar por alguém que em termos de timbre remete para a voz de Maria Rita. E depois Maria Rita optou por fazer um CD em continuidade com o primeiro. Poupou-nos surpresas, boas ou más. Reforçou o carácter jazzístico. E produziu na companhia de Lenine um disco agradável. Mas um pouco preso de arranjos (Conta outra, ao vivo, faixa bónus é outra história...) Dir-se-ia tratar-se de um parto sem dor, embora seja notório algum cansaço na voz talvez decorrente do outro parto, por certo bem mais importante para ela do que o cimentar de uma carreira que embora jovem é à prova de mínimos desaires. Como Segundo.
Se a editora começa já a pensar no disco terceiro, poupo-lhe o trabalho da direcção musical que o mesmo deve tomar: que tal um trabalho inteiramente dedicado ao repertório Marcelo Camelo, o dos Los Hermanos? É só uma dica, nada mais.

Classificação: (7/10)

Yes Mister



Com a devida vénia ao "senhor professor", o homem do dia é este.

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Kate quase Weston


Kate Hudson e Edward Weston


Grande cena, grande actor, grande filme


Philip Seymour Hoffman: um dos maiores actores da actualidade e ponto final

William Miller (Patrick Fugit) está sentado na frente da secretária tentanto escrever sobre os dias passados na companhia da banda Stillwater. Procura inspiração nas polaroids que Peggy Lane (Kate Hudson) tirara na mesma tournée mas nada lhe sai. William telefona então para o seu amigo e mentor Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman):

Lester – Oh, man, you made friends with them. See, friendship is the booze they feed you, cause they want you to get drunk and feel like you belong.
William – Well, it was fun.
Lester – Because they make you feel cool. Hey, I met you. You are not cool.
William – I know. Even when I thought I was, I wasn´t.
Lester – Because we are uncool. While women will always be a problem for guys like us, most of the great art is about that very problem. Good-looking people, they got no spine. Their art never lasts. They get the girls, but we’re smarter.
William – Yeah, I can really see that now.
Lester – Because great art is about guilt and longing and love disguised as sex and sex disguised as love. Hey, let’s face it, you got a big head start.
William – I’m glad you were at home.
Lester – I’m always home. I’m uncool.
William – Me too.
Lester – You’re doing great you know? The only true currency in this bankrupt world is what you share with someone else when you’re uncool. Listen, my advice to you, I know you think these guys are your friends, if you want to be a true friend to them, be honest and unmerciful.

Acho que aquilo de que mais gosto em Almost Famous, Quase Famosos é que embora os personagens se julguem entre si, o realizador Cameron Crowe não tece julgamentos sobre nenhum deles. Pois se lhe perguntassem, como no filme, do que é que ele gosta na música, por certo responderia TUDO. Eu gosto de tudo neste filme.

Classificação: (8.5/10)

Lulas só com salada



O Beckett entrou no Bitoque quando eu estava a almoçar. Trazia um saco de plástico cheio de tupperwares que seriam enchidos com dobrada: prato do dia. Esperou junto da entrada enquanto fumava um Português Suave sem filtro. Não final não esqueceu também os papo-secos que trouxera num outro saco mais pequeno. Saiu antes de eu beber o café. Alguém chamou-lhe João mas fiquei com a impressão de que era Beckett. Não comi lulas.

Sonhos bons


Terça-feira, Outubro 18, 2005

A vida é dura e o tamanho faz diferença



Acabo de rever Boogie Nights, belíssima ilustração da lei da gravidade sob a forma de filme: tudo o que nele sobe acaba forçosamente por descer (tombar, cair). Dura duas horas e meia e não tem um minuto a mais.

Classificação: (8.5/10)

Segunda-feira, Outubro 17, 2005

Um filme vulgar



Crónicas, de Sabastián Cordero, é um filme vulgar. No sentido em que é desonesto. A desonestidade de Crónicas reside no modo como procura introduzir ambiguidade naquilo que para nós é evidente. É clara desde o início a identidade do serial-killer conhecido como “o monstro de Babahoyo”. Mas ainda assim, Cordero não se coíbe de lhe colocar palavras santas na boca (ex. “... e aquele que estiver inocente que atire a primeira pedra...”) no momento em que este, ainda incógnito, quase é linchado na sequência de um atropelamento acidental. O olhar de Cordero sobre “o monstro” continuará a ser falsamente piedoso. Pelo contrário, a ambição que não olha a meios de Manolo Bonilla (repórter principal de um programa de TV sensacionalista) também ultrapassa os limites do plausível em nome de um suspense que o filme procura manter de forma denunciada. É caso para dizer que Crónicas padece de enfermidade comum ao registo televisivo que ataca na denúncia de um mundo manipulador e injusto.

Classificação: (2/10)

Um disco sublime



Implica primeiro que a música também o seja.

Kirkland


Kenny Kirkland (1955-1998)

Uma vagamente nostálgica sensação de perda 7 anos depois.

Depois do estágio a Academia (a solução)



Vítor Pontes: como é que nos havíamos esquecido dele?

Double portrait(s)


Domingo, Outubro 16, 2005

Por hoje é tudo



A Streetcar Named Desire (1951); Chinatown (1974); The Subterraneans (1960); Anatomy of a Murder (1959); The Pawnbroker (1965); Taxi Driver (1975); Degas' Racing World (1968); Man With the Golden Arm (1955); Clockers (1995); Terence Blanchard (tp); Joe Henderson (ts); Donald Harrison (as); Steve Turre (tb); Kenny Kirkland (p); Reginald Veal (b); Carl Allen (dr); Strings.

Leva um amigo também

Mas Dias da Cunha poderá afirmar que foram os milhares de adeptos da Briosa presentes, que repetidas vezes, em coro, a alto e bom som, o mandaram "pró caralh.....".

Sábado, Outubro 15, 2005

LaChapelle fotógrafo





Imediatamente reconhecível mas não para todos os gostos.

Rize (doclisboa)



O III Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa (doclisboa) arrancou hoje com escolha acertada. Rize, do fotógrafo de moda excêntrico tornado documentarista, David LaChapelle, aborda de forma simples e calorosa o fenómeno do “krumping”, dança urbana e primitiva dos jovens pobres de South Central, LA, que funciona como exorcismo para a revolta e violência sublimadas através de coreografias enérgicas que misturam movimentos do breakdance, do hip hop e outros esgares físicos que mais parecem simular situações de uma agressão que no “krumping” nunca se chega a concretizar sobre o opositor. O documentário de LaChapelle tem dois propósitos: um artístico e outro sociológico. Interessou-me mais o primeiro, mais estilizado, porque é óbvio o fascínio que o realizador sente pela electricidade em bruto que aqueles corpos com diferentes idades soltam e que é matéria explosiva quando em combustão com o gangsta rap ou o hip hop mais robótico que os serve na perfeição. Já a componente sociológica é mais previsível, histórias que o cinema e a televisão se encarregaram de tornar uma espécie de estereótipo das vidas dos bairros problemáticos de Los Angeles. O documentário de LaChapelle segue uma figura em particular – um ex-traficante tornado animador (Tommy "the Clown" Johnson) que criou uma escola de dança – que pretende desviar os jovens da criminalidade para uma ocupação mais vivificante dos seus tempos livres. As histórias trágicas são sempre relatadas de modo diferido, resultando Rize no relato de um caso exemplar onde as boas intenções se prolongam da atitude de quem regista aquela realidade (David LaChapelle) até todos os sujeitos de que a mesma se compõe, sem excepção. Artisticamente estimulante, em termos humanos menos.

Classificação: (5/10)

Atenção ao resto da programação que se prolonga até ao próximo dia 23.

Film music


Animal Collective



Canções da "tanga" ou canções "ao lado"? Vou pela segunda hipótese e enquanto não posso auscultar Feels, fico-me pelo disco anterior que fico muito bem.

Nota de esclarecimento: canções ao lado são como fotografias desfocadas, logo, são canções desafinadas (ou desatinadas, também serve).

Sexta-feira, Outubro 14, 2005

Sonatine (10/10)



Já que vamos todos morrer mais cedo ou mais tarde, o melhor é disparar e rir até ao fim.

Isn't she lovely



Laura Veirs tem aquele tipo de voz ameninada que associamos de imediato à cena indie e a intérpretes como Liz Phair. As suas melodias folk/ rock mais beats remetem no entanto para um nome completamente estabelecido noutro universo - o das escritoras de canções – que é Suzanne Vega: a de 99.9 Fº e Nine Objects of Desire. Ao que parece, o disco de estreia de Laura Veirs, Carbon Glacier, datado do ano passado, teve acolhimento entusiástico por parte das melhores revistas. Desconheço esse disco. Descobri-a agora com Year of Meteors sem saber muito bem o que esperar que não fossem pistas de uma curiosidade espicaçada pelo texto de João Lisboa (sempre ele!) no suplemento Actual do Expresso. Reconheço que Laura Veirs consegue trazer alguma reinvenção musical a um género parado como é o folk/ rock no geral. Já os pormenores da sua escrita literária me dizem menos. Vocabulário à parte, parecem-me sobretudo palavras eficazes para a função a que se destinam (serem cantadas), mas em termos poéticos acho-me perante território demasiado vago e pueril. Year of Meteors (Nonesuch/ Farol Música) é um disco simpático, por vezes até muito simpático. Se lhe derem tempo, a miúda talvez (escreva e) grave um dia qualquer coisa de facto memorável.

Classificação: (6.5/10)

I knew it


Esta não é Sharon Stone

I knew it, I know it.

Jack & Bobby


Matt Long (Jack), Christine Lahti (Grace, a mãe) e Logan Lerman (Bobby)

A RTP 1 está a exibir nas noites de quinta-feira, por volta das 23h, uma série norte-americana que a avaliar pelo episódio de ontem (o 2º de 22 e o único que vi) me pareceu excelente. A série trata da vida entre a adolescência e a idade adulta de Jack e Bobby, os dois irmãos McCallister de onde sairá o presidente dos Estados Unidos do ano 2049. Mais do que pela originalidade da ideia inicial - acompanhar o período de formação da personalidade de um futuro líder mundial - é na colocação em prática da mesma que tudo se decide: através da articulação de episódios do presente/ passado com declarações de figuras próximas do presidente americano, já em 2049, que estabelecem uma relação muito pertinente em termos narrativos e psicológicos. A série Jack & Bobby permite-nos deste modo interpretar acções do presente/ futuro com recurso a eventos do passado/ presente dos dois irmãos. Confusos? Não estejam. Trata-se de um verdadeiro malabarismo criativo uma vez que o passado da série corresponde ao nosso presente e, consequentemente, o presente da mesma aponta uma hipótese de futuro.

A velha e o monstro


O castelo andante, Howl's moving castle

Feiticeiros imaturos, bruxas em crise de idade e meia, príncipes transformados em espantalhos, chapeleiras com vocação heróica (e a mania da limpeza), universos paralelos, guerra apocalíptica, inveja, ciúme, destruição, capricho, a bestialidade dos humanos mas a bondade destes também, tudo isto no filme artisticamente mais brilhante de Hayao Miyazaki que peca no entanto por ter narrativa demasiado longa e rocambolesca. Terminando com a mensagem de que o amor é o mais poderoso dos feitiços. Lindo.

Classificação: (6/10)


Quinta-feira, Outubro 13, 2005

"Biografem-se!"



Margaret Thatcher, a Dama de Ferro
(no Biography Channel)
1ª parte: hoje às 17h e 23h; amanhã às 5h e 11h
2ª parte: hoje às 18h; amanhã às 0h, 6h e 12h

Em escuta a manhã inteira



Perdeu-se o concerto mas ganhou-se o disco. O contrário é que seria de lamentar.

Quarta-feira, Outubro 12, 2005

Vai começar...

Independentemente do resultado, o jogo de Portugal hoje é a letões.

O menos bom que é inimigo do óptimo



Uma só canção excelente é curto face às expectativas suscitadas pelo regresso dos death cab for cutie, banda já amplamente elogiada por mim com encómios estendidos a outro projecto que contou com a colaboração do mesmo Benjamin Gibbard (falo dos Postal Service). A tal breve mas óptima canção, "Brothers on a Hotel Bed", chega até a ter um daqueles versos belos de tão certeiros (“’Cause now we say goodnight from our own separate sides like brothers on a hotel bed”), mas nem assim cegamos o suficiente para deixar de reparar que a verdadeira inspiração passou ao lado deste Plans. Falta-lhe o carácter de urgência do anterior Transatlanticism, sobra um sinfonismo eléctrico postiço que remete para referências que lhe deram melhor uso num passado recente (mas que já cansam um bocadinho...): Mercury Rev, Flaming Lips e Grandaddy.
À segunda canção, "Soul Meets Body", ainda chegamos a pensar que o novo death cab for cutie pode tratar das saudades acumuladas por um CD dos The Notwist ao jeito de Neon Golden que teima em não sair, mas o alarme que queríamos continuar a ouvir revela-se falso. O resto de Plans soa por vezes a Aimee Mann, a Elliott Smith, nos piores momentos à E.L.O. de Jeff Lynne e há inclusive uma canção, “Someday You Will Be Loved”, que, veja-se o disparate, evoca em mais de um momento a melodia de “House of the Rising Sun” dos Animals. Ouvidos desatentos seguirão embalados pelo som mais polido e pela produção irrepreensível dos novos death cab...; já a escuta cuidada e repetida como a que lhe proporcionei esta tarde põe a descoberto as limitações de um disco que mais parece de encomenda para atingir público mais vasto mas também menos exigente. Canções como a também muito boa “What Sarah Said” dão-me a convicção de que são os meus transviados ouvidos que estão no curso certo.

Nota: a audição deste disco não teria sido possível na actual conjuntura não fosse o caso da Warner/ Farol Música ter na sua equipa gente tão cúmplice como o P. B. que me deixou ficar igualmente os novos CD’s do Bill Frisell, do Brad Mehldau Trio, da Maria Rita e da Laura Veirs que comentarei após cuidadas audições.

Classificação: (6.5/10)

Notícia de hoje remete para o filme de ontem ("Harrison's Flowers")

Começou julgamento do massacre de Vukovar (in Público)
Dois dos três oficiais sérvios acusados do massacre de 264 refugiados e elementos do pessoal médico num hospital de Vukovar (Croácia), em 1991, proclamaram ontem a sua inocência na sessão de abertura do seu julgamento no Tribunal Penal Internacional para a ex.Jugoslávia, em Haia. Foram inculpados por crimes contra a humanidade, crimes de guerra, assassínios e tortura.
O procurador adjunto Marks Moore sublinhou a premeditação e enormidade da barbárie: “Os crimes cometidos pouco depois da queda de Vukovar [nas mãos do Exército sérvio] fazem parte de ataques em grande escala visando a população não sérvia da cidade.”
A 20 de Setembro de 1991, várias centenas de não sérvios foram retirados do hospital onde se tinham abrigado por e milicianos sérvios, para serem espancados e abatidos a poucos quilómetros. Mais de 200 cadáveres foram posteriormente retirados de valas comuns.
Dois acusados, Veselin Slijvancanin, 52 anos, chefe de um batalhão do Exército sérvio, e o ex-capitão Mile Radic, 43 anos, negaram qualquer participação no massacre.
Slijvancanin considerou que “a pior das contraverdades” era afirmar que ele detestava o povo croata. Radic pediu ao tribunal “a determinação da verdade”. O terceiro acusado, Mile Mrksic, não fez declarações.

TAl CoMO no CInEmA



Just Like a Movie Star: I spent all day dreaming of the way I’d like to hold you So I got absolutely nothing done but it was so much fun and have I told you how beautiful you are tonight just like a movie star Quit your job, dear Then you can stay here at home beside me You be James Dean I’ll be Sal Mineo you can hide me How beautiful you are tonight just like a movie star. Voz: Dominique A. Violoncelo: Sam Davol. Piano, bateria: Claudia Gonson. Violino: Ida Pearle. Guitarra: John Woo. Letra, música e o resto: Stephin Merritt

(Nova) canção francesa


Dominique A.


Thomas Fersen

Estes continuam a ser as figuras de que mais gosto na nova geração francesa de escritores de canções. Têm ambos discos recentes que ainda não conheço: o de Fersen, então, é muito recente mesmo.
Dominique A. caracteriza-se por uma escrita mais séria e uma sonoridade rock alternativa - género [smog]. Mas também canta maravilhosamente canções pop, como a que Stephin Merritt lhe presenteou no último The 6ths.
Thomas Fersen é mais do tipo jeitoso com as palavras. O seu sentido de humor é afinado e requintado. E provém do mesmo imaginário delirante que dá origem ao inconfundível trabalho gráfico dos seus cêdês.
Onde A. é intimismo, Fersen é puro gozo. Onde Fersen é cabaret, A. é reunião caseira para poucos amigos. Et voilá!

p.s. para os que têm falado de canção francesa, aqui e aqui

As flores de Harrison (DVD)


New York meets Vukovar

Do universo de espectadores de cinema, quase ninguém, e eu tão pouco, terá noção do que é a experiência directa da guerra, mas o tratamento do conflito na ex-jugoslávia em Harrison's Flower's (já distante na nossa memória embora tenha decorrido na primeira metade da década de 90) convenceu-me. O filme tem ares de grande produção tipo O resgate do soldado Ryan e passa-se em grande parte nos cenários de uma Croácia exterminada, ali, à frente dos nossos olhos, pelos sérvios. O filme de Elie Chouraqui tem ainda grandes actores no papel de repórteres de guerra: Elias Koteas, Brendan Gleeson, Adrien Brody e David Strathairn (Harrison Lloyd). Convincentes no naturalismo de um desempenho mais físico que psicológico. Mas é Andie MacDowell (Sarah Lloyd) que faz com que a história se transfira do ambiente do jet-set nova-iorquino de grandes revistas como a Time e a Newsweek para o teatro de guerra onde credenciais de estrangeiro podem nem sequer servir para salvar a pele.
Há também uma história de amor em Harrison's Flowers. Em última análise é ela o próprio motor do filme: Sarah não acredita na morte do marido e parte para a Croácia para o trazer de volta. Heroísmo improvável que até se desculpa porque Elie Chouraqui não estica demasiado a corda sentimental. A atenção do realizador concentra-se mais no tratamento realista da crueldade sérvia e na razia étnica que os fotógrafos registam a partir de um contexto cinematograficamente credível.
Os elementos mais débeis ficam por conta da tentativa de emprestar ao filme a impressão de documentário - com saídas recorrentes para entrevista com cada um dos protagonistas antes de novo flashback - e a indefinição daquilo que constituiria a ligação mais forte do casal Harrison/ Sarah, que passa pelo amor mas se calhar até mais pela admiração que a mulher sente pelo (espírito de missão do) trabalho dele. Saldo positivo, portanto.

Classificação: (6/10)

Terça-feira, Outubro 11, 2005

Filmes que é bom voltar a ver logo depois de comprar (hoje especialmente)



Pois se há esperança para quem se sente mais perdedor do que eu

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

I am!


Malcolm X

Mas como também se pode observar no excelente filme de Spike Lee, Malcolm X veio a afastar-se do radicalismo das posições iniciais - quando ainda era Ministro da Nação do Islão - após ter sofrido forte abalo na sua fé com a revelação de condutas menos próprias por parte de altos funcionários da organização. Malcolm foi então em peregrinação a Meca - onde têm lugar as cenas mais extraordinárias do filme de Lee - e experimentou um renascimento espiritual junto de irmãos de todas as raças e cores. Em termos sociais o seu radicalismo veio em parte a ser substituído pela tolerância, embora espiritualmente Malcolm X tenha voltado mais ligado do que alguma vez fora. E consequentemente uma ainda maior ameaça a que vieram por cobro em 1966, data do seu assassínio. O filme de Spike Lee - de visão ou revisão obrigatórias - é uma obra exemplar na fidelidade e determinação com que inscreve a existência atormentada deste grande homem, deste grande afro-americano, para a posteridade. É irresistível, no final, juntar a nossa voz à das crianças que na sala de aula se levantam para dizer "I am Malcolm X!"

Classificação: (9/10)

Malcolm



Malcolm X via o mundo a preto-e-branco e quando Spike Lee fez, em 1992, o filme sobre a vida desse homem não esteve com meias-tintas.

Totalmente mas... completamente viciado


trio


big band


duo


solo

No filme não, mas na música do filme... ohhh...

O eclectismo de Anne Sofie



Tudo lhe fica bem na voz. No caso de music for a while, melodias do período barroco italiano e inglês. E se o Benedetto Ferrari, o Girolamo Frescobaldi, o Giulio Caccini, o Claudio Monteverdi, o Giovanni Girolamo Kapsberger e a Barbara Strozzi são bons, então o Henry Purcell, o John Dowland e o Robert Johnson são muito bons. E tudo porque Anne Sofie von Otter tem uma voz que irradia.

Visto na Festa do Cinema Francês



Ele tem vertigens. Ela sente atracção pelo abismo que o homem pode representar – sobretudo quando alguns indícios levam a suspeitar que ele possa ser o “assassino do escalpelo” que já matou várias mulheres na cidade (Lille). Entramos em Entre ses mains com ecos de Sinais vermelhos, de Cédric Khan, estreado não há muito tempo em salas portuguesas. É que também existe um criminoso à solta que vai mexer com fantasmas que ameaçarão a relação (aqui mais amorfa) do casal. E mais tarde o filme de Anne Fontaine fará ainda recordar o péssimo In the cut, de Jane Campion, mas para melhor, já que Fontaine prefere um registo nada espectacular que relega o "fantástico" para os mistérios da psicologia feminina, no caso a de Claire, jovem mulher com vida normalíssima que se vai deixar seduzir por um cliente da sua seguradora que a cerca com contínuos avanços e recuos que têm tanto de ameaçador (o actor Benoit Poelvoorde - assassino mordaz de C'est arrivé près de chez vous - não foi escolhido à toa...) quanto de suposta vulnerabilidade. O filme da Anne Fontaine convoca ainda alguns temas hitchcockianos, nomeadamente o da figura da mãe castradora de Psycho e o da ambiguidade de carácter dos personagens masculinos de Shadow of a doubt, com Joseph Cotten, e Suspicion, com Cary Grant. Entre ses mains acaba assim por ser um filme demasiado hesitante no seu naturalismo desenxabido, e demasiado confiante no seu (fraco) poder de sugestão, não arriscando mais que aflorar um conjunto de pulsões das quais sobressai a fantasia histérica e masoquista da protagonista, que fica também por cumprir (ou não?) - ao som da banda-sonora composta por Pascal Dusapin que, essa sim, é muito sugestiva. Entre ses mains é um filme demasiado coisa nenhuma.

Classificação: (4/10)

Domingo, Outubro 09, 2005

Repeat and repeat



Ele merece-o.

Sábado, Outubro 08, 2005

Dia de reflexão


O cinema de "Alice"



Há filmes que são tristes e filmes que são uma tristeza. Há quem saiba filmar a depressão e há cineastas deprimidos. Há filmes que se movem no vazio e filmes que caminham para lado nenhum. Há filmes cuja subjectividade é mero capricho estilistico e filmes em que isso é questão de fidelidade para com a história que se quer contar. Há filmes que rejeitam o espectador e filmes que o espectador rejeita. Há filmes obsessivos e filmes aborrecidos. Há filmes que não sabem como sair do essencial e filmes em que tudo é acessório. Há filmes que se levam a sério e filmes que são caso sério. Há filmes barulhentos e filmes ruidosos. Há filmes ternurentos e filmes amorosos. Há filmes em plano-sequência e filmes onde há só planos-consequência. Há filmes que correspondem a uma certa imagem do cinema português e filmes feitos de imagens certas que não podem ser expurgadas dessa mesma cinematografia. Há filmes sobre a solidão que podem também ser filmes solitários. E há o cinema de Alice: por vezes puro, muitas vezes duro.

Classificação: (7/10)

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

A desaparecida







A primeira coisa que fiz após ter visionado Hardcore, de Paul Schrader, foi pegar no DVD de A Desaparecida para recordar as últimas cenas da obra-prima de John Ford. Mesmo que não o tivesse lido já algures, não me escaparia a analogia entre os dois filmes que Schrader leva às últimas consequências. Aliás, isso é o que na minha opinião impede que Hardcore seja mais do que apenas um bom filme.
Entre a data de produção de The Searchers (1956) e a de Hardcore (1979) era suposto, digo eu, tingir a possibilidade de resgate com algum pessimismo. Mas, vendo bem as coisas, Taxi Driver, de Martin Scorsese, feito três anos antes do filme de Schrader, já havia optado pela “redenção” do cordeiro de Deus que à seu modo algo fizera para retirar o pecado (Sport, Harvey Keitel) do mundo.
Paul Schrader acaba por ver os resultados de Hardcore serem prejudicados por ir uma segunda vez à fonte original, John Ford, recaindo também num fecho em aberto, isento de ambiguidade, a que Scorsese não se atreveu (ou o próprio Schrader por ele, uma vez que foi autor do argumento de Taxi Driver). Nada nos garante, por aquilo que vemos, que Travis Bickle não reincida noutra espiral de violência, do mesmo modo que não sabemos se a filha de Jake Van Dorn (George C. Scott) se refugiará de novo no mundo da pornografia, pelo que não vemos.

Classificação: (7/10)

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

A repetição

Quando o leitor já está finalmente em transe, que Diabo!, a revelação: “o amor é isto, a repetição”.

JPG disseca Margarida Rebelo Pinto de alto a baixo. Haverá escrita para MRP depois disto? Se ela ler o que ele diz dela não arrisco resposta.

Blanchard is "da" man!



A música que Terence Blanchard escreveu para She Hate Me, de Spike Lee, é - juntamente com as partituras de Mchael Nyman para The End of the Affair e de Alberto Iglesias para Hable Con Ella - a melhor banda-sonora que pode e deve ser ouvida fora das imagens para as quais foi escrita, que escutei em anos recentes. Digo isto com a convicção de quem vai ao cinema (sempre!) de ouvidos bem abertos.
Consta que Blanchard pretendeu homenagear aqui o grande Elmer Bernstein (1922-2004), recorrendo a uma sonoridade inspirada nas composições deste para o cinema. Inteiramente conseguida e digna dos maiores elogios, caro senhor Blanchard! (9/10)

Alice



"Somos todos desaparecidos"
por Rodrigues da Silva

A sinopse nada diz. Ou diz, mas o essencial não o poderia dizer porque o essencial deste filme está na imagem. Como em todos dir-se-ia. Sim, mas ele há filmes que se podem contar e, face à banalidade da sua escrita, nem é preciso vê-los. Alice, primeira longa-metragem de Marco Martins, escapa (em absoluto) a tal vulgaridade. E desejável seria que dele se falasse de outro modo que não o da história de um pai à procura da filha desaparecida. É este, de facto, o seu leitmotiv, mas tal desaparecimento (sem causa, nem explicação) é, por assim dizer, o menos. O mais é o resto.
Que resto? As imagens, a sua escrita – já disse. Já disse, mas insisto, porque é muito raro o cinema português conseguir filmar tão bem um homem na multidão. Um homem tão perdido, afinal, quanto a própria filha que, obsessivamente, procura. Explico-me: quando o filme começa, já Alice, de 3 anos, filha do jovem casal suburbano (Mário/Nuno Lopes e Luísa/Beatriz Batarda), desapareceu. Para, logo após, vermos o pai a distribuir folhetos com a cara dela. Explico-me mais: o filme não leva ainda cinco minutos de duração e já, pelas duas sequências iniciais, percebemos que estamos perante Cinema, cinema com C grande e do melhor. O modo como a câmara capta o despertar dos pais e como, depois, filma aquele homem, cansado e lento, entre os carros na estrada – esse modo não engana.
Tudo (ou quase tudo) o que veremos a seguir confirma esta excelente mão para o cinema. Ao qual, é sabido, Marco Martins (n. 1972) chegou via publicidade, e o que Alice, desde logo, testemunha é a inteligência de um realizador que soube adaptar essa sua experiência à ficção, transfigurando-a. Porque, se não é frequente o cinema português dar-nos a ver o homem anónimo perdido na cidade, mais raro é ainda ver como esta cidade é, simultaneamente, um espaço sob vigilância e uma terra de ninguém. E como isso acaba por transformar a selva urbana numa identidade abstracta, feita de múltiplas solidões.
Não há palavras. Sobre isto não há discurso. Alice é feito de muitos silêncios, talvez porque (publicidade ensina) as imagens bastam, decerto porque, neste caso, melhor assim se capta a ausência, e este é um filme em que a suposta protagonista jamais se vê. O que sobretudo se vê é o pai, na busca incessante da filha, para o que, com a anuência e cumplicidade de amigos vários, instala câmaras de vídeo no alto de uma série de prédios. Vemo-lo nessa faina diária, refazendo o percurso da filha no dia em que desapareceu, e vemo-lo a recolher as cassetes e a visioná-las depois. Em vão.
E é então que a cidade, vista do alto e assim perscrutada, nos surge como espaço privilegiado de mil e um anonimatos. Nas ruas, nos cais do Metro, nos autocarros, nas estações dos comboios, no suburbano Cacém, no aeroporto, no tráfego das estradas, por todo o lado, enfim, é sempre o mesmo cenário. Ossos, de Pedro Costa (lembram-se?), vem à memória. De novo com multidão a rimar com solidão. E de tal modo que quase apetece dizer que, neste filme sobre uma filha desaparecida, o verdadeiro desaparecimento é o do seu pai no labirinto da cidade. Porque só nós o vemos e ao seu drama íntimo, mais ninguém. Nem sequer aqueles vagos amigos a quem recorre, e é um fresco de outros tantos seres, ensimesmados nos seus casulos, aquilo que nos é dado ver. Sente-se, no entanto, que Marco Martins está menos à vontade a filmar esta proximidade, e arrisco dizer até que o filme teria algo a ganhar se, neste particular, fosse mais depurado e rigoroso.
Não importa, ou importa pouco, porque, a despeito de tal senão, Alice é uma obra notável. Até pela interpretação, com secundários seguros (destaque, mais uma vez, para Miguel Guilherme – para quando um primeiro papel para este extraordinário actor?) e um Nuno Lopes de fabulosa contenção dramática. Tanto quanto Beatriz Batarda (no filme relegada para um segundo plano, mas brilhante quando aparece) é, como mãe, a imagem da maternidade dilacerada. Não se pense, porém, que Alice é um melodrama. Não é. Também não é um thriller. Porque, sublinhado pela belíssima música de Bernardo Sassetti, Alice é, no fundo, o rosto invisível desta cidade. Desta cidade cada vez mais igual aos seus subúrbios; desta cidade à chuva, envolta num azul de bruma. Desta cidade sob vigilância, pela qual, todos nós, quais robots, vagueamos no vazio. Como desaparecidos.

Hardcore

Quando se sentou ao lado de uma senhora no autocarro, teve o cuidado de tapar a capa do DVD com outras coisas que levava nas mãos.

Só para alguns

«Duas semanas mais tarde, na casa dela sob o telhado,
entre duas chuvadas,
pediu-lhe a mão. Não disse, queres ser minha mulher, mas:
se casares comigo, eu casarei contigo.»

Amos Oz, O Mesmo Mar, pág. 44

Quarta-feira, Outubro 05, 2005

Filosofia (gatos)


Cronenberg (retratos)







David Cronenberg: qual Jorge Molder, qual carapuça.

A política do insecto


Jeff Goldblum (brundlefly)

Em 2001 foi lançada a edição DVD comemorativa do 15º aniversário do filme A Mosca, The Fly, de David Cronenberg. É a edição que tenho e que revi hoje. Acho que a comprovação renovada de que se trata de uma obra-prima, vem-nos do facto de os avanços da ciência até aos dias de hoje permitirem atribuir novas interpretações a este filme de Cronenberg. Não que isso seja mais significativo do que os seus méritos estritamente cinematográficos – excelentes efeitos-especiais e caracterização; assombrosa banda-sonora de Howard Shore, determinante quando o filme atinge níveis de tragédia operáticos; a economia narrativa e de planificação por parte de Cronenberg que é de uma eficácia a toda a prova – mas é fascinante podermos pensar em 2005 sobre A Mosca como uma obra que trata dos perigos e implicações da clonagem, por exemplo.
Se bem se recordam, a história de A Mosca fala-nos de um cientista, Seth Brundle (Jeff Goldblum), que desenvolve uma tecnologia de teletransportação e que quando serve ele próprio de cobaia à sua experiência é vítima de um acidente que decorre da subdivisão do seu código genético e molecular com o de uma mosca vulgar que penetra a cabine de teletransporte, o que irá tranformar Brundle numa terceira coisa. Brundle sentir-se-á uma espécie de super-homem nos primeiros dias. Afirmará mesmo que a experiência de teletransportação possui qualidades purificadoras que podem beneficiar qualquer ser humano, mas rapidamente as transformações verificadas no seu corpo irão surpreendê-lo de um modo que ele não imaginaria ser possível.
O filme de Cronenberg é literal e metaforicamente fantástico do princípio ao fim, mas tenho que destacar a derradeira cena que tem uma carga moral e emocional que se mantém tão avassaladora hoje como em 1986, ano de produção do filme. É que nesses últimos instantes, A Mosca confronta o espectador com a questão da eutanásia relacionada com um processo degenerativo, que quando simbolizada por um acto de amor misericordioso torna-se ainda mais perturbante. Granda movie!

Classificação: (10/10)

AMOS OZ

«A mãe, que bordou até quase à hora da morte, o pai taciturno e melancólico, que passa as noites ao computador à procura de evasões fiscais, todos nós estamos, de facto, condenados a esperar a morte encerrados na nossa cela. Tu também, na tua errância, na tua obsessão de ir cada vez mais longe e coleccionar experiências, carregas contigo a tua própria jaula até ao outro extremo do zoo. Cada qual com o seu cativeiro. Com grades que nos separam uns dos outros.»

O Mesmo Mar (Asa) pág. 26, traduzido do hebraico por Lúcia Liba Mucznik

Ascent

Não sei se por fenómeno de ascensão, a música que o Bernardo Sassetti Trio + 2 estreou esta noite na Culturgest encontra-se num outro patamar: superior ou interior?

Virgem aos 40 anos



Finalmente um filme sobre a vida como ela é: entre o absurdo e a humilhação. Pontos (pouquinhos) para os momentos de absurdo.

Classificação: (3/10)

O marketing e as suas limitações

Estive de tarde nas Amoreiras e tive o prazer de ver gente de todas as cores: brancos, castanhos-claros e castanhos-escuros.

Segunda-feira, Outubro 03, 2005

colleen: the golden morning breaks



E se a música de Cécile Schott tivesse sido influenciada pelas composições de Mompou? Num mundo de sonhos, silêncios e miniaturas nada é impossível. Muito possivelmente um dos discos do ano. (9/10)

O silêncio em Mompou


Federico Mompou ao piano

A discografia recente de Bernardo Sassetti é indissociável da sua tomada de contacto com a música do catalão Federico Mompou (1893-1987). Mompou teve vida longa e esse dado biográfico quase pode ser interpretado à luz daquilo que são as suas composições: belas melodias discretas e absolutamente tranquilas que buscaram inspiração na música tradicional do seu país mas também na miríade de reflexos sonoros produzida por impressionistas como Satie ou Debussy. Federico Mompou é um compositor que conheço bem e que estimo, junto com Morton Feldman e Toru Takemitsu, e no último século de História da Música, acima de quaisquer outros. A qualidade contemplativa da sua música e a afinidade que esta sempre estabeleceu com o elemento silêncio, aliadas a um aparente despojamento que capta a beleza na sua expressão mais simples, faz com que a amemos cada vez mais há medida que os anos passam. A música de Federico Mompou é a melhor companhia.
(discografia aqui: faça o favor de procurar ouvir, ou então, resolva o problema com carácter definitivo)

Tomo nota



Bernardo Sassetti Trio: apresentação ao vivo do novo disco Ascent, dedicado ao cineasta José Álvaro Morais que lhe "indicou o caminho do silêncio e a sua importância na arte". Um CD com certeza tão bom como os anteriores - Nocturno e Indigo - e um concerto seguramente a não perder. Amanhã.

Iniciação disfuncional a uma vida banal


Amanda Peet e Kieran Kulkin em Igby Goes Down

Igby não é um personagem simpático e a sua angústia de viver - tratando-se de um adolescente de boas famílias (disfuncionais: não serão todas?) - pode fazer-nos desistir de procurar a causa da manifesta rebeldia. Mas ela existe, embora se disperse por um conjunto de razões que o filme habilmente faz questão de tratar com cinismo e mordacidade que não poupam nenhum personagem.
Igby move-se inquieto entre lower e upper Manhattan sem fazer grande coisa. O seu mote de revolta parece ser o de levar vida boémia, dizer bye-bye às responsabilidades e manter-se longe da família apenas na medida em que isso não ponha em risco o acesso ao American Express da mãe ou ao molho de notas que o padrinho exibe sem o menor esforço.
Burr Steers estreou-se com o argumento e a realização de Igby Goes Down (A Revolta de Igby) que reúne elenco de estrondo - Susan Sarandon, Bill Pullman, Jeff (grande Jeff!) Goldblum, Claire Danes, Amanda Peet, Ryan Phillippe, Jared Harris e o surpreendente Kieran Kulkin (no papel de Igby) - num filme que dir-se-ia fundir os universos de Wes Anderson e Whit Stillman, não sendo embora tão particular como qualquer deles. Mas é uma bela estreia, que já passou a DVD faz tempo.

Classificação: (7/10)

Da estética do bloguista


Amanda Peet

Uma senhora a que voltarei ainda no próximo post.

Da ética do bloguista (DOIS)

Um amigo (este sim!) comunica-me que o indivíduo que me irá entrevistar dias mais tarde (entrevista de trabalho MUITO IMPORTANTE) também tem um blogue. E que terá dito a outra pessoa ainda que gostava muito deste meu blogue. A ideia deixa-me animado e por cortesia visito o blogue dele: um blogue colectivo. Gosto do blogue e ocorre-me linká-lo na coluna da direita ("lugares"). Mas depois verifico que o oportunismo do gesto seria superior a uma vontade que deve ser genuína (embora confesse que no passado adicionei nomes à lista por "dá cá aquela palha"). E desisto de o fazer.

Da ética do bloguista (UM)

Um conhecido (ou o que a generalidade das pessoas chamaria de amigo) cria um blogue dedicado ao jazz. E pede-me que inclua este na minha coluna de "links"/ "lugares": uma lista onde de momento existem sintomaticamente dez nomes apenas. Visito o blogue e não me sinto compelido a fazê-lo de imediato. Prometo regressar mais vezes e que depois se verá. Ele não entende e decide cortar relações que na prática, de tão esporádicas, quase não existiam. E anuncia-me que propositadamente retirou do seu blogue o link para o meu.

Não requer óculos especiais

Desafiando as leis da física, o eclipse deu-se ontem de novo - no espaço de uma semana - por volta das 23h00. Ou pelo menos Peseiro assim o devia ter entendido.

Domingo, Outubro 02, 2005

A impotência do adepto no momento da crise

O Sporting joga mal. Facto. Atravessa uma profunda falta de confiança. Facto. Peseiro teve da SAD os jogadores que pediu e tarda em criar uma equipa. Facto. A eliminação da UEFA faz pairar a ameaça da venda de um jogador - Douala ou Liedson, suponho - na reabertura do mercado em Dezembro. Suspeita... Acho que Peseiro não tem condições para continuar à frente da equipa do Sporting. Acho que o Sporting dispõe de um lote de jogadores com qualidade para disputar o que resta e encontrar forma de celebrar o centenário com, pelo menos, um troféu. O Sporting precisa de novo treinador e de um bom preparador físico: duas pessoas que recuperem o plantel em termos físicos e anímicos. E que se façam respeitar por jogadores, direcção e comunicação social, assim, de acordo com esta ordem de prioridades. A imprensa já fala no nome José Couceiro (a minha escolha!). Parece que a saída de Peseiro está presa por mais um desaire apenas, esta noite, em Paços de Ferreira. Ainda assim, não vou torcer para que o Sporting perca, mas para que a minha equipa ganhe. É tudo o que posso fazer... mais não posso.


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