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terça-feira, fevereiro 28, 2006

Dueto



A Sara tem neste momento a canção mais deliciosa que pode ser ouvida em toda a blogosfera.

Avisa-se



Este filme pode envelhecer precocemente as células do cérebro. Não aconselhável excepto a ternurentos com mais de 70 anos.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Obra-prima, génio, blah blah blah...



Caros amigos, lamento, considerem-se desconvocados. É que não resisti e coloquei o Showtunes no primeiro CD player que apareceu à frente. Estou bananas de contente! Não há vocábulo com que o rapaz Merritt não consiga fazer letra de canção, jogando com eles das mais variadas formas - desmontando, remontando (onekelele, twokelele, threekelele...) - o nosso homem baixinho volta a ser grande no génio. Como das vezes anteriores. Exactamente como das vezes anteriores. Não faço lá grande ideia do que tratam as óperas que a música de Merritt serviu mas a avaliar pela caldeirada temática - mesmo contando que as 26 canções deste disco dizem respeito a três diferentes produções - é um não acabar mais de meter historietas e civilizações várias ao barulho. Brincando aos clichés como Merritt fazia já nos Magnetic Fields e nos outros seus projectos (shall we sing a duet?/ but we've only just met/ you've got beautiful eyes// shall we sing a duet?/ one will never forget/ all the clichés and lies. "Shall we sing a duet?" canção #14).
Showtunes apresenta-se também como a continuação natural de I (o último MG, ainda), trocando a voz de Stephin Merritt por muitas outras; trocando a meia dúzia de instrumentos acústicos desse disco pelos instrumentos do mundo oriental inteiro: country & eastern foi como já baptizaram o género musical que se ouve aqui. Aqui é o Merritt coleccionador de quinquilharia sonora que vem à pauta e também o erudito da música tradicional que vai a todas quantas vão de Pequim à Patagónia. Como a promo que escuto não tem livrete, não posso escrever mais do que a minha desconfiança de que Showtunes inclui vozes amigas (Claudia Gonson, pelo menos), embora o raquítico press-release disponibilizado à data refira que tudo é cantado pelos actores das óperas de Chen Shi-Zhen. Que se lixe a chinesice, que isto é música que dá vida a um esfaimado (que, no caso, devia estar já a jantar e deixar as babugens para mais tarde). Hora a que este disco era suposto ser ouvido pelos escolhidos.

Fugir ao carnaval (em estilo)

O Alberto pode ter ido para Nova Iorque (onde de facto está pois falámos ontem por telemóvel) mas eu já aqui tenho o Showtunes - que são exactamente 26 tunes - para ouvir mais logo em regime de quase exclusividade. Com dois ou três merrittianos se eles quiserem... (o disco sai cá só daqui a um mês, ouviram bem?)

Já saiu!




domingo, fevereiro 26, 2006

Pollini, variações



Num repertório mil vezes gravado pelos maiores pianistas de todos os tempos, esta versão de Pollini faz imensa diferença. A pauta mais não é do que referência. Melhor dizendo, era, pois passou a sê-lo menos. Maurizio Pollini dá a sensação de ir quebrando regras de opus em opus ao sabor da intencionalidade interpretativa. Algo que talvez não se ouvisse desde a derradeira leitura que Glen Gould fez de Bach e das Variações Goldberg.

Wounded



Salt Marie Celeste foi a minha introdução ao universo sonoro dos Nurse With Wound e logo com uma das propostas mais radicais do projecto de Steve Stapleton e Colin Potter (o Eduardo não fez a coisa por menos). Sei, porque entretanto li, que o disco suscitou as mais diferentes reacções por parte da imprensa especializada: escolhi um exemplo de entusiasmo (a Wire considerou-o álbum do ano em 2003) e outro de desapontamento para saberem do que falo. Quanto a mim acho Salt Marie Celeste um disco magnífico, daqueles que abrem literalmente as portas da percepção de quem o escuta. O resto não se explica.

Dead men shooting

Entre Syriana e Capote venha o diabo e escolha. Syriana dá à ficção política um tratamento da mais pura e abstracta ficção científica. É aborrecidíssimo quando o espectador lhe pede para ser manipulado (e para sair da sala com uma qualquer conclusão). Talvez, como já li algures, faça muitas (demasiadas) perguntas para poucas (demasiado poucas) respostas. Deixei-me dormir... várias (demasiadas) vezes.
Capote é obra tão desinteressante quanto irrepreensível é a técnica representativa de Philip Seymour Hoffman (convém dizer bem dos amigos...). É um raio de filme taciturno, não menos académico que Dead Man Walking, de Tim "Anacleto" Robbins, basta trocar a figura da freira pela do escritor e ficamos com uma imagem fiel do que a caução intelectual não pode fazer pela escassez de talento. Boring, boring as hell. Deixei-me dormir... algumas vezes.

Liedson mais dez

Liedson é o jogador total (ver paradigma Makelele) com a vantagem de obter muitos golos. Liedson só falha quando não faz falta marcar... No campeonato português, ou em qualquer campeonato, Liedson será sempre um futebolista de outra galáxia. Activo mais forte do que qualquer passivo.

Ontem notei

Nesta história das caricaturas há uma posição que ainda não foi apresentada. Até aqui temos tido muitas versões do velho «o que tu queres sei eu» em que toda a gente quer coisas diferentes, desde o fundamentalismo islâmico de Freitas do Amaral até ao mais fundamental dos liberalismos. Mas falta uma atitude ancestral, profunda como um poço, que subjaz à acumulação de «eu queros» e «tu queres». É o «who cares?» ou «u queres?» em português. Entre nós assume a forma do «eu quero lá saber - eu quero é que não me chateiem». (...)

É Miguel Esteves Cardoso quem assina as crónicas Como quem diz na revista do Expresso.

sábado, fevereiro 25, 2006

A mentira perfeita



Acho que o que me seduz com mais força em M. Butterfly é algo que existia já numa outra obra em que penso primeiro sempre que se trata dos meus filmes favoritos de sempre. Esse objecto é Vertigo de Alfred Hitchcock, também história de um homem que fantasia sobre um ideal de mulher (Madeleine) e que não sossega até vê-lo de novo materializado na sua frente (Judy), para pouco depois dar-se conta do logro que esse ideal de perfeição encerra. A literatura e o cinema estão cheios de mulheres fabulosas. Quase todas geradas por homens que, penso de novo, ter-se-ão limitado a projectar nas suas criações versões femininas da idealização que faziam deles próprios. A tragédia dos narcisos pode ser essa: darem-se conta de que o ideal de mulher é algo que existe só no domínio recôndito das suas próprias cabeças. Aliás como o ideal de si mesmos que de igual modo não passará de perfeita ilusão. Isto é, de uma mentira perfeita.


Test drive



Se apetece escrever, abusivamente, que a música de Beth Orton tende para o território Aimee Mann (mas a voz é Nathalie Merchant eu sei), então Jim O'Rourke será o seu competentíssimo Jon Brion. O disco é todo ele bom obrigado. Sem exagero.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Efeméride

Faz hoje precisamente 5 anos, 1 mês e 8 dias que pereceu Auberon Waugh, o maior de todos. Deixo link para um dos obituários (útil para quem desconhece a grande figura) e transcrevo mais uma magnífica crónica do Telegraph retirada de Closing the Circle – The Best of Way of the World, editado no ano da morte de Bron Waugh.

UNUSUAL GIFT

Tuesday’s newspaper carried a handsome obituary of an odd friend of mine, Bobby Corbett, who has died at 58. In size and prominence, it might have been the obituary of a dead Cabinet Minister. Those who had not heard of him will have been even more puzzled by a caption to the appropriately huge photograph: “Corbett: gift for placing unusual information into conversational banter.”
In truth, Bobby did nothing else. Born with prodigious gifts of discrimination, intelligence, imagination and memory, he devoted them simply to amusing himself and his friends. He left no children, which is sad, but he also left no books, no paintings, no new laws, no proposals for the reform of society. There are those who would describe any life dedicated to the unswerving pursuit of pleasure as a wasted life, but it occurs to me that his was probably the most intelligent approach to all the problems of existence.
After Oxford, our paths diverged, as I accepted the undignified necessity of earning a living, and he embarked on his magnificent pretence of being a rich man (which he wasn’t) and having inherited a great fortune (which he hadn’t).
No doubt any books he wrote would have been excellent, but by now, they would be no more than an additional piece of clutter on the domestic scene. Journalism is forgotten in a day, as any good journalist knows. A new history of the Spectator edited by Simon Courtauld, is due to be published by Profile Books at £20. At first glance, I decided it attached insufficient importance to my own contribution as a regular columnist for 32 years. It was a dull book, and I would not read it. But who on earth is going to read any of these wretched books in a year or two? Bobby Corbett, with his infinitely superior intelligence, showed us what fools we all are.

13 Março 1999


quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Da perfeição


"Só o amor perfeito pode tornar um homem tão cego assim."

O reencontro de Cronenberg com Jeremy Irons deu origem a outro filme extraordinário, pouco visto, pior amado ainda, indisponível em DVD, que hoje passa às 22h na Cinemateca.

What a Messi!



Pois é mas o Chelsea ainda vai meter o Barça no bolso. Just you wait and see...

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Benítez sois vós entre os medrosos












O Benfica tem agora 50% de hipóteses de passar à eliminatória seguinte. E até fez por merecê-lo.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Descoberta













Quando as minhas, as tuas pernas
não andarem e ao horário marcado
os comboios partirem finalmente a desoras
da estação de S. Pedro – e de todas as estações
até ao fim da linha – eu poderei finalmente
dizer de óculos escuros espreitando
sobre o vermelho do teu jornal meu deus
como eu te queria, como em sonhos
te sonhava rindo, depois do tão pouco
prazer que as minhas mãos fora dos livros
te haviam de saber dar. Esse meu livro
que nunca abro, esse meu livro que finjo ler
e afinal não, nunca, só tu e a paisagem marítima.


Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento (Assírio & Alvim), pág. 82

Descoberta que devo ao Eduardo Pitta via Mil Folhas.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006



DIARY
Boris Johnson
The Spectator, 11 Fevereiro 2006

As this edition appears I will be back in Edinburgh for my latest bout of electioneering. The last time I appeared there was a massive crowd of students boiling away in a bar, and an alarming group at the back waving banners saying things like ‘Bog off, Boris’ and ‘No top-up fees’. I scrambled on to a stool and tried to make a speech, but the din of the two opposing factions was so huge that I couldn’t hear myself speak. After a while I gave up and said (I think), ‘And now I am going to have a beer!’ As I stepped down, some swine snuck up behind me and poured a big cold pint of bitter on my head. I was dimly aware of the culprit vanishing into the crowd in a black T-shirt and with a blond pigtail. People afterwards said that if it had been them, they would have punched his lights out, and so on: but I must admit that wasn’t my instinct. In my heart I must have secretly sympathised with his position: some Tory MP turning up and trying to be Lord Rector of the University. A pinto of bitter was the least I deserved.

My morale was restored during a long stint of canvasing in the bars and nightclubs of Edinburgh, in which I was asked to sign the chests of girls with a magic marker. The high point was when a blonde called Jo put her face close to mine and said, ‘Everyone says you are a legend, but I haven’t got a clue who you are. Who are you?’ I am a novelist, I said, feeling pretty exalted after a gin and tonic, two pints of bitter, two tequila slammers or sunrises, a whisky and something called an ‘aftershock’. (…)

Regressar a Madison County



No passado domingo, provavelmente pela décima vez, dei por mim a rever As Pontes de Madison County, a obra-prima do melodrama que Clint Eastwood – quem mais? – realizou há uns anos, a partir de um romance intragável de Robert James Waller. E, uma vez mais, dei por mim a indagar se a história entre Robert e Francesca acaba mesmo como eu sei, e como vocês sabem, que ela realmente acabou. A natureza absurda desta dúvida absurda deve-se, claro, à famosa sequência final: quando Francesca apenas tem de abrir a porta do carro, abandonar a vida que tem e partir com o homem que ama. Quando assisto ao momento agónico da escolha, filmado com uma inteligência e uma sensibilidade que simplesmente me esmagam, eu sei, como vocês sabem, que uma vida e uma família, sobretudo na América rural da década de 60, não se apaga de um momento para o outro. Mas é certeza que dura pouco. O gesto de Francesca, ao renunciar ao amor e, por via disso, ao mortificar-se para sempre, oferece um dos momentos mais terrivelmente sacrificiais do cinema moderno. Pela sua violência, sim. E pela silenciosa e tão anónima tragédia. Não, eu não gostaria de um final feliz. Eu gostaria, tão-só, de fundir a realidade com a ficção. E, num gesto de misericórdia, de inocência e de fraqueza, mergulhar a mão na tela e abrir a porta do carro para que o filme terminasse como eu sei, e como vocês sabem, que ele talvez termine um dia. Quando eu passar novamente pelas pontes de Madison County.

João Pereira Coutinho, Expresso, 18 Fevereiro 2006

Política de espectador



Syriana ou Showgirls? (hmm) Ao mesmo preço e a faltarem trinta minutos para o início da sessão (hmm, hmm) Optei pelo segundo para reavaliar depois... (to be continued)

Cada qual com a sua crença

Uns em Alvalade, outros em Fátima, debaixo de chuva intensa.

sábado, fevereiro 18, 2006

John & June



Em Walk the Line, de James Mangold, as coisas passam-se como se Johnny Cash cantasse já a sua história antes mesmo dela ter acontecido. Como se Johnny profetizasse o seu quase trágico destino. Muito do que existe nas primeiras letras das primeiras canções servirá de ilustração a alguns episódios da vida de Cash. A única coisa que o músico não terá conseguido antecipar foi que a redenção da imagem que mantinha de si próprio - distorcida pelo conflito e pela incomunicabilidade com o pai - iria ocorrer graças à influência de uma mulher fascinante que se tornaria no grande amor da sua vida.
Reconhecendo que o filme de Mangold chega a ir além da bela história de amor de Johnny Cash e June Carter, nada nele deixa marca tão forte como a perfeição de Joaquin Phoenix e Reese Whitherspoon nos papéis do casal John & June: eles são perfeitos e são-no também um em relação ao outro. O trabalho de ambos transcende em muito o mimetismo que canibaliza este tipo de biopics. Nos momentos musicais extraordinariamente contagiantes, chegamos a ver o Cash verdadeiro em determinados ângulos de perfil de Joaquin Phoenix (cujo rosto nada tem de semelhante com o de Johnny Cash), efeito que talvez resulte até de um trabalho nem tão auto-consciente assim por parte de Mangold.
Ilusão de corpo ou ilusão de espírito? Aposto no segundo factor. A questão talvez se explique igualmente pela conjugação dos diferentes elementos que contribuem para este efeito quase mágico - no tal sentido de suscitar a ilusão no espectador de que foi dada vida a uma história que não testemunhámos - que Walk the Line teve para mim. Cinema popular que assume o propósito de tratar exclusivamente a primeira metade da vida de Johnny Cash, sem esgravatar profundamente os demónios deste mas dando a impressão de ter havido cuidado de ser isento e verdadeiro. É essa a marca que deixa. Seja ela a marca de Cash ou a marca de Mangold, o que para o efeito vai dar no mesmo.

Classificação: (8/10)

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Pequena rota dos heróis da casa








(Untitled Posts)









A malta dos Grammys não dorme



Evgeny Kissin ganhou com este disco o seu primeiro Grammy. Alheio ao facto, até à pouco, tenho deixado o mesmo nos últimos dias à minha espera, pronto a escutar. A peça de Medtner - a sonata Reminiscenza (só este título é todo um programa...) - goza da minha mais particular atenção sempre que a ouço. Não percebo porque apelidavam Medtner de "Rachmaninov dos pobrezinhos". A fartura de bons compositores russos seria assim tanta? O CD de Kissin mantém a dúvida no campo da suspeita.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Amor ao jogo


The Thomas Crown Affair (1999), a arte do remake

Thomas (Pierce Brosnan) e Catherine (Rene Russo) estão deitados, ambos despidos, ela sobre as costas dele. O cenário tem o exotismo da Martinica, escolha da produção: do próprio Brosnan (também produtor). Em matéria de cinema, propriamente da montagem condicionada pelos diálogos, ocorre-me claro exemplo com origem neste filme:

Uma frase: "It's just a game, love." (sobre a motivação para devolver um quadro roubado)
Frase seguinte: "Just a game."
Terceiro sentido: "Love is just a game." (obtido pelo modo como Thomas Crown encadeia as duas frases anteriores)

O tema do filme do grande John McTiernan transparece. Até que ponto o herói conseguirá manter a relação com a nova conquista - questão polémica pois poderá ter sido ela a conquistá-lo (veja-se acima a imagem do corpo magnífico naquele não menos magnífico "vestido") - ao nível da pura adrenalina, à semelhança de tudo o resto na sua vida. Prazer sem responsabilidade; sedução sem angústia. Brincadeira de adultos que se recusam a crescer. No caso dele (Mr. Crown), no caso dela (Miss Banning), a recusa baseia-se na falta de confiança no outro. Conclusão: o filme triunfa, o jogo não. (7.5/10)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A cabeça de Alfredo Machia (ou de como ler para "ver a guerra")


Guerrilheiros da Renamo, 1990 (foto: Richard Hoffman/Corbis Sygma)

Lá fora, no chão cheio de fendas do pátio, à beira da piscina vazia, estão sentados vários homens a fumar. Canudos de papel de jornal a servir de mortalha ao tabaco em rama. Dou-lhes os bons dias quando já está a escurecer. Riem-se e respondem-nos em coro «boa-tarde».
Esse ricto fica-lhe colado à cara mesmo quando já não há motivo para rir. É um mutilado. Não tem lábios, nariz, nem orelhas. Cortaram-lhos. A mão direita também. Apresenta-se como Alfredo Santos Machia. Está disposto a contar-nos a sua história, em português. Peter traduz.
«Eu era um bom lavrador», diz Machia, «tinha uma bela machamba em Matsinho, quatro cabras, três filhos, uma mulher e uma bicicleta.» As suas palavras assobiam por entre os dentes descobertos. A saliva escorrega-lhe para as calças, o cigarro pinga-lhe da boca. Fala como uma serpente.
Um dia, quando estava a trabalhar no campo, foi atacado por um grupo de bandidos. Levaram-no a ele e à bicicleta para um acampamento da Renamo, uns quilómetros mais adiante. Quando lá chegaram, amarraram-lhe os braços e as pernas e vendaram-lhe os olhos com um pano vermelho. «Era como ver o pôr-do-sol», diz Machia. O comandante da Renamo suspeitava dele, pensava que era espião da Frelimo. Espancaram-no e fecharam-no num calabouço.
Na manhã seguinte, começou o verdadeiro interrogatório. «És espião?» perguntou o comandante.
«Não.»
«És surdo?»
«Não.»
«Sim, és surdo.» Cortaram-lhe a orelha esquerda e enfiaram-lha na boca. Mandaram-no comê-la. Riram-se dele enquanto mastigava a própria orelha e obrigaram-no a engoli-la. No dia seguinte, teve de comer a outra.
Como não tinha nada para contar aos bandidos, nem quando lhe cortaram o nariz, o que custou bastante porque tinha um nariz muito duro (Machia ri-se da sua piada e todos os homens em redor fazem coro com ele – ah! ah! ah!, um nariz duro!), cortaram-lhe os lábios e levaram-no para a estrada. Aí de certeza que a Frelimo acabava por encontrá-lo. Machia arrastou-se pela lama. Para estancar o sangue do nariz e da boca, cobriu as feridas com barro e folhas. E ninguém que o socorresse. Dois camponeses que passaram por ele, ficaram tão assustados quando lhe viram a cara, que fugiram a sete pés.
No dia seguinte, os bandidos voltaram à carga, outro bando. Atiraram-no outra vez para a lama da valeta a pontapé e um rapaz do bando cortou-lhe a mão direita. O que também não foi nada fácil. Machia mostra dois cortes acima do pulso, onde a catana não conseguira entrar no osso. Bebeu orvalho e água lamacenta e conseguiu, dois dias mais tarde, rastejar até à sua palhoça.
Nenhum sinal da mulher e dos filhos. Toda a gente tinha fugido porque a região era dominada pela Renamo. Machia decidiu então morrer. Rogou a Deus que tivesse piedade da sua alma e foi então que entrou uma cabra a balir pelos cabritinhos. A cabra afastou as patas e instalou-se mesmo por cima da sua cara. Foi assim que Machia se conseguiu alimentar. Ficou quatro dias estendido no chão e, enquanto isso, ia ganhando forças graças ao leite do animal. «A cabra era um anjo», diz ele, «um anjo enviado por Deus.»
Finalmente, foi encontrado pela Frelimo e levado para a Beira. Ficou lá um ano internado no hospital. Tentaram coser-lhe à cara uns lábios novos feitos com um pedaço cortado da coxa, mas a costura nunca mais fechava. «Não deu certo», sibilou Machia, pondo à mostra o rebordo serrilhado em redor das gengivas inchadas.
Nunca mais soube da mulher nem dos filhos. Vive das ajudas das organizações humanitárias e mora já há dois anos no Grande Hotel, na lavandaria da cave. Contamos-lhe que passámos perto de Matsinho e que a sua aldeia estava agora nas mãos do governo, mas Machia não quer voltar, não se atreve a passar pelo corredor. Prefere esperar até a «situação» acabar.
Todos falam aqui de «situação», não de guerra. Porque oficialmente não existe inimigo. Da mesma forma como se fala de bandidos quando se quer dizer Renamo e se reduz um ataque a «confusão». Eufemismos para uma das guerras mais cruéis do nosso século. Milhares de crianças viram os pais morrer diante dos seus olhos, centenas de crianças foram cozidas vivas diante dos pais. As cabeças dos velhos são usadas como bancos pelos bandidos, os camponeses mais renitentes são pregados aos troncos de árvore. Não há um refugiado, uma criança ou um adulto que não conheça uma história do género. Ouvir para ver a guerra.
Nessa noite, quando estou na varanda a fazer anotações no meu diário, à luz de candeeiro de petróleo, com os dedos ainda gordurosos dos camarões (não há sabão), Claus vem-se postar à minha frente. Com o cabelo molhado penteado para trás e duas chamazinhas a reluzir-lhe nos olhos de bêbado. Mandou lavar o carro e esteve a enxaguar o medo no mar.
«Conhece a história de três ratos que estão a ouvir a “Sonata ao Luar”?» pergunta-me. «“Eu sei donde vem o som”, diz um rato, “das cordas, eu vi-as vibrar.” “Não”, replicou o outro rato, “eu é que sei, vem dos martelos, eu vi-os bater.” “Errado”, disse um terceiro, “das teclas, eu vi um homem carregar nelas.” Mas a música de Beethoven não vinha de nenhum dos três sítios. «É A MESMA COISA COM MOÇAMBIQUE!» gritou de repente. «Como se atreve a escrever sobre este país, estando aqui só há dois dias?»
«Talvez fique dois meses», respondo assustado.
«Para se perceber alguma coisa disto, é preciso viver cá vinte anos. Sempre houve banditismo em Moçambique. Os Portugueses nunca dominaram totalmente esta terra. Cada província tinha os seus salteadores. O que você vê é uma guerra medieval. O interior com todas as suas tribos é tão feudal como a Alemanha da Idade Média.» E depois, maldosamente baixinho: «Já nem tem uma opinião formada?»
«Eu só anoto aquilo que vejo e ouço.»
«Um homem da Frelimo e um homem da Renamo não fazem o mesmo relato duma partida de ténis.»
«Eu escuto-os a ambos.»
«You can’t make statements about Mozambique, nozzing is true, nozzing is a lie», e apaga o candeeiro fumarento com um sopro.

[Adriaan van Dis, Em África (Dom Quixote, 1998), páginas 45/ 48.]


Tinham-me falado que o livro é impressionante. Em África é impressionante e bem escrito: embora servido por tradução mais competente - mas que repete desnecessariamente palavras demasiado próximas - do que a revisão a que foi sujeito. Sobressai nele o tom jornalístico, directo, desembaraçado, que de acordo com o autor resulta do cruzamento da ficção com a realidade. Mais cruel só descrever esta realidade com atenuantes de estilo. Adriaan van Dis prefere escrever tudo para que o resultado final seja tão isento quanto possível. Ainda que sendo em parte ficcionado. Atrevam-se a lê-lo TODO.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Make taping plans for Nigel


Ricky Gervais e Stephen Merchant, mentes perversas

Não vou falar de Extras, a série, mas dos "extras" de Extras. Em particular do mais desconcertante de todos, o documentário Taping Nigel que usa sobreposta a música Making Plans for Nigel dos XTC. E Nigel quem é? Nigel é o montador de Extras por quem Ricky Gervais desenvolve verdadeira obsessão regressiva. Nigel, pobre Nigel, é a vítima que Gervais persegue e tortura enquanto rebenta de riso. Caprichos que vão de vestir Nigel como um bebé e tentar enfiar-lhe uma chupeta enorme na boca; forrá-lo com uma caixa de cartão e atar-lhe um spray à cabeça, transformando Nigel numa variante tosca do ser de um outro planeta; por último de transformar Nigel noutro freak, um homem-porco(?), ainda mais repulsivo, recorrendo apenas a um rolo de fita gomada: Nigel acabará por ajoelhar-se na tentativa de morder uma maça e terá de responder a uma chamada telefónica naqueles preparos... Para falar a sério, Nigel não tem nada de especial a não ser o facto de não oferecer resistência aos tratos maléficos de Ricky Gervais que começa por dizer que ele lhe parece uma lésbica (sic). Nada deste universo tão retorcido existe na série propriamente dita. Caso contrário, Extras seria mesmo o alternativo do alternativo do alternativo. Assim, a alternativa para os mais corajosos (ou desprevenidos) é mesmo colocar no DVD os "extras" de Extras.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Seis em seis



Ontem vi toda de seguida a primeira época de Extras, a nova criação da dupla Gervais/ Merchant responsável pelo brilhante The Office. Também foram só seis episódios. Pena terem sido só seis episódios.

O lugar dos novos

Grande jogo fizeram Abel, Custódio, Carlos Martins e João Moutinho. O resultado também foi bom tendo em conta o amadorismo da arbitragem - que prejudicou ambas as equipas - e o facto do Setúbal parecer estar a jogar fora de casa.

sábado, fevereiro 11, 2006

Postais de Brokeback Mountain



Brokeback Mountain não é um western e muito menos uma obra gay. O filme que mais se lhe assemelha em anos recentes é As Pontes de Madison County. Isso mesmo, a obra-prima de Clint Eastwood. Mas apesar do elevado reconhecimento, de Veneza a Hollywood, Brokeback Mountain não é uma obra-prima. É um melodrama, como ficou implícito, onde o par calha ser formado por dois homens, dois "cowboys" modernos, um ligeiramente mais promíscuo do que o outro, mas se por acaso a história tratasse de um affair de vinte anos entre um homem e uma mulher, com a interferência da rotina e das responsabilidades da vida normativa dos protagonistas, o filme de Ang Lee podia ser quase o mesmo filme.
O melodrama de Brokeback Mountain é elíptico, são muitos anos a passar sem que nada de surpreendente aconteça além das investidas de Jack Twist (Jake Gyllenhall) e Ennie Del Mar (Heath Ledger) para recuperarem o que de especial ficou do primeiro momento em que se descobriram apaixonados um pelo outro. Ang Lee filma essa busca como um conjunto de sucessivos encontros - com grandes intervalos entre si - com algo cada vez mais irrecuperável. Parece que ao fim daqueles anos todos, o que sobra da relação cada vez mais episódica de Jack e Ennie é uma amizade tanto mais forte quanto amargurada é a consciência de ambos de que Brokeback Mountain, aquela primeira sensação libertadora, é algo tão real como um qualquer postal da montanha. Algo que faz depender a força da sua permanência da renúncia a que ambos os "cowboys" se obrigaram.
Para que o melodrama de Brokeback Mountain se instalasse foi necessário assinalar a passagem do tempo. Questão central de qualquer exemplar do género que se preze que tem de mostrar o tempo dos sentimentos, ou então, que tempo ficou para os sentimentos. No entanto, o arco dramático desta história é mais distendido e menos pronunciado do que, digamos, o d'As Pontes de Madison County. Talvez por se tratar afinal da história de amor entre dois homens, faça sentido que os eventos sejam representados de modo menos expressivo, talvez mais contido, talvez com maior pudor. As imagens de Rodrigo Prieto, director de fotografia, são a este nível, por vezes, de uma exuberância a que o argumento de Larry McMurtry e Diana Ossana não se permite. São em alguns casos bonitas demais, aliás como os postais de Brokeback Mountain.

Classificação: (7/10)

Eu não peço desculpa

[Espaço reservado ao cartoon]


Homem Bomba

Lá vem o homem bomba
Que não tem medo algum
Porque daqui a pouco
Vai virar egun

Mas até lá, mata um, mata dois
Mata mais de um bilhão
Não vai deixar sobrar nenhum
Mas eu sou contra essa ideologia da agonia
Sou a favor do investimento
Pra acabar com a pobreza
Sou pelo estudo e o trabalho em harmonia
O amor e o Cristo Redentor
Poesia na democracia

(Jorge Mautner/ Caetano Veloso)


Como o Ivan não se cansa de referir, o melhor Caetano em muitos anos.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Prova

O Carlos diz dos nossos governantes o que Maomé não disse do toucinho.

Última sessão

É oficial. O Alberto prefere os filmes ao cinema.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Fado de mim para o gato enquanto finalizo textos da revista

És o Porgy marceneiro
que à noite faz-se à rua
de canteiro em canteiro

(três versos, que a inspiração não deu pra mais. Mas o gato sai imortalizado, e com um ofício)

Celebrar Shostakovich é descobrí-lo



Because there is no evidence that anything challengingly new will come out of this Mozart year I regret it will surely mean the overshadowing of other anniversaries. Principal among these - if one omits Rembrant (b. 1606) and Cézanne (d. 1906) - is Shostakovich, who was born 100 years ago on 25 September. Where Mozart comes over as the gilded youth, Shostakovich comes over as having been obstructed to the point of impossibility, and yet wrote music for all time. If anniversaries are in aid of getting to know great artists better, his is the one to explore. We'll go on listening to Mozart anyway. (Peter Phillips na Spectator de 21 Jan.)

O grito rouco de um estrangulado

"Quando se está bem disposto e quando se está mal disposto, é bom ler Camilo, porque escreve num português absolutamente extraordinário." (António Mega Ferreira à Sábado da semana passada)

Exemplo (meu):

"O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimau, um major de cavalaria, convencionado em Évora Monte, miguelista intransigente, mas cordato. Vivia no seu escalavrado solar com um irmão egresso beneditino. Fr. Gervásio, muito cevado e inerte, continuava em casa a sua missão monástica. Era um contemplativo. Não lia senão no livro da Natureza. Se não dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de toicinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastigação, porque dispunha de dentadura insuficiente. Tinha outro sinal muito ruidoso de vida - era um pigarro de catarral crónica, arrancado dos gorgomilhos com tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado, no 5º acto de um drama de costumes. A velha criada da cozinha, muito flatulenta, nunca pudera afazer-se às explosões daquela garganta escabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido aspérrimo de pavão lhe feria os ouvidos, reboando nos côncavos tectos dos salões, a mulher estremecia e raras vezes deixava de resmungar: «Que medo! credo! diabos leve a esgana do home, Deus me perdoe!»
[Camilo Castelo Branco, A Brasileira de Prazins (Edições Caixotim), pág. 23]

Teatro filmado




O senhor a p&b chama-se Michael Denison. O senhor a cores chama-se Richard E. Grant. São ambos actores, grandes actores, e passei a imaginar o segundo como a reencarnação do outro, uma vez vez que décadas separam o seu período áureo de actividade que E. Grant, thank god, ainda mantém.
Vi Michael Denison, pela primeira vez, no papel de Algernon Moncrieff na adaptação que Anthony Asquith fez para cinema da peça de Oscar Wilde, The Importance of Being Ernest (1952). Não propriamente um filme, mais teatro bem filmado na medida em que serve em exclusivo os grandes actores que Asquith convocou para esta divertida leitura da absoluta irrelevância de valores que está no núcleo da peça de Wilde: texto onde nada é verdadeiramente importante excepto, talvez, a identidade do pobre Ernest que caso a peça durasse mais alguns minutos por certo seria logo vazada do suposto dramatismo.
Asquith expõe com clareza a relação com a origem teatral do popularíssimo texto de Wilde, na medida em que o seu filme abre com um pano que sobe e encerra-se sobre o mesmo pano que desce. O resto do tempo a ilusão de continuidade é mantida dentro dos pergaminhos do mais académico cinema. Que os actores transformam com medidas justas de charme e afectação.
Uma outra versão mais recente de The Importance of Being Ernest, que não conheço, foi realizada por Oliver Parker em 2002. Tem Rupert Everett no papel de Algernon Moncrieff. Percebo a intencionalidade queer da escolha, já que Algernon é considerado a figura onde Wilde retrata alguns aspectos dele próprio (apesar de na versão de Asquitt, Ernest/ Michael Redgrave galhar-lhe no abuso que dá ao "pó de arroz"). Mas acho que devia ter sido Richard E. Grant o escolhido. Everett é uma grande figura; Grant um grande actor. E o grande teatro faz-se, ainda que no cinema, de actores e figurinos (não figurões).

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Ah pois é!

O que leva à "lei do mais forte" é o petróleo e o dinheiro do petróleo. Quando o Islão berra, a Europa treme. O resto, a baixa retórica do relativismo, não passa da eterna sabujice da dependência.

VPV, no Público e depois no Espectro.

Crua por inteiro



Tenho saudades da noite. Tenho Aldina Duarte, muito próxima, crua como ela diz, mas não ali, ao vivo, para eu a escutar como ela merece: inteira, de corpo exposto e de alma disposta a cantar. Tenho saudades do fado onde este deve ser experimentado: junto de outros mas em absoluto recolhimento enquanto alguém canta. Isto é elogio que reservo para cada vez menos discos, pois por cada disco de fado a sério, como Crua, muitos mais discos de fado me parecem de brincar. Ingénuos, embora esforçados, a fazer por se inserirem na tradição que não os rejeita mas que os expõe naquilo que são. No fado não há melhores e piores. No fado só há iguais entre diferentes. Os não-diferentes, onde não se lhes sente uma verdade própria, já não são fado, são outra coisa qualquer - música ligeira, por aí... Aldina Duarte é um caso sério. Aldina é um caso à parte. E tenho saudades da noite. (8/10)

Nota-se



"Brokeback Mountain?", perguntarão vocês. "Nunca antes da próxima sexta-feira. All the Pretty Horses, Espírito Selvagem (2000)", respondo eu. Trata-se do segundo filme de Billy Bob Thornton - disponível em DVD e muito baratinho - que apesar do estatuto de que o seu realizador gozava, fruto das nomeações recebidas pelo filme anterior, Sling Blade (1996), viu-se ainda assim reduzido a metade da duração, compromentendo esta tentativa de adaptar o romance de Cormac McCarthy com o mesmo nome. Coisa que se nota a cada cena.
Quero dizer, o espectador percebe que o material de base é bom; dá um desconto para o mau gosto do uso que Thornton faz do slow-motion; finge que Penélope Cruz será actriz um dia fora de Espanha; deixa-se envolver pela história de amizade straight entre Matt Damon e Henry "ET" Thomas; e fica com um filminho que capta alguma da força iconográfica do western - que hoje só pode ser predominantemente nostálgica -, embora não consiga disfarçar as atrocidades a que foi sujeito pelos manos Weinstein, na altura donos da Miramax. (3.5/10)

"Nothing that actually occurs is of the smallest importance." (Oscar Wilde)

Seria outro modo de dizer embasbaco perante tamanha babugem se não me levasse tão mais a sério.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Algo a declarar



100 quilos de peso. Cabelos longos. Só me falta mesmo a parte do génio.

A última valsa



Quando, no final do baile, o príncipe Fabrizio Salina (sublime Burt Lancaster) abandona a festa após ter decidido regressar sozinho, assistimos como que à sua despedida da vida, sem dúvida de um certo modo de vida que era o seu. O príncipe que se auto-intitula, de passagem, "o leopardo", sofrerá certamente mais com os sinais da extinção do seu mundo e dos da sua espécie (cuja descendência só é perceptível na apagada Concetta, uma das filhas), do que pela impossibilidade do amor jovem personificado por Angelica (carnal Claudia Cardinale).
Se não gosto ainda o suficiente desta obra de Luchino Visconti - que hoje vi pela primeiríssima vez -, só pode ser porque vendo nela mais do que "o leopardo", a natureza do protagonista valeu para mim muito mais do que tudo o resto. Um filme a rever, outras vezes e com outras idades.

sábado, fevereiro 04, 2006

Rumo ao título, ai Jesus!



Se o Sporting tivesse marcado o segundo golo - e esteve tantas vezes tão perto de acontecer -, aí eu teria gritado para o presidente do Nacional, "mete o Paulo Assunção! e mete o Adriano!".

Teste o seu conservadorismo (5 minutos de leitura são suficientes)



Resistance
por Peter Simple

Donating £5 million to the Conservative Party, Sir paul Getty says he believes it is "the party best-equipped to defend the British way of life". When Labour came to power in 1997, this wise and percipient American said:"It's probably true that the Britain I love is not the Britain which exists today. But it is still closer to that than anything else. And I think that the attempt by politicians to create a new image for Britain will be resisted."
In the past four years resistance has gradually dwindled, and the Britain worth loving is now further away than ever. If only out of gratitude, Conservative politicians, as they accept Sir Paul's money, should try to embody that resistance. At present, they are assailed from every side with advice to "move to the middle ground"; "drop all Right-wing (that is, Conservative) tendencies"; "accept the tolerant, inclusive Britain of today", and so on and so forth.
That is the very last thing they should do. The "middle ground" is where almost everything that is wrong with this country flourishes and proliferates. It is the home os Left-liberal orthodoxy, of every kind of fashionable nonsense, of moral degeneracy, "political correctedness" and "anti-racism", trash culture, vulgar barbarism, submission to the mob as well as militant homosexuality and feminism, mindless worship of "change" and, above all, that false and pernicious doctrine of human equality.
A true Conservative programme would repudiate them all. Here are a few "guidelines" which Central Office will have to work out in detail and present to the public in a more attractive form.
Home affairs: withdraw all subsidies to the Commission for Racial Equality, the Equal Opportunities Commission and all other antidiscriminatory rackets; repudiate the Macpherson Report and re-establish the tradicional British police force.
Constitutional Reform: refashion devolution and restore the United Kingdom of Great Britain and Ireland; restore the hereditary House of Lords, with greater powers than before.
Education: reduce the school leaving age to 12, leading to the abolition of compulsory education altogether.
Health: abolition of all public health services. Electoral reform: restrict the franchise by applying educational and property qualifications; abolish votes for women.
Defense: a big programme of expansion for the armed forces, particularly the Navy. Foreign policy: denounce all "European" treaties and agreements; work for Anglo-Russian alliance.
As for the present contenders for the leadership of the party - Portillo, Clarke, Duncan Smith, Widdecombe, "Madonna", Gypsy Petulengro, Horatio Bottomley - who among these could be trusted to present these policies to a nation dying for want of them? Discuss.

2001, págs. 119/120

Última ceia


Um disco magnífico!

Vinho, lamentações, jornais, incenso. A casa onde vivo transformei-a em local de culto.

Marie-Josée Croze



Ela está em Munique. Ela é uma gata, que mata.

[ao contrário do que Manuel Cintra Ferreira refere hoje no Expresso (opinião partilhada por vários, diz ele), não estou de acordo de que a cena do assassinato da espia holandesa seja das piores de Munique. Pelo contrário, a sua crueza e o modo como os homens da Mossad a deixam morta e exposta, reforça o lado cru e sombrio que é o melhor que o filme de Spielberg tem do princípio ao fim]

Dormindo com o inimigo



O cuidado de Spielberg em fazer equivaler moralmente a violência levada a cabo por judeus e árabes condiciona de tal maneira a progressão de Munique, que a certa altura ambos os lados em conflito vêem-se sujeitos a coabitar numa mesma casa em ruínas na cidade de Atenas. E quando não é com o inimigo que os israelitas da Mossad dormem, é com o sobressalto das suas vidas continuamente ameaçadas ou com o sentimento de culpabilidade por actos que parecem não servir outra causa que a motivação da resposta palestiniana mais sangrenta e mais indiscriminada ainda.
Munique assemelha-se a um filme de William Friedkin (com menos velocidade e mais densidade psicológica) - uma espécie de "corrompidos contra o ódio" - que se ressente do programa de neutralidade da sua consciência. Nota-se ainda mais do que n'A Lista de Schindler que Steven Spielberg fez este filme com o propósito de deixar bem expressa a bíblica mensagem: a de que olho por olho, dente por dente, um dia o mundo acabará sendo terra de cegos.
Posto isto, conclusão ao alcance até do mais preguiçoso, refira-se que Munique é um filme sério, competente, desencantado, mas também demasiado arrastado, que acusa a sua duração para programa tão curto ou tão demasiado explícito.

Classificação: (6/10)

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Época de caça



Percebemos no final de Wolf Creek que a informação "baseado em factos reais" é quase irrelevante, uma vez que a principal testemunha encontra-se ausente grande parte da história. Mas se este filme fizer pelo seu realizador, Greg McLean, aquilo que Duel, Um Assassino Pelas Costas, fez pela carreira de Steven Spielberg - na prática a possibilidade de filmar com mais recursos -, tal investimento não parece despropositado. Wolf Creek facilita quase nada nas pequenas implausibilidades que o cinema de terror/ suspense até pode justificar pela paralisia causada pelo medo e pelo desespero. E McLean, ainda que em vídeo digital, faz óptimo aproveitamento da paisagem australiana profunda que tem tanto de belo quanto de inóspito. Este acaba por ser para mim um filme sobre uma criatura "mitológica" - aliás como a cratera do meteorito que assiste indiferente à matança -, nossa semelhante, tornada num predador de homens (e mulheres). Turistas e viajantes considerem-se avisados.

Classificação: (6/10)

Discos que tapam o espaço a muitos outros



Ao longo da segunda metade do séc. XVII Londres representava um pólo de atracção para os músicos italianos. A popularidade do violino era crescente, os concertos públicos experimentavam uma cada vez maior adesão popular e o cuidado com a publicação de partituras das várias peças da época sucedia com regularidade.
É neste contexto que na capital inglesa surge o nome de Giovanni Stefano Carbonelli de quem se sabe muito pouco em termos biográficos. Sabe-se, no entanto, que terá nascido por volta de 1690 e que cerca de três décadas depois entrava em Londres - chegado de Roma - ao serviço do duque de Rutland, figura à qual o compositor viria a dedicar as suas 12 sonatas para violino e (baixo) contínuo - algumas das quais presentes neste CD da Alpha onde o acompanhamento é proporcionado pelo cravo, orgão, violoncelo ou guitarra -, peças influenciadas em significativa parte pelo estilo de Corelli (muitos largos, alguns adágios) que em Itália tinha sido mestre de Carbonelli.
As sonates pour violon & basse continue dão-nos a escutar música de enorme leveza e elegância mesmo nos momentos em que a melancolia igualmente se insinua. Os executantes reunidos são de primeiríssima água - sentir, neste caso, torna-se mais imperioso que justificar -, em particular a violinista Hélène Schmitt a cujo virtuosismo sonoro ainda mais do que o técnico este registo confere transparência sem mácula. Foi o único mimo que me ofereci em dia tão especial (ver post anterior cuidando o muito que nele está apenas implícito).

Classificação: (9/10)


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